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Isto não é um trocadilho: é mesmo Uma Nêspera no Coliseu

Nesta quinta-feira o podcast "Uma Nêspera no Cu" faz a primeira de cinco noites entre os Coliseus de Lisboa e do Porto. Falámos com os autores: Filipe Melo, Bruno Nogueira e Nuno Markl.

    Índice

Entre esta semana e a próxima, “Uma Nêspera no Cu”, o podcast que junta Nuno Markl, Filipe Melo e Bruno Nogueira e os seus convidados em desafios macabros à volta do clássico jogo “Preferes”, vai estar nos Coliseus de Lisboa e do Porto. O espetáculo chama-se “Uma Nêspera no Coliseu” — claro — e nem o trio percebe bem como é que isto aconteceu.

É um sucesso nas coisas dos podcasts e é a desculpa para juntarmos os três à volta de uma conversa que, na verdade, quase não teve moderação. Além de não ser necessária, a conversa flui de um tópico para o outro, com tangentes que as perguntas nunca fariam prever.

Começámos pelas confirmações ou desilusões que podem acontecer quando se conhece alguém que há muito admiramos, mas à distância. Pode ser um convidado de um podcast famoso mas também pode ser qualquer outra pessoa (pelo meio da conversa há linguagem menos educada, fica o aviso):

Filipe Melo: As maiores desilusões tive-as com o Bruno Nogueira e o Nuno Markl.

Nuno Markl: É mentira.

Bruno Nogueira: Acho que a melhor maneira de admirarmos uma pessoa é não a conhecermos.

FM: Conhecia o Markl um bocadinho melhor, e não estou a dizer isto para ser graxista, mas surpreendi-me sempre positivamente. E a admiração cresce.

BN: Mas há aquelas pessoas que idealizas e depois, quando começas a trocar três ou quatro frases, desmorona-se tudo. Começas a ouvir as músicas de uma maneira diferente, a ver os filmes de uma maneira diferente.

NM: Mas quando conheces pessoas que idealizas e cumprem, é maravilhoso. Recordo um ótimo jantar de sandes que tive com o Terry Jones, dos Monty Python. Podia estar horas à conversa com o homem.

FM: Tive uma surpresa especial com alguém por quem já tinha imensa admiração mas ainda fiquei com mais: a Simone de Oliveira. Ela mostrou ser mais que aquilo que se vê.

O caso Simone

Não é bem um caso na verdade. Explicamos. Em março deste ano foi publicado no YouTube um episódio da segunda temporada d’”Uma Nêspera no Cu” em que o nome do convidado era uma aproximação de “Simone de Oliveira”, escrito com caracteres diferentes. Uma completa fuga aos padrões do programa, o vídeo partia de excertos do anúncio publicitário que a cantora e atriz protagonizou recentemente. O resto do episódio remete para vaporwave, um género de música/arte da internet, com direito a “We Don’t Talk Anymore”, de Cliff Richard. É muita coisa ao mesmo tempo.

NM: O episódio não é de forma nenhuma ofensivo. Adoraria que falássemos abertamente com a Simone de Oliveira e que a convidássemos para ir à Nêspera.

NM: Mas a Simone quando se chateia… já a vi muito chateada com o [Fernando] Alvim. Pensei “se ela descobre que há um episódio da Nêspera em que ela entra nas nossas mentes, possivelmente bate-nos”.

BN: Ou acha hilariante.

NM: Também pode. Mas um dia a Simone disse-me “gosto muito de si porque tem um humor fino e não diz palavrões”. Enfim.

Duas estrelas e um nerd

As personalidades dos três apresentadores do podcast refletem-se nos desafios que propõem, que seguem sempre o formato “o que preferias, isto (coisa má) ou aquilo (coisa terrível)?”. Nuno Markl é conhecido pela simpatia, com alguma vontade de agradar às pessoas – o próprio usa a expressão “golden retriever humano” para definir essa sua qualidade –, enquanto Bruno Nogueira é mais dado à frontalidade. E depois há Filipe Melo:

NM: Tendo a aproximar-me de pessoas como o Bruno porque no fundo gosto muito de ser simpático, afável e bonacheirão, mas gostava de ter um pouco do lado cortante que ele tem. Isso manifesta-se, por exemplo, em situações em que estamos na rua: se vem um maluco, vem sempre ter comigo. Nunca vai ter com o Bruno. Emana do Bruno qualquer coisa como “oh Diabo, não vou tocar neste indivíduo, mas está aqui este, que é um golden retriever humano e que eu vou chagar até à exaustão.” E isso acontece. Tu também atrais, Filipe?

FM: Eu não. Vivo num submundo em que há assim um hiper-mega-nerd

BN: O Filipe atrai muito nerd. No final de cada concerto do Deixem o Pimba em Paz há sempre alguém que tem o tipo de cara que vês em imagens de arquivo, de pessoas que rebentaram com centros comerciais. E essas pessoas, invariavelmente, vão entabular uma conversa com o Filipe. “E aquela BD de ’73?” E o Filipe é um tipo encantador.

NM: O Bruno também não é antipático. Ele trata bem as pessoas. Mas sabe como desaparecer no tempo certo.

FM: Uma vez, depois de um concerto do Deixem o Pimba em Paz, estávamos num restaurante em Beja e há um gajo que vem ter com o Bruno e diz “Desculpa lá interromper, será que posso tirar uma fotografia contigo?”. E ele “claro “. Passado um bocado, vem ele com três amigos e diz “Bruno, desculpa lá, só mais uma”. Todos tiram a fotografia. Um quarto de hora depois, ele aparece com uma cabeleira e uns óculos a piscar: “E agora, Bruno?”.

BN: A partir do momento em que és figura pública, pões-te a jeito. Mas isso não quer dizer que tenham de usar todos os teus orifícios.

Um grande, grande azar

Os desafios apresentados aos convidados muitas vezes incluem pessoas reais e celebridades. Nuno Markl é quem se sente mais desconfortável com tudo isso. Bruno Nogueira e Filipe Melo aproveitam — esta angústia de Markl serve de combustível:

BN: A fidelidade é uma coisa muito importante, a amizade também, mas o sentido de humor está ali a par com essas coisas. Fico mesmo ofendido com pessoas que não têm sentido de humor.

NM: O Bruno costuma dizer que nunca vem de um sítio mau. Quando envolvemos as pessoas não queremos destruir ninguém.

"Se vem um maluco, vem sempre ter comigo. Nunca vai ter com o Bruno. Emana do Bruno qualquer coisa como 'oh Diabo, não vou tocar neste indivíduo, mas está aqui este, que é um golden retriever humano e que eu vou chagar até à exaustão'."
Nuno Markl

FM: Isto de facto começou de uma forma muito pequenina, juntámo-nos ali no estúdio e era uma coisinha familiar. Foi uma escalada tremenda. Vamos fazer cinco coliseus. Estamos numa fase em que estamos a elaborar os dilemas e vemos o quão difícil é. Têm de ser diferentes. Quem for ver as cinco datas vai levar com espectáculos completamente diferentes. Já passei a fase da angústia e apercebi-me de que esses cinco dias vão ser maravilhosos.

NM: Pois vão, apesar do “Azar do Caralho”, que é o jogo mais aflitivo da História, mais aflitivo ainda se jogado à noite. Vamos ter de ligar para pessoas a horas impróprias.

FM: É um jogo em que ligamos a pessoas a horas impróprias. O Markl sofre horrores sempre que o jogamos.

NM: É uma roleta russa. Fico doente. Acontecem coisas físicas dentro do meu corpo e eu fico com diarreia com os nervos. Sinto que está tudo ali a ficar líquido. É muito aflitivo. É a pior invenção de sempre.

BN: O Markl sofre verdadeiramente. Isso para nós é impagável. Vê-lo sofrer é um combustível.

No palco

Ao todo, serão cinco noites nos Coliseus de Lisboa e Porto. Cada espectáculo será completamente diferente, com convidados, dilemas e rubricas distintas. Não adiantado muito do que se vai passar, porque preferem sempre manter algum mistério em relação à experiência do podcast ao vivo, explicam o que podem:

BN: Só temos duas pessoas que se repetem. De resto são tudo convidados novos, uns com os quais não temos qualquer contacto, ou temos pouco. Isto é muito pequenino, é muito difícil não ter contacto com a maioria das pessoas.

Vai ser gravado?

FM: Em áudio sim. Agora a parte da animação dependerá do que acontecer, porque é completamente imprevisível.

O João Pombeiro, vai fazer animação ao vivo nos espectáculos?

FM: Aliás, ele na verdade tem um papel até mais importante, porque é o grande coordenador dos dilemas. Nós não sabemos os dilemas uns dos outros. Se houver alguma repetição, ele próprio recomenda que o mudemos para outro dia. É uma espécie do arquiteto da desgraça.

Mas ele está em palco convosco?

NM: Está de lado. E nunca falha. O timing é preciso, ele está ali com uma atenção extrema a ouvir o que nós estamos a dizer e acho isso maravilhoso. Ele não só é muito bom visualmente, também tem esta sensibilidade que é perfeita.

BN: E tem uma pele muito boa.

Podcast para mim, podcast para ti

Os três são os apresentadores de um dos podcasts mais bem sucedidos de Portugal – não só esgotam datas no Coliseu como estão neste momento no número 1 do top do iTunes português, apesar de não lançarem um episódio novo desde o final de maio. Mas o que é que esse universo dos podcasts significa para eles?

FM: Os podcasts são as novas rádios pirata e isso é incrível.

NM: É como se fosse outra vez o éter nos anos 1980, aquelas estações todas agarradas muito umas às outras e tudo a acontecer lá dentro, por muito estranho que seja… e eu adoro isso. Sendo que aqui não prevejo que vá haver o controlo que em dada altura começou a haver nas rádios locais.

BN: Acho que é salvador para algumas pessoas porque há muitos miúdos que de repente têm ali um objetivo regular, de produzirem conteúdos para podcasts. E muitas vezes andam um bocado perdidos e encontram ali um caminho onde eles comandam, acho que isso é importante.

O Filipe atrai muito nerd. No final de cada concerto do Deixem o Pimba em Paz há sempre alguém que tem o tipo de cara que vês em imagens de arquivo, de pessoas que rebentaram com centros comerciais. E vai entabular uma conversa com o Filipe. 'E aquela BD de '73?'"
Bruno Nogueira

FM: Eu não costumo ouvir podcasts. Falta de tempo…

BN: Tens gatos. O Filipe tem dois gatos com sida.

NM: Há sempre um momento nas entrevistas em que surge isso.

FM: A pergunta não era sobre podcasts? Como é que veio parar aos meus gatos com sida?

BN: Qualquer momento é bom. Falta de tempo, gatos…

FM: É um bocadinho angustiante porque uma pessoa segue séries de televisão, gosta de ouvir discos, gosta de ir ao cinema…

NM: Há muitos apelos. Há demasiado entretenimento e isto devia parar. Fico chateadíssimo quando aparece uma série boa nova.

Viver até aos cem

Uma conversa sobre o início do programa facilmente descamba para considerações sobre a meia-idade, sobre envelhecer, a morte e, mais especificamente, o fim de cada um deles. A Nêspera no seu melhor:

NM: A Nêspera não recolhe grande influência de nada, a não ser do gozo que nos dá.

BN: Há o jogo em si, que é um clássico. Surge de uma conversa de carrinha e depois o Markl achou que era boa ideia avançar com isso.

NM: O gajo que mais facilmente poderia queimar a sua carreira foi quem disse “Vamos a isto!”.

FM: É uma atração pelo abismo, não é, Markl?

NM: Acho que tem a ver com a meia-idade.

BN: Estás quase a bater com o nariz na porta.

NM: 45 já é meia-idade. Se vou viver até aos 90…

FM: No ser humano acho que se assume que a meia-idade é aos 50. As pessoas vivem 100 anos, podes ficar descansado…

BN: O Markl? Nunca. Estamos a apontar para aí para os 60. Vai morrer em casa, sozinho. Só vai ser descoberto passado cinco dias. Um vizinho vai-se queixar. Os cães estão a ganir a noite toda. Com os óculos comidos. Sem barba. Portanto, a tua meia-idade foi aos 30.

NM: Mas sinto-me na meia-idade e sinto um grande apelo para fazer coisas que não sejam a minha rotina habitual, ando muito com essa intenção.

"Num restaurante em Beja há um gajo que vem ter com o Bruno e diz 'Desculpa lá interromper, será que posso tirar uma fotografia contigo?'. Passado um bocado, vem com três amigos. Um quarto de hora depois, aparece com uma cabeleira e uns óculos a piscar: 'E agora, Bruno?'"
Filipe Melo

FM: Está aí um bom dilema. O que é que tu preferias? Ficavas sem o braço esquerdo ou ficavas a saber o dia da tua própria morte.

BN: Ah, caramba.

NM: Eu talvez quisesse saber o dia da minha morte. Mantinha os dois braços até ao fim e planificava a minha vida no sentido de tirar partido.

BN: Eu preferia ficar sem braço, hoje há maquinetas. Admiro imenso vocês, pessoas mais velhas, tenho muito respeito por pessoas da vossa idade e acho que deve ser uma idade fascinante. Mal posso esperar, daqui a 13 anos, para chegar aí.

E o Filipe?

BN: Estamos a apontar mais ou menos para os 42… 47… 48. Imagina que eu acertava?

NM: Esta entrevista pode ficar histórica.

E o Bruno?

FM: Este gajo vai chegar a velho, rezingão.

BN: Eu não sou rezingão.

NM: Ele é um amor de pessoa.

BN: Estive a plantar uma magnólia. Sou uma pessoa que planta.

NM: Sou um grande defensor da bondade de Bruno Nogueira. Ele cria esta imagem de que é um tipo que até mete algum medo.

BN: Fizemos exatamente este jogo nos Monty Python, em que estava o António Feio, o Zé Pedro Gomes, o Jorge Mourato, o Miguel Guilherme…

[fazem todos um ar desconfortável]

NM: E o que é que disseste do António?

BN: Dissemos todos que quem ia primeiro era o Zé Pedro. Repara, o Zé Pedro está sempre no limite.

NM: Mas nunca vai morrer. Ele vai-nos enterrar a todos.

BN: Acho que vai ser qualquer coisa de coração, no meu caso. Vai ser “Aaaaah, foda-se.”

FM: Acho que o Bruno vai ser baleado.

NM: Vai ter a morte mais rock’n’roll.

Ou enquanto trabalha no jardim, como n’“O Padrinho”.

FM: No jardim, a tratar das magnólias, mas por causa de um sniper.

Quem?

NM: Uma das pessoas que ele vai irritar nas suas próximas rubricas.

BN: Simone de Oliveira.

FM: Pode ser mesmo um de nós.

BN: O Nuno estava a dizer que estava na meia-idade, estava com a pretensão de achar que era agora.

NM: São 45 anos. Agora é tudo por aí abaixo.

Uma Nêspera no Coliseu acontece em Lisboa a 15, 16 e 19 de setembro e no Porto dias 21 e 22 (bilhetes entre os 8€ e os 22€).

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