i

Getty Images/iStockphoto

Getty Images/iStockphoto

Entrevista. Os segredos para dormir como Cristiano Ronaldo /premium

Nick Littlehales é treinador de sono e já trabalhou com pilotos, cirurgiões e equipas como o Real Madrid. Diz que é um erro querer dormir 8 horas seguidas. O truque é ir descansando ao longo do dia.

A ligação ao futebol e aos atletas de alta competição começou quando Nick Littlehales percebeu que nem no desporto o problema (crescente) de dormir mal era uma preocupação. Já trabalhava na indústria do sono — e tinha percebido que toda a inovação nos colchões e almofadas não levaria a lugar nenhum —, mas só no final dos anos 1990 decidiu contactar Alex Fergusson, então treinador do Manchester United.

A partir daí, começou a avaliar as condições em que dormiam os atletas e foi o início de uma carreira. Em 1998-1999, o Manchester United teve a melhor época de sempre e, da noite para o dia, os jornais começaram a apresentá-lo como o treinador de sono (“sleep coach”) da equipa, e parte do segredo do sucesso do clube.

Anos mais tarde, trabalhar com o Man Utd significou trabalhar com Cristiano Ronaldo, que se juntou aos red devils em 2003. Mas, além do treino no clube, tal como depois no Real Madrid, isso não significava que os dois trabalhassem diretamente. Em Madrid, como em Inglaterra, Nick Littlehales treinava as equipas técnicas e deixava apenas indicações sobre como os atletas deviam ser treinados neste campo ou que estratégias deveriam seguir.

Hoje, Nick diz que o futebolista português defende e pratica o mesmo tipo de princípios que ele próprio, no que diz respeito ao sono, embora não possa reclamar esse mérito. Diz que são princípios básicos que todos deviam pôr em prática — e não só os atletas de elite e pessoas com profissões exigentes, como pilotos e cirurgiões, que treina. Para dormir bem e descansar o que é necessário, é preciso esquecer aquela ideia de dormir oito horas seguidas. Em entrevista ao Observador, explica que o ideal é fazer vários períodos de repouso ao longo do dia, como sestas ou “micro-sonos”, em vez de concentrar todo o momento de recuperação num único momento, à noite.

Tem, aliás, um método: dividir o sono em blocos de 90 minutos e gerir todo o descanso à volta desse esquema — com mais ou menos tempo à noite, compensado por períodos de descanso mais curtos durante o dia (ao meio-dia ou ao fim de tarde, por exemplo). Funciona para todos? Nick Littlehales garante que sim.

Nick Littlehales é convidado para várias palestras, sobretudo ligadas a temas desportivos (Getty Images)

AFP/Getty Images

Já se disse e escreveu tanto sobre o sono, mas as pessoas continuam a dormir mal. O que nos falta perceber?
Sou um treinador de sono não académico e não clínico, mas estou na indústria há muitos anos e acho que a resposta para essa pergunta é que toda a gente o toma como garantido. Não o entendem como um critério de desempenho, ao contrário dos outros dois pilares da saúde — o exercício e a nutrição —, e tem sido ignorado. Desde o final dos anos 1990, tornámo-nos uma cultura de 24 horas por dia, sete dias por semana, movidos pela tecnologia, com um estilo de vida e hábitos que mudaram significativamente. Logo, todas as pequenas oportunidades de recuperação que estavam disponíveis, em meados dos anos 1990 e antes disso, foram-nos tiradas. E estamos a sentir os efeitos disso. Porquê? Simplesmente porque não temos qualquer educação sobre isso nas escolas. Ninguém fala sobre o assunto mais do que: “Tiveste uma boa noite de sono?” ou “Dormiste oito horas?”. Agora estamos a sentir as consequências de não haver educação, de as pessoas não conseguirem recuperar consistentemente ou de todo: temos comportamentos aditivos, ansiedade, depressão, diabetes tipo II, efeitos de longo prazo, insónia crónica ou dependência de comprimidos para dormir, ou apenas a noção das pessoas de que não conseguem lidar com o problema. Se não falarmos do sono nas escolas, se não tivermos conhecimentos, vamos ser apanhados em algum momento.

Do que é que devíamos estar a falar? O que é que as pessoas deviam saber?
Da minha experiência, as pessoas não entendem ou não têm relação com o ritmo circadiano [o ciclo de cerca de 24 horas em que se baseia o ciclo biológico de muitos seres vivos]. O movimento do Sol tem os seus ritmos, padrões, harmonia e horários — e isso nunca muda. E, como seres humanos, os nossos cérebros e as nossas funções vitais estão, supostamente, sincronizadas com esse processo natural: a luz e a escuridão, as mudanças de temperatura e a produção de hormonas que dizem ao nosso cérebro para ir suprimindo funções. Se continuarmos a distanciar-nos mais e mais deste processo natural, então as consequências vão surgir. Temos de tomar consciência que devíamos sincronizar-nos com este processo e que devíamos saber mais sobre isso.

Tentamos adaptar o nosso sono ao nosso ritmo de vida, mas isso pode não combinar com o ciclo circadiano. Podemos mudar o nosso sono para se adaptar aos ritmos das nossas vidas ou temos de manter o nosso sono sincronizado com estes ritmos naturais?
As pessoas têm um ponto de referência, mas não percebem que têm um cronotipo, uma característica de sono, que os torna mochos ou cotovias, pessoas mais vespertinas ou mais matutinas. As pessoas têm uma noção de que funcionam melhor ao fim da tarde ou de manhã, mas esse conhecimento não se reflete nas suas rotinas diárias. Da minha experiência e da investigação que tem sido feita, a maior parte das pessoas são vespertinas e não matutinas, mas, ainda assim, trabalhamos todos em horários matinais, nos empregos ou na escola, quando há muito mais pessoas a funcionarem melhor à noite.

Antes da invenção da eletricidade, antes da Revolução Industrial [séc. XVIII], havia quatro ciclos de sono e nenhum deles era de um bloco por noite. Dormíamos em modo polifásico, por períodos curtos com mais frequência, tal como fazem as crianças. Só começámos a dormir um bloco por noite [monofásico] quando surgiram as lâmpadas elétricas. Sempre tivemos trabalhadores a fazerem turnos de noite e de dia, mas agora temos mais coisas a acontecerem ao longo de todo o dia — não apenas das nove às cinco, com folga aos fins-de-semana. Agora o período de 24 horas é mais intenso e temos de perceber que tentar dormir à noite, num só bloco tornou-se muito difícil.

Acha que devíamos dormir uma ou mais sestas durante o dia?
Quando se fala em dormir, a pessoa imagina algo que acontece ao fim do dia e a que damos muito pouco valor. Gostamos de dormir e às vezes até nos sentimos cheios de energia depois de uma boa noite de sono, mas isso não acontece assim com tanta frequência. Normalmente, vamos para o quarto, ficamos lá deitados por umas horas, acordamos e continuamos com o nosso dia outra vez.

A abordagem polifásica, pré-1700, de dormir em períodos curtos, com mais frequência, faz muito mais sentido. São períodos de recuperação física e mental, mas não necessariamente para dormir. É mais dar ao cérebro uma oportunidade de recuperar, porque, enquanto estiver nesse estado, não está fisicamente e mentalmente ativo. Esta “sesta” é mais um ciclo curto a meio do dia ou fim da tarde ou ambos, é tirar 30 minutos ou menos para usar certas técnicas de visualização, mentalização ou sons. Sabemos que podemos dormir em qualquer sítio e a qualquer hora: aviões, comboios, sofás, cadeiras, no campismo, na praia. Se o nosso cérebro nos quiser pôr num micro-sono ou a dormir, vai fazê-lo. Não precisamos de forçá-lo, basta estar mais alinhado com este processo.

Se o nosso cérebro nos quiser pôr num micro-sono ou a dormir, vai fazê-lo. Não precisamos de forçá-lo, basta estar mais alinhado com este processo.

Consigo imaginar os atletas a tirarem momentos durante o dia para fazerem sestas, mas como podem outros profissionais fazê-lo no dia a dia?
Trabalhei em Espanha durante uns tempos, levantávamo-nos cedo, íamos trabalhar, depois fechávamos às 13 horas e voltávamos às 15 horas. Não íamos necessariamente dormir, mas tínhamos um momento para recuperar, para fazer coisas longe do trabalho. Depois voltávamos ao trabalho, trabalhávamos até ao fim da tarde e depois ficávamos com a família, os amigos e as crianças até à meia-noite. Isso não dá oito horas de sono por noite, é uma abordagem diferente. Esta coisa da “sesta” é olhar para o horário de uma pessoa, para o dia a dia, e ver o que está errado: reuniões que demoram mais do que deviam, reuniões que têm lugar às horas erradas para certos cronotipos, pessoas sentadas nos lugares errados, que não se expõem à luz certa. Há muitas pequenas coisas a acontecer e, quando pensamos que muitas pessoas podem adormecer ao volante — que é uma decisão ridícula —, percebemos que, em certas circunstâncias, o nosso cérebro vai mesmo desligar. Tudo o que proponho é que, a certa hora do dia, de acordo com o ritmo circadiano, dedique 30 minutos ou 15 minutos para si próprio. Escolha o seu gatilho, seja à secretária ou em público, ponha os auscultadores nos ouvidos, qualquer coisa no ecrã do computador e o alarme para daí a meia hora, deixe a cabeça cair e tenha um micro-sono ou um momento de recuperação.

Estes momentos de recuperação não têm a ver com ir para o quarto e dormir durante horas ou ter um quarto especial de recuperação com cores e sons. É, literalmente, identificar estes pequenos momentos e o quão importantes são para a recuperação geral. E são absolutamente vitais, para quando se quer dormir por um período mais longo à noite. Tentamos tirar a ênfase do “tentar dormir”, dizemos que é um período de recuperação durante o dia que vai ajudar a otimizar a recuperação quando tiver um período mais longo durante a noite. Muitos dos meus clientes pelo mundo fora — pilotos, cirurgiões, professores, estudantes — perceberam que estes momentos ao longo do dia não são uma sesta, são um momento de recuperação e usam pequenas técnicas individuais que os ajudam. De um momento para o outro, estes 20 minutos no momento certo tornam-se a parte mais importante do seu dia, porque sabem que estão a melhorar a recuperação em termos gerais.

As técnicas de recuperação que ensina aos atletas de alta competição são específicas para cada tipo de desporto? Ou são individualizadas?
Pense nas várias profissões, nos diferentes tipos de horários, no montanhista profissional que dorme num saco-cama pendurado num penhasco, nos pilotos que dormem nos aviões durante as viagens longas, nas pessoas que dormem no hemisfério norte ou no hemisfério sul, nos climas muito frios ou muito quentes, nos países com ou sem mudança de hora. A diferença é que, para alguns desportos, a reabilitação física pode ser mais importante do que para outras atividades.

Há uma abordagem pessoal para a forma como se recupera mental e fisicamente, mas o processo, em geral, é o mesmo, tendo em conta os sete indicadores de recuperação de sono: ciclo circadiano; cronotipo; dormir em ciclos, de forma polifásica, e não num bloco de horas; ter rotinas antes e depois do sono — concentrar-se mais nas rotinas depois do sono, que são a parte mais importante da recuperação; equilibrar os momentos de atividade e de recuperação; ambiente; e produtos [como colchão ou almofada]. Quando se trabalha estas áreas com um indivíduo, destaca-se cada uma, sensibiliza-se, aumenta-se o conhecimento, olha-se de forma polifásica. Podemos treinar alguém para dormir no chão, para dormir em qualquer lado, a qualquer hora, em cima de qualquer coisa, porque, às vezes, é a única hipótese que têm.

Um bom exemplo é um atleta que tente atravessar o oceano Atlântico de barco, sozinho. A abordagem de sono durante esse período tem de ser completamente polifásica, dormindo 30 minutos ou menos a cada cinco ou seis horas, sem nunca poder dormir por períodos longos, porque é muito arriscado e potencialmente fatal. As técnicas que ensino são aplicáveis a toda a gente, mas, naquelas sete áreas, é possível fazer pequenos ajustes para servir cada pessoa e o que ela quer alcançar a cada momento.

Podemos treinar alguém para dormir no chão, para dormir em qualquer lado, a qualquer hora, em cima de qualquer coisas, porque às vezes é a única hipótese que têm.

Em termos práticos, o que é que ensina às pessoas?
Começamos com os conhecimentos: as pessoas começam a ter noção do que é dormir de forma polifásica. Sabemos que precisamos de oito horas de descanso por dia para, enquanto seres humanos saudáveis, estarmos num bom estado de recuperação. E definimos ciclos de 90 minutos para o fazer — cinco ciclos dá 7,5 horas. Uma vez que tenhamos isto definido, podemos prever o que vai acontecer, quer tenhamos de passar muito tempo num hotel longe de casa, ou se formos escalar montanhas, ou se formos dar a volta ao mundo de barco sozinhos. É preciso olhar com atenção para o ambiente e para o produto que podemos ter connosco e ver se é possível fazer alguns ajustes. Se temos de dormir num ambiente ou com produtos que não são aqueles sobre os quais temos o maior controlo, então a abordagem polifásica dá-nos a oportunidade de retirar a pressão de ter de dormir nessas condições por períodos longos.

Os momentos de recuperação começam com a hora de acordar natural do cronotipo. O meu, por exemplo, é às 6h30, porque tenho um cronotipo matutino, é a essa hora que fico ativo. Depois dividido o dia em períodos de 90 minutos — 16 parcelas por dia — e isso dá-me a hora a que devo ir dormir, dependendo se quero dormir cinco ciclos (7,5 horas) ou quatro ciclos (seis horas) ou três ciclos (4,5 horas). Às 8 horas [90 minutos depois de ter acordado], dou-me dois minutos de intervalo para recuperar — esta é a fase do pós-sono. Depois, ao meio-dia, é a oportunidade para um período de recuperação curto — sabe-se que os 30 minutos são um período de tempo em que não entramos no sono profundo, mas que servem como bom período de recuperação. Dentro do ritmo circadiano, sabemos que a meio do dia temos um período de recuperação, ao fim da tarde temos outro, é aqui que estão as oportunidades de recuperação. Se os futuros pais, quando estão à espera de uma criança, se forem adaptando a estes ciclos polifásicos, de 90 minutos, vão sentir menos impacto depois da criança nascer. Se eles estiverem no estilo monofásico, vai ser uma batalha.

Não sugiro que se descanse menos em cada dia, sugiro que se tenha um período mais curto à noite, mais focado, mas que também que se tenha períodos de recuperação ao longo do dia para ajudar naquilo que conseguimos alcançar à noite. Muitas das pessoas com quem trabalho dizem que têm sentido uma grande mudança nas decisões que tomam, na motivação. Fazem escolhas mais bem pensadas porque estão a recuperar numa forma mais positiva. Não tem a ver com conseguir uma boa noite de sono — que não é alcançável —, mas é ter níveis consistentes de recuperação física e mental a cada 24 horas ou a cada sete dias. E ser capaz de lidar com os desafios do dia e ter algo flexível o suficiente para poder dizer que, se me pedirem um trabalho extra, vou dormir 20 minutos no final da tarde e vou para a cama mais tarde, mas consegui os meus momentos de recuperação em harmonia, com ciclos de 90 minutos.

Quer dizer que ter momentos de recuperação ao longo do dia não só nos ajuda a trabalhar melhor, como também nos ajuda a dormir melhor à noite?
Vivemos num mundo que está constantemente a inundar-nos com informação e a manter-nos ligados. Nunca estamos sozinhos. Se não aplicarmos os momentos de recuperação de que temos estado a falar, corremos o risco de irmos para a cama, para dormir, e o nosso cérebro não desligar. Não temos tempo para processar a informação corretamente e há muitas coisas com as quais estamos a lidar que nos criam stress, ansiedade e preocupação. Se tirarmos cinco minutos para nos sentarmos à beira-mar ou para olhar para o céu, o mundo vai parecer uma coisa melhor.

Temos de fazer mais pausas, é isso?
É isso. Devíamos ser a população humana com mais conhecimento sobre saúde que alguma vez povoou o planeta. Então, porque é que estamos a ter esta conversa? Porque é que temos níveis cada vez mais altos de problemas de saúde mental e de bem-estar? Tudo o que temos de fazer é reaprender a dormir.

Acha que temos de dormir oito horas por dia?
Se olharmos para o horário das pessoas ao longo de sete dias — mais do que isso é impraticável —, reparamos que não estamos em controlo todos os dias. Temos é de pensar que ao longo dos próximos sete dias quero fazer cinco ciclos por dia (7,5 horas). Como é que consigo isso? Eu escolho as 6h30 como a minha hora de levantar, porque acordo sempre antes disso cheio de fome. Recuo no tempo e sei que se quero dormir 7,5 horas tenho de me deitar às 23 horas. Tenho um cronotipo matutino, mas não me quero deitar muito cedo, não quero perder os momentos de luz, por isso escolho dormir da 00h30 às 6h30 — quatro ciclos — e depois tiro um pequeno período de 30 minutos ao fim da tarde, entre as 16 e as 19 horas — posso dormir ou apenas ir para um local mais recatado. Os primeiros 90 minutos do meu dia também são sobre recuperação, preparar o meu cérebro para o dia: hidratação, muita luz, estar no exterior a receber luz natural. No final do dia, às vezes tenho um evento e não regresso a casa antes da meia-noite e meia, mas não volto para casa a correr para me deitar. Espero pelo próximo horário, o próximo ciclo é às 2 horas, e faço três ciclos. Uso o tempo que faltar para ir para a cama para me distanciar do dia desafiante e dou oportunidade ao cérebro de desligar. Durmo três ciclos até às 6h30, mas depois tiro 30 minutos extra a meio do dia seguinte para compensar, volto a fazer um período ao final da tarde e torno a ir para a cama à 00h30. O importante é fazer os 35 ciclos por semanas, cinco ciclos por dia, e que podem ter de ser ajustados dia a dia. Se me pedem para fazer alguma coisa e tenho de acordar mais cedo, vou acordar às 5 horas — estou sempre a pensar em ciclos de 90 minutos. Depois compenso a meio do dia. Não devemos tentar ir para a cama mais cedo para compensar, não devemos tentar dormir mais de manhã para compensar. Devemos compensar com períodos a meio do dia e ao fim da tarde.

E podemos compensar dormindo mais ao fim de semana?
Não. Em todos estes anos, nunca vi isso resultar. É um processo de 24 horas. Em cada dia temos de conseguir implementar este processo de recuperação de forma polifásica. À medida que a semana avança podemos ajustar. É preciso manter o equilíbrio. Dormir até mais tarde num dia só vai trazer mais confusão entre o nosso cérebro e o Sol. Há pessoas a fazer aquilo que eu ensino, em todo o mundo, todos os dias. A diferença é que a informação não está compilada num livro ou num programa educativo.

Mas o Nick compilou tudo num livro.
Quando me pediram para escrever um livro, assustou-me imenso, achei que era o fim da minha carreira. Escrevi-o, foi publicado, esperei que o mundo dos clínicos me desfizesse, mas não aconteceu. O livro já foi traduzido em 14 línguas em todo o mundo — o que é incrível.

Talvez seja porque as pessoas entendem que têm um problema com o sono, só não sabem como resolvê-lo?
Também acho. Vejo isso onde quer que vá. Mesmo os professores de sono não têm uma forma que adotem todos os dias para recuperar. Fazem o mesmo que todos nós e, só por acaso, o trabalho deles é ensinar sobre o sono, ou ser médico, ou ser um investigador. Treino médicos e especialistas em sono. O trabalho deles é aquele, mas vivem o dia a dia como qualquer outra pessoa.

Tem ensinado as pessoas a dormir desde os anos 1990. Como é que tudo começou?
Trabalhava na indústria do sono para pagar as contas e para sustentar a família. Tive oportunidade de alcançar uma certa posição dentro da empresa e viajar pelo mundo e investigar o que era o sono e os produtos e ambientes para dormir. Fui presidente do Conselho do Sono [The Sleep Council, no Reino Unido] durante um tempo. Ao longo desta carreira, tivemos muitas inovações, fizemos algumas mudanças, mas apercebi-me que o consumidor não estava interessado nisso. Por isso, pensei em fazer algo diferente com o resto da minha carreira. Calhou de, por essa altura, estar nos escritórios do Reino Unido, em Manchester, e ao fundo da rua da nossa fábrica estava o clube de futebol Manchester United. Por um conjunto de circunstâncias, acabei na mesma sala com o treinador Alex Ferguson e aconteceu, fiz a pergunta: “No desporto, faz-se alguma coisa em relação ao sono de recuperação, com produtos ou assim?” E a resposta naquela altura, finais dos anos 1990, foi: “Não fazemos nada”.

Começámos a conversar e deram-me a oportunidade de fazer algumas observações e algumas sugestões. Naquela altura, havia um grande foco no Manchester United porque se tornaram a primeira equipa britânica a ganhar um “treble” [ganhar no mesmo ano o campeonato, a taça e a Liga dos Campeões, na época de 1998-1999] e de forma muito dramática [na final da Liga dos Campeões, marcaram dois golos nos descontos e derrotaram o Bayern de Munique que também era candidato ao “treble”]. Os media estavam, por isso, muito interessados no que o clube estava a fazer e alguém lhes disse que havia um tipo a falar com o Manchester United sobre sono. Juntaram a palavra treinador [coach], porque o desporto é sobre isso, e sono [sleep], e, da noite para o dia, eu era o treinador de sono [sleep coach] do Manchester United. Agora, 22 anos depois, houve muitas mudanças e o sono e a recuperação tornaram-se muito mais significativos à medida que essas mudanças tiveram lugar. Mas foi assim que começou. Nada mais do que estar dentro de uma indústria que não se preocupava tanto como eu me preocupava.

Cristiano Ronaldo e Alex Ferguson, que treinou o futebolista português no Manchester United Football Club, no início dos anos 2000 — Instagram

É o treinador de sono do Cristiano Ronaldo?
[risos]

O que é que lhe ensinou?
Perguntam-me isso muitas vezes. Uma das vantagens de trabalhar no mundo do desporto é que este tende a influenciar o resto da população mundial, porque está constantemente a investigar o desempenho. Mas há um outro lado: posso falar de todos os clientes com os quais trabalho, mas não vou falar em termos individuais. Dormir é uma área muito privada e muito intrusiva e, para o conseguir, fazer preciso de confiança e honestidade.

O Cristiano Ronaldo entrou na equipa do Manchester United quando lá estive, a trabalhar no clube. Entrou como um jovem atleta, a fazer uns truques nas linhas laterais, e tornou-se o melhor jogador do mundo. Ele era extremamente interessado e ficava a ouvir enquanto eu ensinava os médicos e equipa técnica. Mas não o treinei pessoalmente. Mais tarde, fui convidado para ir treinar o Real Madrid. Estive lá a examinar as instalações, os quartos dos atletas, trabalhei com os treinadores e equipa técnica. O que fiz foi treinar a equipa técnica para que eles pudessem treinar os atletas, sem se perder informação com as traduções, porque eu só falo inglês — tal como a maior parte dos ingleses. Mas o que os jornalistas acharam foi que se o Nick Littlehales estava a treinar o Real Madrid, então estava a treinar o Cristiano Ronaldo. Um dia descobri uma fotografia minha no jornal com o Cristiano Ronaldo e, aparentemente, eu era o treinador de sono dele. Ele e a equipa pessoal dele nunca estiveram em contacto comigo. Eu não o digo, não está no meu site, não está em lado nenhum.

Mas o Cristiano Ronaldo é um grande defensor do sono e da recuperação e fala muito sobre isso nas redes sociais. As coisas que faz podiam ter sido aprendidas comigo durante o tempo que passou no Real Madrid, mas eu não falei com ele em privado, não fui a casa dele, não o pus a dormir. Ele apenas se apresenta como alguém que apoia o tipo de trabalho que faço e as técnicas que ofereço porque fala disso com frequência — não de mim, especificamente, mas ele defende aquilo que eu prego.

O que significam os resultados no perfil de sono que se pode fazer no seu site?
O que me apercebi é que, no mundo clínico do sono, há pequenas avaliações em que os médicos fazem perguntas muito simples para perceberem se estamos a dormir bem ou não. Eram tão ridículas e tão genéricas que eu pensei: “Como é que estão a estabelecer o estado de recuperação de uma pessoa com base nessas perguntas?”. O que fiz foi criar o meu próprio perfil. Não é clínico, não é ciência. Com a nutrição temos feita imensa investigação e continuamos a fazer. Com o exercício, estamos sempre a arranjar maneiras diferentes de o fazer. E temos personal trainers, ginásios, montes de informação. Se tenho uma dor, vou ao fisioterapeuta. Mas ninguém procura um especialista em sono ou um treinador de sono.

[Para quem tem resultados baixos no perfil:] o que quer dizer é que podem melhorar o conhecimento, mudar a perceção em relação a algumas coisas que estão a fazer e, certamente, depois vão olhar com mais cuidado para as coisas que acontecem ao longo do dia. Para conseguir que uma pessoa ganhe uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, o primeiro passo é conseguir que chegue a essa competição, mas há um longo período de desafios para lá chegar: ser selecionado, não se lesionar, fazer o melhor treino, estar no melhor estado de desempenho. Depois, há uma pessoa que vai ser um pouco melhor e vai conseguir ganhar a medalha de ouro. Olhamos para uma pessoa que está ocupada, que está a fazer um ótimo trabalho, que é bem sucedida, que consegue atingir os objetivos todos os dias e que está ansiosa pelas férias. Mas e se soubesse que esta pessoa é apenas um sombra de quem poderia ser? A recuperação e o sono são daquelas coisas que gradualmente nos levam para outro sítio sem notarmos. Ser capaz de sair da sombra e ir para um sítio onde se sinta no seu melhor mais vezes, é aí que se ganham medalhas de ouro. E este processo é todo sobre isso.

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.