É verdade que Miguel Albuquerque cantou vitória, mas Élvio Sousa também tem razões mais do que suficientes para festejar. Superou os 30 mil votos, atirou o PS para o terceiro lugar e carimbou um feito: só dois partidos cresceram e o Juntos pelo Povo (JPP) foi um deles. O partido explodiu: foram sete mil votos a mais. No final do dia, se Miguel Albuquerque conseguir convencer o CDS-PP a apoiá-lo na formação de um novo Governo regional, o resultado do JPP não servirá para influenciar a governação, mas o cunho de levar um movimento de cidadãos transformado em partido ao segundo lugar das regionais da Madeira já ninguém lhe tira.

Há menos de um ano, o JPP festejou um resultado histórico, procurou fazer mais ao apresentar uma solução com o PS, contudo o número de deputados não era suficiente para construir a ‘geringonça’ com que sonhavam na região. O plano saiu furado ainda antes de Cafôfo e Élvio deixarem a sala para onde convocaram os jornalistas. Um ano depois, ao lado de toda a oposição, o JPP contribuiu para derrubar o Governo regional de Miguel Albuquerque e preparou-se para unir a oposição.

Mais uma vez, o plano acabou frustrado e as culpas não podem ser imputadas ao JPP, que dificilmente podia fazer melhor. Nenhum partido da oposição conseguiu melhorar a sua prestação e obter um resultado capaz de fazer frente a Miguel Albuquerque.

Perante a dura realidade para o partido, Élvio Sousa ainda disse que existe a possibilidade de “governo alternativo” — praticamente impossível, já que o deputado único do CDS chega a Albuquerque —, mas focou-se na promessa de ser um garante dos bons costumes na política. Prometeu “levantar torres de vigia” para não “deixar o PSD fazer aquilo que fez até hoje” e “intensificar a responsabilidade de fiscalizar o que o PSD vai fazer”.

E fez do resultado uma promessa de que “o JPP é um projeto de futuro”: “Não existe só PSD, não existe só PS, existe um partido nacional com sede na Madeira que está a anunciar um mundo novo.”

Há muito que o partido vem a fazer um caminho de crescimento, tanto que fez soar as campainhas dos adversários — que chamam Élvio Sousa de “populista”. O próprio PSD de Albuquerque fez do JPP um alvo a abater durante a campanha eleitoral, com ataques políticos e acusações de que uma solução com o partido a liderar seria um “experimentalismo” perigoso para a Madeira.. Premonição ou não, a verdade é que foi o JPP (e não o PS) a mexer com as eleições.

Entre um almoço de mão de vaca e citações de Einstein, Élvio Sousa tem uma premonição: é desta que o JPP vai governar a Madeira

Juntos Pelo Povo: Movimento de cidadãos nascido à volta de dois irmãos

O Juntos Pelo Povo nasceu oficialmente em 2015, a partir de um movimento de cidadãos para as autárquicas, e tem-se vindo a consolidar, ao lado do PS, como uma das duas forças da oposição política madeirense. O partido, que rejeita definir-se como de esquerda ou de direita, tem raízes na freguesia de Gaula, de onde são naturais os irmãos Filipe e Élvio Sousa, até hoje os únicos líderes que o partido teve.

O JPP é, na sua génese, um movimento regionalista de protesto contra a hegemonia do PSD na região da Madeira. O partido define-se como “liberal de matriz social” e faz do combate à corrupção uma das suas maiores bandeiras. Aliás, esse será um dos fatores que pode estar a travar na Madeira o crescimento que o Chega tem registado no resto do país. Acusado pelos opositores de ser um partido populista e demagógico, o JPP tem como lema “Unidade, Transparência e Resistência”.

Nas suas primeiras eleições com o nome Juntos Pelo Povo, em 2009, Élvio Sousa foi eleito presidente da freguesia de Gaula. O irmão mais velho Filipe tinha liderado a freguesia durante 10 anos, em representação do PS. Nas autárquicas seguintes, em 2013, o movimento de cidadãos venceria com Filipe Sousa as eleições para a Câmara Municipal de Santa Cruz, roubando ao PSD o segundo maior município da região autónoma, ao qual pertence a freguesia de Gaula.

A constituição do JPP como partido junto do Tribunal Constitucional aconteceria apenas em 2015, pressionado pelo aparecimento de um partido chamado “A Voz do Povo” com um símbolo muito semelhante, que, desconfiam, terá sido promovido pelo PSD-Madeira. Esse passo foi dado, mesmo com a oposição de Filipe Sousa, que se tornaria no primeiro líder do partido. “Já tinha estado nos partidos e sabia bem o que a casa gasta”, disse Élvio, explicando a posição do irmão, que mais tarde substituiria na liderança partidária.

Dois meses depois, nas eleições regionais de estreia, o JPP obteve 10,28% dos votos, apenas a 1.400 do segundo lugar do PS, e elegeu cinco deputados para o parlamento regional, composto por um total de 47 representantes. Depois do arranque de sonho, em 2019, nas segundas eleições madeirenses o partido perderia dois deputados, que seriam recuperados em 2023. Nas eleições de maio de 2024, o JPP foi a única força política a reforçar a sua representação, passando a ter nove deputados com 16,89% dos votos, ainda assim atrás do PS.

Algo que tem marcado o JPP nos últimos anos é o desentendimento entre as duas maiores figuras do partido. O momento mais dramático dessa contenda foi a saída de Filipe Sousa, antes das regionais de 2023, em protesto com o irmão, devido ao lugar que ocupava nas listas de elegíveis do partido. Entretanto, o ambiente entre os dois amenizou-se e Filipe foi este domingo o segundo deputado a ser eleito do JPP, apenas atrás do irmão mais novo.

A nível nacional, até hoje o partido madeirense nunca se impôs. Participou em quatro eleições legislativas desde a sua fundação, nunca tendo elegido qualquer deputado para a Assembleia da República, atingindo uma votação máxima de 19.133 votos em 2024.

A vitória quase-absoluta de Albuquerque, “o desejado”, deixou um PS partido e um JPP em festa