Ismailis: a fé que chegou a Portugal via Moçambique. Malik e Cheinaz fizeram o percurso contrário /premium

11 Julho 2018308

No final da década de 70 a comunidade ismaelita que estava em Moçambique rumou a Portugal, por indicação de Aga Khan. Malik e Cheinaz voltaram para Maputo que não conheciam, mas era lá tinham raiz.

A história de Malik e Cheinaz começou em Moçambique, mesmo antes de qualquer um dos dois ter pisado o país onde hoje vivem com os três filhos. As raízes são o que são, sobretudo quando a terra é fértil como aquela. Nasceram em Lisboa, conheceram-se em Lisboa e, a dada altura, rumaram a Londres para lá trabalharem. Mas o bichinho do que nunca tinham conhecido estava lá, guardado junto às memórias tantas vezes contadas pelos pais, nascidos em Moçambique, ao ponto de já se confundirem com memórias deles mesmos.

“Sempre tivemos esta curiosidade”, diz Malik Amirali que conta como os seus antepassados — ismaelitas como ele — se refugiaram no país africano, então parte de Portugal, em busca de melhores condições de vida. No final do século XIX havia fome em Gujarat, Índia, e a família atravessou o Índico, fixando-se em Nampula. O mesmo aconteceu com a de Cheinaze Vissram. A pequena comunidade ismaelita que ambos integram fez o resto. Bom, a história de Moçambique também deu uma ajuda.

Por estes dias estão em Lisboa, como outras 45 mil pessoas que professam a mesma fé em Alá, aceitam a autoridade do Imã príncipe Aga Khan que reconhecem como descendente direto do profeta Maomé. Vieram para o jubileu de Diamante de “Sua Alteza” — é como os ismailis se referem ao seu Imã –, mas foi em Moçambique que mostraram ao Observador como rezam, onde o fazem, quando o fazem e como vivem diariamente uma fé que vai muito além da dimensão espiritual. E é precisamente este último ponto que acaba por explicar o início de tudo para os Vassrim Amirali.

O Edifício de Sua Alteza em Maputo, no bairro do Alto Maé

O Imã não é apenas um líder espiritual, também dá orientações sobre o mundano. O próprio diz que “no Islão, um imã, xiita ou sunita, tem responsabilidades, antes de mais, pela segurança do povo; em segundo lugar, tem responsabilidade pela qualidade de vida material, pelo quotidiano. A natureza do imamato é, portanto, a de se envolver nas atividades com impacto direto na qualidade de vida das pessoas”.

Foi nesta lógica que, no final da década de 70, quando depois da independência Moçambique travou uma guerra civil, o Imã Shah Karim Al-Husseini deu orientações concretas para que os ismailis que estavam no país saíssem rumo a Portugal. Começou aqui a comunidade ismaelita portuguesa, onde Malik e Cheinaz nasceram, cresceram e casaram. “Não foi um casamento arranjado, foi por amor”, garante Malik. Os ismaelitas não estão obrigados a casar com ismaelitas, mas ali simplesmente aconteceu.

Cheinaz e Malik nasceram em Lisboa, mas a amizade das famílias já vinha de Moçambique, onde voltaram

Uma filha (12) em Lisboa, outro filho (9) nascido em Londres e a última, de um ano, nascida em Maputo onde a família vive desde 2012. Ela é assistente social, trabalha como voluntária na Academia Aga Khan ali perto, na Matola. Ele trabalha no Barclays. Mas antes de seguir para o banco, todos os dias de manhã, vai até ao bairro do Alto Maé, onde está o imponente Edifício de Sua Alteza Aga Khan. De manhã é forma de dizer, porque Malik acorda mesmo de madrugada, já que a sala de orações — o jamatkhana — abre às 3h30 da manhã, fechando às 6h30, para a oração do nascer do sol.

No jamtkhana não entram não fiéis quando é hora de oração, nem é possível recolher imagens. “É por uma questão de concentração”, explica Rahim Firozali, líder da comunidade ismaelita em Portugal. O Observador foi convidado a entrar na sala de orações, ou “sala da comunidade” na tradução direta da jamatkhana, tanto em Lisboa como em Maputo.

Lá, Malik e Cheinaz fizeram as honras da casa e escolheram precisamente a sala ampla, virada para Meca, com todo o chão alcatifado no mesmo tom claro das cortinas corridas em todas as janelas, para explicarem as idiossincrasias da sua fé. Os sapatos ficam antes da subida da grande escadaria que a meio tem um retrato do atual Imã quando era jovem. Mulheres à direita da escada, homem à esquerda, é também assim, separados, que entram na sala de oração — aqui mulheres para a esquerda e homens para a direita. Mais uma vez a explicação está na “concentração”.

Rahim Firozali, líder da comunidade Ismaili de Lisboa, no Centro Ismaelita das Laranjeiras

“Não deixa de ser uma tradição islâmica com uma razão de ser: vamos para um momento de oração e o grande objetivo é concentrarmo-nos no que vamos fazer: orar. Sentar separadamente ajuda-nos a concentrar, evitando as distrações. Não tem outro sentido além desse”, explica Cheinaz. Sentados nos chão, como fazem quando recitam os versículos do Corão e, por vezes, quando lêem intervenções do imã. Depois do ritual, que muitas vezes conduz como ministro, Malik volta a casa para apanhar os filhos e deixá-los na escola, segue para o banco e no fim do dia volta ao jamatkhana para as orações do pôr do sol.

“Historicamente sempre tivemos duas orações, é milenar. Está ligada a razões mais históricas do que propriamente religiosas. O que posso dizer é que, em termos de influência, quando iniciamos o dia com oração ajuda-nos a concentrar melhor, a pensar melhor, focar melhor. E no fim do dia é quase como o fechar do dia, como a fase da reflexão, da ponderação”, explica.

Cheinaz acrescenta outro ponto, que serve para explicar a diferença face às restantes comunidades islâmica, os sunitas, cujas mesquitas chamam para a oração obrigatória cinco vezes ao dia. Os ismaelitas, muçulmanos xiitas seguidores de Aga Khan, são mais flexíveis, em toda a linha. Em vez de cinco momentos de oração ao longo do dia, concentram tudo em apenas dois. Têm a oração do nascer do sol e agregam as duas do final do dia numa só. “Tendo em conta o mundo contemporâneo, e dadas as exigências do dia-a-dia, foi feita esta organização das orações. De madrugada, antes de tudo começar, e no final quando tudo acabou”. E quem não conseguir deslocar-se a uma sala de orações, para rezar em comunidade, pode fazê-lo interiormente onde estiver.

A partir desta escadaria, no edifício de Maputo, não passam sapatos nem é permitida recolha de imagens

“Se não é possível a participação ao longo do dia, podemos incorporar a oração onde estivermos”, explica Rhaim Firozali em pé noutra sala de orações a quase nove mil quilómetros de Maputo, a do Centro Ismaili de Lisboa. O espaço, que faz agora 20 anos, foi inaugurado pelo então Presidente Jorge Sampaio. Bem mais recente do que aquele que foi inaugurado em Maputo em 1941 e ampliado em 1968, dita a placa que também revela por quem foi feita essa inauguração: o então governador-geral de Moçambique, quando o país era uma província ultramarina, Baltazar Rebelo de Sousa,  pai do atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que conhecia bem a importância daquela comunidade no país.

Em Lisboa, o centro é um edifício emblemático no início da Avenida Lusíada, nas Laranjeiras. Concebido de raiz para albergar não só uma sala de orações, como também espaço para que lá se instalasse a Fundação Aga Khan Portugal. Sara, a guia do centro, conduz a visita, chamando a atenção para toda a espécie de pormenores de simbologia, como a parede imponente, logo à entrada, que nenhum leigo diria ter inscritos de cima a baixo os 99 atributos de Alá, em caligrafia cúfica.

A entrada do Centro Ismaili em Lisboa, com a grande parede com os 99 atributos de Alá em escrita cúbica

O edifício está situado entre dois movimentados eixos da cidade de Lisboa, a Avenida Lusíada e o Eixo-Norte-Sul, mas quem se encontra no jardim no centro do edifício não adivinha o turbilhão que vai lá fora. Faz a fronteira entre o mundo exterior e o acesso ao jamatkhana, e a ideia é precisamente  “levar as pessoas por um processo de relaxamento“, em que conta o som da água das duas fontes que se encontram pelo caminho e os canteiros sempre floridos, qualquer que seja a estação do ano.

Aqui, o jamatkhana tem 875 metros quadrados, também alcatifados e com chão aquecido para a dureza do inverno — em Moçambique não é preciso. Tudo ali foi pensado para a pensar no equilíbrio mente/corpo, mas também na integração na comunidade local. Sara aponta para pormenores como o dos azulejos da fábrica portuguesa de cerâmica da Viúva Lamego a reproduzirem os que estão na sala árabe no Palácio Nacional de Sintra. Ou o jardim de laranjeiras, porque laranja é bortugal em árabe.

Lá ao fundo está a escada que dá acesso ao piso superior, o da sala de oração

As orações do nascer do Sol, ali, decorrem entre as quatro e as cinco da manhã e, tal como em Maputo, não há mais ninguém senão membros da comunidade dentro do jamatkhana nessa altura. Rahim não se alonga sobre os detalhes do período de orações, diz que se rezam versículos do Corão, mas garante que os rituais variam muito consoante o local onde está instalada a comunidade. Em Portugal são entre 9 e 10 mil os membros da comunidade (mais concentrados em Lisboa, Seixal e Oeiras) que, em Moçambique, é muito mais reduzida. Serão cerca de 3 mil ismailis, com a maior concentração em Maputo e Nampula.

Já Mali e Cheinaz explicam que a oração ismaili é mais espiritual, menos exteriorizada com gestos repetitivos como acontece com os muçulmanos sunitas. Também não existe um chamamento para a oração — que curiosamente, durante a conversa nos jardins do Edifício de Sua Alteza em Maputo — se faz ouvir alto e bom som, vindo da mesquita que fica não muito longe dali. “A interpretação é feita à luz dos dias de hoje”, diz Cheinaz traçando as diferenças face à prática da fé pelo islão sunita.

Do lado de lá desta divisão, Khalid Jamal, sunita e da direção da Comunidade Islâmica de Lisboa, já tinha explicado ao Observador que há uma diferença muito visível. “A oração sunita é não só espiritual como também física”, diz fazendo referência aos movimentos corporais que acompanham o momento de oração nas mesquitas. Os ismailis acabam por se fundir de forma mais discreta no contexto em que estão.

Depois há as oferendas da comunidade ao imã, que o atual líder espiritual quis — a partir do jubileu de ouro — que tivesse uma nova vertente, menos material. “Time and Knowledge Nazrana”, tempo e conhecimento é o que pede aos membros da comunidade para oferecerem como nazrana (presente) e a máxima está escrita em cartazes espalhados pelo Centro Ismaelita de Lisboa. A contabilização do tempo disponibilizado por cada um não tem propriamente um sistema, explica Rahim Firozali, embora seja uma obrigação para o ismaili doar tempo e conhecimento em prole da comunidade em que se insere, cumprindo a tradição ismaili.  Nem por isso a parte material deixa de existir entre esta comunidade normalmente associada a elites empresariais (em Portugal é assim) liderada por um príncipe com fortuna e alguns hábitos luxuosos, com todos os membros a terem de entregar um décimo do que ganham à comunidade. Nos momentos importantes — como o deste jubileu — também fazem oferendas ao Imã.

Em Lisboa, nesta quarta-feira, Aga Khan marca os 60 anos da sua designação como Imã e vai estar numa cerimónia religiosa privada com os membros nacionais e internacionais da comunidade ismaili, na Feira Internacional de Lisboa no Parque das Nações que, por estes dias, acolhe uma mancha verde (é a cor das celebrações) de ismailis vindos de todo o mundo para estarem com o seu líder espiritual nesta data de peso. Malik e Cheinaz vieram com os filhos de Moçambique, já cá estão há mais de uma semana e não quiseram faltar a esse momento.

O Observador viajou para Moçambique (Maputo e Pemba) a convite da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento

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