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Em meados de setembro, a flotilha onde seguem Mariana Mortágua, Greta Thunberg e o brasileiro Thiago Ávila deverá aproximar-se da Faixa de Gaza e tentar “furar o cerco” israelita, entregando toneladas de ajuda humanitária para o povo palestiniano. Esta é, pelo menos, a intenção da organização que estima em cerca de 50 o número de embarcações que irão formar a flotilha, algumas das quais partiram neste domingo de Barcelona. Mas nos últimos anos houve várias outras tentativas de entrar, por via marítima, em Gaza – e há mais de 15 anos que nenhuma delas tem sucesso.
As únicas vezes em que foi possível vencer o bloqueio naval imposto por Israel em Gaza foi nos primeiros anos do “cerco”, em 2008 e anos seguintes. Isso mesmo foi recordado, neste domingo, por um dos principais promotores desta iniciativa, o influencer brasileiro Thiago Ávila.
“Na altura era o Movimento Gaza Livre – as primeiras cinco missões conseguiram chegar a Gaza, é bom lembrarmo-nos disto“, afirmou o promotor. Tratava-se de um movimento fundado em 2006 por ativistas contra a guerra de Israel no Líbano.
Flotilha parte esta tarde de Barcelona para tentar “quebrar cerco da entidade zionista” em Gaza
Porém, acrescentou, “desde então, 37 barcos tentaram fazer esta mesma viagem e não conseguiram – muitos deles derrotados por ataques burocráticos, por pressão exercida pela entidade ‘sionista’ [Thiago Ávila nunca refere o nome de Israel] sobre governos, seguradoras, autoridades marítimas”.
Desde 2010 que nenhum barco deste género consegue chegar a Gaza. A forma como as autoridades israelitas responderam a este tipo de iniciativas tem variado, desde interceções pacíficas até operações mais contundentes que incluíram confrontos em alto mar e, até, bombardeamentos.
Logo em 2008, Thiago Ávila recordou que “tentaram abalroar um dos nossos barcos, que quase se afundou”. Pior foi em 2010, quando a Gaza Freedom Flotilla, que incluía o navio Mavi Marmara, que transportava 600 passageiros, foi abordada por comandos israelitas em águas internacionais.
A operação resultou na morte de nove ativistas e em vários feridos, desencadeando condenações e uma crise diplomática, particularmente com a Turquia (porque o navio era propriedade de uma organização não-governamental turca).
Nesse caso, investigações internacionais consideraram a imposição do bloqueio legal, mas avaliaram o uso da força como excessivo em relação às circunstâncias. Thiago Ávila também recordou esse caso, falando, no entanto, em dez participantes que terão morrido.
Israel, viria, anos mais tarde, a pedir desculpa por “erros operacionais” cometidos durante esse ataque. Um acordo de indemnização ainda está a ser negociado entre os dois países e, nesta fase, soldados e oficiais israelitas que participaram no ataque estão a ser julgados (à revelia) na Turquia por crimes de guerra.
Depois dessas primeiras missões, houve várias outras tentativas de entrar em Gaza – sempre sem sucesso. Em 2011, a Freedom Flotilla II foi pacificamente dissuadida de se aproximar de Gaza, com Israel a oferecer a alternativa de atracar em Ashdod (sexta maior cidade israelita) para inspeção e posterior transporte terrestre da ajuda. Os participantes foram detidos e deportados.
Mais tarde, em 2015, a Freedom Flotilla III foi intercetada a cerca de 100 milhas náuticas de Gaza. Houve, na altura, uma intensa pressão diplomática de Israel, além de suspeitas de sabotagem de navios. Ao pararem em países como a Grécia, os barcos foram impedidos de seguir viagem.
Só um deles, o Dignite-Al Karama, esteve perto de chegar a Gaza. Era um navio francês, com 17 passageiros a bordo, que declarou um porto egípcio como destino, quando abandonou as águas gregas, mas os ativistas anunciaram, depois, que se dirigiam para Gaza.
Mais uma vez, os comandos navais israelitas intercetaram o barco e rebocaram-no para a cidade portuária de Ashdod. Os ativistas foram detidos para interrogatório e posteriormente, deportados.
Algo semelhante aconteceu três anos mais tarde, em 2018, com a flotilha Just Future for Palestine. A campanha incluía dois navios principais, o Al Awda (O Regresso) e o Freedom, juntamente com dois veleiros de apoio, o Mairead e o Falestine.
A 29 de julho e a 3 de agosto de 2018, tanto o Al Awda como o Freedom foram intercetados e apreendidos pela marinha israelita em águas internacionais. Todos os que seguiam a bordo foram presos e houve relatos de que terão sido atingidos por armas de choque (tasers), bem como agredidos e espancados pelas forças israelitas.
A maioria dos participantes esteve detida vários dias, antes de ser deportada para os respetivos países.
Navio Conscience foi atingido em ataque com drones, em maio
A flotilha que saiu neste domingo de Barcelona corresponde já à terceira iniciativa neste ano de 2025, em que se tenta levar ajuda humanitária a Gaza. Numa referência à primeira dessas três missões, Thiago Ávila recordou que, “há quatro meses, bombardearam os nossos barcos entre Malta e Itália – intercetaram e raptaram dezenas de pessoas”.
Isso aconteceu em maio. Enquanto se preparava para navegar até Gaza, um navio da missão batizada de Conscience foi atingido duas vezes por um ataque com drones perto de Malta, a cerca de 14 milhas marítimas (25 quilómetros, aproximadamente) à costa desse país.
O bombardeamento causou um incêndio e danificou gravemente o casco, quase fazendo o navio afundar. Quatro pessoas ficaram feridas, com consequência desse ataque, com queimaduras e outros ferimentos.
Segundo os organizadores, os drones eram israelitas – mas Telavive nunca comentou oficialmente o incidente. Fontes militares disseram à imprensa israelita, no entanto, que em circunstância alguma se teria permitido que o barco chegasse a Gaza.
Mais recentemente, em junho, o iate de bandeira europeia Madleen, que levava a ativista Greta Thunberg a bordo, foi intercetado pela marinha israelita em águas internacionais, a cerca de 60 milhas da costa de Gaza. Foi, depois, rebocado até ao porto de Ashdod, sendo os ocupantes posteriormente deportados.
Thunberg foi rapidamente colocada num avião de volta a casa, mas outros ativistas estiveram vários dias detidos, incluindo o brasileiro Thiago Ávila, que chegou a fazer uma greve de fome e água. Os detidos queixaram-se de terem sido colocados em celas infestadas de percevejos, sem acesso a água potável e em condições insalubres.
Greta Thunberg just departed Israel on a flight to Sweden (via France). pic.twitter.com/kWrI9KVoqX
— Israel Foreign Ministry (@IsraelMFA) June 10, 2025
O Governo israelita justificou a interceção do navio com a necessidade de manter o bloqueio naval, no contexto da “situação de conflito armado” na região.