Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou o último 10 de Junho para contestar a pureza da portugalidade e declarar guerra ao nacionalismo. O Presidente da República enumerou 15 diferentes povos (dos lusitanos ao saxões ou dos gregos ao fenícios) para “recordar esses e muitos mais que de nós fizeram uma mistura, em que não há quem possa dizer que é mais puro e mais português do que qualquer outro.”
Minutos antes, a conselheira de Estado e por si nomeada presidente da comemorações do 10 de Junho de 2025, Lídia Jorge, tinha ido no mesmo sentido: “Por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência pura, não tem correspondência com a realidade. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou.” Esta foi a mensagem principal e mais importante, mas houve mais.
“Recordar”. A lição para a imigração: “Os portugueses convivem com todos”
Marcelo quis centrar o seu curto discurso em três fases: o recordar (para encontrar na origem a ideia de que não há pureza da nacionalidade), o recriar (fazendo um diagnóstico para o que é preciso melhorar) e agradecer (dando a mais alta condecoração ao ex-Presidente António Ramalho Eanes).
Na fase do recordar, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a lembrar como os portugueses são um povo com apetência para a integração com outros povos, que encaixa na aceitação da imigração: “Os portugueses são capazes de falar línguas, de entender climas e usos, de conviver com todos. De fazer, construindo dia-a-dia pontes. Nós somos portugueses porque somos universais. E somos universais porque somos portugueses.” Isto claro, depois de já ter atirado aos nacionalismos para dizer que “não há quem possa dizer que é mais puro e mais português do que qualquer outro”.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“Recriar.” Cuidar melhor dos portugueses num “fim de ciclo”
Marcelo evoluiu depois para a segunda fase do discurso: o recriar. O Presidente da República fez, neste caso, uma exigência ao Governo para conseguir reter os portugueses no País: “Temos o dever de nos recriar, de nos ultrapassar, cuidar melhor da nossa gente, para que seja mais numerosa, mais atraída a ficar nesta pátria feita de um retângulo e dois arquipélagos, se quiser ficar.” E continua: “Ou a partir para voltar e nunca perder a saudade da terra, se quiser partir. Cuidar mais do que puder e dever ser feito, produzido, inovando, investindo, exportando”.
O Presidente quer ainda que faça parte dessa recriação “cuidar dos que já ficaram para trás ou estão a ficar”, que Marcelo quantifica: “São sempre entre 2 e 3 milhões. E são muitos, há muito tempo. Regime após regime, situação após situação.” O chefe de Estado refere-se, neste caso, aos cerca de dois milhões de portugueses em risco de pobreza ou exclusão social.
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No caderno de encargos da fase do “recriar”, Marcelo defende que é necessário voltar a investir na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e também não descurar a vocação europeia. O Presidente defende ser necessário “cuidar da nossa fraternidade com os povos e os Estados que, como nós, falam português e fazem do português uma grande língua mundial” e, ao mesmo tempo, “cuidar da nossa pertença na Europa, unida, aberta, que acredita em valores humanos, de dignidade, respeito pelas pessoas, os seus direitos e deveres, a sua pluralidade de cultura e de vida.”
Numa evocação a Camões, que também tem no 10 de Junho o seu dia, Marcelo Rebelo de Sousa lembra que “é o único escritor e poeta nos 194 países do mundo que define o dia nacional. Não há outro país do mundo que tenha o seu dia nacional escolhido por causa de um poeta.” E envolve-o nessa recriação de Portugal: “Recriar Portugal é, no fundo, reler os Lusíadas. Recordação do passado, mas aposta no futuro, em anos em que Portugal parecia condenado a morrer.”
Marcelo fala numa “obrigação primeira” de recriar Portugal no que chama de “novo ciclo” sem concretizar nem caracterizar esse ciclo. Diz apenas que se segue a 50 anos de democracia. Já Lídia Jorge registara, minutos antes, que “Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição. Assistiu ao fim de um ciclo“.
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“Agradecer.” O papel dos militares agraciando um dos maiores
Marcelo deixaria também uma mensagem especial para os militares que, regista, fazem parte da “História [de Portugal] desde que nascemos.” E acrescenta: “Nascemos e tornámos independentes por causa da sua intervenção. Recuperámos a independência por causa da sua intervenção. Fomos o reino, como dizia Mouzinho, feito por esses soldados. Somos a pátria que vive em liberdade e democracia feitas por esses soldados. É essa gratidão que queremos testemunhar neste 10 de junho de 2025 em Lagos.”
E para os militares nada mais importante do que as condecorações. Daí que Marcelo tenha aproveitado o fim do discurso para condecorar “quem foi, nos mais de 90 anos da sua vida, combatente em África, capitão de Abril, protagonista de Novembro, chefe militar até ao Comando Supremo, primeiro Presidente da República Portuguesa eleito livremente pelo povo português. Chama-se António Ramalho Eanes, que merece, como ninguém, o primeiro grande colar da Ordem Militar de Avis.”
Ramalho Eanes já tinha sido a única (além de Marcelo) das altas entidades anunciadas na cerimónia aplaudida pelos populares. É certo que não houve apupos (como aconteceu com João Galamba em 2022 na Régua), mas os ministros e o primeiro-ministro foram anunciados sem que se seguissem manifestações de carinho. Já Eanes foi muito aplaudido pelos populares.
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O pós-discurso. Gouveia e Melo à mesma hora? Está a “fazer pela vida”
Já no pós-discurso, enquanto caminhava a pé para o local onde vai almoçar, Marcelo Rebelo de Sousa falou sobre o fim do seu mandato, ao defender que “as saídas devem fazer-se suavemente. Preparam-se com tempo e sai-se.” Até porque, defende, “quando começar a campanha autárquica e presidencial os protagonistas são os autarcas candidatos presidenciais.”
Para Marcelo junho faz parte do tempo dele já, que nos últimos meses devem ser outros (como os seus potenciais sucessores) a ter o espaço público e mediático. Ora, à mesma hora que Marcelo estava no 10 de Junho, o almirante Gouveia e Melo participava numa cerimónia de homenagem a combatentes em Lisboa. Questionado sobre se o incomodava, Marcelo atirou: “Os candidatos têm de fazer pela vida. Era estranho num dia como o de Portugal que candidatos não viessem cá [Marques Mendes] ou que fossem a outra cerimónia não podendo vir cá [Gouveia e Melo].”
Questionado também em andamento sobre a ideia de um messianismo, centrado numa figura, numa alusão a um potencial estilo presidencial de Gouveia e Melo, o atual Presidente atirou: “A grande lição que tudo o que se fez em Portugal, fez-se coletivamente.”
Sem querer responder a André Ventura, que falou em reparações históricas — embora não tenha sido tema de nenhum discurso — Marcelo Rebelo de Sousa diz que os portugueses sempre “reconheceram as coisas que correram mal nas nossas vidas”.
Também em jeito de final de mandato, o Presidente da República diz que não tem mágoa de deixar um País polarizado porque ele não está assim tão polarizado. “O país não se pode dizer que esteja muito polarizados. Os portugueses polarizados estavam quando houve monarquia-república, ditadura-democracia. Agora, em democracia, haver diferentes pontos de vista sem que nenhum deles coloque em causa a democracia, temos de admitir que é boa notícia”.