Peniche, 8 de janeiro de 2024. Tinham passado poucos dias desde o natal e o fim do ano, quando a campainha da porta tocou. Fernando Antunes não sabia que ia ser despejado e, agora, não fazia ideia do que fazer a seguir. A sua companheira, de há 25 anos, tantos quantos aqueles em que vivia naquela casa, tinha-o deixado quase três meses antes. Apesar de ter tido um passado difícil, com dependência de drogas, Fernando estava “limpo”, e sozinho, quando se viu na rua.
Aos 63 anos, quase dois anos depois do despejo, vive na Quinta da Tomada, na Venda do Pinheiro, o maior centro da Comunidade Vida e Paz e o único que ajuda os utentes em duas vertentes: na reabilitação e na reinserção social.
Durante quase 20 anos, e antes de aqui chegar, Fernando trabalhou como guia turístico por toda a Grande Lisboa. Vivia em Peniche, mas tinha um apartamento nas Portas de Benfica, onde ficava durante temporadas. Diz que teve “uma vida preenchida, cheia de coisas boas, uma vida acima da média”. “Ganhava muito dinheiro, tinha bons carros, a casa paga”, continua, admitindo que “conseguia pagar tudo”, incluindo a droga que o “degraçou” — a cocaína.
Agora, assume-o, mas Fernando revela que, no início, nunca aceitou bem a ideia de ele próprio ser dependente da droga. “Sabia que tinha um problema com as drogas, mas ia consumindo e controlando”, explica, apontando o período da pandemia como a altura onde se viu “a perder o controlo”.
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Neste ano, em que a Comunidade Vida e Paz realizou a 37.ª Festa de Natal com as Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, entre os dias 19 e 21 de dezembro, Renata Alves, diretora-geral, explica que foi exatamente a partir da crise provocada pela Covid-19 que começou a sentir-se um aumento dos pedidos de ajuda — tanto neste como nos outros dois centros que se dedicam a cada uma destas áreas: a Comunidade Terapêutica de Fátima (70 vagas) e a Comunidade de Inserção da Quinta Espírito Santo (65).
“Na verdade estamos a ir ao encontro, na cidade de Lisboa, de cerca 450 a 500 pessoas, um número que ainda continua superior em relação ao ano 2020. Apesar de existirem mais alternativas, mais medidas para acolher as pessoas em situação de sem-abrigo e para que elas possam deixar de estar nessa situação, conseguimos perceber que esse número continua, de facto, bastante significativo”, conta. No total, a Comunidade Vida e Paz ajuda 900 pessoas por dia, com vários tipos de resposta e apoios.
Os rastreios dentários e as sessões de cinema neste natal
A instituição, tutelada pelo Patriarcado de Lisboa, é uma instituição particular de solidariedade sem fins lucrativos que apoia pessoas em situação de sem-abrigo e vulnerabilidade social em Lisboa, desde 1989. Ao apostar na reinserção social através de equipas de rua, de centros de tratamento e de reabilitação e de apoio à reintegração, procura oferecer uma nova oportunidade àqueles de que mais precisam. Nos últimos três dias de festa de Natal, por exemplo, voluntários e profissionais apoiaram pessoas em situação de sem-abrigo e outras com dificuldades financeiras em diversos serviços essenciais: incluindo refeições, cuidados de saúde, apoio na área da cidadania, cuidados de higiene, banco de roupa e momentos de animação e convívio. Este ano, destacou-se o apoio da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, que disponibilizou rastreios dentários e consultas. Outra das novidades foram as sessões de cinema.
A festa acolheu 1.794 convidados, realizou mais de 1.000 atendimentos de saúde, serviu 4.281 refeições e distribuiu 12.072 peças de roupa, números que refletem o impacto concreto desta iniciativa.
Na casa onde Fernando se encontra e que é um dos três centros de toda a comunidade — Comunidade Terapêutica e de Inserção em Tomada, Comunidade Terapêutica e de Inserção em Fátima e Comunidade de Inserção da Quinta Espírito Santo —, a resposta na vertente terapêutica dispõe de uma capacidade total de 65 pessoas. “Destas, 52 estão convencionadas pelo Ministério da Saúde, enquanto as restantes 13 vivem em regime particular”, conta ao Observador Rita Rocha, responsável por esta unidade.
“Todas estas respostas, no fundo, contribuem para o mesmo objetivo que é dignificar a vida das pessoas que nos procuram e realmente intervir, no sentido de ajudar estas pessoas a reerguer-se e a recuperar as suas vidas de uma forma digna e sem consumos”, explica.
Para além da vertente terapêutica, a casa da Venda do Pinheiro integra ainda uma comunidade de inserção com capacidade para acolher 17 pessoas, todas abrangidas por um acordo com a Segurança Social. Já numa fase mais avançada do processo de recuperação, o apartamento de reinserção disponibiliza oito vagas, igualmente ao abrigo de acordo com a Segurança Social, apoiando a autonomia e a reintegração progressiva na comunidade.
▲ Renata Alves, diretora-geral, explica que foi exatamente a partir da crise provocada pela Covid-19 que começou a sentir-se um aumento dos pedidos de ajuda
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Rita Rocha admite, no entanto, que a instituição tem vivido uma fase de dificuldades financeiras, o que a levou a reforçar medidas de poupança. Dificuldades que advêm mais do decréscimo dos capitais próprios, conseguidos através de donativos e de empresas, do que do financiamento público assegurado pelo Estado. Também a Igreja “tem alguns projetos que sim, ajudam, mas todos eles não são suficientes”.
Os pedidos de ajuda, o choque com a realidade e o futuro
Fernando não chegou logo à Vida e Paz após o despejo e descreve os quase três meses em que viveu sozinho em casa antes de ser despejado como traumatizantes. “Até tentei pôr termo à vida. Foi quando comecei a pensar seriamente no que é que estava a acontecer a mim, à minha vida e à minha volta. Mas pronto, já foi tarde”. Chegou a viver no carro durante duas semanas até chegar à conclusão que tinha de pedir ajuda. É reencaminhado por uma assistente social para uma outra ONG, mas conta que a experiência não correu bem e que foi despejado quando deixou de ser capaz de trabalhar.
Foi internado no Hospital de Santa Maria devido ao agravar de problemas de saúde, onde ficou durante um mês. Por iniciativa própria, e com a ajuda de uma assistente social, conseguiu entrar na lista de espera da Comunidade Vida e Paz. Quando lá chegou, teve dificuldade em aceitar a sua nova vida: “Não tenho nenhum défice, tenho alguma cultura geral e sei algumas coisas”.
Agora, espera recuperar para viver melhor. “Eu sei que já não sou novo. Mas ainda quero fazer alguma coisa. Tenho que melhorar as minhas condições de vida. A comunidade não me deixa desacreditar. Tem feito um trabalho excelente comigo e com centenas de outras pessoas”.
O vício das drogas, a porta da família fechada e o abraço que ajudou
Na mesma casa na Tomada está João Miguel Pereira, de 53 anos, que se viu a viver na rua bem mais novo do que Fernando. Tinha 50 anos quando as ruas no bairro da Reboleira, onde cresceu com o grupo de amigos, passaram a ser a sua casa.
Com 17 anos, experimentou haxixe pela primeira vez. Foi o suficiente para o consumo de droga se tornar um hábito, que acabava por servir de pretexto para os amigos se encontrarem. Diz que faziam festa por toda a Lisboa, do Bairro Alto ao Cais do Sodré.
Depois da adolescência, considera que teve aquilo que se considera uma “vida normal”: estudou, começou a trabalhar, casou, teve dois filhos e divorciou-se também. “Tinha altos e baixos” e, entre eles, consumia, “mas às escondidas”. Vivia aquilo que descreve como “uma vida dupla”, que também passou a incluir heroína e cocaína ao longo dos anos.
Afundado em dívidas, depois de ter perdido casa e carro, pediu ajuda à família mas o pai não aceitou, uma atitude que, com a distância temporal, consegue entender. Viveu em casas abandonadas no bairro da Reboleira até pedir ajuda à Comunidade Vida e Paz, que conheceu através da irmã.
Hoje, é um caso de sucesso. Começou o tratamento em Fátima, onde esteve durante um ano. “Não foi fácil. Houve alturas de desistir, houve alturas de medo, houve alturas de pressão”, mas recorda com gratidão a ajuda que recebeu de psicólogos, psiquiatras e todo o staff. “Comecei a ganhar amor próprio, comecei a ganhar autoestima, comecei a levantar a cabeça. A primeira coisa que nós pedimos é a dignidade”, diz, contando que voltou a estudar.
Confessa que sentiu que o que fez mais diferença ao ser tratado nestes centros foi a forma humana como foi recebido: “Começam com esse pequenino e grande passo que é o abraço, saber dar o abraço. E nós, a partir daí, começamos a sentir que alguém se importa connosco”.
VASCO COELHO/OBSERVADOR
“Tem que se mudar mesmo”: Paulo saiu mas precisou de voltar
As dependências são também responsáveis pelo facto de Paulo Santos, de 61 anos, estar a viver na Tomada, onde está há quase três anos. Criado pelos avós e com uma infância “bastante privilegiada”, casou aos 19 anos e foi pai pouco depois, numa altura em que já consumia haxixe. Aos 20 anos, mudou-se para a Figueira da Foz e começou a trabalhar no setor portuário, sendo aqui que teve o seu primeiro contacto “mais sério” com o álcool. “Eram muitos homens, então a malta juntava-se para comer e beber”, conta ao Observador.
Os excessos levaram a que o casamento chegasse ao fim após 14 anos e ditaram o regresso de Paulo a Lisboa, pensando que iria conseguir mudar de vida. Tornou-se taxista e acabou dedicado ao “tranquilizador” haxixe, que escolheu para substituir o álcool que não podia consumir dada a profissão. Voltou a ser pai, de mais dois filhos, e perante a consciência do impacto da droga na sua vida entrou Comunidade Terapêutica da Tomada em 2017, lá permanecendo 18 meses.
Quando saiu, na pandemia, não estava preparado para os desafios da vida quotidiana e refugiou-se na cocaína, acabando por ser ajudado pelo então patrão. Voltou à Tomada em 2022 e, dois anos depois, foi-lhe diagnosticado um cancro da próstata. “Esta é a razão pelo qual estou cá há tanto tempo, quase há 34 meses”, aponta. Conseguiu melhorar e descreve o último ano como o ano da sua “viragem”: “Foi o ano mais importante da minha vida”. “Eu tinha de acreditar e o modo como eu encarava os problemas mudou radicalmente”.
Agora, usa a fé como complemento para ultrapassar as dificuldades e, recentemente, decidiu que queria fazer a Primeira Comunhão, o que acontecerá para o ano. E gosta de passar os dias no atelier, a fazer trabalhos manuais, “entretido com o pessoal”.
Paulo diz que “se não fosse a comunidade Vida e Paz, já não estaria aqui, estaria noutro lado”. “Tem que se mudar mesmo, porque a vida dos consumos só leva às prisões, hospitais e morte”.
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Texto editado por Carlos Diogo Santos e Cátia Andrea Costa