Isabel Stilwell: “Com netas, descobri o prazer das coisas malucas” /premium

25 Agosto 2018721

Isabel Stilwell diz ser uma avó do contraditório, nunca do contra, porque isso seria desrespeitar os pais. E lembra que não devemos nunca desistir de educar os filhos, um conselho dado por Eduardo Sá.

Escritora e jornalista, Isabel Stilwell, de 58 anos, autora de uma mão-cheia de livros sobre as rainhas de Portugal conta que hoje em dia já é muito conotada com o papel de avó. Não podia ser de outra forma. Já escreveu vários livros infantis para as avós lerem aos netos, publicou o “Diário de uma Avó Galinha” e agora, a sua última novidade, é o livro cheio de ideias para os mais velhos da família porem em prática com os mais novos, o “Frasco de Memórias”, uma ideia que lhe surgiu durante um banho de imersão. “É onde tenho todas as minhas ideias”, diz.

Por causa disso mesmo, de vestir a 100% a pele de avó, meia-volta, quando vai na rua, é abordada por outros avós que lhe fazem todo o tipo de desabafos. Uns bons, outro menos bons. Estes últimos passam muito por um cenário que diz ser cada vez mais frequente: avós a fazerem o papel de pais. “É preciso saber dizer não aos filhos”, defende, embora também saiba que para muitos avós, um neto vem dar um novo sentido à vida. Para si, os netos são uma forma diferente de saborear uma criança, uma continuação aperfeiçoada dos filhos e um enorme foco de felicidade.

A hora da despedida é fácil, porque sabe que os netos vão bem. “É bom despedirmos-nos dos nossos netos e eles irem felizes para casa dos pais e sabermos que são os melhores pais que eles podem ter. Avós que sentem que os netos não têm os pais que merecem devem sentir uma angústia terrível no momento da despedida.”

Livros Horizonte, junho de 2018

Diz uma coisa no livro deliciosa: os netos são ainda melhores do que os filhos.
(Risos) Os filhos são filhos e vão ser sempre, mas a verdade é que os netos têm duas coisas: o facto de fazermos uma clareira para eles na nossa vida que torna tudo mais fácil. Tenho consciência de que com os meus filhos, tentei sempre fazer coisas com eles ao mesmo tempo que estava a fazer outra coisa qualquer. É o que os pais fazem: têm de engomar, varrer, têm de responder a mails, enquanto nós, com os netos, podemos abrir estas clareiras. Ter netos, para mim, foi uma maneira diferente de saborear uma criança. Eu estou a fazer as coisas com elas, estou entregue àquilo que estou a fazer com elas.

"Tenho consciência de que com os meus filhos, tentei sempre fazer coisas com eles ao mesmo tempo que estava a fazer outra coisa qualquer. É o que os pais fazem: têm de engomar, varrer, têm de responder a mails, enquanto nós, com os netos, podemos abrir estas clareiras."

Até porque a Isabel foi mãe muito nova, não foi?
Eu fui mãe aos 23, e tive os três filhos antes dos 30 anos. É exatamente a fase em que estamos também a construir uma carreira. Acho que se calhar hoje, com as mães que são mais velhas, elas já podem fazer isto com os próprios filhos. Como pais, sentimos-nos sempre frustados, estamos a fazer qualquer coisa e eles estão sempre a interromper. Ser avó permitiu-me fazer muitas coisas que não fiz com os meus filhos.
Outra coisa que percebi é que como pais temos a tendência para ser muito pedagógicos. O tempo que temos com eles é para ensaiar a tabuada, para fazermos isto ou aquilo porque vai ajudá-los na matemática. Como pais temos sempre a escola muito presente. Como avós, estamo-nos nas tintas para isso e também já não vamos brincar a jogos que não gostamos. Já não nos sentamos no chão a fazer torres de legos só porque é pedagógico. O que tenho descoberto com as minhas netas é o prazer de fazer coisas malucas.

Mas também faz brincadeiras com objetivos concretos?
Sim. Quando falo no livro do workshop da festa de anos dos pais, aquilo era uma coisa verdadeira. Às vezes, dizemos que as crianças não ajudam, mas isso também passa por nós. Elas estavam mesmo a ser úteis, sabiam que aquilo era para chegar a um fim. E esse fim é o que dá sentido às coisas. Há coisas com os netos que são mesmo fantásticas.

Os netos são mesmo a segunda oportunidade, como escreve no livro, de fazermos melhor aquilo que já fizemos como mães?
Estive a pensar muito nisso da segunda oportunidade. E cheguei a uma conclusão no dia em que nasceu o Eduardinho, o meu neto mais novo que tem seis meses. Parei num semáforo e pensei assim: “Se uma pessoa sente que falhou como mãe, se sente que os filhos lhes deram mais desgostos do que deviam, acho que não consegue ser avó.” Nesse sentido, não é uma segunda oportunidade, porque não falhámos a primeira oportunidade — que são os filhos. Se não acreditássemos que íamos fazer bem àquela criança, acho que não nos conseguíamos entregar aos nossos netos. Penso que é antes uma continuação aperfeiçoada.

Até porque se fizemos mal com os filhos vamos continuar a fazer mal com os netos, não acha?
Sim. E, sobretudo, provavelmente não vamos saber fazer. Como pais somos resultado dos pais que tivemos e se tudo correu mal — podemos sempre mudar isto ou aquilo —, intrinsecamente não vamos conseguir ser muito diferentes.

Fala de um sentimento que as tias também têm. Estamos com as crianças, podemos mimá-las, mas no final do dia voltam para casa dos pais. Dá-nos uma liberdade de não estar tão preocupados com a educação?
Mais do que aquela ideia do ‘vamos estragá-los’ — eu não me identifico com isso e acho que ninguém quer netos estragados, o facto de sabermos que esse tempo acaba é muito importante. Não estarmos privados de sono é outra coisa fundamental e eu tive três filhos que dormiam mal. Ou seja, é mais do que saber que tem um fim. É ter um fim e saber que eles vão bem. É despedirmos-nos dos nossos netos e eles irem felizes para casa dos pais e sabermos que são os melhores pais que eles podem ter. Avós que sentem que os netos não têm os pais que merecem devem sentir uma angústia terrível no momento da despedida.

E a relação com os filhos? Muda quando passa a haver netos na equação?
Muda e é posta à prova. Como digo no livro, no primeiro momento que chego à maternidade e vejo as gémeas, foi dos zero aos cem. É o reconhecimento de uma emoção que conhecemos. Até me atrevo a dizer que é mais rápido do que a das próprias mães, que passaram por um parto, estão às voltas com as hormonas e que ainda têm de se vincular. Para nós, avós, é ‘está bem, vamos embora’. Era pegar neles e ir para casa.
A partir daí, começamos a perceber que somos retaguarda, que estamos em segundo plano e isto é muito doloroso e, às vezes, difícil de aceitar. E os avós põe-se em competição com a mãe e o pai pelo amor, pela capacidade de vestir e despir a criança, por saber alimentá-la como deve ser, etc. Se esta competição se instala e temos do outro lado o elo frágil, uma mulher que acabou de ser mãe, isto dá aquelas coisas que vejo nos blogues das mães, que me põe os cabelos em pé, que são elas a falar das sogra e das mães com fúria.

As avós, às vezes, dizem coisas que tiram as mães do sério…
Quando uma avó diz “coitadinho, estás tão magrinho, precisas mesmo da comida da avó”, o que é que ela quer? Ela quer que a mãe lhe diga que o neto sente muito a sua falta, e que a avó é fundamental na vida dele. Ao terceiro filho, estamos prontos para deixá-los com os avós uma semana. Ao primeiro filho, ouvimos tudo como uma crítica. É preciso haver bom-senso e humor. Há sempre um bocadinho de competição até porque a educação é aquela área em que toda a gente é perita. Toda a gente acha que sabe fazer melhor do que nós. E as pessoas sentem-se muito livres para criticar e dar a sua opinião.
Com a minha filha Ana foi muito engraçado. Ela tinha 23 anos, teve gémeas, prematuras. O que para os avós é um jackpot porque é sempre preciso um colo. Mas ela estava a aprender tudo. Com a terceira filha, segunda gravidez, já teve outra relação em que estive muito mais de fora. Tivemos até muito mais discussões porque ela disse “vou educá-la como quero e como acho”. E eu tiro-lhe o chapéu. A Marta é o resultado excecional dela e do que ela fez. Mas são tudo aprendizagens e nem sempre são fáceis.

Esse papel de estar na retaguarda é doloroso, mas também é fundamental hoje em dia, não é? Os avós têm um papel que se calhar há uns anos não tinham, são mais novos, mais ativos e têm tempo.
Em relação ao passado, não falaria bem assim. Antigamente quando as mulheres tinham filhos aos 20, 20 e tal, os avós eram bastante novos.

"Como pais temos a tendência para ser muito pedagógicos. Temos sempre a escola muito presente. Como avós, estamo-nos nas tintas para isso e também já não vamos brincar a jogos que não gostamos. Já não nos sentamos no chão a fazer torres de legos só porque é pedagógico. O que tenho descoberto com as minhas netas é o prazer de fazer coisas malucas. "

Se calhar os avós viviam era menos tempo.
Sim, eventualmente. Eu vi a minha mãe ser avó e era super interventiva. E em meios sociais mais baixos, muitas vezes a avó era quem deixava de trabalhar. Neste momento presente, eu preocupo-me. Sei que a vida é muito difícil, sei que os pais estão muito cheios de trabalho, mas vou a muitas escolas falar e a muitos jardins de infância e o que vejo é avós a fazerem o papel de pais. Numa escola onde estive há pouco tempo, disseram-me que setenta e tal por cento dos miúdos, até aos 3, 4 anos, entram às 7, 8 da manhã e saem às 7, 8 da noite. E os 30 por cento que não o fazem, é porque os avós os vão buscar às quatro horas. Depois fui falar com os avós e havia quem dissesse: “Depois vou para casa da minha filha, dou-lhes banho, dou-lhes de comer e quando a minha filha chega já têm o pijama posto.” E lembro-me de uma frase do Eduardo Sá que diz que os avós não devem desistir de educar os próprios filhos. Quando os filhos, adultos, têm a vida toda organizada com base em terceiros, seja a empregada ou os avós, estas crianças vão sofrer com isto. Percebo as profissões, percebo tudo, mas sem querer apontar o dedo aos pais, é altura de pararem e pensarem. A infância corre depressíssima e se calhar têm de requacionar um bocadinho isso. E também passa pelos avós não se disporem a preencher esse tudo.

Isso acaba por ser um problema estrutural da nossa sociedade. Vemos outros países onde as licenças de maternidade são mais longas, onde há reduções de horário que são levadas a sério. Aqui somos capazes de olhar de lado para a colega que exige todos os seus direitos até ao fim. E a solução para horários de trabalho complicados é encontrar uma creche que fique aberta até mais tarde, não é?
Claro, claro. E depois o tempo que gastamos nos transportes é um absurdo. São quase duas horas para cada lado. A minha maior frustração enquanto mãe era sair cedo do emprego, mas chegar tarde a casa do ponto de vista da família. O meu patrão ficou insatisfeito, mas a minha família também. E queimei duas horas que não são de ninguém. Como sociedade temos de pensar. As pessoas só se preocupam no dia em que os adolescentes fazem disparates. Aí toda a gente fala das crianças, mas ninguém fala das crianças que estão no berçário em momentos importantíssimos de formação da vida delas dez horas por dia. E eu pergunto que sociedade é que quer isto, e depois se queixa das taxas de natalidade. Não sei se vale a pena.

O professor Daniel Sampaio insiste muito nesse ponto: uma boa adolescência prepara-se na infância.
Claro. Mas não sei que volta se pode dar. Não podemos esperar que sejam os ministérios da Educação e do Trabalho a mudar tudo. No outro dia, diziam-me que na Alemanha é tudo muito igualitário e que o casal escolhe quem fica em casa com a criança. Normalmente é quem ganha menos. E quem é que ganha menos? É a mulher. São pescadinhas de rabo na boca. É mesmo preciso fazer alguma coisa. Estamos a chegar ao absurdo. Havia uma senhora, na escola de que falava há pouco, que me contou que a filha, de 38 anos, tinha feito uma FIV [fertilização in vitro] e tinha tido gémeos. E a mãe, semana sim, semana não, viaja para fora de Portugal. Já não estamos a falar de carreiras no princípio da vida, também tem de haver alguma maturidade para pensar se se tem condições para ser mãe.

E a Isabel há pouco dizia que os avós também têm obrigação de dizer não.
Exatamente. E como educadores dos filhos têm obrigação de lhes dizer: “Tu vê lá como está a tua vida porque há aqui qualquer coisa que não está a funcionar. Estes miúdos estão a crescer comigo.” Mas o que é que acontece? Para muitos avós, isto passa a ser o sentido da vida deles e nem sequer estão interessados em mudar este padrão. Alguns estão. Uma senhora, na rua, veio ter comigo e disse que eu dava uma visão muito cor de rosa do que é ser avó. “Havia de lá ter os netos a semana toda e o fim de semana todo e queria ver se falava assim.” E eu respondi que provavelmente não falava. Não é cor de rosa por não ter consciência dos problemas, mas porque para mim representa uma coisa boa na minha vida e não um peso.

É um foco de felicidade?
Um foco de felicidade. Esta senhora, que se está a queixar a mim, será que se queixa aos filhos? Isso é muito típico. Vamos aos hospitais, queixamos-nos nas redes sociais, mas não pedimos o livro de reclamações. Um avô também me disse que, como estava reformado, a filha dizia que ele tinha obrigação de tomar conta do neto e ele não se sentia capaz. As pessoas, às vezes, não dizem nada porque têm relações muito frágeis e têm medo de fazer frente a um filho.
Eu farto-me de dizer aos avós que não desistam da vida, até enquanto casal. Não estamos a falar de emergências, mas temos de dizer aos filhos que arranjem outra solução quando já temos planos para aquela altura. Mas sejamos francos, as crianças vão crescer para o mundo. Os pais vão estar sempre lá, mas os avós… Os netos tornam-se adolescentes e desaparecem, não podemos esperar que com essa idade adorem passar os dias em casa dos avós. Não devemos tendencialmente esvaziar a vida de outros interesses, de ter vida, e devemos levar os pais a assumirem as suas responsabilidades. Claro que custa. Dou por mim a pensar, à hora dos banhos, enquanto estou nos sofá a ver uma série que não me custava nada ir dar uma ajuda à minha filha. E até me sinto culpada, mas é melhor viver essa culpa e continuar a ver a série do que criar essa expectativa nos outros.

E o papel do avô?
Estou sempre a falar de ser avó, mas acho que consigo fazer estas coisas todas porque tenho um avô. E o que vejo é homens extraordinários que fazem tudo. É um trabalho de equipa e até um projeto de casal.

É mesmo verdade que teve a ideia para o livro durante um banho de imersão?
A ideia do livro foi num banho de imersão que é de onde saem quase todas as minhas ideias. Mas resultou de um frasco verdadeiro de memórias que a Ana e as gémeas me deram.

Então esse frasco, que é uma das sugestões do livro, já existia fisicamente?
Existia e estava ao lado da banheira. E eu tiro de lá uma memória e adoro. Está cheio de cartõezinhos. Assim como as músicas nos fazem lembrar memórias, começo a ler “O dia em que fomos ao circo em Mira” ou “O cheiro da tua almofada”, e aquilo volta mesmo. E pensei que tinha de pôr aquelas ideias em livro.

Eram tudo coisas que já tinha feito com os seus netos ou com a pressão do livro teve de criar novas?
Não, não. Eram coisas que já fazíamos. A diferença foi a produção da fotografias e por isso aparece no livro que foi feito com a colaboração da Madalena e da Carminho que levaram aquilo muito a sério. Houve um dia em que as levei a dar um passeio no Alentejo, no verão. E uma delas diz: “Avó, vais escrever outro livro para os avós?” E eu disse que sim. “Então escreve lá — ela muito a sério, não era graça — que não devem levar os netos a passear no verão de calções e sandálias.” (risos) Houve coisas que foram afinadas, mas tudo resultou de coisas que já tínhamos feito.

"Começamos a perceber que como avós somos retaguarda, que estamos em segundo plano e isto é muito doloroso e, às vezes, difícil de aceitar. E os avós põe-se em competição com a mãe e o pai pelo amor, pela capacidade de vestir e despir a criança, por saber alimentá-la como deve ser, etc."

Qualquer avó consegue fazer estas coisas ou é preciso alguma arte e engenho?
Acho que arte e engenho no sentido de trabalhos manuais é preciso zero. Todas as avós de Portugal devem ser mais dotadas do que eu para os trabalhos manuais. Subjacente a este livro há uma ideia filosófica e pedagógica: a de ser avó jardineiro e é um conceito que acho que já fazia mas que é legendado pela Alison Gopnik [psicóloga e filósofa norte-americana] quando ela diz que os pais devem ser mais jardineiros e menos carpinteiros. Acho que é também uma reação à forma como vejo a maternidade e a paternidade serem feitas nesta geração. Muito pouco contacto com a natureza, os animais, tudo muito pedagógico, tudo medo das bactérias, tudo tecnológico. Há aqui uma noção consciente de ser uma avó do contraditório. Respeito imenso a decisão dos pais, e cada um sabe o que é melhor para a sua família, mas quando éramos famílias de cinco ou sete o contraditório entrava dentro das famílias, quer os pais quisessem quer não, porque “domesticar” um ou sete não é a mesma coisa. Agora acho que os avós têm muito este efeito do contraditório que não é ser do contra. Ser do contra é um absurdo, só se está numa rota de colisão que vai acabar mal.

Vai acabar em conflito.
Vai acabar mal. E o nosso acesso aos netos depende da vontade dos filhos. E ser do contra, não. Agora do contraditório, é bom. Com os meus netos faço isso: se têm muitas regras tento que tenham menos ali, se sinto que têm poucas regras tento focar-me nas regras, e tento ser um bocadinho o contrário daquilo que é a rotina deles.

Há um desses exemplos no livro que é o banho de mangueira com sapatos e tudo.
(Risos) Ficam histéricos. O primeiro momento é de pânico, acham mesmo que o mundo vai acabar. É inesperado. Até para nós que não planeamos aquilo. Por isso digo que o livro é um ponto de partida. Um avô que deteste mexer na terra não vais fazer isso só porque vem no livro. Repare que no livro não há uma única coisa de cozinha. E a editora perguntava-me: “E bolos?” Bolos? Eu não entro numa cozinha a não ser com uma pistola na cabeça, agora vou fingir que sei fazer bolos? Mas com o avô adoram fazer isso e é sempre o avô que vai para a cozinha. No outro dia fiz-lhes umas panquecas, que não ficaram muito bem, e disse à mais pequenina que mais pareciam omoletes e para ir chamar as irmãs. E ela diz. “Manas, a avó fez crepes-bandoletes.” E agora pedem crepes-bandoletes. E eu digo, não. Fiz uma vez e acabou.

Cada avó acaba por encontrar o seu caminho?
Claro. O que digo é por que é que se há-de pintar desenhos quando se pode pintar uma parede? É verdadeira e útil.

Para fazer tudo isto que sugere no livro é preciso uma coisa muito preciosa: tempo.
Tempo e espaço. O tempo é muito verdade. Quando estava a escrever, pensei nisto. Muitas vezes digo, vá buscar uma folha, vá buscar uma pedra e a maior parte das pessoas não têm um sítio onde ir buscar estas coisas. Mas podemos pôr o enfoque mais em levá-los a um parque do que a um centro comercial. Ir à praia não tem de ser só no verão.

Os miúdos crescem num instante e cada minuto que deixamos passar não volta, não é?
Crescem num instante. Sobretudo, nós, avós, temos de ser muito conscientes. A nossa perspetiva de permanência na vida dos nossos netos tem um horizonte. Pressinto muito isso, essa necessidade de semear, de criar memórias. Nós temos uma tradição, que vem do meu lado materno. A minha mãe tirava-nos do banho com uma toalha e dizia: “Vem aí um monstro.” As crianças nunca querem entrar para o banho e nunca querem sair. E uma vez vi uma das minhas sobrinhas fazer isso, depois vi a minha filha fazer isso, e já vi as minhas netas fazerem com a mais pequenina. Penso que esta sensação de continuidade, mesmo para um adolescente, esta sensação de pertença a uma linha que continua… Faz-nos crescer e envelhecer menos amargurados com essa sensação que tanto de nós e daquilo que nós transportamos vai ficar. Enquanto alguém tirar uma criança do banho e dizer aqui vem o monstro, a minha mãe está viva nessa memória. E sempre que os meus netos se lembrarem de regar os seus filhos com sapatos eu vou estar viva nisso. É um anti-depressivo fantástico para envelhecer. A sensação que tenho muito sinceramente é de muito pouca angústia com a morte e a vida efémera.

"Enquanto alguém tirar uma criança do banho e dizer aqui vem o monstro, a minha mãe está viva nessa memória. E sempre que os meus netos se lembrarem de regar os seus filhos com sapatos eu vou estar viva nisso. É um anti-depressivo fantástico para envelhecer".

Semear as memórias nos seus netos vai-lhes permitir que um dia semeiem memórias nos netos deles, não é? Como se fosse um ciclo virtuoso.
Espero muito que seja. É a felicidade mútua. As memórias só colam se forem vividas com emoção. Claro que a pessoa tem medo. Lembro-me de mandar uma mensagem à Ana quando as gémeas tinham meses a perguntar: “Achas que elas vão chorar no meu funeral?” Nós avós temos muita essa sensação: eles vão crescer para o mundo e nós vamos tornar-nos irrelevantes. As relações só se criam com relações a dois, quando os pais não entram. Quando os pais saem, nós avós estamos no topo da cadeia alimentar. E temos de saber aproveitar cada um desses momentos.

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