Mensagem de Natal
Estimados compatriotas portugueses, desejo a todos um Natal feliz, vivido junto das vossas famílias. E faço votos para que o novo ano vos traga saúde e realização. Nesta quadra, deixo uma palavra especial aos que se encontram sozinhos ou que vivem momentos de maior fragilidade. Não nos esquecemos dos mais idosos que vivem em solidão, dos que são vítimas de violência muitas vezes dentro das suas próprias casas, dos que sofrem problemas de saúde, dos que vivem em situações de pobreza.
Montenegro, como é habitual nestas circunstâncias, faz questão de dirigir a primeira palavra aos que mais sofrem e os que enfrentam a solidão. Tal como já tinha feito em 2024, depois de uma polémica em que foi acusado de desvalorizar a violência doméstica, o primeiro-ministro volta a deixar também uma palavra especial para os que “são vítimas dentro das próprias casas”. Antes da imagem do país-exemplo — que descreve para mais à frente na mensagem — reconhece que existem portugueses que enfrentam situações de pobreza.
Quero ainda lembrar as famílias dos que vivem tantas guerras, como em África, no Médio Oriente ou na Ucrânia, e todos os ataques aos direitos humanos que sentimos como ataques a todos nós.”
Dias depois de ter voltado de uma visita oficial a Kiev, onde se encontrou com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, Montenegro faz questão de deixar uma mensagem para os que são vítimas da guerra, estendendo a solidariedade para o Médio Oriente (para não ser acusado de esquecer Gaza) e também para África.
Neste final do ano de 2025, podemos olhar para o próximo ano com mais razões para acreditar que estamos no caminho certo. No caminho do crescimento, da estabilidade, da execução de uma agenda transformadora que está a tornar-nos mais fortes e mais resilientes. Portugal é hoje uma referência a nível europeu e mundial. Os rendimentos dos portugueses estão a subir e a nossa economia a crescer consistentemente acima da média europeia. O ano passado, fomos mesmo o país da OCDE em que os trabalhadores mais viram crescer o seu rendimento, por via do aumento dos salários e da descida dos impostos sobre o trabalho. Isto mostra que a distinção que recebemos da revista The Economist de sermos a economia do ano em 2025 não é um prémio teórico. A solidez económica que estamos a construir assenta num modelo de salários mais altos e impostos mais baixos.”
Luís Montenegro puxa dos louros dos bons sinais da economia portuguesa, exibindo novamente a distinção da revista The Economist — que distinguiu Portugal como a Economia do Ano — como uma medalha. E diz que não é meramente simbólico (ou “teórico”, como define), mas que é o reflexo de uma saúde financeira que existe de facto. O primeiro-ministro já se tem gabado, em vários Conselhos Europeus, de Portugal ser hoje mais do que o bom aluno, mas o bom exemplo da Europa, longe da fama de incumpridor do Sul que se colocava à pele do País nos tempos da troika. Nesta espécie de auto-avaliação de fim de período, o primeiro-ministro lembra ao país que teve quase nota máxima nos testes (quer da OCDE, quer da revista The Economist).
Este caminho carece de coragem política e capacidade reformista.Precisamos de ser mais eficientes e mais produtivos para atingirmos novos patamares de crescimento que tragam também novos patamares de rendimento. Estamos a cumprir todos os nossos objetivos e compromissos em matérias de emprego e salários.”
Luís Montenegro não fala diretamente das alterações à legislação laboral, mas indiretamente fala quando se refere à necessidade de ter “coragem política” e “capacidade reformista”. Apesar de não se referir à greve, nem de enviar provocações às centrais sindicais — com quem já tem reuniões marcadas para o início do ano — avisa que não vai ceder.
Mas com as condições que temos, crescimento económico, estabilidade financeira, segurança, recursos humanos qualificados, a potência para as novas tecnologias, uma excelente localização geostratégica, capacidade de diálogo no contexto internacional, temos tudo para elevar a fasquia e fixar novas ambições. Novas ambições no funcionamento da administração, como já estamos a fazer com o processo de simplificação e reforma do Estado. E novas ambições salariais, como resultado de uma agenda transformadora que, com a sua visão estratégica e estruturante, nos permitirá sermos mais produtivos e eficientes. É este o caminho da nossa governação.”
O primeiro-ministro recorre a um novo argumento para lançar o potencial económico do país: a diplomacia portuguesa. Luís Montenegro sugere que a vocação atlantista e a relação com os países de África, podem ajudar também a potenciar a economia portugueses junto de outros mercados, que não apenas a União Europeia. Além disso, não desiste de tentar Estado mais ágil naquele que tem sido um desígnio do Governo Montenegro II: a Reforma do Estado. Há críticas, por exemplo dos liberais, de que está a ser lenta e insuficiente, mas o primeiro-ministro continua a abanar a Reforma do Estado como bandeira do Governo.
Caros compatriotas, na situação em que estamos, temos duas opções de caminho. Ou nos contentamos com esta circunstância em que estamos bem, mas sabemos que se nos mantivermos assim a médio prazo, vamos perder face à evolução dos outros. Ou aproveitamos a situação em que estamos e tratamos já de garantir a nossa própria evolução para continuarmos a crescer mais do que os outros no futuro. É a diferença entre jogar para empatar ou ter a mentalidade vencedora de jogar sempre para ganhar. Uso esta metáfora desportiva porque ela expressa bem a opção que temos diante de nós. E quero dizer-vos que a minha opção e do Governo é claramente a segunda. Estamos num momento histórico em que temos de nos desprender da mentalidade do deixar andar e temos de adquirir e trabalhar a mentalidade da superação. A mentalidade de irmos mais longe e nos afirmarmos pela excelência. A mentalidade de não deixarmos para amanhã o que podemos fazer hoje. A mentalidade de não só fazermos diferente, mas de fazermos a diferença. A mentalidade de trabalharmos e desenvolvermos o nosso talento. A mentalidade de Cristiano Ronaldo. Os portugueses têm talento. Os portugueses, em várias áreas de atividade, vão pelo mundo e têm desempenhos extraordinários.
Montenegro tenta contrariar a ideia de que, se o País está tão bem cotado como diz o Governo, não precisa de mudança e reformas estruturais. O primeiro-ministro — ao estilo do coaching motivacional que marcou os mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa — defende uma nova mentalidade, vencedora, que coloque Portugal entre os melhores do mundo. E, para isso, vai buscar o exemplo de Cristiano Ronaldo, que não se contentou com ser bom, mas procurou ser o melhor de sempre.
Para sermos um país que cria mais riqueza e assim a transforma em projetos de vida mais felizes e mais realizados. Um país melhor para todos a partir da melhor condição de cada um. Esta mentalidade arrasta todos e não deixa ninguém para trás. Criar riqueza é o melhor caminho para combater a pobreza.“
Luís Montenegro tem dito que, muitas vezes, a governação obriga a deixar a ideologia para segundo plano. Porém, nunca deixa de repetir que o grande objetivo é criar riqueza para responder aos problemas sociais, uma espécie de terceira via ou social-democracia moderna. Nos 50 anos do partido chegou a dizer: “Vamos ser mais social-democratas, vamos ser um PSD mais PPD”. Não deixa, por isso, cair a ideia de voltar à raiz social-democrata, até para um equilíbrio com o tal pendor mais liberal da Reforma do Estado. Na primeira mensagem de Natal, em 2024, tinha evocado Sá Carneiro e também Mário Soares.
Portugueses, a criação de riqueza é o meio para sermos uma sociedade com mais justiça, com mais liberdade e com mais felicidade. Mas como diz o nosso povo, as coisas não caem do céu. Este caminho implica coragem, resistência, capacidade de diálogo e sentido de unidade nacional. Não temos de estar todos de acordo, mas temos de compreender que não é a nossa posição individual o mais importante. O mais importante é o interesse do país, que se reflete depois no interesse de cada cidadão. Agora que vamos ter cerca de 3 anos e meio sem eleições nacionais, é a altura de todos nos focarmos em cumprir a nossa responsabilidade e fazer tudo para garantir a Portugal e a cada português um futuro mais próspero.”
Luís Montenegro aproveitou para mandar indiretas aos partidos da oposição, em particular ao PS. O primeiro-ministro apela à capacidade de diálogo e ao sentido de “unidade nacional” como ingrediente para que o País possa prosperar. O que o primeiro-ministro diz aos líderes da oposição é que não devem estar preocupados com a “posição individual”, mesmo que discordem do Governo, e devem garantir a estabilidade. Na mesma linha, apesar de não ter uma maioria parlamentar que lhe permita, por exemplo, aprovar os orçamentos de 2027, 2028 e 2029, apresenta como dado adquirido que “vamos ter cerca de três anos e meio sem eleições nacionais”. Para a conclusão de Montenegro contribui não apenas uma constatação de calendário, mas também o facto de já não ter o processo Spinumviva às suas costas. Neste contexto, exige “responsabilidade” aos partidos da oposição. Depois de CR7, aí está LM29, o primeiro-ministro que tem uma mentalidade que o leva a acreditar que vai levar o mandato até 2029.
Neste Natal, a melhor prenda que podemos dar a cada um de nós é acreditar mais em Portugal. Acreditar é transformar. Acreditar é não desistir. Acreditar é não ter medo nem amedrontar. Acreditar é ser corajoso, mas ser justo. Acreditar hoje é sermos mais fortes amanhã. Acreditar é não deixar ninguém para trás, mas não deixar de andar para a frente. Nós temos tudo para acreditar mais em Portugal.”
Se foi involuntário, pode até ser pouco profissional ou, no mínimo, ingénuo. Se foi propositado, tem toques de Maquiavel. Depois de o Procurador-Geral da República ter pedido escusa no processo Spinumviva por considerar que foi mal interpretado quando relacionou o desfecho do caso com uma prenda de Natal, o primeiro-ministro fazer uma referência à expressão prenda de Natal (podia ter optado por “presente” ou utilizar outra expressão), não deixa de ser uma nuance discursiva digna de registo. Na mesma sequência, deixa uma indireta a André Ventura e aos seus contínuos discursos sobre o apocalipse da imigração, quando diz que “acreditar é não ter medo nem amedrontar”.
Um santo Natal para todos, estejam onde estiver. Um Natal com o orgulho de sermos portugueses e esperança em Portugal.”
Luís Montenegro, tal como tinha feito no Natal de 2024, não cede às pressões do politicamente correto (ou do dito “wokismo”) que aconselha desejar “boas festas” em vez de um “santo Natal” para que, por exemplo, judeus e muçulmanos não se sintam excluídos. O primeiro-ministro não quis saber dessas eventuais sensibilidades. E, naquilo que é uma inovação relativamente a 2025, também não teve pejo em ter uma pulsão mais patriótica ao exaltar o “orgulho de sermos portugueses” — o que certamente agradará ao centro-direita, mas acima de tudo à direita conservadora e patriótica.