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O 4YFN decorre em Barcelona entre esta segunda-feira e quinta-feira

Direitos Reservados

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Inteligência artificial, networking e (possíveis) investidores. O que leva as startups portuguesas ao 4YFN de Barcelona?

No meio de uma bolha de inteligência artificial, que agora é "moda", e entre a ambição de conseguir angariar mais clientes, startups portuguesas mostram-se esta semana em Barcelona.

“4 Years From Now”, que é como quem diz “daqui a quatro anos”. O arranque oficial desta conferência dedicada a empresas emergentes e integrada na feira tecnológica Mobile World Congress (MWC), que se realiza esta semana em Barcelona, estava marcado para as 9h locais (menos uma hora em Lisboa). Mas a delegação portuguesa demorou a ficar composta. Francisco Maria Calisto foi um dos empresários que mais cedo chegou ao stand ocupado pela Startup Portugal, naquela que é a sua estreia no evento.

É o CEO da BreastScreening-AI, uma solução para apoiar os radiologistas que promete “reduzir em cerca de 26% os erros de diagnóstico” de cancro da mama, e que é uma das dez empresas da comitiva da Startup Portugal que têm direito a um ‘cantinho próprio’ no 4YFN até quinta-feira. Integra também o lote de startups da delegação que têm “inteligência artificial” no nome. São cinco dessas dez. Outras três também fazem uso dessa tecnologia, que os empreendedores admitem estar “na moda”.

Francisco Maria Calisto afirma que “pode haver aqui um buzzword da inteligência artificial” e não é o único a acreditar que existe atualmente uma bolha em volta desta tecnologia. Praticamente costas com costas com o empresário português está a italiana Bianca Illing, em representação da GreenMetrics.ai. Apesar de a startup ser uma das que tem inteligência artificial no nome, a responsável para o mercado europeu defende que se trata apenas de um “complemento” ao produto. “Há uma bolha, mas nós não estamos nessa bolha.”

Francisco Maria Calisto

Francisco Maria Calisto é o CEO da BreastScreening-AI

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Afinal, que bolha é esta?

Bianca Illing descreve a empresa que conheceu quando fazia um mestrado em Economia em Lisboa como uma “tecnológica que se foca na adaptação ao clima”. Quer isto dizer que construiu sensores inteligentes que pretendem detetar precocemente a hipótese de ocorrerem inundações e que já estão presentes em várias cidades portugueses, incluindo a capital (que tende a alagar quando chove com maior intensidade). “Nós não prevenimos a inundação. O que nós fazemos é dar à Proteção Civil informação suficiente para saber o que está a acontecer e o que fazer para puder prevenir”, esclarece, em declarações ao Observador, acrescentando que Lisboa conta já com 50 destes sistemas, que estão também presentes no Brasil (e que deverão chegar a Itália e a Colômbia ainda este ano).

Apesar de “inteligência artificial” fazer parte do nome da GreenMetrics, a responsável reitera que “não é o foco principal” e explica que essa tecnologia é utilizada para “fazer modelos de previsão”, como, por exemplo, para detetar “o quão provável é ter uma inundação com certos níveis de água”. Ainda assim, reconhece que ter a sigla IA no nome traz “valor” ao negócio. “Nós desenvolvemos a nossa própria inteligência artificial e para o setor público, algo que ainda está muito no início”, afirma, notando que a startup tem maioritariamente como clientes os municípios.

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Horas mais tarde, já com o espaço da Startup Portugal mais composto, surgem mais defensores de que a inteligência artificial está “na moda, sem dúvida”. É o caso de João Madeira, da equipa da GetVocal AI, que mostra não ter dúvidas de que é inevitável que essa tecnologia esteja presente em todas as empresas no futuro. “Acho que a inteligência artificial vai ter um impacto semelhante ao aparecimento da internet”, diz, justificando que isso se deve ao facto de “vir para simplificar a vida, para ajudar-nos em coisas básicas do dia a dia”.

Ainda assim, o responsável da GetVocal AI, que desenvolve agentes telefónicos de IA para atendimento automatizado com base num “modelo proprietário” (ou seja, não usam grandes modelos de linguagem públicos), deixa um aviso: “Eu acho que Portugal tem bons players dentro desta área. Mas acho que estamos atrasados do ponto de vista da adoção. Acho que as empresas precisam de ter uma abertura maior”. E admite que ter IA no nome pode estar a tornar-se em algo banal. “Se nós nos apresentarmos como GetVocal AI, eu concordo, somos comuns. Somos altamente comuns. Mas é aí que acreditamos muito na nossa equipa para fazer a diferença, para mostrar onde é que acrescentamos valor.”

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Além de João Madeira, um outro empresário português compara esta tecnologia ao surgimento da internet. Miguel Amador, chief innovation officer da Complear, que criou uma plataforma para automatizar o processo de compliance para soluções de saúde digital com IA, considera que a inteligência artificial neste momento é, “mais do que outra coisa, inevitável”. “Quem esteve no boom da internet no final dos anos 90 se calhar também achava que ia ser uma bolha e hoje nós não vivemos sem internet”, defende.

Já Gonçalo Consiglieri, CEO da Visor.AI, que tem soluções para otimização do atendimento ao cliente, diz que “obviamente que há uma bolha” e afirma que a empresa criada em 2016 começou nesta indústria “antes de ser fashion“. “Before it was cool“, nota, salientando que a startup foi “das primeiras empresas a adotar IA, a usar IA”.

Na altura era inovador por causa disso, hoje em dia já é normal”, indica, acrescentando que a inteligência artificial “já provou que tem um valor de possibilidade mais alto” do que outros fenómenos, como o metaverso ou a Web3.

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O que procuram os portugueses em Barcelona?

Em conversa com o Observador, as startups mostram ter os objetivos bem definidos no que ao 4YFN diz respeito. A seguir à inteligência artificial, networking é quase sempre o tema mais mencionado. Afinal, é para isso que estão em Barcelona. Para a Greenmetrics não é uma estreia. A empresa esteve no evento no ano passado e diz que conseguiu recolher “contactos interessantes” e conhecer “investidores que estavam interessados”. O regresso, este ano, é feito, segundo Bianca Illing, para continuar a fazer novos contactos. Isto porque este não é “o nicho de mercado” da startup, que trabalha maioritariamente com o setor público.

Ao contrário da Greenmetrics, a GetVocal AI é uma estreante. Mas o foco é o mesmo: não são as rondas de financiamento que aliciam a equipa — até porque acreditam que vão fechar uma de cerca de 15 milhões de euros ainda este ano (dizem estar “muito bem alinhados” com os investidores) — mas sim os contactos que podem fazer e o estreitar da relação com a Startup Portugal. “Nós somos muito focados em vendas. Eu diria que levantar oportunidades é o maior objetivo e conectar-nos também, conhecermos outras empresas que estejam em estágios semelhantes ao nosso, outras startups também é muito importante”, afirma João Madeira. “O nosso objetivo é, em seis meses de operação, ter um milhão de faturação. E estamos perto, portanto nós acreditamos que com este evento conseguimos chegar lá”, detalha, revelando que a empresa tem cerca de 50 clientes em sete países diferentes. Glovo e PowerDot fazem parte do leque.

Do ponto de vista do mercado, as tecnologias de agentes de AI parecem cogumelos, todos os dias nascem novos. Então nós queremos diferenciar-nos, temos um produto que é diferente, mas queremos muito ser cada vez mais robustos”, diz o responsável, notando que a ronda de financiamento será investida em desenvolver a tecnologia (além das vendas).

O foco da BreastScreening-AI, de Francisco Maria Calisto, também é procurar parcerias, “novas ligações” estratégicas que permitam à empresa aumentar o “número de parceiros hospitalares”. Neste momento, a startup está em processo de fechar uma ronda de financiamento (240 mil euros para acompanhar um projeto do Portugal 2030 a que se candidatou) e o CEO não esconde o objetivo principal: “Gostava de converter um ou dois investidores, não tanto pela questão da entrada de capital, mas pela entrada de conhecimento e know-how em termos de negócio na startup.” Para isso, ao longo dos próximos dias, Francisco terá “cerca de 20 reuniões”.

"Como sou o CEO da empresa, quero ouvir sobre inovação, questões de IA."
Gonçalo Consiglieri, Visor.AI

Por sua vez, a Visor.AI está de “espírito aberto” e sem “expectativas em particular”. Gonçalo Consiglieri nota que a startup já tem clientes em Espanha, mas não deixa de procurar outros “potenciais clientes corporativos”. Ainda assim, há algo que o CEO menciona que mais nenhum dos outros empresários fez: vai assistir a conferências do evento. O objetivo? “Aprender uma ou duas ferramentas que são boas para trazer para dentro de casa para testar”.

Como sou o CEO da empresa quero ouvir sobre inovação, questões de IA. O que é que se está a fazer? O que é que eu posso trazer para a empresa para aplicar e sermos mais eficientes? Porque nós próprios muitas vezes vendemos IA para fora, mas depois internamente é a história do ’em casa de ferreiro espeto de pau’. Eu queria também aprender que soluções é que há e que posso incorporar”, reconhece.

A conferência 4YFN está integrada no Mobile World Congress (MWC), que arrancou esta segunda-feira em Barcelona e que decorre até esta quinta-feira. A Startup Portugal trouxe, ao abrigo do programa Business Abroad, 18 empresas até à cidade espanhola. Mas nem todas têm espaço de exposição. Só 10 conseguiram garanti-lo. Além das mencionadas ao longo do artigo destaca-se ainda a iTRecruiter, que quer lançar uma ferramenta para fazer match entre candidatos e vagas de emprego e que procura “futuros clientes”, ou a  Connected, de soluções de conectividade com dispositivos IOT a partir do espaço, que está a desenvolver um sistema próprio que “apanha uma boleia a partir de satélites de terceiros” e que (uma primeira versão) deverá ser lançado em outubro. A startup está também a fechar uma ronda de financiamento de cerca sete milhões de euros.

Startup de comunicação via satélite Connected fecha parceria com a norte-americana EchoStar

Há ainda a Granter.AI (outra das que tem “inteligência artificial no nome), que está a desenvolver um agente de IA para gestão autónoma de oportunidades de financiamento (público e privado). Em Barcelona, a tecnológica vai tentar “fechar um ou dois parceiros novos, espanhóis” e ter reuniões com outros parceiros internacionais.

Já a Indie Seguros, que, como o nome indica, faz seguros em tempo real para plataformas digitais como Bolt ou MyCareForce, também está em Barcelona pelo networking, tal como a Vizitar, plataforma que aposta em realidade aumentada e realidade virtual e que agora também a introduzir IA para visitas virtuais a locais como cidades, museus ou estádios de futebol, que considera que esta é uma oportunidade para estabelecer contactos para uma nova ronda de financiamento.

O Observador está em Barcelona a convite da Startup Portugal

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