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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Mais de 3 mil médicos não entraram em nenhuma especialidade nos últimos seis anos. "É muito mau sinal. Vai haver dificuldades", avisa Ordem

Entre 2020 e 2025, três mil médicos optaram por não se especializar, atraídos pela prestação de serviços, deixando centenas de vagas de formação por ocupar. OM e sindicatos pedem melhores condições.

Durante os últimos seis anos, 3.036 médicos não realizaram a formação na especialidade no SNS depois de terem feito o chamado ano comum. Entre as especialidades com mais vagas por preencher, ao longo deste período, estão a Medicina Interna, a Medicina Geral e Familiar e ainda a Saúde Pública, especialidades que constituem a ‘espinha dorsal’ do SNS, mostram os dados publicados na passada quinta-feira no portal da Transparência do SNS, relativos ao período entre 2020 e 2026.

O número de médicos que não se formaram em nenhuma especialidade tem-se mantido estável ao longo dos últimos anos, variando entre os 400 e os 600 por ano, embora se tenha registado uma aceleração deste fenómeno desde 2023. Em 2024, quase 600 jovens médicos (581) optaram por não se especializar. Uma situação que levou mesmo a Ordem dos Médicos (OM) a lançar um questionário para tentar perceber as razões por detrás dessa opção. No ano passado, o número de médicos que optaram por não tirar nenhuma especialidade baixou ligeiramente, para 520, mas, ainda assim, foi o terceiro mais alto dos últimos anos.

O bastonário da Ordem dos Médicos assume que os dados agora publicados no Portal da Transparência do SNS são motivo de “enorme preocupação”, alertando que a opção de não escolher uma especialidade tem impacto para os próprios médicos e para os hospitais. Já o presidente do Sindicato Independente dos Médicos (SIM) pede medidas à tutela para tornar algumas especialidades mais atrativas e impedir a fuga de médicos para a prestação de serviços — o destino de muitos dos jovens médicos que optam por não se formar em nenhuma especialidade.

Em média, 20% dos médicos não escolhem uma especialidade

Segundo os dados enviados ao Observador pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), mas também disponíveis no Portal da Transparência, 412 médicos não escolheram nenhuma especialidade em 2020, número que aumentou para 591 em 2021. Em 2022, registou-se uma inflexão da tendência de aumento, com 438 médicos a não escolherem qualquer especialidade. No ano seguinte, em 2024, o valor voltou a subir: foram 494 os jovens médicos a não seguir para uma especialidade.

Em média, 20% dos médicos que, a cada ano, estão em condições de escolher uma especialidade não o fazem. No ano de 2025, por exemplo, havia 2.374 candidatos à formação especializada no SNS, ou seja, médicos em condições de iniciar a especialidade. Mas foram preenchidas 1.848 vagas. Ou seja, 22,2% dos médicos em condições de escolher uma especialidade no ano passado não o fizeram.

“Esta realidade traz-nos uma enorme preocupação. A opção de não escolha de especialidade tem impacto para os próprios médicos, e para os hospitais é também um problema”, porque descapitaliza os serviços, alerta o bastonário da Ordem dos Médicos. Carlos Cortes identifica as especialidades de Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar ou Saúde Pública como as que poderão ser mais impactadas por este fenómeno num futuro próximo. O bastonário refere ainda que os dados revelados pela ACSS são um “muito mau sinal para os próximos anos”. “Vai haver dificuldades, porque não teremos os médicos especialistas necessários“, avisa.

Prestação de serviços ou área da estética atraem médicos

Os jovens médicos que optam por não seguir a formação na especialidade (uma etapa com uma duração de quatro a seis anos) escolhem caminhos como a prestação de serviços (quer nas urgências hospitalares, em lares ou em empresas de serviços médicos); a área dos atestados médicos; áreas em crescimento na Medicina e ainda sem uma especialidade, como a estética e a Medicina do Viajante; ou, então, optam mesmo por emigrar, explica o secretário-geral do SIM, Nuno Rodrigues.

Nestas áreas, indica o responsável, os médicos têm um rendimento mensal muito superior ao que teriam enquanto internos, e que ronda os 1.900 euros líquidos.

“É uma opção legítima. Decidem que querem ter um rendimento melhor”, realça Nuno Rodrigues, explicando que, numa urgência hospitalar, um médico ganha, em média, 11 a 12 euros/hora, enquanto um prestador de serviço aufere 25 a 30 euros/hora. Para além das questões remuneratórias, o bastonário da OM aponta um outro fator que pode explicar que centenas de médicos optem por não se especializar todos os anos: uma mudança cultural.

“Há uma componente cultural nos jovens médicos, com a opção da prestação de serviços, que tem características interessantes, a nível remuneratório, e pelo facto de não terem de  responder perante a hierarquia”, sublinha Carlos Cortes, notando que, quando ele próprio se especializou em Patologia Clínica, há cerca de 20 anos, não era opção não enveredar pela formação na especialidade.

“Flexibilidade” e salários de até 6.300 euros por 45 horas de trabalho. O que leva os tarefeiros a não quererem vínculos com SNS

Em meados de março, a ACSS divulgou os resultados de um inquérito que mostrava que dois em cada três médicos que decidiram não ingressar na formação especializada em 2025 fizeram-no por não ter conseguido entrar na especialidade que queriam. As especialidades cirúrgicas e a Dermatologia ou a Oftalmologia, com menos vagas disponíveis, continuam a ser as mais procuradas, em detrimento das grandes especialidades médicas, como Medicina Geral e Familiar, Medicina Interna e Saúde Pública.

A ACSS admite que, a médio prazo, a menor atratividade por estas especialidades “poderá agravar dificuldades já reconhecidas no recrutamento e fixação de profissionais nestas áreas estratégicas para o funcionamento do SNS” — um alerta feito também pelo bastonário da Ordem dos Médicos.

"Esta realidade traz-nos uma enorme preocupação [...] Vai haver dificuldades, porque não teremos os médicos especialistas necessários"
Carlos Cortes, bastonário da Ordem dos Médicos

O facto de não conseguirem ficar na unidade de saúde desejada é outro dos fatores que mais pesa na decisão dos médicos aquando da não escolha de uma especialidade. Por outro lado, os fatores económicos, como a remuneração ou os custos associados à deslocação, foram menos referidos no inquérito, no qual participaram 254 médicos.

O fenómeno dos médicos sem especialidade surgiu no início da década passada. Contudo, assumiu diferentes características ao longo dos anos. No período pré-pandemia, muitos médicos não fizeram a especialidade porque o número de vagas abertas não era suficiente para a procura. Entre 2015 e 2018, eram já quase 2.200 os médicos sem especialidade, designados também por médicos indiferenciados, segundo as contas da Associação de Médicos pela Formação Especializada. A partir de 2022, o cenário inverteu-se e começaram a sobrar vagas nos concursos de formação de especialidade. Entre 2022 e 2025, 924 vagas ficaram desertas, segundo os dados do portal da Transparência do SNS.

Dificuldade em entrar na especialidade desejada leva médicos a adiar formação especializada

Medicina Familiar e Medicina Interna pouco atrativas. ACSS admite “dificuldades” a médio prazo

Entre as especialidades com mais vagas por preencher estão a Medicina Geral e Familiar (MGF), a Medicina Interna e a Saúde Pública. 478 lugares para formação em MGF ficaram desertos, o que corresponde a cerca de metade do total de vagas não preenchidas neste período. No caso da Medicina Interna, ficaram por ocupar 340 vagas, a que se somam outras 46 na Saúde Pública. No caso da MGF, se as vagas colocadas a concurso nos últimos quatro anos tivessem sido preenchidas na totalidade, o SNS teria conseguido atribuir médico de família a mais de 700 mil pessoas, reduzindo significativamente o número de utentes a descoberto (que é de 1,6 milhões).

O secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), Nuno Rodrigues, durante entrevista à agência Lusa, na Sede do SIM, em Lisboa, 03 de abril de 2024. O novo secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM) aponta como “grande prioridade” do seu mandato a estabilidade dos profissionais, o que passa pela sua valorização salarial, progressão na carreira e pela melhoria das condições de trabalho. (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 05 DE ABRIL DE 2024). MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
"Temos de perceber como podemos revalorizar a Medicina interna, e atuar com previsibilidade nos concursos, na evolução da carreira, na estabilidade das equipas. E teremos de compensar os médicos pela via monetária"
Nuno Rodrigues, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos

“As vagas que ficam por preencher são sobretudo em especialidades em que os médicos sabem que vão ser alvo de muita pressão, com horários desregulados, trabalho à noite“, diz o secretário-geral do SIM, salientando sobretudo o caso da Medicina Interna, especialidade basilar dos serviços de urgência. “Temos de perceber como podemos revalorizar a Medicina interna e atuar com previsibilidade nos concursos, na evolução da carreira, na estabilidade das equipas. E teremos de compensar os médicos pela via monetária”, pede Nuno Rodrigues.

Sem surpresa, quase metade das 924 vagas para formação especializada que ficaram por preencher nos últimos anos (entre 2022 e 2025) localizavam-se em unidades de saúde da região de Lisboa e Vale do Tejo, mais concretamente 441. Seguem-se as regiões Centro, com 191 lugares por ocupar, o Alentejo e o Norte, com 103 e 101 vagas desertas, respetivamente. “As vagas por ocupar são em zonas onde já existem carências de recursos humanos”, vinca o bastonário dos médicos, o que agrava o círculo vicioso em que estão mergulhados alguns serviços hospitalares: não são atrativos para fixar especialistas, nem para atrair internos, o que diminuiu a capacidade de resposta e pode até prejudicar a idoneidade formativa.

Há mais de quatro mil médicos tarefeiros a trabalhar no SNS

Carlos Cortes alerta que é preciso inverter este quadro e atrair os jovens médicos para a formação especializada. “O país precisa de médicos diferenciados e é muito importante que se criem todas as condições para os médicos internos escolherem uma especialidade”, salienta o bastonário, defendendo que “têm de ser melhoradas as condições de trabalho no SNS”. “Os médicos internos têm de saber que vão encontrar condições. O SNS tem de ser competitivo”, pede o bastonário.

O presidente do SIM adianta que aquela estrutura sindical enviou ao Ministério da Saúde uma proposta para rever em alta o valor pago por cada hora extraordinária em serviço de urgência, de forma a minorar o fosso entre o valor pago a estes profissionais e o valor pago aos prestadores de serviço.

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