Vestidos de preto e com instruções para partir montras e roubar lojas de luxo. É desta forma que a rede Blocus mobiliza participantes para ações violentas em Espanha. Associada aos distúrbios no passado sábado em Barcelona, a rede está ativa em 18 localidades de 11 regiões autónomas espanholas e, segundo um estudo da Golden Owl citado pelo El País, prepara novas ações em 12 cidades nos dias 31 de outubro, 2 e 30 de novembro.
O relatório analisou mais de 10 mil elementos recolhidos em sete plataformas digitais para rastrear a origem da marca Blocus, cujo nome significa “bloqueio”. A primeira mensagem identificada foi publicada a 8 de outubro e apelava a concentrações nos dias 10 e 11, na Puerta del Sol, em Madrid, e a 12 de outubro, numa iniciativa inspirada na mobilização francesa. Apesar de a publicação ter alcançado 77 mil visualizações, as primeiras convocatórias não tiveram adesão significativa.
De acordo com o estudo, a rede utiliza plataformas sociais, como o TikTok, para divulgar os encontros, recorrendo a reivindicações sociais ou estudantis como pretexto. As publicações incluem códigos QR, mensagens diretas ou ligações privadas que permitem aceder a grupos fechados no Telegram e no WhatsApp, onde são partilhadas instruções e organizadas as ações.
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Nestes grupos, os participantes recebem indicações para se vestirem “todos de preto e com capuz“, coordenam deslocações e identificam alvos, incluindo lojas de marcas de luxo como Rolex, Louis Vuitton, Balenciaga e Hermès, no Passeig de Gràcia, em Barcelona. Os membros são também aconselhados a utilizar martelos de emergência dos autocarros para partir montras. Entre as mensagens identificadas encontram-se ainda ameaças à polícia e a pessoas que filmem os distúrbios, bem como conselhos para se protegerem de gás lacrimogéneo ou revenderem artigos roubados.
Depois de a primeira convocatória em Madrid ter fracassado, oito contas associadas à marca Blocus foram criadas, recuperadas ou reativadas em Barcelona em menos de 16 horas, a 19 de outubro. O objetivo era mobilizar participantes para os distúrbios do passado sábado — de onde resultaram 130 detenções e avultados danos em lojas. Algumas contas divulgavam cartazes e conteúdos produzidos com recurso a inteligência artificial (IA), com vídeos que ultrapassaram as 835 mil visualizações, enquanto outras se dedicavam ao recrutamento e à coordenação.
O administrador do grupo, que utilizava o pseudónimo “FuckA.E.A.T.” (uma referência à Agência Tributária espanhola), afirmou ser de Sabadell, na região de Barcelona, e apontou uma loja da Game, em Terrassa, como um local onde poderiam ser roubados iPhones. Depois de alegar que a polícia se tinha infiltrado no grupo, anunciou a criação de outro com acesso restrito. Embora os principais distúrbios tenham ocorrido na Catalunha e entre os detidos se encontrem jovens de origem do norte de África, todas as mensagens analisadas estavam escritas em castelhano.
O relatório sublinha que a Blocus “não é uma organização com membros e porta-vozes”, mas sim “uma marca que opera através de um conjunto de contas descartáveis, uma fábrica de cartazes e um número reduzido de grupos privados”. Os investigadores consideram que a rede começou a operar em Madrid na primeira semana de outubro, organizou os distúrbios em Barcelona num único dia e voltou a orientar a sua atividade para Madrid após os incidentes, estando agora a expandir-se a nível nacional.
Os autores do estudo reconhecem, porém, que os indícios recolhidos até ao momento “não demonstram uma direção estrangeira dos distúrbios e que também não foi estabelecida a identidade real dos principais responsáveis”. Ainda assim, defendem que “os padrões identificados e as convocatórias documentadas constituem indicadores relevantes para a vigilância das ameaças e a prevenção de novos episódios de violência”.
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