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FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

Amadora-Sintra. Cirurgiões que se demitiram ponderam voltar: ministra prometeu separá-los dos médicos que levaram à saída

Ministra da Saúde reuniu-se com todos os médicos. O Observador sabe que foi garantido aos que saíram que não trabalhariam diretamente com os dois médicos que provocaram a deserção em massa.

Pelo menos uma parte dos 13 cirurgiões que abandonaram o Hospital Amadora-Sintra no final do ano passado poderá regressar à instituição, garantiu esta quinta-feira o ex-diretor do Serviço de Cirurgia — ele próprio um dos médicos que bateram com a porta. É o primeiro sinal de fumo branco, mas a que preço? Os dois médicos que motivaram a saída em massa dos 13 colegas poderão fazer parte do serviço no futuro Hospital de Sintra e, além disso, será criada uma espécie de barreira higiénica entre os dois grupos — dois de um lado, os outros 13 do outro —, garantindo que não haverá contacto entre ambos. Terá sido essa a solução apresentada pela ministra da Saúde aos médicos, depois de se reunir com cada um deles nas últimas horas, e que poderá garantir o retomar da normalidade num dos principais hospitais do país.

A solução para o hospital tem vindo a complicar-se no último meio ano. E, já esta quinta-feira, ainda antes de a ministra da Saúde ter apresentado os traços gerais do plano para reabilitar o serviço de Cirurgia, a sua antecessora veio reforçar a pressão sobre Ana Paula Martins. “Se, algum dia dos quatro anos em que fui ministra da Saúde, tivesse dito que não tinha nenhum plano, ninguém, nem na oposição, nem na comunicação social, nem no meu partido, me permitiria continuar a ser ministra da Saúde”, disse Marta Temido em entrevista ao Público e à Renascença. A solução pode, agora, estar para breve.

Segundo apurou o Observador junto de fonte conhecedora do processo, a solução apresentada aos médicos passa por separar as equipas. Os cirurgiões que regressarem ficarão a trabalhar em equipa, mas não terão de contactar com o ex-diretor de serviço, Vítor Nunes, e com o médico cirurgião António Pedro Gomes — os dois médicos que, em 2022, denunciaram alegadas más práticas no serviço de Cirurgia, que acabaram por nunca ser comprovadas.

Uma das soluções que chegou a ser ponderada foi a de criar um segundo serviço de Cirurgia no Amadora-Sintra (regressando a um modelo antigo). No entanto, o ex-diretor de serviço Paulo Mira (que saiu do hospital em dezembro e que está disponível para voltar) diz não ver “necessidade disso”. Desta forma, tanto Vítor Nunes como António Pedro Gomes ficarão a trabalhar de forma isolada, sendo que o plano passa por transferir parte da atividade clínica dos dois médicos (especializados em Cirurgia Colorretal e da Obesidade) para um outro hospital: o Hospital de Sintra, que também fará cirurgias, e que deverá abrir nas próximas semanas.

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Trata-se de uma solução de recurso, depois de os dois médicos terem recusado abandonar a Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra. O Observador sabe que foi proposto a estes médicos a mudança para uma unidade de Cirurgia de referência a nível nacional — mas essa proposta não foi aceite.

Cirurgião Vítor Nunes recusa sair. “Porque é que eu tenho de abandonar este hospital?”

Apesar de não querer falar sobre as conversas que manteve com a ministra da Saúde, o cirurgião Vítor Nunes (o principal elemento no centro do clima de conflitualidade que se vivia no serviço de Cirurgia e que já chegou a ser acusado de assédio laboral por vários colegas) garantiu ao Observador esta quinta-feira que não pretende deixar o Amadora-Sintra. “O meu local de trabalho é este. Porque é que eu tenho de abandonar este hospital? Trabalho aqui há quase 30 anos“, diz o médico, que permanece no hospital.

Vítor Nunes defende que poderiam ser criados dois serviços de Cirurgia para resolver a questão — uma hipótese que, segundo apurou o Observador, está afastada. “Se entenderem que é necessário ter dois serviços, sou eu que vou dizer que não aceito? Porque é que não pode haver dois serviços? Até 2015, havia dois serviços. Um serviço com 40 pessoas é difícil de gerir”, salienta o cirurgião.

Ambulances are transporting covid-19 pacients from Amadora Sintra Hospital to Luz Hospital in Lisbon, due to the rising of hospitalizations, Amadora, Portugal, 27th January 2021. The Amadora-Sintra Hospital, in the Lisbon district, is moving a team of doctors, nurses and auxiliaries to accompany the 19 patients who are being transferred to the infirmary that will open at Hospital da Luz in Lisbon. MARIO CRUZ/LUSA

▲ Parte da atividade clínica dos dois médicos que voltaram (e que provocaram a debandada do hospital) vai ser transferida para o novo Hospital de Sintra, que pertence à ULS Amadora-Sintra

MÁRIO CRUZ/LUSA

A ministra da Saúde — que se reuniu, nos últimos dias, com todos os médicos envolvidos na discórdia, tendo organizado várias reuniões —, garantiu ter um plano para fazer regressar os médicos, mas recusou-se a adiantar pormenores sobre as condições oferecidas aos especialistas para voltarem ao Amadora-Sintra.

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“Tenho um plano. Mas ter um plano é exatamente isto, é ir desenhando e construindo esse plano à medida que falamos com as pessoas“, disse Ana Paula Martins, acrescentando que está otimista quando ao regresso dos médicos que saíram — sendo que alguns, admitiu, já se encontram a trabalhar noutras unidades de saúde. “Estou muito otimista de conseguir recuperar aqueles cirurgiões. Uns já estão a conseguir fazer a sua vida noutros hospitais, outros ainda aguardam”, disse a responsável pela pasta da Saúde aos jornalistas, durante uma conferência de imprensa que o próprio ministério convocou para abordar, não apenas a fase complicada do hospital mas, também, o relatório da Inspeção Geral das Atividades em Saúde às falhas no serviço de emergência, no final do ano passado.

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Ana Paula Martins explicou a estratégia que tem utilizado para convencer os médicos a regressarem a um serviço que, sublinhou, era um dos melhores do país e que, entretanto, se degradou. A ministra da Saúde garantiu ter oferecido aos médicos que saíram “condições motivacionais” para o seu regresso — que não dá como absolutamente garantido. “Por muitos planos que tenha ou que desenhe ou que escreva num papel, se eu não conseguir, com a empatia suficiente, e com as condições que garanti a todos os cirurgiões, que esses cirurgiões, querendo, possam voltar ao espaço onde são felizes e onde têm feito um trabalho extraordinário”.

Ana Paula Martins deixou ainda críticas ao anterior Conselho de Administração, liderado por Luís Gouveia, que a ministra acusa de ter saído sem ter resolvido os problemas no serviço de Cirurgia. “Aquilo que fiz, perante a renúncia do anterior Conselho de Administração, foi identificar um novo e começar a ouvir todos os envolvidos neste processo […] Quando se chega ao fim da linha, e o anterior Conselho decide ir-se embora, cabia-me a mim perceber o que se estava a passar“, disse a ministra da Saúde.

Ana Paula Martins e tinha anunciado, esta quarta-feira, que já tinha um plano para o Hospital Amadora-Sintra, que passava por convencer toda a equipa de cirurgiões que se demitiu em 2024 a regressar ao serviço. No entanto, em entrevista à Antena 1, a ministra da Saúde não quis detalhar a forma como iria conseguir fazer regressar os cirurgiões que abandonaram o hospital. As declarações de Ana Paula Martins àquela rádio seguiram-se a um conjunto de críticas — motivadas pelo facto de a ministra da Saúde ter dito, numa audição regimental na Comissão de Saúde da Assembleia da República (a 12 de fevereiro) que não tinha nenhum plano para resolver a situação na Cirurgia do Amadora-Sintra.

A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, intervém na sua audição perante a Comissão de Saúde, na Assembleia da República, em Lisboa, 12 de fevereiro de 2025. TIAGO PETINGA/LUSA

▲ Ministra da Saúde assumiu o dossier. "Quando se chega ao fim da linha, e o anterior Conselho de Administração decide ir-se embora, cabia-me a mim perceber o que se estava a passar"

TIAGO PETINGA/LUSA

Ex-diretor diz que reposição da equipa está “praticamente assegurada”. Médicos vão decidir nos próximos dias

Esta tarde, ao lado da ministra da Saúde (com quem se reunira), o ex-diretor do serviço Paulo Mira confirmou que o regresso de 13 cirurgiões ao Amadora-Sintra está praticamente garantido, ainda que possam não ser todos os que saíram no final do ano passado. “Neste momento, tenho cerca de 13 cirurgiões que já estão praticamente assegurados. Mas há mais pessoas que estão interessadas em ir trabalhar para o Serviço de Cirurgia”, disse o especialista, acrescentando que a “grande maioria” provém dos 13 que apresentaram a demissão em 2024, mas “também há cirurgiões novos”.

Questionado sobre a continuidade dos dois cirurgiões que regressaram, o dirigente indicou que cabe ao novo Conselho de Administração decidir. “Isso tem a ver com as condições que o Conselho de Administração, e especialmente o Ministério, vai criar para que possamos trabalhar na paz que queremos e com as condições que precisamos para servir uma população de 600 mil pessoas”, salientou Paulo Mira, sublinhando ter a esperança de que os cirurgiões que deixaram o hospital aceitem as condições oferecidas.

“Hoje tivemos uma reunião e as pessoas ouviram as condições que irão ser criadas e agora caberá a cada um decidir nos próximos dias se vai aceitar essas condições ou não”, acrescentou, referindo que está “convencido” a maior parte dos médicos aceitará voltar, uma vez que querem “trabalhar em conjunto”.

Desde que os 13 cirurgiões abandonaram o hospital (numa resposta ao regresso de outros dois médicos, com que se tinham incompatibilizado), o serviço de Cirurgia Geral ressentiu-se, o que tem provocado dificuldades tanto na vertente da atividade programada como na Urgência de Cirurgia.

"Caberá a cada um [dos cirurgiões] decidir nos próximos dias se vai aceitar essas condições ou não"
Paulo Mira, ex-diretor do serviço de Cirurgia do Amadora-Sintra

No início de fevereiro, os médicos internos de Cirurgia escreveram uma carta à ministra da Saúde e ao bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, na qual denunciavam várias falhas que têm comprometido a qualidade da assistência à população e a própria formação que deveriam estar a receber para se formarem como especialistas. Na missiva, a que o Observador teve acesso, os médicos denunciavam o cancelamento de consultas e cirurgias (devido à falta de médicos), a realização de trabalho no serviço de urgência sem acompanhamento de clínicos com mais experiência e o ambiente “repressivo” e “hostil” que se vive no Serviço de Cirurgia do hospital.

Cirurgias e consultas oncológicas canceladas, urgências sem supervisão e ambiente “hostil”. Internos denunciam falhas no Amadora-Sintra

Na passada segunda-feira, o Observador também noticiou que a Urgência de Cirurgia tem estado encerrada parcialmente nos últimos fins de semana, devido à falta de médicos disponíveis para preencher as escalas. Depois da saída de 13 cirurgiões, o serviço ficou reduzido a uma equipa de 10 médicos especialistas e 10 internos  — um contingente de cirurgiões insuficiente para dar resposta a uma população de quase 600 mil pessoas.

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