“Só um burro não muda de ideias.” Uma conversa com o professor José Pacheco é como ir dos 0 aos 100 quilómetros em 2,28 segundos. Velocidade supersónica, ao volante de um Ferrari, versão radical. E não é sequer numa autoestrada limpa de carros. É numa pista, com cones de sinalização laranja, que nos obrigam a andar aos esses e, por vezes, a voltar ao ponto de partida. Para depois arrancar outra vez. Suavemente ou aos solavancos.

“Acho engraçadíssimo quando vejo na Assembleia da República horas de reunião para ver qual é o número de alunos por turma. Aqui ainda há turmas? Isto é a pré-história da educação.” O professor ri-se com vontade. Há 40 anos, José Pacheco começou do zero: numa escola pública, nos anos 1970, e com Portugal acabado de sair da ditadura, idealizou uma escola que foi pioneira no mundo e que hoje outras tentam imitar. Centrou a educação no aluno, o chamado paradigma da aprendizagem, ensinou sem turmas e sem dar aulas. Não chumbou ninguém e conseguiu que todos aprendessem. Funcionaram quase na clandestinidade, a tentar seduzir os inspetores da Educação que por lá passavam, até que, em 2004, assinaram o primeiro contrato de autonomia. Hoje, a Escola da Ponte, em Santo Tirso, perto da cidade do Porto onde o professor nasceu em 1951, não passa de “turismo educacional”, mas continua a ser referência em Portugal e no mundo.

“A Ponte não progrediu. Deixou de estar, cristalizou.” E é em 2,28 segundos que passa de um tom arrogante, fanfarrão, para um estado que parece ser de genuíno arrependimento, em que diz admirar profundamente os professores que lá continuam. E comove-se. “Tenho muito medo de estar a ser presunçoso e arrogante, todo os dias luto contra a arrogância e perco.” E pede, várias vezes, desculpas por estar a ser vaidoso.

Falar do poder político, de sindicatos e corporações ou do “obsceno silêncio” dos seus colegas das Ciências da Educação sobre o que se passa no ensino, deixa-o a falar alto, a gesticular, claramente incomodado. “Valha-me Deus”, diz com um v que se torna b, a denunciar a sua origem nortenha. E repete a frase de cada vez que a realidade o deixa nervoso. Em 2007, autoexilou-se no Brasil, zangado com Portugal: “Fiz tudo o que podia, mas cheguei a um ponto em que pensei que nada ia mudar. Achei que ia ficar tudo igual, mas estava errado.” De lá, traz também pronúncia brasileira. Talvez por isso é que diz “dar aula”, sempre no singular, palavra que repete 72 vezes ao longo de uma entrevista que demorou o dobro do esperado.

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