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As festas Purilia são organizadas há cerca de 10 anos, sobretudo na zona de Lisboa. Podem custar entre 1.750 e 3.000 euros por casal

Getty Images/iStockphoto

As festas Purilia são organizadas há cerca de 10 anos, sobretudo na zona de Lisboa. Podem custar entre 1.750 e 3.000 euros por casal

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Festa de sexo vai juntar mais de 40 pessoas na Comporta. “Só pode participar quem fizer teste à Covid”, diz organizador /premium

Desde o fim do confinamento, já é a segunda festa que a Purilia organiza. Para ir ao evento de 25 de julho é preciso fazer teste à Covid. Empresa diz que tem “autorização”. DGS garante que é ilegal.

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Ainda era de dia quando na passada sexta-feira, dia 26 de junho, começaram a chegar — elas de vestidos de cerimónia em tons escuros, eles de fato completo, uns com gravata, outros sem — à luxuosa propriedade, com acesso direto ao mar, na linha de Cascais, para o retomar, três meses depois, das seletas festas de sexo Purilia.

Organizadas há mais de uma década em Lisboa, sempre com o maior secretismo e, à vez, para os escolhidos de entre uma comunidade ativa de perto de 900 pessoas, mulheres e homens solteiros e casais, os eventos estavam em pausa desde o início da pandemia. Por coincidência, voltaram exatamente um dia depois de o Governo, em mais um passo rumo ao desconfinamento, ter dividido o País em três estados — alerta, contingência e calamidade —, revela ao Observador Ricardo Champalimaud, criador do conceito e organizador das festas que podem custar entre 1.750 e 3.000 euros por casal.

Em Cascais, bem como em toda a Área Metropolitana de Lisboa, a 26 de junho, passaram a estar interditos os eventos com mais de 10 pessoas. Naquela noite de sexta-feira, na mansão alugada para a festa, como de costume decorada com fotografias eróticas de cada um dos convidados, fotografados em poses sensuais e com os rostos escondidos por máscaras venezianas, foram cerca de 70 os homens e mulheres que se juntaram para o evento inspirado no filme “Eyes Wide Shut” (“De  Olhos Bem Fechados”, na tradução para português).

“Neste momento exigimos que nos seja apresentado um teste com resultado negativo ou não detetado. Esse mesmo teste deve ter sido realizado nos últimos 5 dias anteriores à data do evento”
Ricardo Champalimaud, fundador da Purilia

Em plena pandemia, as únicas máscaras à vista eram as celebrizadas no Carnaval de Veneza, de que o clássico erótico de Kubrick se apropriou em 1999 e que, desde o início, são obrigatórias nas festas Purilia, para reservar a identidade dos participantes e acicatar desejo e excitação. “Neste momento exigimos que nos seja apresentado um teste com resultado negativo ou não detetado”, explica Ricardo Champalimaud, garantindo que sem análise feita ao novo coronavírus, ninguém pode participar. “Esse mesmo teste deve ter sido realizado nos últimos 5 dias anteriores à data do evento”, acrescenta, sempre por escrito, durante uma conversa mantida ao longo de três dias com o Observador, via Whatsapp.

Para além disso, a organização obriga ainda à “medição de temperatura” e “higienização à entrada”, bem como à entrega de testes recentes a uma série de doenças sexualmente transmissíveis (DST), mas essa já era uma exigência antes da pandemia. A partir desse ponto, deixam de existir normas e procedimentos obrigatórios, e claro está, não há distanciamento obrigatório: “A única regra é o respeito pela vontade do outro, algo que nunca poderá ser quebrado. Tudo é possível”, deixa no ar o organizador.

Para o próximo sábado, dia 25 de julho, já está marcado outro evento, desta vez numa propriedade com piscina na zona da Comporta, no concelho de Alcácer do Sal. Há 42 participantes confirmados mas esse número ainda pode ser ampliado, sendo que a casa estará à disposição dos convidados durante o fim de semana inteiro. Apesar da pandemia e por muito que alguns membros da comunidade já tenham revelado à Purilia que só tencionam voltar a participar em festas em 2021, o interesse por parte de pessoas de fora de Portugal aumentou nos últimos meses, “talvez por falta de oferta nos países de origem”, diz o organizador. “A procura supera sempre em muito a disponibilidade, tendo nós de fazer a seleção de quem estará presente no evento, através do perfil e [dos ]interesses comuns. Por norma os nossos eventos ‘Intimiss’, que são os mais reduzidos, nunca ultrapassam as 25, sendo que os principais, [as festas] ‘Eyes Wide Shut’, nunca ultrapassam as 100 pessoas.”

O cartaz da festa do próximo dia 25 de julho, na Comporta

O evento da Comporta será um misto dos dois. Depois do cocktail Moët & Chandon de boas-vindas, haverá jantar e depois disso a festa propriamente dita, mas só um número muito reduzido de pessoas poderá passar a noite inteira na propriedade, mediante o aluguer de uma suite privada — existem três, explica Ricardo Champalimaud. O preço por casal está fixado nos 3 mil euros. Para fazer o upgrade e reservar um destes três quartos a organização pode cobrar entre 1.750 e 3.000 euros extra.

“Por norma organizamos um [evento] por trimestre, existindo outros de dimensão mais pequena e também alguns que são organizados a pedido de membros, que preferem ter o seu próprio evento. Esta será uma edição de verão, um ‘Intimiss’ mas de porta aberta, em que os membros ficam com acesso ao espaço durante o fim de semana, para quem quiser regressar para estar na piscina ou simplesmente continuar a desfrutar do espaço na Comporta que é bastante agradável e que vai de encontro ao perfil dos nossos membros associados”, explica o organizador.

Questionado sobre as limitações legais impostas em tempo de pandemia, que mantêm discotecas e bares fechados e proíbem naquela zona do País a realização de eventos com mais de 20 pessoas, o responsável pela Purilia começa por escudar-se na exigência dos testes à Covid-19, com custos e logística suportados pela própria organização. “Apenas com o teste realizado será possível aceder ao evento. O evento é de âmbito privado em espaço privado com todas as preocupações.”

“Conseguimos obter essa ‘autorização’, de forma a que os nossos eventos aconteçam sem percalços. Temos essa garantia de não se ser incomodados, respeitando aquilo que lhe referi, [os] testes. Vai ser um investimento nosso mas assim conseguimos dar uma outra segurança a quem participa”
Ricardo Champalimaud, fundador da Purilia

Confrontado, ainda assim, com a ilegalidade do evento, Ricardo Champalimaud acabou por explicar que tem uma “garantia informal” de que o evento não será interrompido pelas autoridades. “Conseguimos obter essa ‘autorização’, de forma a que os nossos eventos aconteçam sem percalços. Temos essa garantia de não se ser incomodados, respeitando aquilo que lhe referi, [os] testes. Vai ser um investimento nosso, mas assim conseguimos dar uma outra segurança a quem participa”, diz o organizador, recusando dar quaisquer outros detalhes sobre a alegada carta branca que recebeu ou identificar a entidade que a concedeu.

Contactada pelo Observador, a Direção-Geral de Saúde garante que as regras em vigor se mantêm, pelo que “não estão autorizados eventos sociais como festas”. Até os casamentos, que já podem ser realizados, mediante regras apertadas e limite de convidados, têm de ser celebrados “com máscara e com distanciamento físico”, acrescenta a DGS antes de concluir: “Uma festa com 40 pessoas nunca está autorizada de acordo com todas as Resoluções de Conselho de Ministros”.

Champanhe, ostras e frascos de afrodisíaco

Por si só, e por motivos óbvios, a exigência de distanciamento físico é inconciliável com a realização de uma festa de sexo, regada a champanhe e alimentada por substâncias afrodisíacas disponibilizadas pela organização em pequenos frascos com doses individuais, “que poderão ser ingeridas diretamente”.

Apesar de no blog da comunidade estar em destaque pelo menos um artigo, publicado já em 2010 na efémera revista masculina Urban Man, que faz referência a “drogas à discrição”, Ricardo Champalimaud garante que o afrodisíaco à base de ervas e de génese “oriental” é a única “substância” oferecida aos participantes das festas. “É algo exclusivo que importamos e que era uma receita utilizada para manter os imperadores capazes de manter os seus haréns, mas não é qualquer droga nem substância ilícita. Nós nunca disponibilizámos qualquer substância ilícita, nem promovemos o seu consumo”, assegura.

“Não estão autorizados eventos sociais como festas. Uma festa com 40 pessoas nunca está autorizada de acordo com todas as Resoluções de Conselho de Ministros”
Direção-Geral de Saúde

Para não estragar a surpresa e defraudar os participantes, Ricardo Champalimaud prefere não partilhar detalhes sobre o evento de dia 25 na Comporta. Em Cascais, há cerca de um mês, os convidados foram recebidos com um cocktail de champanhe e ostras, a que se seguiu um jantar de inspiração oriental, com pratos tailandeses, indianos e japoneses servidos por um restaurante da capital.

Na primeira fase da noite, a banda sonora ficou a cargo de um pianista e de um harpista. Mais tarde, e como habitualmente, a música passou a ser outra. “Passadas umas duas horas de música inebriante, muito fumo e drogas de vários géneros, as pessoas começavam a deixar-se ir, os toques aumentavam e as mãos pelos corpos eram uma constante”, escreveu, sob pseudónimo, a jornalista da Urban Man.

Também como em todas as festas Purilia, além de terem assinado acordos de confidencialidade a prometer não revelar detalhes sobre o evento e respetivos participantes, os convidados tiveram ainda de deixar os telefones à porta. “Nada de telemóveis, nem qualquer dispositivo em que seja possível registar imagem ou áudio, isso é logo referido na primeira reunião com o mentor/a”, explica Ricardo Champalimaud. “Já [fazemos festas] há mais de 10 anos, as mesmas são frequentadas por diferentes sectores da nossa sociedade, incluindo figuras mediáticas, e sempre conseguimos garantir essa mesma confidencialidade”, acrescenta.

A festa de 26 de junho aconteceu numa propriedade com acesso direto ao mar, na linha de Cascais. Participaram cerca de 70 pessoas

Funcionando como uma espécie de clube privado, em que os novos membros têm de ser obrigatoriamente indicados por antigos, a comunidade Purilia reúne, diz o fundador, uma elite portuguesa e não só — “Realizamos eventos em outros países e outras cidades. Dubai, Monte Carlo, São Paulo, Paris, Milão” —, que se junta periodicamente para conviver, trocar contactos, fazer networking e ter relações sexuais. “Estamos a falar de uma classe alta, muito alta, altos quadros e também profissões liberais”, faz questão de frisar. “A Purilia nasce por mim, cá em Portugal, existindo aqui um vazio a este nível, tudo o que poderia existir alternativo deixava muito a desejar. A Purilia veio implementar algo que já era procurado e que levava muitas pessoas a saírem de Portugal para poderem encontrar algo assim, onde se conjuga o glamour, luxo, erotismo sem qualquer preconceito.”

Para entrar na seleta comunidade, que atualmente terá cerca de 900 membros ativos, é necessário enfrentar um moroso processo de admissão, que inclui entrevistas, reuniões e sessões fotográficas e pretende avaliar o “perfil cultural, profissional e académico” dos proponentes, “bem como a sua imagem”. No final, e em caso de aprovação, é necessário ainda o pagamento de uma espécie de joia — cada casal paga 1.995 euros, valor que baixa para os 995 euros por mulher solteira e aumenta substancialmente para os 2.995 euros para os homens nas mesmas circunstâncias.

Só depois de cumpridos todos estes passos, e de os novos membros serem apresentados à sociedade numa ‘festa cocktail’, explica Ricardo Champalimaud, é que passam a pertencer de facto à comunidade e a ter acesso a todos os seus eventos, que podem ser realizados em mansões privadas, como os mais recentes, ou em casas de época, palácios, iates ou suites de hotel.

“A Purilia nasce por mim, cá em Portugal, existindo aqui um vazio a este nível, tudo o que poderia existir alternativo deixava muito a desejar. A Purilia veio implementar algo que já era procurado e que levava muitas pessoas a saírem de Portugal para poderem encontrar algo assim, onde se conjuga o glamour, luxo, erotismo sem qualquer preconceito”
Ricardo Champalimaud, fundador da Purilia

Para garantir que as experiências são sempre diferentes e que os encontros não se tornam repetitivos, é o responsável pelos eventos que, de entre o leque de interessados, elege quem poderá ou não estar presente em determinado evento. “Tento sempre, na acreditação para cada um dos eventos, conjugar os perfis de quem participa de acordo com as suas preferências, para que exista maior probabilidade de compatibilidade entre convidados. Todo o processo de acreditação é realizado de uma forma muito personalizada, o que me faz conhecer cada membro de forma pessoal.”

Apesar de ser público que a próxima festa vai ter lugar na zona da Comporta, a localização exata da propriedade será, como de costume, revelada aos participantes escassas horas antes do início, marcado para as 17h00 de 25 de julho. Ou nem isso, ressalva Ricardo Champalimaud: “Os membros agendam com os seus ‘mentores’ um local de encontro onde existe a possibilidade de tirarem mais alguma dúvida que possam ter e, assim que se sintam confortáveis, o mentor/a acompanha-os ao evento, apresenta-os a quem já lá se encontra, enquadrando-os no ambiente existente”.

Em alguns casos, acrescenta o organizador das festas de sexo, quando não quer mesmo que as moradas das propriedades onde vão decorrer os encontros sejam conhecidas, os participantes chegam a ser transportados em carros com motoristas e de olhos vendados, o que acaba por contribuir também, diz, “para dar todo um outro misticismo ao evento”.

“Não promovemos a prostituição em qualquer forma que seja”

Apesar de erotismo e sexo estarem subjacentes a todo o conceito da comunidade Purilia, Ricardo Champalimaud faz questão de avisar que os convidados não têm necessariamente de manter relações sexuais para poderem participar. Será o que acontece, explica, com os “mentores” e “mentoras” que têm a seu cargo a receção de novos membros mas, sendo na maioria profissionais contratados, não se envolvem em atividades sexuais.

"Existe uma altura da noite em que toca uma pequena sineta, ficando-se à média luz no salão grande e aí sim começamos a ver muita coisa e é difícil não nos deixarmos ir pelo prazer, pela descoberta de emoções, até aqui um pouco contidas. Existem alguns elementos masculinos e femininos (com muito bom aspeto) que estão lá para nos ‘obedecerem’ e podem interagir com os membros caso sejam solicitados"
"Sandra", participante numa festa Purilia

Esta versão colide pelo menos com o testemunho de uma participante, também partilhada no blog da comunidade Purilia. “Existe uma altura da noite em que toca uma pequena sineta, ficando-se à média luz no salão grande e, aí sim, começamos a ver muita coisa e é difícil não nos deixarmos ir pelo prazer, pela descoberta de emoções, até aqui um pouco contidas. Existem alguns elementos masculinos e femininos (com muito bom aspeto) que estão lá para nos ‘obedecerem’ e podem interagir com os membros caso sejam solicitados”, descreveu “Sandra, 34 anos”, num pequeno texto partilhado na secção “Quem frequenta (testemunhos)”.

Vários anúncios partilhados no Instagram da Purilia — “We are looking for the most beautiful women in world! be one of our angels!” (“Estamos à procura das mulheres mais bonitas do mundo! Sê um dos nossos anjos!”) —, e em que se garante “glamour, luxo, confidencialidade e alto rendimento”, também podem fazer intuir o contrário, mas Ricardo Champalimaud assegura que tudo acontece de forma legal e que não existe na comunidade troca de sexo por dinheiro. “O nosso ‘trabalho’ [é] apenas [o de] fazer o link entre membros. Não temos colaboradores pagos para participarem ativamente nos eventos, apenas para nos  ajudarem na logística normal de cada evento”, diz. “Não promovemos a prostituição em qualquer forma que seja.”

Um dos anúncios de trabalho partilhados no Instagram da Purilia

Não será o caso no próximo dia 25 de julho mas, quando os membros o solicitam, a Purilia, que se assume como uma “empresa de organização de eventos de cariz erótico/sexual”, também organiza eventos privados. Neste caso tudo poderá ser personalizado: data, número de convidados, perfil de convidados, local. Por norma são eventos com um custo muito mais elevado para quem os quer promover”, explica o responsável pela empresa, antes de revelar o preço mais caro que já cobrou por um serviço do género: 75 mil euros.

“O nosso ‘trabalho’ [é] apenas [o de] fazer o link entre membros. Não temos colaboradores pagos para participarem ativamente nos eventos, apenas para nos  ajudarem na logística normal de cada evento. Não promovemos a prostituição em qualquer forma que seja"
Ricardo Champalimaud, fundador da Purilia

“Foi-nos solicitada a presença de figuras públicas, o que encareceu em muito todo o evento”, revela de seguida, explicando que, apesar de da comunidade fazerem parte várias celebridades, o responsável pelo evento fez questão de integrar na lista de participantes uma determinada pessoa famosa, sem qualquer ligação à Purilia. Tivemos de fazer o convite para que viesse a participar num fim de semana. [Trata-se de] algo mais complexo mas que acaba por se tornar um desafio para nós, e cada vez mais existe essa procura pelos nossos membros.”

Neste caso, a figura pública em questão acabou por aceitar o convite e foi paga em dinheiro por isso. Mais uma vez, garante Ricardo Champalimaud, tudo aconteceu de forma legal, não podendo a empresa ser acusada de auxílio à prostituição. “Nos eventos privados não tem que haver sexo, ou [pode] existir apenas se ambas as partes estiverem de acordo, tal como [em] qualquer encontro social. Podemos ir os dois jantar, só existe sexo se ambos tivermos essa vontade, tal como em qualquer encontro social.”

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