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João de Almeida Dias

João de Almeida Dias

Huali atravessou o Mediterrâneo só para vir para o país de Cristiano Ronaldo

Huali pagou mil euros para o trazerem até à Europa. Veio numa pequena traineira com outros 52 homens. Passou uma semana em mar-alto. Hoje, trabalha e paga impostos, mas continua irregular em Portugal.

Cristiano Ronaldo começou a chorar e Huali não demorou até acompanhá-lo no pranto. Estávamos a 4 de julho de 2004 e Cristiano estava em Lisboa, no Estádio da Luz, momentos depois de perder a final do Europeu de futebol frente à Grécia. O madeirense olhava para cima, algures entre o céu e o terceiro anel do estádio, enquanto lamentava a sua sorte. Na Mauritânia, Huali (nome fictício) acompanhou o jogo de fio a pavio na casa de um amigo, o único que tinha televisão. “Como é possível a equipa dele ter jogado tão bem e mesmo assim perder?”, perguntou para o ar. Sem saber explicar bem porquê, tudo aquilo emocionou-o.

“Qual é o país do Ronaldo?”, perguntou aos amigos.

“O Ronaldo é português, é de Portugal”, responderam-lhe.

“Então é para Portugal que eu vou.”

Durante dois anos, Huali foi maturando a ideia. Olhava à sua volta, para a sua vida e a da família, e dizia que tudo tinha de mudar. A sua família nem era das mais pobres. Tinham vacas, cordeiros e um pedaço de terra onde plantavam cebolas e arroz para vender. Não passavam fome. “Mas, imagina, se a minha mãe quisesse comprar roupa ou sapatos, tínhamos de pedir emprestado aos vizinhos. E não conseguíamos pagar, depois, era muito mau, uma vergonha.” Falou com o pai e pediu autorização para ir para a Europa. Prometeu que o ajudava a criar os dois irmãos, que mandava dinheiro todos os meses. Conseguiu convencê-lo. O patriarca vendeu “três ou quatro vacas”, entregou o dinheiro ao filho e deixou-o partir. Tinha 18 anos.

Foi até Nouadhibou, a segunda maior cidade da Mauritânia, junto ao mar e tanto para Norte quanto possível naquele país. Quando lá chegou, foi ter com uma pessoa que já conhecia e perguntou-lhe: “Conheces algum traficante que me leve até a Portugal?”. Minutos depois, estava ao telefone com um contrabandista. A viagem para Portugal estava fora de questão, mas podia levá-lo de Nouadhibou até à Sicília, separados por quase 5 mil quilómetros por mar, em troca de mil euros. Huali deu-lhe o dinheiro para as mãos. “Tenho 52 pessoas, só cabe mais uma no barco. Tu vais ser o 53º.”

12 metros quadrados para 53 pessoas

Dia 24 de maio de 2006, quase dois anos depois do Euro 2004, Huali sentou-se numa traineira com destino à Europa. O espaço era pouco, quase nenhum. A embarcação media cerca de três metros de largura e não mais do que cinco de comprimento. Não sobrava nem mais um centímetro entre os 53 homens. Sentados com os joelhos encostados ao peito, muitos rezavam para que chegassem sãos e salvos à Sicília.

O pior de tudo foram as ondas. Erguiam-se sobre a traineira, escurecendo-a quase por completo, para depois caírem com estrondo em cima de Huali e dos companheiros de viagem. Por momentos, achavam que tinham caído ao mar e que iam morrer algures entre o oceano Atlântico e o Mediterrâneo. Assim que conseguiam abrir os olhos, o capitão do barco dava-lhes ordens aparentemente simples, mas de difícil execução: tinham de esvaziar a água que lhes entrara para o convés o mais rápido possível, sem que a agitação a bordo causada por esta operação fizesse o barco tombar.

Tirando nas alturas de maior aperto, seguiam num silêncio quase total à medida que contornavam a costa africana em direção ao mar Mediterrâneo. Apesar das expectativas que levavam e dos sonhos que carregavam naquela traineira sobrelotada, não havia grande tema de conversa. Apenas esperavam pela chegada à Sicília, à Europa que lhes prometeram na Mauritânia. Durante o dia, tapavam as cabeças com as mãos, por causa do sol, que batia diretamente no convés descoberto. À noite, combatiam o sono, com medo de serem apanhados de surpresa por uma onda que os arrastasse para o fundo do mar.

A um canto, iam armazenados mantimentos suficientes para toda a viagem. Comiam duas vezes ao dia, ao almoço e ao jantar, alternando entre pão com manteiga e bolachas de água e sal. A água não era muita, mas chegou para todos mediante um racionamento cuidadoso. O combustível também nunca chegou ao fim.

Dia 31 de maio, sete dias depois de terem partido de Nouadhibou, entraram em águas italianas. Lá chegados, foram surpreendidos por um navio enorme, um colosso por comparação. Primeiro, andou à volta deles, descrevendo círculos imperfeitos na água. Pareciam estar à procura de algo, mas Huali não sabia o quê, ao certo. Por fim, atiraram cordas à traineira, aproximaram-na do navio italiano e ajudaram os 53 homens a subir, um a um. Quando puseram os pés naquela embarcação de aço, era como se já tivessem chegado à Europa.

“Onde é Portugal?”

Esteve quase um mês na Sicília, num centro de receção para imigrantes e candidatos a asilo. Itália, porém, não era o destino que pretendia. “Onde é Portugal?”, perguntou a um africano que por lá conheceu, que também falava soninque, uma língua usada um pouco por toda o oeste de África. “Portugal é outro país”, respondeu-lhe o outro. Então, Huali voltou a colocar a mesma pergunta que tinha feito há não muito tempo: “Conheces algum traficante que me leve até Portugal?”.

Poucos dias depois, estava escondido na parte traseira de uma carrinha de mercadorias. O condutor, um italiano que lhe pediu 250 euros pelo percurso, aproveitou que tinha uma encomenda em Lisboa para levá-lo até lá. Bem mais confortável do que no barco, Huali só tinha de se esconder de cada vez que passava uma fronteira ou outros pontos que o italiano, habituado a estas andanças, sabia serem mais críticos. Por fim, deixou-o no Martim Moniz. Era julho de 2006 e Portugal tinha acabado de disputar o mundial de futebol na Alemanha. A seleção acabou o torneio em 4º lugar, Cristiano Ronaldo ajudou com dois golos e Huali estava finalmente no seu país.

Hoje tem 26 anos e já conta quase nove em Portugal. Passou os primeiros tempos no Centro de Acolhimento para Refugiados, na Bobadela, apesar de não ser propriamente um refugiado. Ao final de seis meses saiu de lá, precisamente por lhe ter sido negado esse estatuto. Viveu em casa de amigos, “sempre africanos”, que lhe ofereceram guarida. Foi ainda para o Centro Pedro Arrupe, um espaço de apoio a imigrantes em Lisboa. Trabalhou nas obras um pouco por todo o lado na capital, fez voluntariado no Jardim Botânico Tropical, em Belém, onde ajudava a limpar o espaço e a plantar novos especímenes. Aprendeu a falar português, pelo menos o suficiente para se fazer entender com facilidade.

Em 2012, foi convidado para ir trabalhar numa quinta nos arredores de Lisboa. Não pensou duas vezes antes de aceitar. Três anos depois, ainda lá continua. Está encarregado de tratar dos cavalos e de ajudar nas obras de ampliação daquela propriedade. Trabalha, literalmente, de sol a sol. “Imigrante é assim”, diz várias vezes, completando sempre da mesma maneira: “Muito trabalho, pouco dinheiro, sem família, sem amigos”. Começa às 8h00, para só terminar por volta das 20h00, altura em que recolhe à pequena casa que partilha com um outro imigrante, da Guiné-Conacri. Com a porta da rua aberta, ainda dá para sentir o cheiro dos estábulos.

Irregular, mas paga impostos

Huali tem um contrato de trabalho, no qual está previsto uma remuneração à margem do salário mínimo, uma vez que os patrões lhe oferecem casa. Paga impostos e tem um número de segurança social, para a qual contribui todos os meses com 100 euros. Mas, mesmo assim, continua ilegal em Portugal.

Tudo isto porque, quando cruzou a fronteira naquela carrinha de mercadorias italiana, Huali não tinha qualquer visto que lhe permitisse entrar e ficar no país. Não tinha, sequer, o visto de turista que muitos estrangeiros usam, regularizando a sua situação apenas mais tarde. E por nunca ter tido esse papel, está há três anos à espera de que o SEF lhe dê uma autorização de residência para atividade profissional.

É só quando fala deste assunto que a voz de Huali se verga. De calma e pachorrenta, passa a indignada. “Estou triste com a minha vida, porque fugi do meu país porque queria uma vida melhor, para mim, para a minha família. E hoje não estou a conseguir fazer isso”, queixa-se. O salário, sabe-o, é baixo. Tirando todos os meses os 100 euros que paga à segurança social, sobra-lhe pouco dinheiro para se governar. Ao contrário do que esperava quando entrou naquela traineira sobrelotada em Nouadhibou, nem sempre tem conseguido mandar dinheiro para a Mauritânia. “Mando quando posso, de dois em dois meses, três em três meses… Já consegui mandar 150 euros, mas agora mando sempre menos, não tenho mais.”

O telemóvel é o seu ponto de contacto com o mundo. Volta e meia, fala com outros mauritanos que vieram consigo no mesmo barco para a Europa. “Um está em Espanha, outro está em França e têm tudo. Papéis, mulher, família, casa… Tudo. Eu não tenho isso”, lamenta. Mas, ainda assim, recusa-se a sair de Portugal. “Eu fugi do meu país para vir para cá e não vou sair, não quero ir nem para a Espanha nem para França. Não gosto. Passei três ou quatro dias em Madrid, fui lá à embaixada da Mauritânia, porque não há cá em Portugal, e não gostei nada. Foram dos piores dias da minha vida!”. Sair seria uma derrota.

“Eu podia ter morrido ali, também”

A ansiedade de Huali multiplicou-se por mil no domingo, dia 19 de abril, quando foi até ao café da vila. Dessa vez, não o receberam com o estardalhaço do costume. Habituados a terem-no por lá todas as noites, os donos do estabelecimento e os clientes mais assíduos costumam interromper as conversas só para assinalar a sua chegada. “Olha o Huali!”, exclamam. “Olha o nosso preto!”, dizem ainda outras vezes, sem que ele com isso se importe.

Nesse dia, porém, quando lá entrou às 20h00 para beber o habitual chá de camomila, apontaram-lhe a televisão, que dava a notícia que dominara os telejornais de domingo: mais de 700 pessoas tinham morrido ao tentar atravessar de barco o mar Mediterrâneo em direção à ilha de Lampedusa. Olhou para a televisão com atenção e em silêncio. Por fim, disse aos que estavam à sua volta aquilo que lhe parecia ser uma evidência: “Estas pessoas vêm para a Europa, fogem do país deles, porque querem uma vida como deve ser. Eu fui assim. E eu podia ter morrido ali, também”. Depois, não fez mais comentários.

Nove anos depois de ter chorado com Cristiano Ronaldo, os olhos de Huali voltaram a lacrimejar enquanto olhavam para a televisão.

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