Víctor Reis chegou à presidência do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) em 2012, ainda o seu primeiro nome era escrito sem “c”. Quando, em 2017, foi substituído no cargo, já tinha recuperado aquela letra — depois de ter ido fazer o cartão de cidadão — ,uma mudança que o obrigou a uma série de alterações nos documentos do serviço. É com o mesmo à vontade que conta este pormenor da sua identidade que fala ao Observador sobre o bairro da Jamaica e como negociou com a Câmara do Seixal a tentativa de realojar as mais de 200 famílias que ali vivem — sem sucesso.

Uma semana depois de uma intervenção no bairro, em que a PSP é investigada para apurar se interveio com violência excessiva, Víctor Reis acusa as câmaras comunistas de não quererem ter o ónus de desalojar pessoas e de se tornarem suas senhorias, arrastando um problema que o Programa Especial de Realojamento, desenhado em 1993 para as Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto, tentou resolver. Para o ex-presidente do IHRU, ao fim de 25 anos o problema do realojamento ainda não está resolvido porque há uma “gestão ruinosa do território que torna impraticável aplicar os processos de realojamento e acabar com as barracas”.

Víctor Reis diz que, neste momento, no concelho de Almada, existem os dois maiores bairros de barracas do país, que cresceram nos últimos anos paralelamente à tentativa de outras câmaras (como Lisboa, Amadora e Loures) de erradicarem as barracas nos seus concelhos. E lembra os dados do Instituto Nacional de Estatística relativos a 2015 — era ele presidente — que concluiu que, das 120 mil casas para habitação social, quase 20% não pagavam renda, o que significava uma dívida de 80 milhões de euros. Um valor quase idêntico à receita que o Estado arrecadava com a venda destas casas e com as rendas que recebia, que rondava os 73 milhões de euros. Víctor Reis encontra três explicações para estes dados: não há atualização das rendas, há ocupação ilegal das casas e ninguém controla nem uma coisa nem outra, permitindo o agravar do problema.

Quanto ao bairro Vale do Chícharos, conhecido por Jamaica, depois de negociar vários cenários possíveis para as duas centenas de famílias que ali habitam, afirma não acreditar que a solução encontrada — numa pareceria com a Santa Casa da Misericórdia — seja concretizada até 2022. Pensa, pelo contrário, que só os cerca de 60 habitantes que foram já alojados em dezembro de 2018 vão conseguir sair do bairro — porque a torre onde viviam ameaçava ruir — e que, em 2022, os restantes moradores do Jamaica não terão uma casa fora dali, até porque é mais difícil espalhar as famílias do que construir um prédio para as realojar.

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