A mudança não é assim tão recente, mas voltou à discussão no início do ano, quando consumidores perceberam a alteração no rótulo da marca branca de uma das principais superfícies comerciais portuguesas. Agora, a maioria das marcas de leite já não tem “leite gordo”, e sim “leite inteiro”. Mas, afinal, o que é que muda? “O conteúdo é exatamente o mesmo”, esclarece ao Observador a engenheira Maria Cândida Marramaque, diretora-geral da Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios (ANIL).
O leite gordo é, basicamente, o leite que não teve a sua gordura (ou nata), reduzida ou retirada durante o processo de industrialização. Desde a década de 1980 a legislação portuguesa convenciona as denominações de venda do leite mais conhecidas, ou seja: gordo, meio gordo ou magro. Mas, de acordo com a diretora-geral da ANIL, foi no início dos anos 2000 que a legislação comunitária europeia passou a permitir também a utilização dos termos inteiro, parcialmente desnatado e desnatado. Atualmente é um regulamento do Parlamento Europeu de 2013 que determina as regras, baseadas nas quantidades de matéria gorda presente no leite:
- Leite gordo ou leite inteiro, quando tem um teor mínimo de matéria gorda de 3,50 %;
- Leite parcialmente desnatado ou leite meio-gordo: quando o teor de matéria gorda foi reduzido para um valor compreendido entre 1,50 % e 1,80 %;
- Leite desnatado ou leite magro: quando o teor de matéria gorda foi reduzido para um valor não superior a 0,50 %.
O termo é usado em outros países e idiomas, como em Espanha (entera), França (entier), Itália (intero) ou em países da língua inglesa (whole). Em português do Brasil, o termo é “leite integral”. “Portugal é o único país em que é possível utilizar dois nomes para designar o leite. Ou seja, eu posso dizer que é gordo, meio-gordo ou magro, ou inteiro, parcialmente desnatado e desnatado”, explica a diretora-geral da ANIL, reforçando que o termo “inteiro” “está a harmonizar com os outros países da União Europeia”. “Esta comunicação permite esclarecer e mostrar, de uma forma melhor, as características que o leite tem. Ou seja, que é um alimento completo, que está ali inteiro”, explica a engenheira Maria Cândida Marramaque. Mas se a alteração já é possível há cerca de 20 anos, por que é que as marcas decidiram substituir o “gordo” pelo “inteiro” só nos últimos oito?
Um nome politicamente correto
O leite gordo é o menos consumido dos três tipos de leite. Basta ver as prateleiras dos supermercados para perceber que há mais oferta de leite meio-gordo, e a produção acompanha esta tendência. De acordo com os dados mais recentes, em 2023 foram produzidas 668 091 toneladas de leite de consumo, sendo que menos de 6% foi de leite gordo. A maioria, 79% da produção, foi de leite meio-gordo enquanto 15% foi de leite magro.
Acabou-se o Leite Gordo
— Politicamente Insensível (@Simao_Jorgensen) November 16, 2023
Agora para não ofender, chama-se Leite inteiro
Uau pic.twitter.com/vBYdQj0h3n
Em novembro de 2023 a mudança na marca Agros tornou-se viral no X. “Agora, para não se ofender, chama-se leite inteiro”, dizia um perfil chamado “Politicamente insensível”. A publicação repercutiu entre vários consumidores surpreendidos com a alteração. Mas na verdade, as primeiras caixas de “leite inteiro” surgiram nas prateleiras dos supermercados vários anos antes, em 2017. “Além de vivermos num mundo cada vez mais globalizado e Portugal estar um pouco isolado nesta denominação de gordo, entendemos que esta designação não era a que melhor explicava o produto em causa”, explica ao Observador Fernanda Cruz, gestora de nutrição e assuntos regulamentares na Lactogal, grupo dono de marcas como Mimosa, Gresso e Agros. “Tivemos o cuidado de fazer de uma forma gradual, lenta, para que fosse sendo absorvido pelo consumidor, para que tivesse tempo de se adaptar a essa transição”, diz-nos, sobre a alteração em todas as marcas anteriormente mencionadas. Fernanda Cruz afirma que as vendas de leite inteiro têm crescido nos últimos anos, mas faz a ressalva: “não podemos afirmar de maneira alguma que foi por causa da alteração desta designação. Os comportamentos e hábitos de consumo mudaram, o consumidor está mais informado e preocupado com a alimentação e nutrição, à procura daquilo que é natural, mais próximo da origem.”
Em 2019 a marca açoriana Terra Nostra lançou uma nova linha de leites de pastagem e aproveitou para também fazer a mudança. “Tivemos uma reação muito positiva porque ao introduzir a nomenclatura leite inteiro o consumidor passou a estar mais informado acerca dos benefícios do leite”, disse ao Observador Yvan Mendes, brand manager da marca, que assume que apesar de ser o tipo de leite com menos saída, o consumo tem crescido entre 20 a 30% ao longo dos últimos anos, diferente da tendência do mercado geral de leite, que é de estabilidade. “Foi esse o propósito que nós tivemos, desmistificar o gordo e mostrar ao consumidor que o inteiro faz bem. Porque quando nós desnatamos o leite estamos a tirar ácidos gordos saturados que têm um valor nutricional único”.
O Continente também aderiu à nomenclatura e iniciou o processo de alteração das embalagens há três anos, “com o objetivo de melhor informar o consumidor”, diz a marca ao Observador, em forma de comunicado. “A MC entende que esta mudança, adotada por várias marcas de lacticínios em Portugal, e alinhada com a terminologia utilizada em muitos outros países, reflete melhor as características deste tipo de leite, que tem naturalmente mais nutrientes e não apenas um teor de gordura mais elevado, como a designação “leite gordo” sugere”.
Leite gordo engorda?
De facto os estudos científicos mais recentes não colocam o leite gordo (ou inteiro) como vilão. Muitos chegam à conclusão que o consumo deste tipo de leite não está associado ao aumento de doenças cardiovasculares ou obesidade, por exemplo. Aliás, pelo contrário. Uma revisão de dados obtidos nos Estados Unidos entre 2001 e 2018, entre adultos com mais de 20 anos, descobriu que o consumo de leite gordo era inversamente proporcional ao peso e ao índice de massa corporal. Já outro artigo canadiano, que analisou 28 estudos de sete países, chegou à conclusão de que crianças que consomem leite gordo têm menos chance de desenvolver obesidade. “Na nossa revisão, as crianças que seguiram a recomendação de consumir leite reduzido em gordura aos dois anos de idade não estavam mais magras que aquelas que consumiam leite inteiro”, disse Jonathon Maguire, autor do estudo e médico pediatra no St. Michael’s Hospital, em Toronto.
A nutricionista Sara Mucha explica que muito provavelmente uma pessoa não vai engordar só por optar por este tipo de leite. “Acho que muitas pessoas não consomem o leite gordo por pensar que é um alimento com elevado teor de gordura ou com excesso calórico, o que não é verdade. Por exemplo, em 100 g de leite gordo são apenas 72 calorias, portanto não tem assim tanto impacto na nossa alimentação diária”, refere. Em contrapartida, o leite gordo, ou inteiro, tem maior concentração de vitaminas. “Os leites meio-gordo e magro, por exemplo, por terem um teor menor de gordura, acabam por ter um pouco menos calorias, mas também acabam por ter menos vitaminas, como vitamina D ou vitamina A, do que o leite gordo, porque elas são lipossolúveis, associam-se às células de gordura.”
A profissional vê com bons olhos a alteração, já que é uma denominação que ajuda o consumidor a entender os benefícios do alimento. “O leite gordo em si para crianças em desenvolvimento é bastante mais importante por ser mais rico em calorias e vitaminas”, destaca Sara Mucha, que faz a ressalva: “o leite não é propriamente um alimento obrigatório na nossa alimentação”, sendo uma escolha de cada pessoa incluir ou não na dieta. “Se a pessoa gostar de leite e estiver acostumada a consumir, 250 ml de leite têm a recomendação diária de cálcio”, explica-nos a nutricionista.
Bebidas vegetais ou leite de vaca?
Há também quem opte por substituir o leite pelas bebidas vegetais, como os leites de soja, aveia, arroz ou amêndoas. “Os leites vegetais, comparado com o leite de vaca, têm uma grande diferença que é a parte da proteína. Também acabam por ter menos vitaminas, como cálcio ou vitamina B12, por exemplo”, explica-nos a nutricionista. Contudo, Sara Mucha destaca que a maioria das bebidas vegetais atualmente são fortificadas. Não sendo um alimento obrigatório na dieta de um adulto, sustenta que a substituição não terá grande impacto. Mas se esta for a escolha, explica que “aquele que se aproxima mais ao leite de vaca acaba por ser o de soja. Uma bebida de soja fortificada já vai ter um teor de proteína e de vitaminas semelhante. Agora aqueles mais à base de hidrato de carbono, como arroz ou aveia, pode não ser assim tão interessante nutricionalmente porque não é assim tão rico.”
Contudo, há algumas bebidas deste género que contêm açúcares adicionados, motivo pelo qual a nutricionista faz o alerta. “Idealmente escolher uma que não tenha açúcares adicionados e que tenha uma lista de ingredientes bastante simples, em que acabe por ter apenas o componente principal, por exemplo soja ou amêndoa, e que tenha sal, pode ter água adicionada e os fortificantes vitamínicos, mas que não tenha propriamente açúcar, adoçantes ou sabores extras. Assim já vai ser uma escolha mais interessante”. A profissional recomenda ainda que os consumidores leiam as listas de ingredientes e as tabelas nutricionais quando forem comprar produtos embalados. E para ajudar, sugere consultar o descodificador de rótulos, uma tabela online disponibilizada pela DGS, com valores ideais para consumo de gorduras, gorduras saturadas, sal e açúcares.
▲ A tabela do descodificador de rótulos ajuda a ler as embalagens de alimentos
Direção Geral da Saúde
Por exemplo, um leite gordo tem cerca de 3,6 g de gordura por 100 ml, dos quais 2,3 g de gordura saturada, o que o coloca na categoria amarela. A título de comparação, o leite meio-gordo tem 1,6 g de gordura por 100 ml e 1 g de gordura saturada, o que também o classifica como um alimento da categoria amarela. Já um leite de soja por ter 1,8 g de gordura por 100 ml, sendo 0,3 g de gordura saturada, o que faz desta uma bebida de categoria verde. Além disso, a nutricionista alerta para que os consumidores comparem as tabelas nutricionais entre os produtos e façam a escolha consciente. “Por exemplo, hoje encontramos no mercado leites mais proteicos, que em termos de diferença de proteínas para o leite normal às vezes estamos a falar de apenas 2 a 3 gramas a mais de proteínas. E essas gramas custam muito mais para o consumidor. E talvez não valha a pena pagar mais caro, podem existir outras formas de consumir proteínas noutros alimentos.”
Se a polémica vai ressurgindo de quando em vez nas redes sociais por causa do leite, neste caso da atualização para inteiro, como será quando surgirem também os leites parcialmente desnatado e desnatado? Não será o caso, pelo menos para já. Nenhuma marca com a qual falámos mostrou interesse em mudar os nomes dos leites meio-gordo e magro. “Ambas as denominações têm a ver com a modificação que é feita, que é o retirar da gordura”, diz Fernanda Cruz, da Lactogal, explicando o motivo para as marcas do grupo não avançarem com a mudança: “as duas denominações são tão equivalentes e já são conhecidas do consumidor que não há necessidade de se fazer esta alteração”. Para a engenheira Maria Cândida Marramaque é uma questão de tempo e a troca precisa de ser “gradual”. “É interessante perceber que os consumidores dão conta da alteração das designações. E que o consumidor compreende melhor aquele produto.”