Laura Kovesi tem 52 anos mas uma longa história da defesa da Justiça e pela Democracia. Nasceu na Roménia do ditador comunista Nicolae Ceaușescu e nos tempos em que a União Soviétiva mandava na Europa de Leste através do Pacto de Varsóvia. Talvez por isso a sua luta pelo Estado de Direito e pelo princípio da separação de poderes seja particularmente vincado. Foi procuradora-geral da República da Roménia com apenas 33 anos, liderou a seguir a Agência Nacional Anti-Corrupção da Roménia de onde foi despedida em 2013 pelo ministro da Justiça. A classe política romena não lhe perdoou as suas investigações e o Governo romeno opôs-se à sua indigitação para liderar a Procuradoria Europeia em 2019. Mas uma maioria clara do Parlamento Europeu não teve dúvidas em confirmar a nomeação, aprovada em sede do Conselho Europeu.
Talvez por tudo isto, Kovesi não hesita quando é questionada sobre o seu legado, quando está a um ano do final do seu mandato: “Deixar uma Procuradoria Europeia que seja uma das instituições mais independentes, eficientes e fortes da União Europeia”.
Em visita a Lisboa para inaugurar a nova sede da Procuradoria Europeia em Portugal, que se localiza agora nas instalações da antiga sede da Polícia Judiciária (PJ) na rua Gomes Freire, Laura Kovesi reuniu-se com os ministros Rita Alarcão Júdice e Joaquim Miranda Sarmento e com os seus “amigos” Amadeu Guerra (procurador-geral da República) e Luís Neves (diretor nacional da PJ). E não tem dúvidas em elogiar a qualidade e o profissionalismo dos procuradores e dos polícias portugueses, assim como a boa imagem que tem do funcionamento da Justiça portuguesa.
Em entrevista ao Observador, a procuradora-geral europeia confirma que os casos em investigação em Portugal (e na União Europeia) “explodiram”. A delegação portuguesa está a investigar 69 processos e as fraudes sob suspeita que podem chegar aos “868 milhões de euros em Portugal” — uma estimativa atualizada que inclui 2024 e que até ao final deste ano poderá subir para os mil milhões de euros. Kovesi diz também que há mais de “100 processos na Europa com conexões a Portugal” e tem consciência da grande sensibilidade que existe no nosso país para a fraude com fundos europeus, mas alerta que o problema é geral. “Não há um país limpo em termos de fraude com fundos europeus”, assegura. Por isso mesmo, solicitou às autoridades nacionais a alocação de mais dois procuradores delegados à equipa portuguesa.
Em termos gerais, a Procuradoria Europeia tem abertas 2.666 investigações a fraudes que poderão ter violado os interesses financeiros da União Europeia (o foco da sua actividade) em cerca de 24,8 mil milhões de euros — sendo que cerca de metade desse valor (cerca de 13,15 mil milhões) dizem respeito a fraude com IVA transfronteiriço. Laura Kovesi está preocupada com o incremento da actividade de grupos de crime organizado, nomeadamente chineses e russos, que têm apostado cada vez mais em operações de branqueamento de capitais que levam a fraudes muito significativas em sede de IVA. E alerta para o risco da segurança interna da União Europeia que tais actividades representam. Kovesi não exclui que os Estados chinês e russo estejam por detrás desses grupos de crime organizado.
A Procuradoria Europeia tinha 23 investigações abertas em Portugal em 2022. Qual é o balanço no final de 2024 em termos de investigações abertas e de ativos congelados?
O número de casos explodiu em Portugal. A delegação portuguesa da Procuradoria Europeia está a investigar possíveis fraudes que podem chegar, em termos de estimativa, a 868 milhões de euros até ao momento [inclui 2024 e 2025]. Até ao final do ano, esse número pode mesmo chegar a mil milhões de euros. Nós temos apenas seis procuradores delegados em Portugal. Pedi às autoridades portuguesas que aloquem mais dois procuradores delegados, para termos um total de oito magistrados. Porque temos de ser consistentes e continuar o nosso trabalho. Os colegas aqui em Portugal ajudam as investigações que são feitas nos outros Estados-membros. Por exemplo, temos na Alemanha, Itália e noutros Estados-membros mais de 100 processos com conexões a Portugal. Logo, o volume de atividades dos nossos colegas é muito elevado. É por isso que pedimos mais recursos, porque se não vamos colapsar e não queremos isso. E acho que esses números vão aumentar. Sempre disse que o nível de fraude estava subestimado.
É natural que o nível de deteção tenha aumentado apenas e só com a criação da Procuradoria Europeia.
É verdade. Mas também as prioridades mudaram. Quando se tem fraude muito significativa ao nível do IVA, no final, tem-se outro tipo de consequências. Aquilo que estamos a detetar é apenas a ponta do iceberg.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) aqui em Portugal tem um think tank dedicado a vários temas, mas tem uma especial atenção à fraude com fundos europeus. Esse think tank tem criticado de forma assertiva o sistema de reporte de fraude que, em Portugal, assenta na Inspeção-Geral de Finanças. Por exemplo, um estudo académico mostrou que entre 2007 e 2021, apenas dois casos de fraude foram detectados e apenas 133 casos foram dados como suspeitos. Temos um longo caminho para fazer em Portugal e na Europa sobre este tema?
O nosso trabalho não é detectar, o nosso trabalho é investigar. Sem detecção, não há investigação. Sem investigação, não se consegue recuperar os fundos perdidos para a fraude. Por isso mesmo, tivemos [esta quarta-feira, dia 10 de setembro] uma boa reunião com a ministra da Justiça [Rita Alarcão Júdice] e num formato original. Na minha opinião, foi uma excelente ideia conhecermos a ministra da Justiça juntamente com o ministro das Finanças [Joaquim Miranda Sarmento] e o secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna [Paulo Simões Ribeiro]. Foi uma boa oportunidade para explicarmos a mais-valia da Procuradoria Europeia e porque necessitamos de órgãos de polícia criminais, de inspetores tributários e de agentes das alfândegas para trabalhar nos processos da Procuradoria Europeia. Também discutimos com o ministro das Finanças que é preciso mudar um pouco a abordagem e entender que os meios administrativos não são suficientes para resolver esses este tipo de fenómeno.
Vou dar um exemplo. Se importar uma tonelada de cocaína, essa é uma atividade muito perigosa. Contudo, talvez o grupo criminoso que faz isso se safe e ganhe um lucro significativo. Mas se tiver 100 empresas falsas criadas apenas com o propósito de promover uma fraude em carrossel ao nível do IVA, o grupo criminoso ganha milhões diariamente e, se ninguém detetar, pode fará isso durante anos e ficará muito rico. Só com investigações criminais é que será possível combater este tipo de fraude de forma efetiva. Também tive esta quarta-feira uma reunião com os meus amigos, o procurador-geral Amadeu Guerra e Luís Neves, diretor nacional da Polícia Judiciária, e estamos sintonizados.
“Não há um país limpo em termos de fraude com fundos europeus”
Portugal tem uma história de mau uso de fundos europeus por diversas razões. É por isso que a opinião pública portuguesa dá muita atenção a casos de fraude com fundos estruturais europeus. Gostava de lhe colocar duas perguntas interligadas: está a par desta hiper sensibilidade da nossa opinião pública? E como compara Portugal com outros Estados-membros a nível da fraude com fundos europeus?
Isto não é um concurso sobre quem é o mais…
Não estou a fazer um concurso. Estou a pedir-lhe uma comparação.
Acho que não devemos fazer comparação.
Porquê?
De certeza que não há um país limpo. Quando precisei de avaliar as necessidades iniciais para montar a Procuradoria Europeia, pedi as estatísticas dos casos de fraude aos 22 Estados-membros que aderiram originalmente à Procuradoria Europeia. E qual foi a surpresa? Uns Estados-membros disseram que não tinham nenhum tipo de fraude com fundos europeus. Outros disseram que talvez tenhamos alguns casos mas não temos estatísticas. Ninguém estava focado em investigar esse tipo de crimes. E pode-se ‘jogar’ com as estatísticas. Se olhar para o nosso relatório anual, constatará que o maior número de fundos do PRR foram alocados à Itália. A Itália é a pior na Europa? Não. Mas a Itália tem algo excelente: a Guardia di Finanza [polícia criminal especializada em fraude fiscal, alfandegária e com fundos europeus]. Essa polícia está focada nesse tipo de fraude com fundos europeus e o nível de deteção é muito alto. Se um país não detecta, pretende que não vê e coloca tudo ‘debaixo do tapete’, isso não significa que seja um ‘país limpo’.
Então, desse ponto de vista, o nível das investigações que temos em Portugal é bom. As fraudes são detetadas e são reportadas. Talvez possamos fazer algumas melhorias quando se trata de fraudes de IVA transfronteiriço e ao nível das alfândegas. Discutimos esta quarta-feira com o Governo que o nível de deteção [de fraude] pode ser maior. Mas quando queremos fazer comparações em termos de tipologia de fraude ou nível de danos causados, acho que é muito difícil fazer isso porque este tipo de fraude está em todos os países. Aprecio a qualidade dos procuradores, dos polícias e dos investigadores financeiros portugueses quando se trata de investigação da criminalidade económico-financeira. Também temos colegas portugueses na nossa sede da Procuradoria Europeia e beneficiamos todos da sua experiência e saber. Por isso mesmo, não foi difícil entendermo-nos enquanto equipa.
“Em Portugal, congelamos ativos de mais de 75 milhões de euros em duas operações”
A Operação Admiral, uma acusação da delegação da Procuradoria Europeia em Portugal com a investigação da Polícia Judiciária, é a maior fraude de IVA transfronteiriço investigada pela equipa liderada por si. Ficou surpreendida?
Sim, a Operação Admiral começou aqui em Portugal e foi investigada pelos nossos colegas da Procuradoria Europeia aqui em Portugal e é a maior fraude de IVA transfronteiriço investigada na União Europeia. Entre o caso Admiral e o caso Ambrosia [outro caso investigado pela delegação portuguesa da Procuradoria Europeia que levou a uma acusação em julho deste ano], congelámos ativos de mais de 75 milhões de euros. O que significa este valor? Que quando os processos transitarem em julgado com uma condenação, esse dinheiro irá direto para o Orçamento de Estado da República Portuguesa. Este é o nosso trabalho. E no caso da Operação Admiral já conseguimos uma sentença condenatória em primeira instância. Tudo o que conseguimos até agora foi com base numa muito boa equipa de procuradores portugueses — muito corajosos, muito ativos — muito apoiados pela Polícia Judiciária e por outras autoridades nacionais. Mas isto precisa de ser complementado porque nós temos que ser consistentes. Precisamos de ter mais recursos…
Os vossos recursos — mais procuradores, mais polícias — dependem das autoridades nacionais. O Governo já se comprometeu a investir na estrutura da Procuradoria Europeia que está estabelecida em Portugal?
Estou otimista de que, após a reunião [com a ministra da Justiça e com o ministro das Finanças], todos entenderam exatamente o que estamos a fazer, quais são as nossas necessidades e, o mais importante, como podemos ajudar. Porque tudo o que estamos a fazer é, no final, para benefício de Portugal. Não é apenas o dinheiro que é recuperado para o Orçamento de Estado, são também os fundos que regressam à economia. Por outro lado, Portugal é uma fronteira marítima da União Europeia e, provavelmente, a pressão sobre essa fronteira é maior. E o que nós vemos é, por exemplo, grupos de crime organizado chineses que estão a promover muita fraude fiscal e a defraudar o Orçamento da União Europeia e o Orçamento de Estado português. Esses grupos chineses são muito bons a lavar o dinheiro em operações de branqueamento de capitais, inclusive para a máfia clássica e operam em diferentes áreas.
As autoridades nacionais têm detetado um incremento de tráfico de droga na fronteira marítima de Portugal — que é uma espécie de porta de entrada na UE. Mas as vossas competências apenas incluem crimes relacionados com os interesses financeiros da União.
É muito comum constatarmos conexões nos casos da nossa competência com o financiamento de terroristas ou com o tráfico de drogas. E é por isso que é bom ter órgãos de polícia criminal especializados e dedicados aos nossos casos. Nós não temos competência para investigar esses crimes, mas os procuradores e os polícias que trabalham connosco certamente que partilharão essas informações com as autoridades nacionais ou com outros países da UE.
Portugal vai ter uma reforma penal em breve, visto que temos um problema grave com a discrepância que existe no tempo médio de resolução da criminalidade comum (que é entre 1 a 2 anos) e o tempo médio de resolução dos processos do crime económico-financeiro (que é entre 8 a 9 anos e, às vezes, suplanta largamente os 10 anos). Que medidas recomendaria para termos um Estado de Direito mais equilbrado entre as liberdades e garantias dos cidadãos e o direito do Estado em punir de forma efetiva e célere?
Este é um tópico que existe em todos os Estados-membros. Temos de ter um equilíbrio entre os direitos das defesas e os procedimentos da acusação. É muito difícil dar conselhos porque antes de tomar posse, eu sabia que havia diferenças entre os diferentes sistemas de justiça da União. Mas não podia imaginar que existissem tantas diferenças. E é muito difícil estabelecer um padrão.
Se me perguntasse como a Procuradoria-Geral da República deveria ser organizada, diria que o padrão agora é a Procuradoria Europeia. Quando se trata de procedimentos concretos é mais difícil.
Mas confio na administração da Justiça em Portugal porque a minha experiência é que o sistema português tem pessoas muito profissionais que saberão o que tem de ser feito. Contudo, as dificuldades nas legislações não estão apenas aqui. Nós, na Procuradoria Europeia, temos uma experiência nos 22 Estados-membros que pode ser partilhada. Se precisarem da nossa colaboração, nós podemos ajudar quais são os sistemas e medidas que funcionam melhor.
“Grupo de crime organizado muito perigosos estão a beneficiar com a fraude fiscal em sede de IVA”
Qual o balanço que faz do trabalho da Procuradoria Europeia até ao momento?
O nível de fraude em termos globais estava subestimada e não estava a ser detetada. A Suécia e Polónia juntaram-se aos grupo de 22 países que aderiram à Procuradoria Europeia, mas se olharmos para a situação global desde o início, vemos uma tendência muito perigosa: os grupos de crime organizado estão a crescer, defraudando o Orçamento da União Europeia e o Orçamento de cada estado-membro. Por exemplo, o nível de fraude em termos de IVA transfronteiriço estava há anos, há várias décadas, subestimado. Vou dar-lhe estimativas do Europol [agência da União Europeia para a Cooperação Policial]: a fraude em termos de IVA atinge cerca de 50 mil milhões de euros todos os anos. Estes fundos deveriam pertencer ao Orçamento de cada estado-membro…
É um valor muito significativo…
Sim, é uma quantia enorme. Mas isto não é apenas sobre estimativas ou dinheiro. No fim do dia, é também sobre a nossa segurança interna e a segurança dos cidadãos, porque este dinheiro está a ir para os bolsos de grupos de crime organizado muito perigosos. Outra conclusão é que, durante muitos anos, a criminalidade financeira foi considerada uma actividade de nicho, sem violência — o tal crime de colarinho branco. E ninguém queria lutar contra isso de forma sistémica…
Está a querer dizer que essa criminalidade económico-financeira evoluiu para uma tendência de grupos mafiosos, territoriais e violentos?
Não é apenas sobre os grupos mafiosos clássicos, mas também é sobre eles. Porque esses grupos mafiosos clássicos começaram a diversificar a sua actividade do tráfico de droga ou de tráfico humano para entrarem na fraude qualificada em termos de IVA por via de operações de branqueamento de capitais. Uma actividade que tem menos riscos porque é supostamente legítima. Apenas precisam de um contabilista, de um advogado e podem ganhar muito dinheiro porque ninguém se concentra em lutar contra a fraude fiscal de IVA.
Acredita que algum país fora do espaço europeu pode estar por detrás desses grupos criminais?
Em alguns Estados-membros da União Europeia (UE), diria que sim. Mas agora a boa notícia é que a Procuradoria Europeia está operacional. Esses grupos criminosos não são mais inteligentes do que nós. Talvez… talvez, não… Têm, de certeza, mais recursos financeiros, mas o meu ponto é simples: se os atacarmos de forma sistémica em todos os Estados-membros, temos uma hipóteses de derrotá-los.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Porquê?
Porque temos procuradores especializados em todos os Estados-membros da UE e estamos a tentar um sistema diferente para atacar a situação a partir de outro ângulo mas em todos os países que aderiram à Procuradoria Europeia. Nós queremos criar uma elite de investigadores em todos os Estados-membros que possam colaborar em rede. Porque as organizações criminosas deixaram de ser nacionais e operam em vários Estados-membros ao mesmo tempo. Se me perguntar o nome do grupo português de crime organizado mais conhecido, eu não consigo dizer porque esse tipo de grupos passou a ter um carácter internacional e têm todas as nacionalidades.
Tenho que insistir nesse ponto. Disse há pouco que países fora da União Europeia poderão estar por detrás desses grupos criminosos que estão a prejudicar o orçamento da União Europeia e, em certa medida, estão a colocar em risco a segurança do espaço económico europeu. Agora está a falar de grupos chineses. Suspeita que o Estado chinês ou o Estado russo poderão estar por detrás desses grupos mafiosos?
Não posso confirmar isso. Posso dizer que estamos a investigar indivíduos, que fazem parte de diferentes grupos de crime organizado, principalmente chineses e russos. Temos muitos casos abertos contra esse tipo de criminosos.
“Somos independentes face ao poder político. Se alguém me chamar para me dizer como devo fazer uma investigação, isso será público no dia seguinte”
A Procuradoria Europeia também está a investigar casos que envolvem titulares de cargos políticos. Por exemplo, o caso da compra de vacinas por parte da Comissão Europeia à Pfizer durante o período da Covid envolve Ursula von der Leyen e um diretor executivo da Pfizer. Qual é o estado desse processo e qual é o seu balanço geral sobre as investigações da Procuradoria Europeia que envolvem titulares de cargos políticos?
Nós não investigamos políticos porque eles são políticos. Investigamos diferentes crimes que terão sido praticados e que estão dentro das nossas competências. Em algumas dessas situações, os suspeitos das nossas investigações são também políticos ao mesmo tempo. Mas isso é uma coincidência. Às vezes, temos casos com deputados ou outro tipo diferente de servidores públicos que podem pertencer a um determinado partido político.
É importante dizer que a Procuradoria Europeia é independente face ao poder político na realização do seu trabalho e isso é muito importante. Em segundo lugar, essa independência não é apenas formal — porque está escrita no nosso regulamento fundador. A forma como a Procuradoria Europeia está organizada é uma garantia de que atuamos, de facto, de forma independente e sem qualquer interferência externa.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Vou dar um exemplo concreto. Vamos imaginar que temos um caso aqui em Portugal em que estão a trabalhar dois procuradores delegados portugueses. Esse caso, como qualquer outro, é sempre supervisionado por uma Câmara Permanente na nossa sede no Luxemburdo, onde temos três procuradores europeus de três Estados-membros diferentes que vão acompanhando de perto a evolução da investigação. Acresce que os casos são alocados aleatoriamente. Logo, concluindo, a possibilidade de interferência política ou externa é próxima de zero.
Por isso, em todos esses casos, apenas aplicamos a lei e fazemos nosso trabalho baseado na evidência das provas que recolhemos durante a investigação, não mais. E, para nós, a independência é a linha vermelha e ninguém pode atravessá-la. E asseguro que, se alguém me chamar em um dia para me dizer o que fazer em uma investigação, no dia seguinte isso será público.
Foi procuradora-geral da Roménia, investigou muitos casos de corrupção que envolviam vários partidos e o seu Governo opôs-se à sua nomeação para liderar a Procuradoria Europeia. Como vê o estado atual do Estado de Direito na União Europeia, nomeadamente o princípio da separação de poderes, particularmente na Europa de Leste?
Em termos essenciais, a independência da justiça é assegurada em todos os Estados-membros da União. Agora, quando falamos no Estado de Direito, podemos dizer que teremos sempre desafios, haverá sempre alguém que quer abusar do seu poder. Desse ponto de vista, nós, Procuradoria Europeia, também temos desafios porque tudo o que afeta os procuradores nacionais, afeta a Procuradoria Europeia. Um dos trabalhos da Comissão Europeia é assegurar o cumprimento das regras do Estado de Direito na União, nomeadamente a separação de poderes. A Procuradoria Europeia tem um papel nos mecanismos para proteger essas regras. E sempre que constatamos uma falta de cooperação de um Estado-Membro com a Procuradoria Europeia ou constatamos mudanças legislativas que podem afetar a independência da Procuradoria Europeia, nós reagimos imediatamente. Tivemos alguns exemplos disso mesmo na Eslovénia, na Croácia, na Eslováquia ou na Polónia. Pode acontecer em qualquer país.
Já falamos das operações que marcaram a actividade da Procuradoria Europeia em Portugal. Pode dar-nos outros exemplos de operações relevantes noutros Estados-membros?
Bem, acho que não temos tempo suficiente para falar sobre todos os casos. Mas quero destacar, por exemplo, o último caso conhecido: a Operação Calypso [um caso de fraude fiscal qualificada em sede de IVA transfronteiriço e fraude aduaneira que passou pelos Pirinéus e está relacionada com a importação em massa de produtos chineses de têxtil, sapatos e outros produtos como e-bikes e e-scooters. Está em causa uma fraude que poderá chegar aos 700 milhões de euros] Com este caso, podemos ver o impacto financeiro da nossa atividade. Não apenas pelo volume da fraude ou sobre o facto que fizemos cessar aquela importação fraudulenta, mas principalmente devido aos efeitos. Ou seja, é sobre o facto deste tipo de crimes está muitas vezes associados a corrupção. Não é possível ter este tipo de actividade fraudulenta, sem existirem subornos. Por exemplo, a investigação da Procuradoria Europeia descobriu um total de 2,5 milhões de euros em ‘dinheiro vivo’. Imaginem quanto numerário haveria mais durante todos os meses…
“Não estou preocupada especificamente com a corrupção na Ucrânia. Não há um país limpo”
A União Europeia já aprovou muitos milhares de milhões de ajuda financeira à Ucrânia — com, claro, o forte apoio das opiniões públicas dos diferentes Estados-membros; os portugueses também apoiam fortemente a causa ucraniana. Tudo isto para dizer que não está em causa tal apoio face à ameaça russa, contudo, a promiscuidade entre o poder político e o poder económico na Ucrânia é, reconhecidamente, elevado. A Procuradoria Europeia tem autoridade para investigar desvios de fundos europeus na Ucrânia? Como vê a independência do poder judicial na Ucrânia?
A resposta à primeira pergunta, é sim. Temos competências para investigar. Não só na Ucrânia, mas também nos Balcãs, na África, na América do Sul, etc, que recebem fundos europeus. O local onde a fraude é praticada é sempre Bruxelas ou o Luxemburgo [onde estão as sedes dos principais órgãos da União Europeia]. Baseado nesse critério, temos sempre competência para investigar.
Como fazemos essa investigação? Uma boa pergunta. Neste caso, temos de aplicar as ferramentas clássicas para a cooperação internacional. Mas, com a Ucrânia, temos um acordo de cooperação assinado com a Procuradoria-Geral da República ucraniana. No final de setembro, vamos assinar um outro acordo de trabalho com o SAPO — Gabinete Especializado do Ministério Público contra a Corrupção que pertence à Procuradoria-Geral da Ucrânia. E não nos podemos esquecer que nós demos formação ao MP da Ucrânia, temos pontos de contacto regulares com eles e estamos prontos para investigar se esses crimes acontecerem.
Mas, como disse, quando se trata de corrupção, não existe um país limpo. Não estou preocupada especificamente com a corrupção na Ucrânia. Estou preocupada com a corrupção que existe em todos os Estados-membros.
Confia no sistema judicial ucraniano?
Até agora, não tenho razões para não confiar. Vamos ver.
A Procuradoria Europeia é o início de um caminho para uma maior integração europeia na área da Justiça e, eventualmente, a criação de uma sistema judicial único? Parece uma utopia…
Se falamos de um mundo ideal, pode ser. Mas a realidade, às vezes, é diferente. A Procuradoria Europeia pode ser um ponto de referência em termos de standards para as procuradorias nacionais. No início, tínhamos 22 procuradores no Colégio Permanente e tínhamos de decidir como cumprir os nossos deveres e agir uma procuradoria única e da mesma forma em todos os estados-membros. Isso foi muito desafiante.
Quais são os seus objetivos para o que resta do seu mandato — que é um mandato único de sete anos?
Falta só um ano. Há muitas coisas que precisam ser resolvidas. Ao início, o meu objetivo foi criar e assentar um modelo de trabalho para a Procuradoria Europeia. Acho que o principal objetivo é manter este espírito de trabalho e de independência. Nós temos procuradores muito profissionais, muito corajosos e muito independentes — e estou a incluir também o staff de apoio. Diria que isso é o meu legado: deixar uma Procuradoria Europeia que seja uma das instituições mais independentes, eficientes e fortes da União Europeia. E tenho certeza que isso irá acontecer.