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ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Geovani Martins: "Acredito que a literatura africana e afrodescendente vai ser a mais importante do século XXI" /premium

Há uma mudança em curso na literatura. Geovani Martins, que nasceu e cresceu nas favelas do Rio de Janeiro, faz parte desse movimento de abertura, que acredita que será cada vez maior no futuro.

Aos 27 anos, Geovani Martins tornou-se no novo grande fenómeno da literatura brasileira. O seu primeiro livro, a coletânea de contos Sol na cabeça, publicado em 2018 no Brasil, foi recebido com um “estardalhaço”, como descreveu o jornal O Globo: os direitos foram vendidos a quatro países ainda nem o livro tinha sido publicado, foi imediatamente acordada a realização de um filme e Chico Buarque ficou “chapado”. A situação é inédita para um escritor estreante, e deve-se muito ao facto de o Sol na cabeça falar sobre temas que geralmente não têm lugar na literatura brasileira — a vida nas favelas do Rio de Janeiro, marcada pelo narcotráfico, a ameaça constante da polícia, a pobreza, a violência e a discriminação.

Martins conhece bem esta realidade. Nasceu, cresceu e viveu (e ainda vive) nas favelas cariocas, embora só tardiamente se tenha apercebido que era possível transformá-las em literatura. Durante anos, ignorou “o universo da favela enquanto literatura”, porque os livros que lia ”não se passavam naquele ambiente”, admitiu ao Observador em Óbidos, onde participou no festival literário FOLIO. Os escritores que falavam sobre as favelas sempre foram uma exceção e não a regra, uma realidade que, aos poucos, parece estar a mudar. “É possível ler cada vez mais autores da periferia, da favela, negros, contando histórias que deslocam a literatura brasileira desse lugar engessado onde se manteve durante tantos anos”, disse.

“É um movimento muito forte, e a gente se lê, se troca, se conversa. Realmente, é precioso viver neste tempo por este motivo, apesar de todos os problemas. Para quem faz arte e para quem vem deste lugar, talvez seja o momento de mais força em termos de movimento e não de concentração num indivíduo específico.”

Apesar de todos os retrocessos que têm vindo a acontecer no Brasil, onde o apoio às artes é cada vez menor, Geovani Martins acredita que “este movimento não pode ser apagado”. “Já atingiu um lugar de onde não pode ser derrubado facilmente”, afirmou em Óbidos. Quanto a si, garante que continuará a escrever sobre a periferia e a favela, uma decisão que diz ser política porque todas as decisões são políticas, mas, que acima de tudo, faz sentido neste momento. “Às vezes as pessoas me perguntam se não tenho medo que um dia, se quiser escrever sobre outra coisa, isso não seja bem visto ou como é que vou lidar com isso, mas a verdade é que já escrevo sobre outras coisas. No trabalho que faço como cronista [no jornal O Globo], falo sobre qualquer coisa, mas para escrever ficção vou sempre escrever sobre o universo que me interessa. E agora é isto que me interessa.”

A edição portuguesa do livro de contos de Geovani Martins saiu em julho, pela Companhia das Letras. A brasileira é de 2018

O sol na cabeça foi publicado no Brasil no ano passado, com grande sucesso, e chegou recentemente a Portugal. Muita coisa mudou desde então. Como é que tem vivido tudo isto?
Foi uma mudança completa, desde a casa onde moro, à alimentação que tenho, passando pelas possibilidades de conseguir estudar com maior facilidade. Se quiser comprar um livro, simplesmente compro, já não existe essa dificuldade toda. [Tem havido] muitos eventos, muitas coisas que são novas para mim. Confesso que quando vislumbrava ser um escritor, imagina outra coisa. Que ia só ficando escrevendo livros e que ia ser ótimo [risos].

E que não havia esta parte pública?
Sim, não considerava esta outra parte. Ela existe e é muito necessária, mas nem sempre me dou muito bem com isso. Sou muito tímido, falar em público é uma coisa que muitas vezes me desgasta emocionalmente. Mas tem uma outra coisa que é muito interessante, que é conseguir conversar com outros escritores contemporâneos, conhecer pessoas que têm um trabalho que tem ligação com o meu e até ter contacto com os leitores. São dois lados [deste trabalho] — um muito interessante e outro que é muito desgastante para mim, mas que, no fim de contas, é positivo, ainda mais se pensar que o livro tem tido uma vida longa, especialmente no Brasil, onde continua vendendo bastante. Quase dois anos depois do lançamento, continuam a me chamar para coisas. Mas agora acho que estou a chegar ao fim do que posso fazer por ele. Quando voltar, vou sossegar de vez e fazer o próximo.

Já sabe como será esse próximo livro?
Tenho trabalhado num romance.

Não quer voltar a escrever contos?
Quero, mas não agora. Escrevi alguns contos que poderiam dar um próximo livro, mas percebi que estava muito confortável nessa coisa do conto, que estava utilizando os mesmos recursos que usei no Sol na cabeça e que as histórias estavam ficando parecidas. Não na questão temática, mas na forma. Então achei que, se fizesse um novo livro de contos agora, seria muito fácil acabar me copiando. Para não me repetir, preferi arriscar outro género, descobrir como é que isso se faz. Estou a tentar fazer isso agora, a tentar descobrir o jeito de trabalhar uma narrativa mais longa. Realmente quero passar por essa experiência, mesmo que seja mais desconfortável. Uma coisa assim tão nova é sempre uma angústia, mas tem sido muito interessante, até para a minha formação enquanto escritor. Antes de ter escrito este livro, tentei fazer um romance, mas não consegui. Foi por isso que fiz um livro de contos. Era uma coisa com a qual já estava mais habituado. Passados quase cinco anos desde que o comecei, sinto-me mais preparado para investir numa narrativa longa. Estou realmente bastante curioso para ver a onde é que isto pode ir parar.

Os seus contos são geralmente muito curtos. 
Exatamente. Quando escrevi este livro, eram ainda mais curtos, mas consegui fazer uma coisa um pouco maior. A verdade é que sempre resolvi as histórias com muita rapidez. No romance, existem recursos que não podem ser usados — o final aberto, algum tipo de tensão. No romance, isso tem de ser resolvido de alguma forma. Sinto também que é um género literário que exige mais das personagens. No conto, estas podem ser criadas com a função de contar uma história; no romance, acompanhamos as personagens por muito tempo e precisamos de conhecer o seu universo o mais possível. Acho que esse universo maior cria as suas próprias demandas, então acabamos por ter de negociar mais com as personagem. A personagem do conto é mais obediente, e a do romance acaba fazendo exigências que justifiquem o final narrativo que vai sendo traçado ao longo do livro.

"Ver escritores afro-americanos, afro-brasileiros e africanos de vários países, faz-me acreditar que sim, que talvez este seja o século dessas histórias aparecerem com mais força. Está no começo, só passou o primeiro quarto de século, mas, com isso a acontecer, imagino que só vai crescer."
Geovani Martins

Não ficamos a saber muito sobre as personagens. Há muita coisa que é dita subtilmente. Uma coisa de que se tem falado muito é a questão da cor da pele. Não sabemos se as personagens são brancas ou negras.
Uma tentativa que faço, e que o conto me permite, é a de cobrar a participação do leitor, [pedir] que ele preencha coisas. O facto de não ter descrição física ou especial [obriga a isso].

Obriga a usar a imaginação.
Sim, obriga a que cada leitor tenha de ter a sua própria imagem daquela situação, daquelas personagens, o que para mim é muito interessante. Acho que muito do fascínio que tenho pela literatura vem disso. É por isso que tento deixar muitas coisas em aberto. No romance, isso fica um pouco mais complicado.

Em relação ao facto de as personagens não terem a cor escrita, isso já foi uma decisão política. Comecei a perceber que, na literatura brasileira, as personagens negras eram sempre racializadas, como se ser negro fosse a principal característica possível para elas. Muitas vezes só existiam com essa característica, não havia mais nenhuma que as definisse como seres humanos. Comecei a ficar muito incomodado com isso e, a princípio, foi uma espécie de vingança que fiquei tramando na minha cabeça. Falei: “Não, vou fazer um livro e apenas as personagens brancas vão ser racializadas”, e de facto é assim. Há dois momentos em que falo qual é a cor das personagens e elas são brancas. Só que essa vingança foi evoluindo enquanto conceito, porque percebi que havia a grande possibilidade de que essas personagens seriam lidas como negras mesmo sem as descrever. Isso diz muito sobre o imaginário sobre a população negra, principalmente no Brasil. Geralmente, quando uma personagem não é descrita, a literatura nos leva a imaginar que é branca. A regra diz isso. Por exemplo, no livro não digo [qual é a cor da pele], mas todo o mundo imagina as personagens como sendo negras. Quando leem este livro, assumem que estas personagens são negras, que as situações pelas quais passam são exclusivas da população negra no Brasil. Isso, para mim, tinha um potencial muito grande de provocação do imaginário popular.

Esse não é um problema exclusivo da literatura brasileira, é transversal. Embora nos últimos anos se tenha dado uma maior atenção a autores negros e afrodescendentes, a literatura continua a ser dominada por brancos.
Estamos num momento de transição, mas ainda é menos do que o necessário. Acredito que, provavelmente, a literatura africana e afrodescendente vai ser a mais importante do século XXI. São histórias que foram silenciadas durante muitos anos, então trata-se de um ponto de vista pouco explorado, não só no ponto de vista [propriamente dito], mas também num jeito de enxergar a vida e de tratar as personagens que é completamente diferente, o que traz uma lufada de ar fresco para a literatura, que vinha ficando cada vez mais repetitiva no sentido dos temas e se fechando em livros que eram de escritores que falavam de escritores. Isso foi ficando meio saturado, pelo menos no Brasil. Ver escritores afro-americanos, afro-brasileiros e africanos de vários países, faz-me acreditar que sim, que talvez este seja o século dessas histórias aparecerem com mais força. Está no começo, só passou o primeiro quarto de século, mas, com isso a acontecer, imagino que só vai crescer. Mas não se trata só de uma mudança dos escritores publicados, acho que isso também tem a ver com uma mudança do público, não só do público instituído, que busca novas coisas, mas também pelo aparecimento de um novo público com pessoas que, até há pouco tempo, não se encaixavam no perfil do leitor regular e que agora se interessam por literatura, talvez por encontrarem livros com os quais se identificam. De facto acredito nessa mudança, que tem vindo a acontecer, e por mais que não seja na velocidade ideal, sinto que está a acontecer. Sinto-me feliz por fazer parte desse movimento. Converso com escritores negros mais velhos e eles contam-me as suas experiências. Foi sempre uma solidão muito grande — ser o único escritor lido naquele lugar, o único autor daquela cena. Hoje em dia, eu por exemplo, não me sinto sozinho, sinto-me acompanhado. Acho isso muito potente.

Geovani Martins esteve em Óbidos para participar no festival literário FOLIO

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Sente que essa mudança também está a acontecer no Brasil?
Está e é muito forte. No Rio [de Janeiro], existe um movimento muito forte porque é a cidade onde começou a FLUP, a Festa Literária das Periferias, que revelou muitos escritores jovens, eu incluído. Essa feira vai na sétima edição consecutiva e já revelou muitos escritores, publicou mais de 20 livros e formou muitos leitores, o que acho importante. Escrevo para o jornal O Globo e uma outra menina, que foi revelada pela FLUP, também escreve para o Globo; estou na [editora] Companhia das Letras e outro amigo que foi revelado pela FLUP também. Há outros que também estão em editoras médias ou grandes. Enfim, a cena [literária carioca] foi muito contaminada por esse evento e muitos dos atuais atores principais passaram por lá. Isso se repete em outras áreas do Brasil com diferentes proporções, mas é possível ler cada vez mais autores da periferia, da favela, negros, contando histórias que deslocam a literatura brasileira desse lugar engessado onde se manteve durante tantos anos. É um movimento muito forte, e a gente se lê, se troca, se conversa. Realmente, é precioso viver neste tempo por este motivo, apesar de todos os problemas. Para quem faz arte e para quem vem deste lugar, talvez seja o momento de mais força em termos de movimento e não de concentração num indivíduo específico, como aconteceu com o lançamento da Carolina Maria de Jesus, [uma escritora negra conhecida pela obra Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada,] que vendeu milhares de cópias [nos anos 60]. Só existia ela. Depois com o Paulo Lins [autor de Cidade de Deus, que também vendeu] milhares de cópias. Só existia ele. Hoje em dia, há várias opções. Há muitos autores com quem se pode trocar experiências, e acho que, apesar de todos os retrocessos que a gente tem tido em termos de apoio à arte e à cultura no Brasil, este movimento não pode ser apagado. Já atingiu um lugar de onde não pode ser derrubado facilmente.

Numa conversa em que participou aqui em Óbidos, usou a expressão “ódio à arte no Brasil”. Sente isso pessoalmente?
Não sinto, no sentido em que o meu livro não pode ser boicotado por essas pessoas porque essas pessoas não compram livros. Se disserem que vão boicotá-lo, não faz diferença nenhuma. Mas existe, principalmente em relação aos músicos, um ódio público. Em relação a alguns atores também. Aos 90 anos, a Fernanda Montenegro começou a ser insultada, o que para mim é o absurdo do absurdo. Acho que é preciso respeitar qualquer pessoa com 90 anos, principalmente uma que tem contribuído tanto para o país.

É um ódio mais direcionado aos artistas mais conhecidos, mais expostos?
E aos que se posicionam politicamente. Existe esta burrice de que a arte e a política não se misturam, mas quem fala isso é alguém que não entende nada de arte ou de política.

Mas existem artistas que preferem manter-se afastados da esfera política.
Não é preciso estar envolvido, basta dizer alguma coisa que destoe da ideologia destas pessoas. É o suficiente para virar comunista. Eles ressuscitaram o comunismo no Brasil.

Esse ódio à cultura passa por várias esferas. Por exemplo, estão a fazer uma adaptação para o cinema do meu livro e a [Agência Nacional do Cinema] ANCINE está a passar por momentos muito complicados de censura, de cortes no orçamento. O filme sobre o meu livro foi um dos que entrou para uma lista [de produções que não vão receber financiamento] da ANCINE, porque fala de maconha. A maioria dos filmes que foi vetada tem temática LGBTI. Existe uma tentativa de incitação ao ódio à cultura e aos artistas do país, principalmente porque estes entendem que há um compromisso de posicionamento contra certas coisas. O mesmo acontece com a media, com essa tentativa de acabar com a credibilidade da media brasileira e com um jeito que arrumaram para continuarem propagando notícias falsas e falando o que quiserem, porque quando se desacredita a media, o que é que se pode fazer depois? São táticas muito bem pensadas. Não sei por quem, mas estão a ser executadas aos poucos. Foi colocado um cara super estranho [o encenador Roberto Alvim] que vai cuidar das coisas de teatro e cinema [na Fundação Nacional de Artes] que quer [criar] um teatro cristão no Brasil. São estas pequenas coisas, que vão sendo feitas a partir do núcleo governamental, que se vão espalhando pela população que apoia estas pessoas.

É muito difícil saber [o que realmente se passa], até porque vivo muito protegido ao nível pessoal. Não tenho nenhum conhecido ou amigo que esteja neste grupo de pessoas que estão insultando os artistas e pela Internet não é possível saber o que é verdade ou o que é mentira. Sei que tem havido um boicote. Quer dizer, não é um boicote, porque estas pessoas não iam a um show, não compravam livros, não iam ao cinema. Me lembro de falarem que iam boicotar o filme do Kleber [Mendonça Filho, “Bacurau”, co-realizado com Juliano Dornelles, que ganhou o prémio do júri em Cannes em 2019], mas [estas] são pessoas que nunca vi no cinema assistindo a um filme nacional. O boicote é quando se para de ir, não é quando nunca se vai. Mas de alguma forma isso tem efeito. Não no sentido prático, mas porque se vê muita gente falando mal na Internet, muitos comentários negativos, que acabam afetando quem talvez tivesse interesse em ir ver o filme. É perigoso.

"Existe uma tentativa de incitação ao ódio à cultura e aos artistas do país, principalmente porque estes entendem que há um compromisso de posicionamento contra certas coisas. A mesma coisa acontece com a media."
Geovani Matins

Ter escolhido escrever sobre a favela também foi um posicionamento político?
Exato. Acho que escrever é sempre um posicionamento político. Podemos escrever sobre qualquer tema.

As opções são sempre muitas.
São. Por exemplo, escrevo crónicas para o jornal. Muitas vezes acabo a responder a assuntos daquela semana, mas noutras me dou a liberdade de escrever sobre o que quiser. A última crónica que escrevi fala sobre Amoroso, um disco de 1977 do João Gilberto. E o Brasil pegando fogo em volta. Para mim, isso também é uma escolha política — escrever sobre um disco que amo num momento em que há um monte de coisas ruins acontecendo. Porque é que digo que é uma escolha política? Porque não aceito que pautem o meu pensamento a esse ponto, me obrigando a ficar reagindo o tempo todo. Enquanto artista, tenho o direito de propor os meus próprios temas. Então, fugir da questão política em alguns momentos também é, para mim, uma opção política. É lógico que fugir dela uma vez ou outra não significa que vou evitá-la para sempre, mas não me deixar cair nesse lugar de reação constante já é, para mim, uma escolha política.

Agora, falando do livro, acho que qualquer tema sobre o qual escolha escrever também o vai ser, porque tem o mundo inteiro para escrever. Se escolhi aquilo, foi por um motivo, e esse motivo tem uma razão política com certeza, mesmo que ela não tenha sido processada concetualmente. A escolha dos temas [para estes contos] foi algo muito natural. Eram temas que me fascinavam, que me incomodavam fazia alguns anos. Fui elaborando estas histórias aos poucos e fui pensando o que é que realmente me interessava nestes temas. Não escolhi que faria um livro sobre isto, isto era o livro possível, o livro que poderia escrever naquele momento. Mas é lógico que isso passa por uma decisão política de trabalhar em cima deste universo. Acho que escrever este livro teve muitas coisas envolvidas. Há o facto de ter muitas vezes ignorado o universo da favela enquanto literatura. Apesar de ter sido criado na favela e de sempre ter gostado de ler, o facto de ter lido livros que não se passavam naquele ambiente, me afastou daquilo.

Cresceu na favela mas sentia que a favela não podia ser um tema literário?
Não, porque nunca a tinha visto na literatura. Achava que literatura era outra coisa.

Disse que costumava ler Shakespeare e Dostoiévski. São dois autores que estão muito distantes dessa realidade.
Não tem nada a ver. Em 2013, 2012, fui fazer teatro, e a companhia em que comecei a trabalhar fazia uma peça chamada Shakesfunk, que era um sketch de Shakespeare num contexto de baile de funk. Aquilo foi, para mim, muito impressionante. Foi quando entendi que era possível misturar tudo. Comecei a me interessar por esse universo enquanto literatura, por estas personagens enquanto literatura e, principalmente, por esta linguagem enquanto literatura. Talvez este livro também tenha sido um jeito de me desculpar por ter passado tantos anos ignorado isto, que era tão potente e que estava à minha volta. No fim de contas, escrever este livro foi inevitável. Estes temas cresciam cada vez mais e queria escrever um livro por vários motivos. Um deles, o principal, é que precisava de ter uma profissão. Falo isto sem vergonha nenhuma. Não tinha profissão, tinha saído da escola, sabia que tinha potencial para escrever um livro e falei: “É isso que eu vou fazer, é a única coisa que eu sei fazer”.

O escritor, que nasceu e cresceu nas favelas do Rio de Janeiro, é considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira contemporânea

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Isso quer dizer que ser escritor não era um sonho antigo?
Não, o meu sonho era trabalhar com alguma coisa de que gostasse. Podia ser com música, com teatro, com literatura, artes de que gosto. Mas, a verdade, é que não sou bom músico, sou bem medíocre. Tenho de estudar muitas horas por dia para ser medíocre. Sentia que não conseguia passar de nível, o que me incomodava, então abandonei a música enquanto profissão. Depois fui fazer teatro, mas odiava o palco. Acabei de referir essa minha dificuldade em falar em público enquanto escritor. Aliás, enquanto escritor é ainda mais difícil ainda, porque não existe personagem. Quer dizer, até existe, é a personagem escritor, mas ele não tem texto decorado, não tem deixa para entrar e para sair. Já na época do teatro, era difícil me apresentar, era difícil a convivência com outros atores. Era uma coisa de ego que, para mim, não faz sentido. Percebi que o que mais me interessava no teatro era o texto. Sempre gostei mais de ler as peças do que atuar, no fim das contas. E aí ficou a literatura, que é um pouco a génese do porquê de gostar tanto destas artes. Gosto muito de música, mas o meu amor pela música passa muito pela literatura, pelas letras. O meu amor pelo teatro passa pelo texto. E aí, eu que sempre escrevi, comecei a publicar algumas coisas em antologias e revistas, e os meus textos começaram a chamar a atenção de muita gente, em 2013, 2014. Foi aí que comecei a perceber que talvez fosse a coisa em que devesse investir enquanto profissão. Do que fazia, era o que as pessoas mais gostavam e era o que fazia com mais naturalidade e liberdade. Era realmente o lugar onde me conseguia expressar de uma forma mais completa. Em 2015, decidi que ia fazer um livro. Publicar um livro e começar a trabalhar com ele era um projeto de vida. Posso dizer que o meu sonho sempre foi não ser escravo de um trabalho que me prendesse durante oito horas, mais duas horas de transportes e o fim de semana. Aos poucos, fui achando o lugar ideal para conseguir fugir desse tipo de vida que recusei desde cedo.

Foi uma decisão corajosa. Viver da arte nunca é fácil.
É difícil, mas para mim é ainda mais difícil viver a vida inteira a fazer uma coisa de que não gosto. Nunca entrou na minha cabeça, nunca consegui aceitar isso, desde pequeno. Tanto que nunca tive um emprego fixo, sempre arrumei um de fim de semana ou em que trabalhava uma semana e depois não tinha mais trabalho. A ideia de ter um compromisso, de estar ali todos os dias no mesmo horário, sempre me assustou muito. Nunca consegui acreditar que o ser humano tivesse sido inventado para poder passar por isso. Por mais difícil que pudesse ser trabalhar com arte, era mais difícil ainda trabalhar como garçom, por exemplo, porque teria de viver a vida inteira naquele lugar e passar por situações que seriam muitas vezes constrangedoras, por abusos da parte de um patrão que paga mal, que trata mal.

Além de a literatura ter sido uma forma de escapar a um futuro que não o faria feliz, também lhe abriu outras possibilidades. Agora pode dedicar-se aos estudos, como disse há pouco. Antes não tinha forma de o fazer.
Exatamente. Era tudo mais difícil — conseguir um livro, o tempo para poder estudar, para me dedicar ou para fazer um curso. Hoje em dia, as coisas são mais fáceis. A questão do dinheiro facilita bastante a nossa vida. Costumo dizer que só romantiza a pobreza quem nunca foi pobre, porque é muito ruim querer fazer uma coisa e não ter dinheiro para pagar um ônibus, ou ter cinco reais e não saber se janta ou se deixa para tomar café noutro dia. Isso não tem romantismo nenhum. Resolver essas questões é um grande passo na evolução de qualquer artista. O Paulo Freitas dizia sempre que as pessoas aprendem melhor quando estão bem alimentadas, e posso garantir isso. Ninguém se consegue concentrar num texto com fome. As coisas foram acontecendo naturalmente, mas com muito esforço e com uma coisa muito bem definida. Acho sempre estranho quando os artistas dizem “ah, eu fui fazendo uma coisa assim e do nada aconteceu”. Para mim, não, pensava nisso todos os dias. “Onde é que vou publicar este livro, quem vai querer lê-lo, como é que vai ser depois de o publicar, para que tipo de trabalho me vão chamar…” Era um projeto muito sério que corria paralelamente à minha criação. Ao mesmo tempo que pensava nas histórias, pensava em maneiras de viabilizar este livro enquanto trabalho, porque era o que tinha para oferecer.

Sei que a sua mãe foi muito importante para a realização deste projeto. Apoiou-o muito.
Pois é, apoiou bastante. Saí de casa muito cedo, com 17 anos. Quando tinha 23 ou 24 anos, comecei a escrever este livro e voltei a morar com ela para poder trabalhar só nele. Encarei isto como um trabalho. Tinha meu horário, acordava todos os dias às nove, começava a escrever às dez e meia e parava de escrever às seis, sete horas da noite. Sem ter de colocar dinheiro em casa, sem ter de comprar comida, sem ter de nada. A minha mãe foi uma pessoa muito importante na produção do livro, porque me deu apoio a 100%. Ela acreditava que podia fazer um trabalho interessante. Lia-lhe os textos sempre que terminava. Foi graças a ela que consegui realizar este livro porque, quando morava sozinho, tinha preocupações que me impediam de dedicar o meu tempo inteiro à literatura, como pagar a casa, comprar comida. Foi fundamental voltar a morar com ela e, no meio disto tudo, ela deu-me uma máquina de escrever depois do meu computador ter quebrado. A máquina foi importante. Se não tivesse trabalhado na máquina, teria feito um livro completamente diferente.

"Para mim é ainda mais difícil viver a vida inteira a fazer uma coisa de que não gosto. Nunca entrou na minha cabeça, nunca consegui aceitar isso, desde pequeno. Tanto que nunca tive um emprego fixo, sempre arrumei um de fim de semana ou em que trabalhava uma semana."
Geovani Martins

Porquê?
Porque, como disse, resolvia os meus textos muito rapidamente e acabavam sendo curtos. A máquina me obrigava a reescrever, a repensar as possibilidades. Os meus textos foram ganhando fôlego e o tratamento da linguagem se foi tornando mais minucioso. Por mais que houvesse uma frase boa aqui e outra ali, o meu compromisso inicial sempre foi o de contar uma história. Tenho esse compromisso até hoje, da linguagem não ser o fim, mas o meio, de servir como ferramenta para contar uma história e de nunca contar uma história porque quero exibir algum tipo de linguagem.

Mas a forma como usa a linguagem — a linguagem da rua, da favela — é um dos aspetos mais interessantes do seu livro. 
Por isso é que digo que a máquina foi fundamental porque, antes de passar por este processo, tinha um compromisso muito grande de contar a história. Às vezes dava mais certo, às vezes dava menos, mas era isso. Quando comecei a trabalhar com a máquina, comecei a reescrever muitas vezes o mesmo texto e, como disse, num primeiro momento, isso me deu fôlego. Num segundo momento, me deu um tratamento mais minucioso de cada palavra. Comecei a pensar muito mais sobre tudo — sobre a pontuação, as frases como um todo –, e isso se começou a tornar uma preocupação muito grande. Fui ficando muito mais exigente com cada palavra que pudesse entrar no meu texto. Esse trabalho com a linguagem está também relacionado com um momento da minha vida em que me interessei muito pelas muitas formas de falar o português brasileiro que cada pessoa tem em si. Digo isso porque as pessoas falam um tipo de língua em casa, outro no trabalho, outro na rua. Em cada ambiente existe um idioma que é codificado a partir das relações que são impostas. A relação, familiar, social ou profissional no trabalho, gera códigos e esses códigos mudam a forma como as pessoas falam, e isso estava me interessando muito. E, como morei muito tempo na Rocinha [no Rio de Janeiro], acabei ficando curioso por essa movimentação dessa língua brasileira que está sempre em movimento, que nunca fica parada. Está sempre se reconstituindo. Percebi que isso tinha a ver com o encontro de muitos Brasis diferentes nesses ambientes. Falo na Rocinha porque, por ser uma favela muito grande que recebe muita gente de todo o Brasil, obriga as pessoas a conviverem umas com as outras e cada uma vai contaminando a outra com as suas próprias referências culturais e linguísticas. Me encantei muito com isso e com a possibilidade de trabalhar isso na literatura, até como registo da língua de uma época.

Sei que, daqui a dez anos, essas gírias serão nostálgicas. E é bom que sejam, porque prova que a língua está em movimento e que vai chegar a um lugar que é também o da memória afetiva. Fico imaginando este livro sendo lido daqui a 20 anos por alguém que foi criança na época em que o escrevi e que essa pessoa se vai lembrar de palavras que ouviu na infância, num processo parecido com o que me aconteceu quando li a Cidade de Deus. Ler a Cidade de Deus foi uma emoção muito grande também por esse motivo. Li coisas que ouvi enquanto crescia e que nunca tinha imaginado que pudessem estar dentro de um livro. Houve coisas que pensava que só eram faladas na minha rua e que vim a descobrir que eram ditas em várias partes da cidade. A possibilidade de fazer isso com outra pessoa me encantou bastante.

O sol na cabeça é um retrato do agora?
De uma época, principalmente. Dou poucas informações precisas, mas tenho tudo na cabeça. Imagino este livro se passando entre 2000 e 2015. São 15 anos de possibilidades. Assim como a língua, as situações mudam. Pode ser para melhor, pode ser para pior, mas com certeza que vai ser diferente. O que está aí registado é um momento da cidade. Acho que os livros cumprem muitas funções na nossa sociedade e uma delas é essa — a do registo de um tempo.

Geovanni Martins está a preparar um novo livro, um romance passado na favela da Rocinha

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Falou na Cidade de Deus e tocou novamente na questão da pouca informação que por vezes fornece ao leitor. Uma coisa que sabemos que existe mas que nunca vemos é a violência, ao contrário do que acontece na obra de Paulo Lins. Porquê é que fez esta escolha?
A Cidade de Deus foi um livro muito importante para mim. Descobri muitas coisas que queria fazer, mas também me mostrou muitas coisas que não queria fazer. Uma delas foi fazer um livro em que a violência fosse o foco. É perfeitamente normal que a Cidade de Deus seja um livro onde a violência está no centro, porque é um livro sobre criminalidade. Não queria fazer um livro sobre criminalidade, por isso não fazia sentido que violência estivesse no centro. Por que é que trabalho a violência dessa forma? Porque está a fazer um contraste com personagens muito vivas, com dramas muito corriqueiros.

Com vidas normais.
Sim, com vidas normais. Essa tensão que corre fora do quadro, que não acontece agora mas que pode acontecer na próxima página e, enquanto isso, a personagem vai vivendo a vida dela normalmente, me interessa muito. A tragédia não me interessava para este livro. Não me interessavam os corpos alvejados ou os presos ou o que fosse, porque a tragédia em si carrega esta coisa de que algo se fechou, que aquele ciclo está fechado. Acho que este livro trabalha com outro campo, que é o das possibilidades abertas. Quando isso acontece com personagens muito vivas, podemos imaginar qualquer futuro para elas.

Até porque as personagens são todas muito jovens.
Exato. Quando a violência surge para fazer um contraste, as personagens podem ter um grande futuro ou não ter futuro nenhum. É muito interessante brincar com essa possibilidade. Nada está resolvido no livro, porque acredito que nada está resolvido no tipo de situações que são retratadas. Acho que este livro é muito mais sobre abrir uma discussão do que dar respostas sobre uma coisa ou outra. Por isso é que a violência está sempre em redor e nunca no centro. O centro destes contos são as personagens, estas pessoas, estas vidas. A violência faz parte do todo. Isto vem de uma ideia que venho defendendo faz algum tempo, que é a violência como uma coisa que está no mundo e não nas favelas como muitas vezes as pessoas querem acreditar. Porque é que digo isto? Porque a violência é uma coisa humana. Estamos aqui, num lugar com arquitetura do século XIII. Nesse tempo não existiam favelas, mas a violência era constante. Como é que hoje em dia só existe na favela? Não, é uma coisa do ser humano. Mas é lógico que lugares com uma maior vulnerabilidade social têm problemas diferentes relacionados com a violência.

"O centro destes contos são as personagens, estas pessoas, estas vidas. A violência faz parte do todo. Isto vem de uma ideia que venho defendendo faz algum tempo, que é a violência como uma coisa que está no mundo e não nas favelas como muitas vezes as pessoas querem acreditar."
Giovani Martins

Acha que há um foco demasiado grande na questão da violência e que, por causa disso, outros problemas são ignorados?
Claro. Como é que se pode falar de violência sem discutir o saneamento básico, o acesso à cultura e à educação? Para mim, é uma discussão completamente impossível. A maneira como as pessoas lidam com isso é completamente irracional. Vou dar um exemplo. Assassinaram um traficante de droga muito famoso no Rio e todos os jornais fizeram uma cobertura sensacionalista do caso. Falaram da importância da operação [policial], entrevistaram o polícia que o matou. Você lê aquilo tudo e no fim de contas pergunta: “‘Tá bom, mas o que é que mudou no tráfico de droga no Rio de Janeiro depois daquela morte?”. Não mudou nada. Alguém o vai substituir e pronto. É uma coisa que às vezes serve muito mais para dar resposta a uma parcela da sociedade que exige que essas coisas sejam feitas, mas que não tem nenhum impacto efetivo no combate à venda de drogas. Isso tem de se combater nas fronteiras, evitando que as armas cheguem, que as drogas cheguem. É um absurdo que se preocupem com a criminalidade quando menos de 5% da população da favela está ligada ao crime e ninguém queira saber da questão do saneamento básico, que atravessa a vida de todos aqueles moradores. Esse imaginário é muitas vezes reforçado pelos jornais, pela televisão e até pela própria literatura em alguns casos. Acho que é uma maneira de não se encarar essa questão e, pior ainda, de não se incluir as periferias no contexto da cidade. Parece que as pessoas ainda não entenderam que a favela, o bairro e a cidade são a mesma coisa, são o mesmo espaço. Quando as pessoas passarem a ter mais oportunidades e a ter mais campos de trabalho, a sociedade melhora como um todo. A impressão que tenho é que a classe média e a classe média-alta no Brasil preferem ganhar menos do que ver as pessoas que são subalternizadas a ganharem mais. É mais interessante estar nesse lugar de poder do que ter uma economia forte. Isto tem a ver com uma mentalidade escravocrata da qual carregamos cicatrizes até hoje. Fomos o último país a abolir a escravatura e acho que esse imaginário ainda é muito forte e muito decisivo na tomada de decisões.

Vamos voltar ao início da nossa conversa: o seu primeiro romance. Vai voltar à periferia e à favela?
Sim, vou voltar. É um romance que se passa na Rocinha, entre os anos de 2011 e 2013. É um livro que fala sobre droga, sobre a relação com as drogas novamente, um tema que me fascina e pelo qual me interesso muito; fala sobre a naturalização da violência, que também é outro tema que me fascina; e fala muito sobre a família. Uma das coisas que gostei de fazer no Sol na cabeça foi ter explorado esses dramas familiares, mas sempre de uma forma muito rápida, porque o conto não era sobre isso mas falava sobre isso. O romance dá-me mais possibilidades de aprofundar isso e de misturar outros temas que me interessam. Agora a coisa de escrever sobre a favela: às vezes as pessoas me perguntam se não tenho medo que um dia, se quiser escrever sobre outra coisa, isso não seja bem visto ou como é que vou lidar com isso, mas a verdade é que já escrevo sobre outras coisas. No trabalho que faço como cronista, falo sobre qualquer coisa, mas para escrever ficção vou sempre escrever sobre o universo que me interessa. E agora é isto que me interessa.

É o que faz sentido.
Sim, é. Acho que se pode escrever sobre qualquer coisa, mas é preciso começar pelo básico, por aquilo de que gostamos de falar, por aquilo de que queremos falar.

Escrever é um trabalho, mas também é um prazer.
Isso faz-me lembrar um livro do Lawrence Olivier, Confissões de um Ator, em que ele fala sobre as dificuldades de trabalhar com a escrita, sobre essa solidão, sobre esse trabalho que é também muito físico, porque exige do corpo, das costas, das mãos. E ele diz: “Enquanto escrevi esse livro, lembrei-me de uma história de um homem que ficava batendo com a cabeça na parede o tempo todo. Depois alguém perguntou ‘porquê é que faz isso?’, e ele respondeu ‘é tão bom quando eu paro!’” [risos]. Escrever, para mim, passa muito por esse lugar. Às vezes, é uma tortura, mas me divirto bastante imaginando essas histórias, esses diálogos, lembrando de coisas, de factos históricos, programas de infância, gírias, que acabo incluindo nos textos. É uma diversão muito grande, e uma angústia muito grande também dar vida a um universo grande. Não é um trabalho fácil, mas tem várias coisas que me encantam.

Então ainda não se arrependeu.
Não, nem um pouco. Estou muito contente por conseguir trabalhar, me sustentar e ter uma vida digna enquanto escritor. É uma coisa que gosto de fazer, que sei fazer, e que acho que é importante fazer. Acho que é importante escrever, ler, e tento fazer o melhor possível. Este é um livro que tem atingido muito a população jovem, tem conquistado muitos jovens leitores e tem formado novos escritores, em alguma medida. Ao mesmo tempo, acho que muita coisa se resolve em mim também. Vivemos num momento em que uma das grandes lutas que temos enquanto artistas, enquanto seres humanos, enquanto qualquer coisa, é a do significado das coisas, é perceber o que é que ainda faz sentido. E escrever literatura é uma coisa que, para mim, faz todo o sentido.

O Observador viajou até Óbidos a convite do FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos

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