O corte na cabeça de Zuka ainda está “fresco”. Levou pontos e está tapado, mas não passa despercebido aos clientes que o procuram para comprar uma dose de cocaína. Todos sabem o que lhe aconteceu na madrugada de 7 de janeiro, quando deu entrada no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a sangrar de um golpe. “Recorre ao hospital por queda acidental com TCE [suspeitas de traumatismo]”, lê-se no relatório médico que o Observador consultou. Mas entre quem frequenta a “banca do Mero” — o líder de um dos pontos de venda de droga “mais movimentados” no coração de Lisboa —, a história que se conta é outra.
“Os vendedores são ameaçados para venderem e entregarem o dinheiro todo no final. Caso não o façam, sofrem as consequências, como ele sofreu“, disse uma testemunha à Polícia de Segurança Pública (PSP), que durante largos meses investigou o funcionamento da rede de tráfico de droga. Sobre o seu funcionamento não quis entrar em detalhes, não fosse acontecer-lhe o mesmo ou pior do que a Zuka.
O negócio na banca de Mero funcionava 24 horas por dia no Bairro da Picheleira, entre a escadaria que desce da Rua Carlos Botelho até à Sol a Chelas. Com abastecimentos de cocaína “regulares”, chegava a dar lucros de mais de três mil euros por dia. Recorria a uma vasta rede com dezenas de vendedores, na sua maioria toxicodependentes e muitos em situação de sem abrigo, que ali vendiam em troca de algumas doses e eram controlados pelos “gerentes” da banca. Eram, nas palavras da PSP, “carne para canhão”, detidos diariamente e que se remetiam ao silêncio com medo de represálias. “Ainda apareço aí numa valeta”, comentava-se.
Os líderes da rede, raramente vistos no local da venda de droga e conhecidos pela violência com que controlavam os vendedores e consumidores que se “chibavam”, foram detidos no verão do ano passado. Já em janeiro deste ano, o Ministério Público acusou 40 pessoas ligadas à rede dos crimes de tráfico de droga e associação criminosa.
O “patrão”, o “cozinheiro” e o “homem do terreno”
A câmara está apontada à Rua Sol a Chelas. São 12h30 e uma mulher, de calças pretas e body vermelho tem um banco de plástico mesmo ao seu lado, mas opta por ficar de pé, dando sinais de estar à espera de algo. Vê aproximar-se um homem, nos seus 30 anos, que pára mesmo à sua frente. O homem passa-lhe algo para as mãos e, em troca, ela dá-lhe uma saqueta que tira do soutien. Àquela distância, a lente dos agentes da PSP não capta com clareza o que foi entregue, mas os polícias não têm dúvidas do que se trata, mesmo antes de o homem consumir ali mesmo a dose de cocaína que acabou de comprar.
▲ A Rua Sol a Chelas era um dos pontos da venda de droga da rede de Mero
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
A mulher, conhecida por Tuca, é abordada pelos agentes, à civil, e detida nesse final de manhã, 15 de abril de 2024, com sete embalagens de cocaína, que trazia escondidas no soutien e nos bolsos do casaco. Não era a primeira nem seria a última detenção de um vendedor da “banca do Mero”. “Podem-me prender todos os dias, eu vou continuar a vender, não me acontece nada, no tribunal digo que não estava a fazer nada”, diria precisamente uma semana mais tarde ao ser detida novamente.
De vigilância em vigilância e de detenção em detenção, a PSP foi destapando ao longo de vários meses a estrutura da rede de droga na Picheleira. Acreditam que começou a funcionar em novembro de 2023, fruto de uma parceria entre dois amigos que se conhecem há mais de duas décadas: Mero, de 34 anos, o “patrão” ou “pai”, com reputação de ser “violento e perigoso”; e Pastilhas, de 41, dos dois o mais “discreto”. Sócios, mas não iguais. Era Mero, “temido por todos”, que se destacava pela “liderança inequívoca e indiscutível”, descreve a polícia num dos relatórios de vigilância que o Observador consultou.
Raramente visto ao pé do local das vendas, Mero dependia dos “homens de confiança” para gerir o negócio. Na maioria dos dias, a ‘banca’ não abria sem que o principal “braço direito”, Porkinho, seguisse num Ford alugado à Rua Fábrica das Moagens, onde vive, alegadamente para ir buscar a droga. Era o principal controlador no terreno e quem se chegava à frente se algo corresse mal ou alguém falhasse nas suas funções: “Quando falha alguma coisa, é o Porkinho que assume e que se agarra à bolsa para vender.”
Por dia, e para garantir que o negócio funcionava durante 24 horas, eram feitos sete a oito abastecimentos, com cerca de 60 doses de cocaína. Toda a droga, cuja origem continua “incerta”, passava por Romão, o “cozinheiro”, que a cortava e preparava em embalagens individuais. Chegavam aos vendedores, a maior parte toxicodependentes, em bolsas com 12 doses, cada uma vendida a pelo menos dez euros.
De clientes a vendedores em poucas semanas: “Preciso de vender para consumir”
Quando Tuca foi detida pela primeira vez, tinha consigo cinco doses de cocaína no soutien. Essas eram para venda, mas nos bolsos do casaco a polícia encontrou outras duas, que reservava para si. Era o “salário” pago aos vendedores por cada bolsa de “dez quartas” que vendiam, viriam a descobrir durante a investigação.
Servia também de justificação quando eram abordados pela polícia. “Sou só consumidor, não estava a fazer nada”; “Só ganho duas quartas por cada bolsa vendida para o meu consumo, eu preciso de vender para consumir”, repetiam os vendedores de Mero, muitos angariados entre os clientes habituais. Alguns chegavam a passar de consumidores a vendedores no espaço de poucas semanas.
▲ A rede, controlada pelo "terror", dependia de dezenas de vendedores, a maior parte toxicodependentes
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
São “pessoas vulneráveis em função da sua adição a drogas duras”, relata a PSP no processo que está a ser dirigido pelo Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa. E vivem numa prisão permanente: traficam para ter acesso a droga, consumem as doses que recebem e voltam ao tráfico para poder continuar a alimentar o vício. “Vendem para poder consumir e vivem subjugados por um grupo de indivíduos que os mantém sob coação, muitas vezes obrigados a vender para pagar as dívidas contratadas nas apreensões, sendo que estas dívidas nunca são saldadas”, continua o relatório da PSP.
Ancorada neste tipo de vendedores, a rede esteve operacional durante pelo menos nove meses. Entre as dezenas de elementos, as funções eram “rotativas e flexíveis”, mas eram sempre as mesmas. Alguém ficava permanentemente responsável pela venda direta da droga, enquanto outro vigiava e avisava quando um carro patrulha passava ou um agente se aproximava — “UGA” era a expressão de alerta, ouvida em gritos repetidos para avisar da chegada da polícia. Tudo isto acontecia sob a supervisão de outros elementos, que controlavam os vendedores para que não fugissem com a droga ou o dinheiro.
Já o reabastecimento da droga, guardada em casas próximas, ficava a cargo dos “homens de confiança” de Mero. Alguns responsáveis por recolher o dinheiro das vendas, outros por contratar novos elementos, “substituindo os líderes na sua ausência”.
No total, o Ministério Público acusou 40 pessoas com ligações à rede pelo crime de tráfico de droga e de associação criminosa. Cinco foram ainda acusados pela prática de um crime de resistência e coação sobre funcionário e dois outros pela prática de um crime de roubo agravado. Um dos principais arguidos foi ainda acusado pelo crime de coação agravada, na forma tentada, e por uma contraordenação por detenção ilegal de arma.
Uma rede controlada pelo “terror”
Numa rede que dependia essencialmente de consumidores de droga, alguns com um histórico de dependência de décadas, não era raro alguém fugir com a droga ou o dinheiro. Sempre que isso acontecia, os vendedores eram “violentamente agredidos de forma a serem exemplo para outros”, como aconteceu com Zuka. Muitos também sofriam agressões se fossem intercetados pela polícia, com a PSP a descrever um clima de “medo e terror.”
▲ Os moradores descrevem um grande alívio desde que a rede de tráfico foi desmantelada
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
“Eu vinha entregar o dinheiro ao ‘pai’, mas agora vão bater-me por ter ficado sem o dinheiro”, disse um dos vendedores ao agente que o deteve e lhe apreendeu 85 euros antes de ter oportunidade de os entregar a Mero, que nesse momento passou num BMW conduzido pelo sócio e que acelerou de imediato ao ver a polícia. “Vão bater-me outra vez. O ‘pai’ já me abriu a cabeça há alguns dias e agora vou apanhar mais“, acrescentou, com ar “desesperado”. Ainda assim, quando deu entrada na esquadra da polícia, de madrugada, não quis apresentar queixa: “Não sou maluco. Eu sei o que ele faz a quem se queixa dele.”
Vendedores como este eram detidos em flagrante diariamente. Alguns foram mesmo presos “para cima de uma dezena de vezes” durante a operação da PSP para desmantelar a rede. Ouvidos em tribunal, eram sujeitos a medidas de coação como a proibição de frequentar o local, de contactar com outros elementos da rede e obrigados a apresentações semanais ou diárias em esquadras, medidas que muitas vezes não eram cumpridas.
A estratégia da PSP passou por fazer “pressão” e forçar a liderança a “cometer erros” e a contactar mais diretamente com a base — vendedores e vigias. Culminou em julho do ano passado com a detenção de Mero, do sócio e do braço direito durante o cumprimento de uma série de buscas domiciliárias e não domiciliárias. Permanecem em prisão preventiva desde então.
Para os moradores foi um alívio. “Graças a Deus, acabou”, desabafou Joana (nome fictício). Até há alguns meses, os dois filhos não gostavam de trazer a casa os amigos da escola e o enteado, ainda uma criança, era sempre acompanhado de manhã e ao final do dia, nunca passava por ali sozinho. Já não é assim. “Agora, só se ouvem as galinhas”, comenta na manhã da última sexta-feira com o Observador. Passeiam na erva, mais abaixo, perto da escadaria onde era habitual ver os vendedores de Mero a despachar clientes. Desde o verão passado, a banca, que trabalhava dia e noite, não voltou a abrir.