O meteoro caiu com estrondo, mas os sociais-democratas olham para a cratera que se abriu no próprio quintal e imaginam tudo menos o risco de extinção. Menos de 24 horas depois da hecatombe de Luís Marques Mendes, a atitude no partido pode ser resumida a uma ideia: ‘Não sei, não vi e não estive lá’. Contados os votos, a cúpula social-democrata, pese embora tudo o que defendeu nos últimos meses, diz agora que perder estas presidenciais era, afinal, uma fatalidade. Não é exatamente negação; é virar a página e torcer para que António José Seguro seja tudo aquilo que acreditam que vá ser: um Presidente da República cooperante. A hipótese da eleição de André Ventura mal entra na equação.
Durante as próximas três semanas e até ao dia 9 de março, data em que o próximo Chefe de Estado tomará posse, a ideia é, no fundo, aguentar na apneia da neutralidade. “Luís Montenegro fez o que tinha de fazer. Não podia ter sido de outra forma”, assinala uma figura influente da área da AD. “Agora, o Governo tem até ao início de março para pensar no ímpeto que quer dar para enfrentar este novo ciclo”, continua a mesma fonte. Entre sociais-democratas, aliás, já abriu a caça aos ministros remodeláveis. “Quem se deitar a adivinhar se o primeiro-ministro vai remodelar A ou B, vai falhar. Só está na cabeça dele”, corta ao Observador uma fonte do Governo, que relativiza o que aconteceu no domingo. “É só um pico de febre, nada mais.”
Resta, por isso, trabalhar com os cenários que existem e que são simples de resumir: ou Luís Montenegro tem pela frente anos de coabitação com o socialista António José Seguro; ou tem anos de coabitação com André Ventura, que quer substituir o PSD enquanto partido liderante à direita. De acordo com os sociais-democratas ouvidos pelo Observador, e com os sinais públicos que muitos notáveis da direita foram dando nas últimas horas, a escolha é óbvia e recai naturalmente sobre o socialista. Mas, acredita-se no Governo, António José Seguro terá de fazer a sua parte para lançar as bases desse caminho a dois.
“António José Seguro tem de dar algum sinal de abertura ao centro-direita moderado já nesta campanha. Porque precisa dos nossos votos para ser legitimado como Presidente da República. Uma votação na casa dos 50% não lhe basta”, nota um elemento do núcleo duro de Luís Montenegro. Depois, insiste a mesma fonte, é preciso entender que os próximos cinco anos serão apenas a primeira parte do grande jogo que António José Seguro está a jogar. Sendo eleito, o socialista buscará, claro, a reeleição daqui a cinco anos. “Vai ter de procurar isso no seu primeiro mandato, essa transação com a direita. Vai querer boas taxas de aprovação e vai ter de mostrar independência face ao PS.”
Ora, digerido o choque com a derrota por números redondos de Luís Marques Mendes, é a esse pensamento positivo que se vai agarrando o Governo de Luís Montenegro. No fundo, os sociais-democratas não acreditam que António José Seguro, pelo perfil que tem, pelo percurso que fez no PS e pelo que demonstrou nesta campanha, se esteja a candidatar para ser um obstáculo permanente para Luís Montenegro. “Vai existir a tensão natural entre palácios, claro. Mas quem vê em António José Seguro o candidato do socialismo está muito enganado”, sentencia uma influente figura da AD.
Em campanha, Montenegro ainda chegou a ensaiar a colagem de António José Seguro à “extrema-esquerda”. Mas, tratando-se de um socialista que não faz parte da ala mais à esquerda do PS, coisa que o Bloco de Esquerda e o PCP passaram a campanha a lembrar, e que é recordado por não ter feito oposição dura a Pedro Passos Coelho nos tempos da troika, dificilmente seria visto como um representante da esquerda mais radical. A derrota de Luís Marques Mendes foi óbvia e está assumida, mas uma eleição de Seguro não é a pior consequência que pode advir destas eleições.
“António José Seguro é um guterrista, um centrista no PS. Ele vai pôr a andar todos aqueles que, no PS, o tentarem puxar para o confronto direto com o Governo. Vai fazer tudo by the book até à reeleição, em 2031″, sentencia um elemento da equipa mais restrita do Executivo. “O partido de António Costa morreu na noite de 18 de janeiro de 2026.”
Ventura são outros quinhentos
Já uma eleição de André Ventura seria um problema bem mais bicudo — sobretudo numa altura em que o presidente do Chega já aproveita para se autoproclamar como “o novo líder da direita“. Sendo o único representante desse espaço político na segunda volta, vai aproveitar para desafiar e pressionar ao máximo o PSD nesse combate particular. Ainda assim, entre sociais-democratas ouvidos pelo Observador, há quem tente desvalorizar a ameaça, perguntando sobre quais seriam, na realidade, os efeitos práticos de uma eleição de Ventura em termos constitucionais: “O que vai fazer? Dissolve os parlamentos de três em três meses?”.
Não deixa de ser um visão algo redutora do desafio para o Governo que seria Ventura no Palácio de Belém. Até porque o líder do Chega pode simplesmente assumir o papel de agente do caos, enquanto tenta que o o seu partindo vá ganhando espaço, capturando o PSD. “Para já, vá pedindo às alminhas para que André Ventura, na segunda volta, não tenha mais votos que os que o próprio Montenegro teve nas legislativas”, provocou esta segunda-feira Pedro Nuno Santos.
Ninguém quer verdadeiramente encarar essa hipótese como sendo provável — e, olhando para todas as sondagens feitas até aqui, não é de todo provável. Mas há um risco bem mais real e bem mais imediato: mesmo tendo em conta os anticorpos que Ventura gera, que assim seja, os resultados da matemática da segunda volta não são dados como líquidos no Governo. E não falta quem faça contas de somar com os apoiantes de Cotrim Figueiredo, Gouveia e Melo e possivelmente até de Marques Mendes que podem preferir Ventura numa corrida contra um representante da esquerda, ainda que moderada.
Todos esses eleitores são eleitores potenciais da AD. Portanto, se essas pessoas decidirem dar uma oportunidade ao líder do Chega é uma barreira psicológica que se quebra: se se vota uma vez no Chega, não há muitas razões para que, no futuro, não se venha a confiar de novo em André Ventura. É essa a grande aposta do presidente do Chega e é esse o grande receio de quem pensa a estratégia da AD. “O risco reside aí: na mescla do eleitorado da AD com o eleitorado do Chega. Isso não deixa de ser verdade”, reconhece fonte do núcleo duro de Luís Montenegro.
Assumindo a neutralidade como posição oficial do partido e, por extensão, do Governo, não há muito que Luís Montenegro possa agora fazer. Tudo dependerá do talento do presidente do Chega na segunda volta. “Se André Ventura não for inclusivo, se não der provas de alguma moderação, se continuar a atacar o montenegrismo e a ofender o PSD, então dificilmente conseguirá crescer muito mais”, argumenta fonte social-democrata. Em sentido inverso, se conseguir continuar a “transfiguração” que foi ensaiando durante a primeira volta, a sua capacidade de atração do eleitores da AD será muito maior. Para Montenegro, será muito diferente lidar com um Ventura que vale 30% do que liderar com um Ventura que vale 40 ou 45%.
Relativização de uma derrota histórica
No PSD, recorda-se o passado para tentar desarmadilhar as surpresas que esta segunda volta pode trazer. Por um lado, é inegável que a hecatombe de Luís Marques Mendes é uma derrota da AD — quanto mais não seja porque Luís Montenegro se empenhou pessoalmente na eleição do seu padrinho político e pediu aos seus apoiantes que não alinhassem no “masoquismo político” de não colocar um social democrata na segunda volta. Sem sucesso. Por outro lado, historicamente a regra é mesmo que o eleitorado não escolha um Presidente que vá estar alinhado com o Governo — a eleição de Mendes teria sido, em rigor, uma exceção.
Assim, a convivência com António José Seguro, se este for eleito, não parece muito diferente do cenário com que outros primeiros-ministros sociais democratas e socialistas já foram confrontados. “Quantos primeiros-ministros tiveram vitórias em eleições presidenciais?”, desafia um destacado social-democrata. Foi o caso de António Guterres, que, tendo vencido as legislativas de 1995, viu Jorge Sampaio — que tinha avançado de surpresa, deixando o líder do PS “à rasca” — vencer as presidenciais em janeiro de 1996. De resto, a teoria de que os portugueses não gostam de colocar todos os ovos no mesmo cesto (ou entregar o poder ao mesmo partido em todos os níveis de poder e governação) costuma funcionar.
O que aconteceu não é, por isso, anormal — “em todos os outros casos [exceto Guterres-Sampaio], os primeiros-ministros perderam. Veio daí mal ao mundo?”, desafia a mesma fonte. António José Seguro não é visto exatamente como um perigo de maior para o PSD — mesmo na campanha de Luís Marques Mendes, a maior crítica que se lhe fazia era que se tratava de um moderado com pouca capacidade de “ação” ou que era “indeciso“, sem ataques mais diretos.
A pressão para abandonar a neutralidade
Apesar da neutralidade anunciada por Montenegro, a ideia de que Seguro é, na verdade, um mal menor e que André Ventura vai fazer tudo para canibalizar os votos do PSD vai convencendo muitos elementos do partido e da direita a optarem por Seguro. Afinal, dar gás a Ventura, mesmo que de forma passiva, pode ser uma jogada ainda mais arriscada para o resto da direita — e, na visão de muitas figuras à direita, para a democracia.
Também por isso já se foram multiplicando, logo nas primeiras horas a seguir à votação, os nomes do PSD e não só que vieram declarar o seu apoio a António José Seguro na segunda volta, destoando da posição neutral que Montenegro e Mendes assumiram. Como se no fundo existisse um apoio tácito ao socialista.
O social-democrata José Eduardo Martins foi dos primeiros a assumir a escolha, em nome da “clareza democrática”. O presidente da câmara do Porto, Pedro Duarte, também foi rápido a assumir a opção “inequívoca” por Seguro, lembrando que este fez uma campanha em que se apresentou como “apartidário” e “moderador” — duas características que também podem facilitar mais a vida ao Executivo se Seguro chegar mesmo a Belém.
Noutras candidaturas do espaço do centro e direita também chegaram novos apoios para Seguro: Carlos Carreiras, que estava com Gouveia e Melo, votará no socialista; Mário Amorim Lopes, líder parlamentar da IL, lembrou a distância entre Seguro e figuras como Sócrates para justificar a opção pelo candidato apoiado pelo PS; José Miguel Júdice, mandatário de Cotrim Figueiredo, fez o mesmo. Seguro veio dizer-se, esta segunda-feira, satisfeito com os novos apoios e lançar fortes apelos aos “moderados”: afinal, importa fazer desta corrida um confronto entre democratas e autoritários, e não tanto um embate entre esquerda e uma nova direita, como Ventura quererá pintá-la.