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▲É o melhor resultado de sempre desde que Alexander Lukashenko se candidatou pela primeira vez às presidenciais em 1994

AFP via Getty Images

▲É o melhor resultado de sempre desde que Alexander Lukashenko se candidatou pela primeira vez às presidenciais em 1994

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Mais próximo de Putin, Lukashenko silenciou opositores e consolida-se no poder com vitória esmagadora nas eleições

À sétima vez que se candidata às presidenciais bielorrussas, Lukashenko obtém melhor resultado de sempre (86,8%). UE tenta apoiar oposição e garante que eleições "não foram livres, nem justas".

“Reconheçam ou não reconheçam é uma questão de gosto. Para mim, não faz qualquer diferença. O importante é que as eleições sejam reconhecidas pelos bielorrussos.” Mesmo antes de votar este domingo, acompanhado pelo seu cão (que levou ao local de voto), o Presidente bielorrusso, Alexander Lukashenko, manifestava a sua indiferença diante da possibilidade de o Ocidente se recusar a reconhecer o resultado das eleições presidenciais. No cargo desde 1994, o líder da Bielorrússia voltou a triunfar nas urnas, desta vez, segundo os resultados provisórios, com 86,8% dos votos  — o melhor resultado de sempre.

Os resultados finais serão apenas divulgados nos próximos dias, mas os preliminares divulgados pela Comissão Eleitoral Central mostram que ninguém fez sombra a Alexander Lukashenko nesta presidenciais. Cerca de 3,6% dos eleitores preferiram não escolher qualquer um dos candidatos (existia essa opção no boletim do voto), e, em terceiro lugar, ficou o aliado do Presidente da Bielorrússia, Sergei Syrankov, do Partido Comunista da Bielorrússia, com 3,21% dos votos. A independente Hanna Kanapatskaya — a que criticava o líder bielorrusso, ainda que de forma tíbia — não foi além dos 1,86%.

É, como se escrevia acima, o melhor resultado de sempre desde que Alexander Lukashenko se candidatou pela primeira vez às presidenciais em 1994, três anos depois da independência da Bielorrússia. Tendo existido ou não fraude eleitoral — há várias suspeitas fundadas —, o Presidente bielorrusso quis enviar uma mensagem à comunidade internacional: o seu poder está mais consolidado do que nunca e não vai permitir que ninguém o desafie.

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▲ Alexander Lukashenko levou o cão para o local de voto

Anadolu via Getty Images

Lukashenko prendeu opositores e impôs “clima de medo” antes das eleições

Estas eleições eram quase um “ritual” para o Chefe de Estado bielorrusso se manter no poder. Isolada na Europa, a Bielorrússia está cada vez mais próxima da Rússia de Vladimir Putin. Não é de estranhar, portanto, que já tenha uma viagem marcada para os próximos tempos. “Planeio encontrar-me com o Presidente russo em Moscovo”, adiantou Alexander Lukashenko este domingo, numa prova de que a aliança está mais forte do que nunca.

Considerado um Estado-fantoche da Rússia principalmente depois do início da guerra da Ucrânia, a Bielorrússia vai continuar a ser liderada por Alexander Lukashenko, o único líder do país até ao momento. Aos 70 anos, o Presidente bielorrusso, considerado no “último ditador da Europa”, já avisou que ainda”não está à procura” de um sucessor para o substituir no poder. E assegura que a oposição, quase toda no exílio, não vai ter qualquer chance de mudar o regime.

“Existem critérios para a democracia? Vamos decidi-los e, por esses critérios, avaliaremos a América, a Grã-Bretanha, Bruxelas e Minsk”, atirou um desafiador bielorrusso em conferência de imprensa minutos antes de votar. Confrontado sobre a falta de condições democráticas na Bielorrússia, Alexander Lukashenko garantiu que o país é uma “democracia brutal” e não é uma “ditadura”. Contudo, várias organizações internacionais têm vindo a público denunciar o “clima de medo” que existe no país — e que impede uma campanha eleitoral livre.

Na passada sexta-feira, Amnistia Internacional (AI) denunciou a existência de um “clima de medo” na Bielorrússia antes das eleições. “Ao levar a cabo uma campanha brutal contra qualquer dissidência, as autoridades criaram um clima de medo paralisante, silenciando qualquer pessoa que desafie o governo”, afirmou Marie Struthers, diretora da Amnistia para a Europa Oriental e Ásia Central.

Todos aqueles que desafiam o regime de Alexander Lukashenko vão para o exílio — onde está, neste momento, o principal rosto da oposição, Sviatlana Tsikhanouskaya — ou são presos. As condições de detenção no país são, segundo vários relatos, desumanas. À Associated Press, o ativista pelos Direitos Humanos, Leanid Sudalenka, contou que as autoridades bielorrussas “criam deliberadamente condições terríveis de detenção para prisioneiros políticos, que se caracterizam como tortura“.

À mesma Associated Press, Leanid Sudalenka, que esteve numa colónia penal na Bielorrússia, disse que os prisioneiros políticos usam um distintivo amarelo, que os distingue dos restantes reclusos. “São sujeitos a humilhações todos os dias. Os métodos de bullying são solitárias, isolamento completo da informação, impedimento de consultar um advogado e recusa de cuidados médicos e medicamentos.”

Tendo em conta estas condições — e o simples facto de haver prisioneiros políticos — são poucos os que ousam fazer frente ao regime bielorrusso; as liberdades de expressão, de imprensa e de associação também estão severamente limitadas na Bielorrússia. Mesmo assim, há cinco anos, milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra os resultados eleitorais das presidenciais de 2020. E isso abanou as estruturas do regime.

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▲ Protestos na Bielorrússia em 2020 contra a sexta reeleição de Lukashenko

AFP via Getty Images

Contrariamente ao que aconteceu nestas eleições, em 2020, Alexander Lukashenko enfrentou efetivamente alguém que o ameaçava verdadeiramente: Sviatlana Tsikhanouskaya. Inicialmente, seria o marido, o youtuber e o empreendedor Sergei Tikhanovsky, a concorrer às eleições; mas, dois dias depois de anunciar a sua intenção, foi detido, permanecendo numa colónia penal até hoje. A mulher substituiu-o nas urnas e levou a cabo uma campanha que diferia radicalmente das ideias do Presidente bielorrusso.

Os resultados da Comissão Eleitoral da Bielorrússia deram novamente a vitória a Alexander Lukashenko, com 81,04% dos votos. Mas a oposição não aceitou os resultados — e motivou protestos nas ruas que pediam a demissão do Presidente. O regime bielorrusso respondeu com pulso firme e prendeu milhares de pessoas. Vladimir Putin teve de intervir e até ponderou enviar militares russos para Minsk.

Em 2025, o Chefe de Estado bielorrusso não quis correr esses riscos — e, nos últimos anos, foi preparando terreno para umas eleições “sem incidentes”, como declararam as autoridades leais ao regime este domingo. Colocou os opositores políticos entre a espada e a parede, obrigou os principais dissidentes a saírem do país e não permitiu que ninguém que o desafiasse abertamente concorresse às eleições.

A líder da oposição bielorrussa, Sviatlana Tsikhanouskaya

▲ Sviatlana Tsikhanouskaya, o rosto da oposição bielorrussa no exílio

NurPhoto via Getty Images

Numa publicação no X (antigo Twitter) este domingo, Sviatlana Tsikhanouskaya, que organizou manifestações este domingo na Polónia reunindo os rostos da oposição no exílio, garantiu que estas eleições não darão qualquer “legitimidade” a Alexander Lukashenko: “O mundo democrático mantém-se unido ao rejeitar esta farsa“.

“Estas não são eleições, mas são uma ‘operação especial’ para se manter ilegalmente no poder. Lukashenko, apoiado por Putin, mantém nove milhões de bielorrussos reféns, arrasta-nos para a guerra e trai a nossa soberania. Nós nunca o aceitaremos. O regime deve pôr fim à repressão e libertar prisioneiros políticos.”

Aos seus opositores e àqueles que participaram nos protestos há cinco anos, o Presidente da Bielorrússia também não deixou de enviar mais um recado este domingo. “Não vamos perseguir o mundo inteiro, mas estamos a vigiá-los”, avisou, assumindo abertamente que retaliou contra os manifestantes de 2020 — que foram impedidos de manter os empregos. Mais uma vez em jeito de ameaça, Alexander Lukashenko disse que os seus opositores têm agora uma nova oportunidade se reconhecerem “que estavam errados”.

UE pressiona regime de Lukashenko e apoia opositora

Mesmo garantindo que não espera nada do Ocidente, o Presidente bielorrusso foi dando sinais de querer diminuir a repressão do seu regime, de forma a que as eleições ganhem o mínimo de legitimidade (pelo menos na aparência). Durante os últimos meses, Alexander Lukashenko foi concedendo indultos a vários prisioneiros políticos, principalmente aqueles que participaram em protestos há cinco anos.

Ainda este domingo, o líder bielorrusso libertou uma cidadã norte-americana que estava detida na Bielorrússia desde os protestos de 2020. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, anunciou, este domingo, a novidade no X (antigo Twitter). “Graças à liderança do Presidente dos Estados Unidos da América, a Bielorrússia libertou unilateralmente uma americana inocente, Anastassia Nuhfer, que foi presa durante [o mandato] de Joe Biden.”

Em tese, com a libertação desta cidadã norte-americana, Alexander Lukashenko parece tentar uma aproximação a Donald Trump. Em declarações aos jornalistas este domingo, o Chefe de Estado bielorrusso até elogiou o seu homólogo dos Estados Unidos, dizendo que é um “grande showman“. Mas também deixou claro que ainda está a “tentar avaliar” quais serão as repercussões das ações do novo líder norte-americano no Leste da Europa. “Não esperamos nada, trabalhamos com calma.”

Em sentido inverso, o Presidente bielorrusso não parece empenhado em aproximar-se de Bruxelas. O bloco comunitário, pela voz da chefe da diplomacia europeia, a estónia Kaja Kallas, tem-se desdobrado em críticas à forma como o ato eleitoral se desenrolou. “Hoje as eleições fraudulentas na Bielorrússia não são nem livres, nem justas”, realçou a alta representante da União Europeia (UE) para os Negócios Estrangeiros.

“As pessoas da Bielorrússia merecem ter uma oportunidade real para escolher quem querem que governe o país”, prosseguiu Kaja Kallas este domingo no X, sendo que, esta tarde, já tinha emitido um comunicado, em que frisa que a UE continuará a impor medidas restritivas e específicas contra o regime de Alexander Lukashenko. Ao mesmo tempo, os 27 Estados-membros comprometem-se a “financiar a sociedade civil, as forças democráticas bielorrussas no exílio e a cultura bielorrussa”.

Para dar força à oposição ao regime e num desafio a Alexander Lukashenko, Kaja Kallas convidou Sviatlana Tsikhanouskaya para estar presente numa reunião com os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia. “Neste ‘dia da eleição’, estou a receber Sviatlana Tsikhanouskaya para reafirmar o nosso apoio para uma Bielorrússia livre e democrática”, destacou a líder da diplomacia europeia.

Unilateralmente, países como a Alemanha, a Polónia ou os países nórdicos também vieram apoiar a causa de Sviatlana Tsikhanouskaya, condenando as eleições “fraudulentas da Bielorrússia”. Porém, a opositora não terá uma missão nada fácil: vai tentar acabar com um regime centrado em Alexander Lukashenko, que já se mostrou impiedoso com todos aqueles que o tentam defrontar e conta com o apoio inequívoco da Rússia.

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