Latinos vs Indies: mas afinal quem ganhou o NOS Primavera Sound? /premium

11 Junho 2019631

João Bonifácio ouviu dizer que o santuário do bom gosto musical seria este ano assaltado por gente com intenções duvidosas. Por isso esteve lá para responder à pergunta: foi mesmo isso que aconteceu?

A melhor piada que ouvi este ano no Primavera Sound foi criada a meu lado no sábado à noite: “É como se a Ana Malhoa tivesse ganho uma bolsa da Gulbenkian”. Não era uma proclamação de ódio às movimentações no palco; o autor não estava chateado por estar a ver o que estava a ver – encontrou apenas uma forma garrida de caracterizar o misto de azeite e experimentação que escorria naquele momento do palco.

Era sábado à noite e Rosalía exibia o seu casamento de flamenco com batidas de hip-hop, enquanto passeava o seu girl-power vestida com calções brancos extremamente justos, os dedos das mãos revestidos a unhas elevadas à condição de arte; na noite anterior a própria Ana Malhoa andava por aqui, entre o público, a tirar fotos ao palco onde atuava J Balvin – e tanto antes como depois destes concertos uma valente secção dos habitués do Primavera perguntavam “O que é isto?”.

Sim, o que é isto? Não era suposto ser um festival de indie-rock? Onde estão os rapazes brancos zangados com a vida, cerebrais e incapazes de arranjar uma namorada? Já agora, esta frase refere-se a bandas, mas também se pode aplicar ao público que durante Balvin e Rosalía acorreu ao Parque da Cidade, no Porto: de onde saíram estas moças garridas e apenas semi-vestidas na audiência? E o que é que está a acontecer à anca delas? Aquelas danças não são perigosas para a saúde? Estarão bem, hoje, segunda-feira?

As coisas não costumavam ser assim, na zona protegida que antes era o Primavera: os hipsters podiam andar à vontade, na certeza de que nenhuma das pessoas que subiria ao palco vestiria de forma mais imaginativa do que o próprio público; a música – o indie-rock de guitarras – era triste e a importância da sua mensagem encontrava legitimação na “poesia” das letras. O mundo real, em que o povo (bruto e insensível) dançava furiosamente – esse ficava lá fora. Ali podíamos ser todos sensíveis porém simultaneamente esteticamente agradáveis à vista dos nossos semelhantes.

J Balvin (foto de João Porfírio)

E agora o nosso santuário, onde gente de bom gosto se reúne anualmente para celebrar-se a si mesma, é alvo desta “traição” (como li em muitas caixas de comentários), desta invasão de latinos: Rosalía, J Balvin, Dino D’Santiago – mas, se quisermos esticar a corda, também podemos incluir Jorge Ben, que é de bom gosto agora, mas vão lá ver como o olhavam em Portugal há uma década. E, se eu quiser mesmo esticar o argumento, aproveito e boto o nome de Solange nesta listinha – não é latina, mas a premissa (pop eletrónica dançável e vendável, pelo menos antes do disco mais recente) é a mesma.

Quando é que o mau gosto passou a ser o bom gosto? Quando é que ser xunga e dançar sem nos preocuparmos com o olhar dos outros (ou dançarmos propositadamente para o olhar dos outros) passou a ser o novo bom gosto? Ainda o ano passado o festival foi encerrado com um mítico concerto à chuva de Nick Cave; na mesma noite e no mesmo palco atuaram War On Drugs, Arca e Mogway – é praticamente impossível ser mais branco que isto, ter a anca mais quadrada que isto.

Claro que nos dias anteriores (da edição do ano passado) haviam aparecido Tyler, the Creator e A$AP Rocky – e em 2017 houve Run The Jewels, Skepta, o R&B de Miguel, Richie Hawtin e Flying Lotus (mas este tem credibilidade indie desde o berço). Ainda assim: eram derivados do hip-hop e o hip-hop já é aceitável há algum tempo. Agora também temos de aceitar esta latinada comercialóide toda? Pior: temos de gostar?

Calma, rapazes: ninguém vos obriga a nada. E ainda há música indie que chegue para todos: só no primeiro dia houve Built to Spill e o regresso dos Stereolab (além de Jarvis Cocker); na sexta houve Interpol, Fucked Up e Courtney Barnett; no sábado Snail Mail, Big Thief, Viagra Boys ou Low. Nada nos universo das guitarras nos últimos anos me deu tanto prazer como Snail Mail e Big Thief. E se alguém ainda tiver dúvidas dos caminhos que o rock pode seguir cinco minutos de Viagra Boys bastavam: baixo, bateria, guitarra, saxofone apocalíptico e um vocalista (tatuado, em tronco nu, de calças de fato de treino) a beber vodca pura enquanto rebola pelo palco – o rock sujo ainda vive.

Um mundo em que um rapaz branco tem de esconder que adora Prince é um mundo errado; um mundo em que um rapaz branco tem de esconder que gostava de Public Enemy é um mundo errado – e quem disser que o mundo do indie-rock era um mundo aberto aos Princes e Public Enemys deste mundo está a mentir.

Toda esta música, de uma forma ou de outra, mantém a premissa da Postcard Records, que inaugurou aquilo a que chamamos indie-rock, quando em 1980 editou “Falling and laughing”, um single dos Orange Juice partindo de uma premissa: criar música de guitarras, derivada do punk e da new wave mas com sensibilidade pop, e colocá-la no mercado sem depender das grandes editoras, de modo a manter integridade artística.

Essa independência, essa credibilidade artística eram importantes para a primeira geração que foi massivamente a festivais, em Portugal – a minha. Desde o início estive em Paredes de Coura, Vilar de Mouros, no Super Bock em Alcântara, no Sudoeste. Lembram-se do cartaz desse Super Bock? Cure, Jesus and Mary Chain, Therapy, Morphine (que deram um tremendo concerto). Mas dançar? Impossível.

Era, efetivamente impossível: quando em adolescente comecei a ouvir os New Order tinha de o esconder dos fãs mais velhos dos Joy Division, porque (diziam eles) aquelas batidas eram incompatíveis com a gravidade da poesia de Ian Curtis – e, Deus, como tudo isso me parece tão aborrecido, agora. Tinha de esconder que adorava Prince, e tinha de esconder que adorava os wah-wahs de Isaac Hayes e que adorava disco-sound.

Um mundo em que um rapaz branco tem de esconder que adora Prince é um mundo errado; um mundo em que um rapaz branco tem de esconder que gostava de Public Enemy é um mundo errado – e quem disser que o mundo do indie-rock era um mundo aberto aos Princes e Public Enemys deste mundo está a mentir: a dada altura o hip-hop começou a ser aceite, mas não foi imediato; e era o hip-hop que era aceite tinha de ter credibilidade de rua, mas uma boa canção comercial estava excluída.

O curioso é que os próprios Orange Juice não pretendiam fechar-se num buraco escuro – e não foi por acaso que fizeram uma versão de “L.O.V.E. (Love)”, de Al Green: eles queriam a melodia, queriam o glamour e queriam expressamente resgatar esse lado de sedução das massas do passado. Não era obrigatório que o indie-rock fosse chato ou excessivamente sério – era, sim, obrigatório que fosse independente, isto é: que cada um fizesse o que quisesse, que misturasse o que lhe apetecesse misturar.

Rosalía (foto de João Porfírio)

De modo que quando comecei a escrever sobre música acabei por tomar a opção de assumir a minha parolice: fosse Prince em tronco nu, fosse disco-sound, fosse o hip-hop mais comercial – se me fizesse trautear e dançar então eu estava desse lado (porque o rabo sabe mais que o cérebro).

Olhem com atenção para os Stereolab, a melhor banda indie da década de 90 (ao lado dos Pavement) e que regressou recentemente aos concertos (atuaram na quinta-feira, no palco SEAT): têm guitarras, partiram do indie-rock mas foram juntando à sua música a música de elevador, o lounge, o funk, os géneros simultaneamente mais óbvios e obscuros, música feita a metro, da qual o conceito de autor está ausente; e agora oiçam “Metronomic Underground”, de Emperor Tomato Ketchup – conseguem mesmo não dançar ao som daquele scratch e daquele baixo?

Em 1987, quando comecei a levar a sério a mania de gravar discos e ler sobre música, o bom e o mau gosto estavam separados, o rock era dos garotos e era branco e zangado e quadrado. Deu uma trabalheira convencer os outros garotos que podia haver linhas de baixo, que podia haver batidas, que se podia dançar e que isso não fazia de nós burros, porque há lugar e momentos para tudo.

Ainda não é fácil, aliás – uma das brincadeiras musicais nerd preferidas é mostrar a amigos igualmente nerd aquela que é considerada a primeira faixa de disco-sound de sempre: “The love I lost”, de Harold Melvin & the Blue Notes. O hi-hat sincopado, as cordas, as teclas melosas – eles adoram e pedem mais. De modo que de seguida eu mostro a lindíssima “If you don’t know me by now” – sim, essa que os Simply Red um dia versaram. Depois eles argumentam que o original é muito melhor que a versão dos Simply Red, mas no fundo sabem que se tivessem ouvido a versão dos Simply Red e não lhes dissessem que era Simply Red tinham gostado na mesma. E muito bem: os Simply Red têm meia dúzia de ótimas canções; lamechas, parolas – e ótimas.

Em 2019 já não devia ser assim – a nossa querela individual pela personalidade perfeita já devia ser suficientemente segura para abarcar todo santo guilty pleasure sem sofrer com guilt nenhuma.

O discurso pop é um discurso de integração: queremos pertencer a uma coisa, por vezes queremos rejeitar outra – queremos ser profundos mas também leves, queremos ser divertidos mas também sérios. Não é só assim da adolescência, é assim na vida toda e não é só assim na música, é assim em tudo. Felizmente hoje é tudo mais fácil e já aceitamos que os latinos podem ler poesia e os betos podem dançar

E de certa maneira já não é: os festivais já não são lugares obscuros onde demoramos horas e horas a chegar, onde temos de obrigatoriamente vestir de preto e uma criança ou um velho não podem entrar – hoje os festivais são lugares de integração, onde eu (que tenho 43 anos) vou com o meu filho de nove. Para o meu garoto, que cresce com bastantes guitarras em casa, o melhor concerto foi o de Rosalía. Isto não invalida que goste de B Fachada e de Pavement – e que adore a “Despacito” (a melhor canção do século XXI).

Todo esta conversa é muito complicada, porque no fundo o discurso pop é um discurso de integração: queremos pertencer a uma coisa, por vezes queremos rejeitar outra – queremos ser profundos mas também leves, queremos ser divertidos mas também sérios. Não é só assim da adolescência, é assim na vida toda e não é só assim na música, é assim em tudo. Felizmente hoje é tudo mais fácil e já aceitamos que os latinos podem ler poesia e os betos podem dançar (mas, por favor, betos, não o façam).

O mundo hoje é diferente de há vinte anos: hoje os latinos são 17,8 por cento da população dos EUA, de modo que é lógico que a música latina vai ouvir-se nas rádios, porque em última instância a demografia implica que haja ali bom negócio. É mais que normal que uma garota de vinte anos hoje ouça indie-rock e dance com J Balvin – porque não havia de o fazer, para mais quando as canções são boas?

“Con Altura”, o dueto com Rosalía, é (possivelmente) a melhor canção que se ouviu no Primavera; tanto no caso de Balvin como no de Rosalía os espectáculos são meticulosos e sem momentos mortos; mas é mais que isso: Balvin, como outras estrelas da sua dimensão, é um cartoon, ao ponto de por vezes esquecermos que faz ótimas canções (como “Safari”); um concerto de Balvin é Las Vegas para latinos.

[“Con Altura”, de Rosalía com J Balvin:]

“Safari”, belíssimo tema de Balvin de 2016, tem como convidado Pharrell Williams, o responsável por a minha geração ter adoptado o R&B como o som oficial das nossas noites, depois das duas da manhã – a ascensão do reggaeton foi só o passo seguinte. Na altura muitos melómanos torceram o nariz quando alguma crítica começou por defender o R&B, depois o funk brasileiro – mas hoje tudo isto é um dado adquirido para a geração que tem vinte e tais: é a banda-sonora da sua adolescência.

Pelo que não admira que uma miúda de 20 e tais anos adore Rosalía: é que ela não é só uma máquina sofisticada de derrubar barreiras, capaz de abanar o rabo num segundo e de cantar Bonnie Prince Billy noutro – ela representa uma nova era, em que as mulheres já não são apenas a baixista que faz uns coros, de olhos pregados no chão. Agora uma garota pode dominar um palco, exatamente porque num segundo abana o rabo, dominadora, e no outro canta uma tristíssima canção de amor.

O mundo, felizmente, tende sempre a ficar mais confuso, quando saímos da nossa aldeia: o que era mau gosto deixa de ser; as mulheres comportam-se de maneira diferente; e dizer que um concerto de uma uma garota “é como se a Ana Malhoa tivesse ganho uma bolsa da Gulbenkian” soa, milhares de caracteres depois, a elogio.

O meu concerto preferido do Primavera foi o de Jorge Ben – um velho de 77 anos que chegou, disparou êxitos durante uma hora, sem parar, pôs toda a gente a dançar, e durante essa hora o meu garoto, que o desconhecia, andou às cavalitas dos meus amigos e hoje pediu-me novamente para ouvir o velhote.

Mas quando há mais de dez anos comecei a escrever sobre Marcos Valle, cuja obra estava então a ser reeditada, este Brasil, o Brasil que misturava funk americano e era declaradamente dançável, esse Brasil não era assim tão bem visto. Brasil era Caetano e Chico, que eram muito sérios e poetas; ou Tom Zé, que era experimental e se era experimental então muito bem, já podia ser. Mas Brasil dançável, americanado? Que horror.

[“Safari”, de J Balvin:]

Um dos meus vídeos preferidos na internet é o do próprio Tom Zé a explicar o génio de “Atoladinha”, de Bola de Fogo; com essa simples explicação (que corresponde a uma entrevista no programa de Jô Soares) Tom Zé – que não tem cá problemas com bom gosto e mulheres dominadoras – legitimou toda uma cultura brega, xunga, incompreensível para as gerações mais velhas do mundo do indie rock.

O concerto de Jorge Ben aconteceu num festival cujos palcos estiveram cheio de negros, latinos e mulheres mas que não abdicou das guitarras – os Viagra Boys deram um concerto soberbo, os Big Thief foram (mais uma vez) a mais bonita banda ao cimo da Terra, com aquelas guitarras ora delicadas ora sujas que resgatam a folk americana em canções de cheias de personagens de livro.

E, só para confundir tudo isto, mesmo as mulheres que abanam o rabo sentadas numa pilha de dinheiro não são apenas mulheres que abanam o rabo sentadas numa pilha de dinheiro: uma das canções mais espantosas que ouvi nos últimos anos é “Catalina”, de Rosalía, que está no primeiro álbum dela – é uma canção de flamenco mais clássico e, a cada vez que no sábado um amigo meu de 40 anos reclamava contra a moça, eu só pensava como era irónico que se eles a vissem por alturas desse disco não no Primavera mas num festival como o de Sines tê-la-iam adorado.

"Quer-me parecer que é este o caminho que os festivais, mesmo os indies, vão levar – e ainda bem: como dizia um senhor muito sábio, quando libertamos a mente o rabo vai atrás. E o rabo tem sempre razão."

Acontece que Rosalía, que tem 25 anos, tem mais do que fazer que gravar música para agradar a quarentões que deixaram de ouvir música quando os Stereolab se reformaram. Para ela faz todo o sentido retirar a guitarra e colocar ali um beat de hip-hop. E, como se vê, não é só para ela.

Isto não quer dizer que malta que tem hoje menos dez ou vinte anos que eu se esqueceu das guitarras ou só gosta de música comercial ou fácil ou dançável. Simplesmente não quer só guitarras e música obscura. Não quer só o lado sujo ou poético da vida – quer, também, engalanar-se e abanar o rabo. Quer poder ser várias coisas sem sentir culpa por gostar de uma canção comercial.

E quer-me parecer que é este o caminho que os festivais, mesmo os indies, vão levar – e ainda bem: como dizia um senhor muito sábio, quando libertamos a mente o rabo vai atrás. E o rabo tem sempre razão.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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