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72 horas. Este era o prazo que Israel deu ao Hamas para entregar os 28 corpos dos reféns que não sobreviveram ao cativeiro na Faixa de Gaza. Foi o que, aliás, ficou plasmado no acordo assinado pelas duas partes. Ainda assim, o lado israelita sempre soube que ia ser uma tarefa incrivelmente complexa com o movimento islâmico a avisar que não sabia do paradeiro exato de alguns cadáveres. O prazo terminou esta segunda-feira — e os restos mortais de apenas quatro foram entregues, estando previsto que mais quatro entrem em território israelita na noite desta terça-feira.
As famílias dos reféns mortos na Faixa de Gaza desesperam. Querem recuperar os corpos e pressionam o Governo a agir. Até já pediram a intervenção do enviado especial da presidência dos Estados Unidos da América (EUA), Steve Witkoff. O ministro israelita da Defesa, Israel Katz, já alertou que se trata de uma “violação grosseira do acordo”. Do outro lado, o Hamas responde que não sabe efetivamente onde estão os cadáveres e justifica com “limitações” e “constrangimentos no terreno”.
Atualmente, na Faixa de Gaza, o Hamas aceitou a colaboração de Israel, Egito, Qatar e Turquia para que se tentem localizar os corpos. Ainda assim, os dirigentes israelitas acreditam que o grupo islâmico está propositadamente a atrasar o processo. Como tal, decidiram retaliar: esta terça-feira, Telavive anunciou que encerraria o posto fronteiriço em Rafah — entre o Egito e Gaza — até que os restantes cadáveres sejam entregues. Para os palestinianos que vivem no enclave, isso significa uma redução da ajuda humanitária.
▲ Destruição da Faixa de Gaza pode originar que demore algum tempo a recuperar cadáveres
MOHAMMED SABER/EPA
A questão da entrega de cadáveres era um ponto do acordo de paz assinado entre Israel e o Hamas que já não foi cumprido na íntegra. Mas sabia-se de antemão que seria muito complicado de se materializar, pelo menos num prazo de 72 horas. Depois da alegria desta segunda-feira, em que todos os reféns vivos foram libertados, existe uma profunda deceção entre alguns familiares. “É uma violação grosseira do acordo pelo Hamas. É uma injustiça terrível. Não vamos desistir. Os mediadores devem forçar os termos do acordo”, lê-se num comunicado do Fórum das Famílias de Reféns de Israel publicado esta terça-feira.
Apesar da contestação das famílias, o acordo de paz não deverá estar em risco por causa deste revés. No Egito, para a cimeira da paz que teve lugar em Sharm el-Sheikh, o Presidente norte-americano, Donald Trump, mostrou-se confiante de que a guerra na Faixa de Gaza acabou. Questionado diretamente sobre a questão dos corpos que ainda não foram devolvidos, o líder dos Estados Unidos afirmou ser uma “tarefa horrível”. “Eles vão encontrar alguns”, garantiu, sublinhando que Israel também está empenhado nessa missão.
Cruz Vermelha reconhece dificuldades, mas Israel diz que missão “está incompleta”
Sábado, dia 10 de outubro, às 12h (menos duas horas em Lisboa). Esta foi a hora em que as Forças de Defesa de Israel se começaram a retirar dos pontos da Faixa de Gaza que tinham ficado acordados. Foi também a partir daquela hora que o relógio começou a contar para que o Hamas libertasse não só os reféns vivos, como também entregasse os corpos. “O Hamas vai libertar os restos mortais dos reféns que tem em sua posse e daqueles que estão nas mãos de outras fações palestinianas em Gaza”, estipulava o acordo, que também refere que o Hamas partilharia “toda a informação sobre os restos mortais” com os mediadores.
Os mediadores já tinham sido informados das dificuldades do Hamas em localizar alguns corpos. Existe inclusivamente uma alínea do acordo de paz que estabelece a criação de um “mecanismo de partilha de informações entre os mediadores” sobre todos os reféns que não forem entregues em 72 horas. “O Hamas deverá aplicar o máximo esforço para garantir o cumprimento dos compromissos o mais rapidamente possível.”
Além disso, como refere o Times of Israel, os dirigentes políticos israelitas já estavam informados dos problemas e demonstraram alguma flexibilidade. A CNN Internacional escreve que algumas famílias foram informadas, no domingo à noite, de que demoraria algum tempo até que os corpos fossem recuperados e que o prazo de segunda-feira não seria provavelmente cumprido. Nem na segunda-feira, nem nos dias a seguir.
Uma fonte de Telavive confidenciava à mesma estação televisiva que sete a nove corpos poderão nunca mais ser recuperados. Outra referia que entre 10 a 15 poderão nunca sair de Gaza, que foi bombardeada diariamente durante dois anos. Ainda que o Hamas tenha noção da região da Faixa onde estão os cadáveres, a destruição que algumas zonas do enclave sofreram torna a tarefa bastante complexa de os localizar.
▲ Familiares dos reféns protestam também pela retorno de cadáveres de reféns israelitas
NurPhoto via Getty Images
Enquanto entidade responsável por ser a mediadora entre Israel e o Hamas no que diz respeito ao regresso dos reféns vivos e dos cadáveres à Faixa de Gaza, a Cruz Vermelha reconheceu, esta terça-feira, que “a busca de restos mortais é obviamente um desafio ainda maior do que ter as pessoas vivas a ser libertadas”. “É um desafio massivo”, afirmou o porta-voz Christian Cardon, antecipando que pode demorar dias ou semanas até que todos os corpos sejam encontrados.
A Cruz Vermelha empenhou 23 funcionários, sacos de cadáveres e até veículos refrigerados em Gaza para que os corpos sejam recuperados com respeito e dignidade. Apesar destes esforços, Christian Cardon refere que existe um “risco” de que vá “demorar muito tempo” até encontrar os restos mortais. “O que estamos a dizer às diferentes partes é que esta deve ser a sua principal prioridade.”
Mesmo assim, Israel insiste em que a “missão está incompleta”. Gal Hirsch, responsável nomeado pelo Governo para tratar dos assuntos relacionados com os reféns, assegurou que a “pressão ao Hamas vai continuar até completar o retorno dos corpos”. “Vai intensificar-se”, prometeu o dirigente, que garantiu às famílias que o assunto está a ser discutido com as “entidades internacionais”.
▲ Cruz Vermelha em Gaza
Anadolu via Getty Images
O assunto está “no topo” da agenda do Governo israelita. “Nós estamos completamente determinados e comprometidos e não vamos parar até que todos os reféns mortos sejam localizados e regressem a casa”, destacou Gal Hirsch. O dirigente também enfatizou que o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, discutiu o problema com o Presidente norte-americano, Donald Trump, esta segunda-feira.
Na Truth Social, numa publicação esta terça-feira à tarde, Donald Trump saudou a libertação dos reféns vivos. “Mas o trabalho ainda não está feito. Os mortos ainda não regressaram como prometido!”, destacou o Presidente norte-americano, em linha com a posição do Governo israelita.
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Familiares de reféns querem suspensão do acordo entre Hamas e Israel
Esta terça-feira, o Egito reforçou a presença na Faixa de Gaza para tentar localizar os reféns mortos em cooperação com Telavive e o Hamas. Em simultâneo, Israel começou a retaliar. Apesar destes esforços nas últimas horas, muitos familiares assumem sentir-se “traídos” pelo governo, acusando o Executivo liderado por Benjamin Netanyahu de estar apenas preocupado com os reféns que estavam vivos.
▲ Muitos familiares diz sentir-se "traídos" pelo governo de Israel
ABIR SULTAN/EPA
O Fórum das Famílias de Reféns de Israel promete não “descansar” até que todos os cadáveres regressem a Israel, dizendo que o primeiro-ministro está a tentar remover o assunto dos “reféns da agenda nacional e apagar as suas imagens do espaço mediático”. Após a alegria e a satisfação que muitos israelitas sentiram na segunda-feira, Benjamin Netanyahu estaria a prestar menos atenção aos restos mortais.
Numa entrevista ao Canal 12 israelita, Yael Adar, a mãe de um refém morto na Faixa de Gaza, criticou duramente o Governo israelita pela “traição” aos familiares. O que mais a irritou, confessou, foi o facto de a vida de um refém vivo valer mais do que um refém morto. “Disseram-me que um refém vivo vale 100 prisioneiros palestinianos, incluindo aqueles condenados à prisão perpétua. Mas um refém morto vale 15 corpos palestinianos. Por que motivo não 100 palestinianos mortos?”
O facto de os corpos dos reféns não serem devolvidos, aponta ainda o Fórum, “trai os valores morais judeus e dessacraliza o acordo assinado”. Por causa disso, o Fórum das Famílias de Reféns de Israel já convocou uma reunião de emergência para a noite de terça-feira e apela ao Executivo de Benjamin Netanyahu para “suspender o acordo” de cessar-fogo na íntegra até que os cadáveres sejam recuperados.
Para a religião judaica, como explica a NPR, a ocultação de cadáveres é considerada um insulto. Sem o corpo e um funeral organizado não é possível para muitas famílias fazer o luto. O judaísmo confere grande importância ao respeito pelo corpo dos mortos — e muitos crentes acreditam que apenas com um enterro digno é que se marca o fim da vida.
Embora a pressão exercida e a importância religiosa, o Governo liderado por Benjamin Netanyahu não deverá voltar com a palavra atrás em relação ao acordo de cessar-fogo. Em vez disso, a estratégia consistirá em pressionar o Hamas. Ao Haaretz, um diplomata de um país de maioria árabe garante que o acordo não está em causa e que a guerra deverá mesmo terminar, mesmo que o movimento islâmico não entregue todos os corpos.
Israel pressiona Hamas e já toma primeiras medidas em Gaza
Por sua vez, os mediadores israelitas estão a tentar colocar pressão no Hamas, acusando o grupo islâmico de estar propositadamente a tentar ganhar tempo para obter vantagens negociais. De acordo com o New York Times, Israel suspeita que o movimento islâmico sabe a localização de muitos corpos. Não de todos, é certo, mas da maioria. Para os entregar, porém, o grupoterá também de contactar com outras fações militares palestinianas em Gaza para que o seu paradeiro seja revelado.
▲ Israel suspeita que Hamas sabe onde estão os reféns
WILL OLIVER / POOL/EPA
O canal estatal israelita KAN apurou que a cúpula política de Israel acredita que o Hamas estará mesmo a esconder alguns corpos e lamenta que o acordo não tenha estipulado qualquer mecanismo para forçar o grupo islâmico a agir. Discute-se também a aplicação de sanções ao movimento, mas não se sabe de que forma é que seriam aplicadas.
Além disso, Israel garante também que cumpriu a sua parte do acordo. Esta segunda-feira, o país judeu libertou 1.968 prisioneiros palestinianos — 250 dos quais condenados a uma pena perpétua. 24 horas depois, Telavive entregou em Gaza 45 corpos ao Hospital Nasser em Gaza. “Os restos” foram entregues ao hospital “através da Cruz Vermelha, após terem sido libertados”, indicou a instituição hospitalar em comunicado.
Por agora, de modo a pressionar o Hamas e para o castigar por “violar o acordo” vigente, Israel avisou esta terça-feira a Organização das Nações Unidas que vai diminuir a entrada de comboios humanitários (serão 300, metade do que ficou acordado) para a Faixa de Gaza, a par do encerramento do posto fronteiriço em Rafah. Para além disso, os dirigentes israelitas estipularam que não entrará mais combustível no enclave, a não ser para fins humanitários.
▲ Posto fronteiriço de Rafah
Getty Images
O que acontece aos corpos quando chegam a Israel? As autópsias e o erro no passado
A entidade responsável por gerir o processo da recolha e da posterior entrega do corpo é a Cruz Vermelha. Assim que os cadáveres saem da Faixa de Gaza e entram em território israelita são dirigidos para diferentes institutos de medicina legal para confirmar se se tratam efetivamente dos restos mortais dos reféns que o Hamas prometeu entregar.
Esta segunda-feira, o grupo islâmico devolveu os corpos de Guy Illouz, Yossi Sharabi, Bipin Joshi e Daniel Perez. Após análises e na sequência de uma autópsia, as Forças de Defesa de Israel confirmaram a identidade dos cadáveres. O mesmo será feito nos próximos dias aos restos mortais dos quatro corpos que forem devolvidos a Israel esta terça-feira.
Tendo em conta o estado deteriorado em que muitos corpos estão — alguns reféns já foram mortos há meses —, Israel faz questão de conferir a sua identidade e também perceber qual foi a causa da morte. Após este processo, em fevereiro de 2025, quando o Hamas decidiu libertar quatro cadáveres, já houve uma surpresa desagradável. O motivo? O grupo islâmico trocou a identidade de uma refém.
▲ Corpo de Shiri Bibas foi erradamente entregue pelo Hamas
ABIR SULTAN/EPA
Há oito meses, o Hamas concordou em entregar os corpos da família Bibas — Ariel, de 4 anos, e Kfir, de nove meses. O cadáver da mãe, Shiri, também teria sido alegadamente entregue. Mas o teste de ADN revelou que não se tratava daquela refém. As Forças de Defesa de Israel falaram numa “violação muito séria” do Hamas. O grupo entregou um “corpo anónimo sem identificação”. Mais tarde, admitiu o “erro infeliz”. O movimento acabou, dias depois, por transferir através da Cruz Vermelha os restos mortais de Shiri Bibas para Israel.