Já ouvimos “DAMN”: deixem passar Kendrick, o melhor rapper vivo

14 Abril 20171.696

Foi a segunda Mother of All Bombs em menos de 24 horas. E há a teoria de que vem aí um segundo disco. Seja verdade ou não, só este "DAMN." dá vontade de dizer "fizeste-a bonita outra vez, Kendrick".

O autor deste texto acordou às 4:44 com dores nos ouvidos, febre e uma insónia teimosa. Pouco depois lembrou-se que, mais ou menos à mesma hora, Kendrick Lamar estaria a lançar um novo disco. O autor fez o que qualquer pessoa normal faria: espreitou a internet do outro lado do atlântico e viu meio mundo em polvorosa com o acontecimento. A avaliar pelas reacções, percebeu que se tratava da segunda Mother Of All Bombs em menos de 24 horas. Quando milhares de pessoas utilizam o emoji de chamas para descrever a sua experiência auditiva, isso costuma ser bom sinal. O autor tomou uns drunfos e já voltou para a cama entretanto, mas passou os ouvidos por DAMN. e a coisa fez mais efeito do que ibuprofueno, por isso escreveu umas coisas literalmente a quente sobre o assunto.

“DAMN.”, de Kendrick Lamar (Top Dawg; Universal)

BLOOD.

É uma sinopse do disco, que tenta ser uma reflexão pessoal sobre a vida e a morte. Ainda não há muito para ouvir, a não ser um instrumental soul e a história de uma mulher cega que dispara sobre Kendrick quando este tenta ajudá-la. Nas palavras de K-Dot, não percebemos se o fez por maldade ou fraqueza. O que sabemos é que tudo isto acaba com um sample de Geraldo Rivera, um apresentador da Fox News que criticou a actuação — absolutamente épica — de Kendrick nos BET Awards em 2015.

DNA.

Este tweet refere-se ao acrónimo GOAT – Greatest Of All Time — que por acaso também significa bode. Em algumas culturas também se usa a expressão “grande bode”, por exemplo, este grande bode não desilude.

É devido a malhas como esta que Vince Staples afirmou há uns dias em entrevista que Kendrick é o melhor rapper vivo e passou os últimos dias no Twitter a justificar-se perante fãs de Eminem, que na verdade não marca um golo desde “Rap God”. No entretanto, Kendrick tem construído mais pontes entre o rap educado e o mainstream do que muitos achariam possível.

Que beat incrível do Mike WiLL Made-It. E Kendrick entra a rappar como nunca:

I got, I got, I got, I got
Loyalty, got royalty inside my DNA
Cocaine quarter piece, got war and peace inside my DNA
I got power, poison, pain and joy inside my DNA
I got hustle though, ambition, flow, inside my DNA
I was born like this, since one like this
Immaculate conception
I transform like this, perform like this
Was Yeshua’s new weapon
I don’t contemplate, I meditate then off your fucking head

Isto é só uma parte do primeiro verso. O instrumental tem duas partes e quando achávamos difícil a coisa melhorar, entra um sample vocal (do tal Geraldo Rivera), uns graves do outro mundo e Kendrick mete a sexta numa harmonia quase sexual com o beat.

YAH.

“New shit, Kung Fu Kenny”, berra Kid Capri no início da terceira faixa. Parece meio despropositado, uma vez que Kendrick passa os três minutos seguintes a cantar por cima de um beat arrastado que parece dever mais ao rock do que os trabalhos anteriores de Kendrick. Deixa lá ver no que isto dá.

[Pode ouvir o disco todo através do Spotify:]

ELEMENT.

Mais rap, outra vez a referência ao Kung Fu Kenny. Para isto aparecer duas vezes seguidas alguma coisa quererá dizer. Lembrei-me daquela máxima do Bruce Lee, o GOAT do kung fu: “Esvazie a sua mente. Não tenha formato. Sem contornos. Como água. Quando você coloca água num copo, esta torna-se o copo. A água pode fluir ou destruir. Seja água, meu amigo”.

Isto diz um bocadinho sobre o modo como o Kendrick aborda a criação e tem recusado, disco após disco, ser apenas mais um rapper competente saído de Compton. E sim, os meus ouvidos compram toda a história de ele ter alargado os seus horizontes, e os do rap, em To Pimp a Butterfly e no que veio a seguir. Tudo isso é relevante na música dele. No entanto, é a cuspir versos que o rapaz ocupa um lugar entre os maiores e esta “ELEMENT.” – que pisca o olho a um clássico de Juvenile e tem o toque evidente de James Blake – é sobre isso mesmo:

Last LP I tried to lift the black artists
But it’s a difference between black artists and wack artists

Assim parece fácil. A maturidade sonora desta “ELEMENT.” é o backdrop perfeito para o bravado de Kendrick:

None of y’all fuckin’ with the flow yeah, the flow yeah
Years in the making, don’t y’all mistake it
I got ‘em by a landslide, we talkin’ ‘bout races
You know this’ll never be a tie, just look at they laces
You know careers take off, just gotta be patient
Mr. one through five that’s the only logic
Fake my death, go to Cuba, that’s the only option

(…)

If I gotta slap a pussy ass nigga, I’ma make it look sexy
If I gotta go hard on a bitch, I’ma make it look sexy
I pull up, hop out, air out, made it look sexy
They won’t take me out my element
Nah, take me out my element

FEEL.

Se forem ao Youtube encontram uma conversa muito boa entre Kendrick Lamar e Rick Rubin. Discute-se um pouco de tudo, mas talvez o momento mais interessantes aconteça quando os dois falam sobre meditação. Rubin, que há muito advoga esta prática, pergunta a Kendrick por uma referência que encontrou nos seus versos e o rapper explica que a meditação se tornou uma parte importante da sua rotina, que lhe permite absorver a realidade de outra forma e compreender verdadeiramente os seus sentimentos. Tudo isso é espelhado de alguma forma nesta FEEL., uma reflexão de génio atormentado pela sua trajectória social e pela visão do mundo que habita, tudo isto por cima de um beat nada ostensivo que deixa a ponderação verbal de Kendrick deambular na métrica.

Os versos de Kendrick são repetitivos e nunca mais nos saem da cabeça. Da próxima vez que alguém levantar a garimpa numa reunião, já sabem o que dizer: "(Hol’ up, bitch) sit down"

LOYALTY. FEAT. RIHANNA.

Se em “DNA.” Loyalty rima com Royalty, aqui rima com Rihanna, o que não anda muito longe de royalties, porque esta é claramente das que vai ter mais rodagem e aclamação nas rádios, na internet ou nos concertos. Isso não se deve apenas ao facto de ser a primeira colaboração dos dois numa faixa. Acontece porque é uma canção orelhuda feita à medida da rádio — e Kendrick tem sabido fazê-lo, é o próprio quem admite — com versos bastante mais curtos em que K-Dot e Bad Girl RiRi falam sobre a importância da lealdade.

PRIDE.

Um dos momentos mais estranhos/dramáticos do disco. Kendrick está-se nas tintas para o que esperávamos ouvir e convida-nos a entrar mais uma vez no seu mundo, que em PRIDE. faz lembrar o universo de um André 3000, para quem o cruzamento de géneros é modo de vida. Experimentem. É a coisa menos parecida com rap que encontramos no disco, e está no sítio certo. Mais uma vez, parece fácil até se lembrarem da esmagadora maioria de discos rap que não passam de um amontoado de singles.

HUMBLE.

Esta já todos conhecem. É o primeiro single do disco e o mais bem sucedido na — sinceramente — ainda curta carreira de Kendrick Lamar. Entrou directamente para o segundo lugar da tabela de single Billboard e não é difícil perceber porquê. O beat — outra pérola de Mike WiLL Made-It — é de fazer orgulhar Dr. Dre, o pai espiritual de K-Dot. O vídeoclipe é das coisas mais refrescantes que se viu nos últimos anos.

Os versos de Kendrick são repetitivos e nunca mais nos saem da cabeça. Da próxima vez que alguém levantar a garimpa numa reunião, já sabem o que dizer:

(Hol’ up, bitch) sit down
(Hol’ up lil’ bitch, hol’ up lil’ bitch) be humble
(Hol’ up, bitch) sit down
(Sit down, hol’ up, lil’ bitch)
Be humble (bitch)
(Hol’ up, hol’ up, hol’ up, hol’ up) bitch, sit down
Lil’ bitch (hol’ up, lil’ bitch) be humble

LUST.

É verdade que os créditos desta faixa incluem Kamasi Washington e BADBADNOTGOOD, mas esqueçam o jazz que não é para aqui chamado. Esta é uma daquelas faixas em que o flow do Kendrick me faz lembrar o Q-Tip. Os versos são uma reflexão sobre a canseira que é a vida de uma estrela rap e como isso leva a uma vida algo apática. First world problems, portanto, cada um deles humanizado pelos versos. Ah, ainda não tinha falado das referências bíblicas. Este disco está carregado delas e aquele plano de Kendrick vestido como papa no vídeoclipe de “Humble” não é só um ornamento. Por exemplo:

Lately I feel like I been lusting over the fame
Lately we lust on the same routine of shame
Lately, lately, lately my lust been hiding (Lately)
Lately it’s all contradiction
Lately I’m not here
Lately, I lust over self
Lust turn into fear
Lately in James 4:4 says
Friend of the world is enemy of the Lord
Brace yourself, lust is all yours

LOVE. FEAT. ZACARI.

Adoro. 3 minutos e meio de Kendrick a cantar em dueto com Zacari. E funciona, ó se funciona. Não me parece que o Kendrick queira ser o novo Drake, mas apresenta argumentos válidos para competir na mesma liga. Não é nenhum portento vocal, mas Drake também não é, nem por sombras, tão bom rapper como Kendrick. Fica ela por ela. Ficaria chocado se isto não fosse um dos singles. A produção é de Greg Kurstin, responsável por êxitos de Sia e Adele, e estes tipos não dão ponto sem nó.

XXX. FEAT. U2.

Os U2 encontraram finalmente uma forma de voltarem ao iPhone dos milhões de pessoas que tudo fizeram para eliminar o disco Songs of Inocence, descarregado automaticamente para o seu iTunes. Desta vez Bono nem precisa de pedir desculpa, já que empresta a voz — e bem — à segunda metade de uma faixa. Sempre que ouço um beat mais puxadote neste disco — ou seja, a pedir Kendrick na sua melhor forma — lá vem o Mike WiLL Made-It nos créditos. As suas produções fazem Kendrick correr neste disco, são matematicamente uma garantia de mais versos, e dão coesão a um grande disco de rap criado por um individuo com vistas mais largas.

Como é habitual nele, o exercício conceptual não é uma coisa pedante, mas antes um pretexto para contar histórias viscerais. Aos 7 levava pancada, aos 17 tinha medo de morrer, aos 27 duvida do seu valor, e aos 29 tem juízo suficiente para falar sobre tudo isto.

FEAR.

De vez em quando Kendrick atira-se ao épico. FEAR. dura 8 minutos e é uma espécie de versão rap da excelente série documental britânica Seven Up, criada em 1964 para acompanhar a trajectória de crianças britânicas desde os seus sete anos. No caso de Kendrick, os episódios recordados aconteceram aos 7, 17 e 27 anos de idade e são um espelho do Kendrick que o próprio Kendrick foi encontrando. Como é habitual nele, o exercício conceptual não é uma coisa pedante, mas antes um pretexto para contar histórias viscerais. Aos 7 levava pancada, aos 17 tinha medo de morrer, aos 27 duvida do seu valor, e aos 29 tem juízo suficiente para falar sobre tudo isto.

GOD.

As referências bíblicas aparecem neste disco por vários motivos, um dos quais permitir ao artista equiparar-se a uma divindade na terra:

This what God feel like, yeah
Laughing to the bank like aha, yeah
Flex on swole like aha, yeah
You feel some type of way then, aha, yeah

Não pensem que é desrespeito. Por esta altura no disco, Kendrick já mostrou que é uma god fearing creature e que, na vida ou na morte, conta com Deus para chegar às conclusões que lhe dão um norte.

DUCKWORTH.

9th Wonder e Kendrick só podia correr bem. Óptimo fim de disco. Os versos contam a história de vida de Anthony “Top Dawg” Tiffith, fundador da Top Dawg Entertainment que contratou Kendrick quando este tinha apenas 15 anos de idade, o que faz dele o Aurélio Pereira do rap.

VEREDICTO: A sabedoria popular portuguesa diz “quem canta seus males espanta” e Kendrick continua a demonstrar que os seus problemas são música para os nossos ouvidos. Disco do caraças. Uma mão cheia de grandes malhas que vão alargar ainda mais a sua base de fãs.

P.S. Já agora, corre por aí uma teoria de que este disco é o primeiro de dois, e que o segundo será lançado já este domingo. É fazer figas.

Vasco Mendonça é publicitário e co-CEO da associação recreativa Um Azar do Kralj

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