Mariana Vieira da Silva critica a escolha do novo governador do Banco de Portugal e diz que a AD tem de explicar porque é que Mário Centeno foi o primeiro governador da história a não ser reconduzido. Em entrevista à Vichyssoise, da Rádio Observador, a vice-presidente da bancada do PS defende que o PS “só deve conversar [com o Governo] depois de ver o Orçamento do Estado”. A ex-ministra avisa o Governo que não pode excluir o PS de todas as discussões sobre políticas públicas e depois apelar à responsabilidade quando chega o Orçamento.
Sobre presidenciais ex-governante não esconde que António José Seguro não lhe enche as medidas e recusa-se a recuar nas críticas que lhe fez no passado. Mariana Vieira da Silva diz que Centeno seria um bom candidato, mas que o próprio já disse que não queria. Do que sabe, revela, Sampaio da Nóvoa continua em reflexão. Tem, no entanto, a ideia de que há espaço para um candidato mais à esquerda. E puxa da análise que fez das sondagens: “A queda de Gouveia e Melo não se traduziu na subida dos outros candidatos”.
Quanto a Lisboa não diz se chegou a ser abordada sobre uma candidatura à capital e a Sintra, uma vez que isso é “passado”. Ainda assim diz que o que faria sentido era concorrer a uma autarquia que conhece, como Lisboa.
“Álvaro Santos Pereira não é uma boa escolha”
O Governo escolheu Álvaro Santos Pereira, antigo ministro também de um governo PSD e CDS, como novo governador do Banco de Portugal. É uma boa escolha?
Julgo que não é uma boa escolha porque, ao longo dos últimos tempos, meses, Álvaro Santos Pereira tem mostrado que não tem uma das características que me parece fundamental para ser governador do Banco de Portugal. Enquanto chief economist da OCDE veio tecer comentários sobre aquilo que precisava de ser mudado na Constituição e este é o tipo de confusão entre papéis que me parece significar que não tem as competências necessárias. Também não lhe conhecemos grande experiência com o setor financeiro, embora, objetivamente, neste momento, isso parece ser um tema menos central na agenda do Banco de Portugal. Mas nunca se sabe. Julgo que o Governo da AD precisava de explicar um pouco melhor porque é que é a primeira vez na nossa história em que um governador não vê o seu mandato renovado.
O PSD sugeriu várias vezes que o governador do Banco de Portugal cessante não era totalmente independente, no sentido de que fazia declarações contra o Governo. Com Álvaro Santos Pereira está garantida a independência do governador do Banco de Portugal ou como é um antigo ministro do PSD é possível que ela fique em causa e que o governo passe a ter um amigo no Banco de Portugal?
Queria responder ao tema do Mário Centeno porque fui colega dele como ministra e fui muitas vezes alvo de perguntas de jornalistas, alguns aqui presentes, por exemplo, nos briefings do Conselho de Ministros, quando Mário Centeno, enquanto governador do Banco de Portugal, fez relatórios a criticar a execução do PRR ou a questionar os acordos assinados com a função pública para a atualização de salários. Portanto, tenho elementos factuais e se for ver as perguntas que me fizeram enquanto ministra da Presidência sobre os avisos do Banco de Portugal, elas não são distintas daquelas que fizeram aos ministros do atual Governo. Portanto, é factual e basta olhar para os relatórios, para as recomendações, para a documentação que o Banco de Portugal produziu desde 2020, que é o início do mandato de Mário Centeno, para ser verificável que todos os alertas que vem deixando depois, ainda que com uma situação económica mais difícil, sejam de outro tipo. Mas nos alertas sobre, por exemplo, o PRR, nunca senti nenhuma maior paz ou perguntas mais fáceis vindas do Banco de Portugal por o Mário Centeno ter sido ministro. Veremos se Álvaro Santos Pereira mantém sobre a economia portuguesa o mesmo olhar.
Mas não tem esse receio, que não tenha essa mesma independência que atribui a Mário Centeno?
Tenho, mas dou esse benefício da dúvida dou. O que não consigo compreender é que se questione a independência de Mário Centeno quando é visível e não é difícil encontrar os sons. Às vezes não reagi muito positivamente porque considerava as críticas injustas, mas independência é isso.
E Mário Centeno ainda vai a tempo de protagonizar uma candidatura presidencial?
O que eu entendi das declarações de Mário Centeno sobre essa matéria é que esse não era um projeto de vida que ele tivesse neste momento. Dito isto, o Mário Centeno tem inúmeras qualidades políticas, técnicas que o aconselham para muitos cargos.
Para Presidente da República também?
Quando alguém diz que não quer, mesmo que passasse a querer, teria sempre um caminho mais difícil à sua frente, não é? Porque é recente o não querer. Não foi uma coisa que disse há 10 anos. Mas também para o cargo de Presidente da República, sim.
“A queda de Gouveia e Melo não se traduziu na subida dos outros candidatos”
Disse que ainda havia espaço para uma candidatura do centro-esquerda a Belém, mas não começa a faltar tempo, tendo em conta que já há uma certa consolidação das candidaturas que estão no terreno, quer em termos de apoios, quer em termos de sondagens?
Bem, ainda esta semana, no espaço do centro-direita ou da direita, mais propriamente, surgiu um novo nome. Aquilo que vemos quando olhamos para o panorama dos candidatos, ou possíveis candidatos a Presidente da República, é uma concentração do lado direito do hemisfério político, até superior ao peso que o lado direito teve nas eleições. Temos muitos candidatos, muito mais disputa à direita – estando eu neste momento a situar Gouveia e Melo mais à direita, em face das múltiplas entrevistas que deu – do que acontece à esquerda, onde verdadeiramente temos dois candidatos, neste momento.
Mas há esse espaço e ainda há essa necessidade, do seu ponto de vista?
Sim, porque o que as sondagens mostram, por exemplo é que a queda de Gouveia e Melo não se traduziu num crescimento significativo de nenhum dos outros candidatos.
Bom, foi quase a mesma medida. A queda de Gouveia e Melo foi grande e a subida de António José Seguro foi quase nessa mesma medida.
Não foi, mas repare que saiu António Vitorino da lista de candidatos e, portanto, esse espaço tendencialmente seria aproveitado à esquerda e, portanto, não parece haver uma distribuição efetiva. É sempre possível dizer que está tudo em aberto quando olhamos para sondagens com aquele nível de indecisos, mas olhando para aquela sondagem, uma queda daquela dimensão, não vejo que tenha beneficiado especialmente ninguém, tendo em conta, volto a dizer, a saída de António Vitorino da lista.
Tem falado com António Sampaio da Nóvoa sobre a possibilidade de uma candidatura presidencial e ainda acredita que ele pode avançar?
Não tenho falado com António Sampaio da Nóvoa. Tanto quanto sei, ele está em reflexão. Eu acho que isso faz parte. Eu também, se ponderasse tal candidatura, também teria um espaço próprio e individual de o fazer.
Mas a janela de oportunidade não está a fechar-se para ele?
A janela de oportunidade não é eterna. É evidente que dificilmente será possível para lá de setembro aparecerem novos candidatos, embora a história das presidenciais seja um pouco diferente, mas julgo que António Sampaio da Nóvoa sabe qual é o calendário e, portanto, certamente estará a fazer as suas ponderações quanto à sua vida e às suas opções.
O PS tem um antigo líder já oficializado na corrida presidencial que está a ganhar relevo nas sondagens, tem mais de 100 autarcas do partido já a apoiá-lo e também vários dirigentes distritais. Como é que se explica que não seja o candidato a apoiar naturalmente pelo Partido Socialista nesta fase?
Não sei se não será. Essa é uma decisão que o PS tomará depois das autárquicas. O PS tem procurado com sucesso explicar que a sua prioridade enquanto partido político são as eleições autárquicas. Não é difícil perceber porquê depois destes resultados das legislativas e, portanto, não vejo como impossível nem como improvável que esse apoio venha a acontecer.
Mas não era uma saída confortável? Por que é que há esta resistência por parte de alguns socialistas, onde se inclui Mariana Vieira da Silva, a António José Seguro?
Eu acho que nós temos que olhar para o momento que o país vive pensando que com o crescimento do setor político à direita era preciso um candidato que representasse um espaço que fosse além do Partido Socialista do ponto de vista das presidenciais. Fosse além no sentido de conseguir reunir setores da sociedade civil que neste momento, ao contrário do que costuma acontecer nas presidenciais, não vemos aparecer em torno de candidatos. E também representar uma resposta a uma mudança muito significativa que estamos a ver no mundo e em Portugal também. E que me parece que Portugal está a querer fugir a esse debate de ver serem postos em causa valores fundamentais e alicerces da nossa democracia e de ser precisa uma reação que é até mais cívica do que política. Na minha perspetiva, era preciso um candidato que conseguisse fazer essa mobilização de todos os setores sociais. Veremos se aparece outro candidato ou não. Sem drama.
Mas com o PS tão fragilizado como está agora e como saiu das últimas legislativas, não era importante haver aqui uma união nestas presidenciais? Não há já uma saída fácil, que é um ex-líder na corrida?
Bom, nós também temos ex-líderes que não apoiam o candidato do seu partido que também é um ex-líder, não é? Portanto, nós estamos sempre a falar sobre o tema de no PS haver divisões quando temos um antigo presidente do PSD que é candidato e outro antigo presidente do PSD que não apoia o seu antecessor e apoia o outro candidato. Isto porquê? Porque as presidenciais, tradicionalmente, não representam esse espaço meramente partidário e representam um espaço mais abrangente e, para mim, neste momento, porque o PS teve um mau resultado eleitoral. Mas há problemas maiores e o problema maior que nós temos neste momento é a ascensão da extrema-direita enquanto país e, portanto, é o tempo dos candidatos que podem ser, que se sentem em condições de ser, pensarem e apresentarem-se. E depois também o tempo de cada um de nós individualmente e os partidos decidirem os seus apoios.
Sem Sampaio da Nóvoa, Mariana Vieira da Silva vai apoiar António José Seguro?
Não quero estar a antecipar, vou seguir a linha que o PS definiu. Essas coisas, seja quem for o candidato que possa aparecer, são decididas e faladas depois das autárquicas.
Mas há a possibilidade de não apoiar o candidato que o PS vai apoiar?
Se eu respondesse a essa pergunta e a todas as que farão nesse sentido, estaria a quebrar o que acabei de dizer. Não vou fazer de conta que não disse o que já disse sobre António José Seguro. Não vou voltar atrás no que disse, não vou dizer que deixei de pensar assim. As decisões sobre quem apoiamos são feitas em função de quem se candidata e isso é uma decisão que tomarei depois das eleições autárquicas.
“PS só deve conversar depois de ver o Orçamento”
Luís Montenegro tem dito que quer negociar este Orçamento do Estado com o PS e com o Chega. O PS deve estar disponível para essa negociação?
Não há nenhum português que tenha dúvidas sobre a disponibilidade do PS neste momento para as negociações. É isso que desde o dia das eleições e da vitória de José Luís Carneiro tem sido dito e é isso que tem sido praticado pelo Partido Socialista no Parlamento. Há uma coisa que o PS não pode fazer que é participar nesta espécie de equilíbrio desequilibrado que Luís Montenegro está a querer criar em que todas as dimensões mais ideológicas são votadas com o Chega, não apenas votadas, são votadas de forma a impedir que o PS participe no debate em datas recorde, recusando audições. Se algum dia, aqui há alguns anos, eu tivesse aqui vindo dizer que um dia um líder de um partido como o PSD ia impedir a audição das associações patronais em matéria de imigração no momento em que o país não tem mão de obra, vocês não acreditariam. E não acreditariam porquê? Porque é absolutamente surreal que isso tenha acontecido. E, portanto, o PS tem que ser claro quanto à sua indisponibilidade de entrar neste jogo em que é excluído de discussões importantíssimas para o país, excluído na prática e depois chamado como sendo uma espécie de único responsável e do único partido que tem que ser chamado a garantir.
Deve colocar-se completamente à margem de acordos com a AD?
Deve dizer que não está disponível, porque no limite, qualquer dia, está a ser revista a Constituição com o Chega e o PS a continuar a ser chamado só no momento de aprovar o orçamento. E isso não parece sensato, parece muito, muito negativo para a política portuguesa e o PS nisso tem que ser claro.
E ser claro é o quê? Essa proximidade com a AD já acontece. Já há motivos suficientes para o PS tomar essa decisão?
Não. Ser claro neste momento é ir chamando a atenção para todos os momentos em que o Partido Socialista está a ser objetivamente – mesmo que não formalmente – excluído do processo de debate político e depois retirar as suas conclusões. Agora, dizer que há dúvidas sobre a disponibilidade do PS, não me parece que isso seja possível, porque o PS todas as semanas tem apresentado propostas, temos estado em diálogo com o PSD. O secretário-geral escreveu uma carta sobre as matérias de Defesa, agora, quem governa – e eu já estive sentada nestas ou noutras mesas enquanto governante – é que tem a responsabilidade de escolher os seus caminhos. Na minha perspetiva, neste mês e meio, Luís Montenegro escolheu os seus caminhos, mas ainda só passou um mês e meio.
E de que forma é que o PS se deve envolver nessa negociação? Porque José Luís Carneiro já disse que basta que a proposta respeite os valores do Partido Socialista, no SNS, Segurança Social e Escola Pública. Isso é suficiente ou é preciso saber mais do que isto para definir a posição do PS no Orçamento do Estado?
Neste momento o PS deve ser muito claro sobre só conversar depois de ver o Orçamento. Por vários motivos, também políticos, porque na verdade nós teremos um orçamento a ser entregue no último dia de uma campanha eleitoral, com tudo o que isso pode significar. Mas aquilo que aconteceu há um ano, que é uma tentativa de negociar previamente o Orçamento, o que foi negativo para o país, foi muito negativo para o PS. E, portanto, as negociações podem e devem ser feitas em sede de especialidade, porque é esse o quadro político em que vivemos. Não existe nenhum acordo de incidência parlamentar, não há nenhuma necessidade de fazer isso. O PSD fez uma opção que me parece positiva, que é ter excluído do debate orçamental alguns temas onde sabe que é difícil um acordo com o Partido Socialista. Defendi que o fizessem há um ano e, portanto, não posso não dizer que acho que é uma boa escolha. Temos que deixar de olhar para o Orçamento como o único lugar de aprovação de políticas públicas, até para baixar a intensidade com que os orçamentos acabam por ser vistos quase como moções de censura. Do ponto de vista político, se o Governo decidir, como me parece pelas notícias de hoje, ainda que ainda muito breves, que vai discutir toda a agenda laboral, revogando tudo o que foi aprovado por anteriores governos do PS – apesar do sucesso dessas políticas no aumento de salários, na redução da precariedade, no aumento do emprego e na redução do desemprego –, se decidir que a linha com a direita mais extrema em matérias como a educação para a cidadania, a imigração, a lei da nacionalidade, de repente serve o PS apenas para quando chega o momento de aprovar o orçamento poder participar politicamente?
O Governo já escolheu o Chega como parceiro preferencial?
A sensação que tenho neste momento é essa. E não apenas nas decisões em concreto, mas muito no discurso. Quando olhamos para aquilo que foi feito em matéria de educação para a cidadania, por exemplo, nós não vemos um recuo de dois ou três anos. Aliás, tal como aconteceu na lei da imigração, nós vemos colocar em causa coisas estabelecidas e aprovadas há mais de uma década, há duas décadas, há três décadas, conforme o caso. E, portanto, isso significa uma viragem na nossa sociedade muito alinhada com o discurso que outros protagonistas políticos têm feito e que naturalmente tem que ter consequências. Nós não vivemos num mundo onde depois só existimos entre 10 de outubro e 28 de novembro.
Mas ainda acredita que há aqui espaço para dar uma outra oportunidade ao Governo? Porque, ao mesmo tempo que está a dizer que o PS deve começar a dar sinais, também diz que uma preferência do Governo.Não era importante, por exemplo, chumbar já o próximo Orçamento do Estado para dar esse sinal de que o PS tem de se distanciar e fazer oposição?
Para mim o PS tem sempre de fazer oposição. Fazer oposição em modo de ser alternativa. De, em cada momento que há uma proposta política da qual o PS discorda, ter uma proposta alternativa. Fazê-lo em todos os momentos em que discutimos política. É isso que temos de nos preparar para fazer quando discordamos, naturalmente quando concordamos não é por mania que nos vamos opor. Nós vivemos num tempo político distinto daquele que vivíamos há um ano. É preciso termos consciência de que os portugueses disseram várias coisas nas eleições, mas uma das que disseram é que se continuarmos neste registo dos ciclos muito curtos, continuará a ser beneficiado o partido Chega, a extrema-direita. Portanto, eu acho que o Chega já deve evitar esta sensação de que em cada orçamento se decide a duração de um ciclo político. Não deve ser assim.
Mas votar contra pode não querer dizer nada, porque o Orçamento já pode estar viabilizado, não é?
Mas se começarmos a dizer que vamos chumbar, tendo em conta o grande ganhador dos ciclos curtos, não é preciso ser muito inteligente para perceber o que é que pode haver tendência… O PS não fecha a porta a essa negociação. Isso foi claríssimo naquilo que disse o secretário-geral. Aquilo que eu digo é que nós não nos podemos colocar na situação de que não somos incluídos em nenhum debate e depois somos chamados apenas num momento do ano. É só isso que me parece, e às vezes parece ser essa a vontade de Luís Montenegro.
Mas não entrar de todo também podem ser confundidos com um partido de protesto, não é? Se o Chega chumbar um OE, o PS pode voltar a ganhar força negocial.
E Luís Montenegro tem que tirar conclusões sobre as opções que tem feito também, já agora.
“Não há política de Saúde neste Governo”
Pedro Nuno Santos pediu a demissão da ministra da Saúde em fevereiro, José Luís Carneiro não tem feito o mesmo. Esta semana, quando fez declarações sobre o relatório da IGAS e a greve do INEM, recuperou essa posição do PS em fevereiro. Carneiro deve manter o que o PS dizia nessa altura e pedir a demissão da ministra?
Parece que é insustentável neste momento essa continuidade. O primeiro-ministro quando nomeia neste seu segundo governo a ministra da Saúde está a ser muito claro quanto à sua posição. E também na dimensão em que tudo o que neste momento acontece no setor da saúde em Portugal tem um único responsável, que é Luís Montenegro. Eu acho que nós não devemos perder muito tempo, nem muita energia com o pedido de demissão da ministra da Saúde por uma razão que talvez seja dura de dizer e especialmente de ouvir, mas que é verdade, neste momento a ministra da Saúde não existe. Não existe politicamente, não é capaz de apresentar uma proposta política, sempre que aparece na televisão está a defender-se de algum relatório da IGAS. E porquê que isto acontece? Acontece porque ao fim de um ano a responsabilizar todos os serviços do Ministério da Saúde sobre tudo o que aconteceu, perdeu a confiança do meio em que se move, que é muito difícil, e não tem a capacidade política de apresentar as reformas e as melhorias que o SNS precisa. Para mim neste momento isso é evidente. Há quanto tempo é que nenhum português ouve a ministra da Saúde falar propositivamente de algo que vai fazer? É sempre a defender-se, é sempre em declarações a dizer que lamenta qualquer coisa sem direito a perguntas de jornalistas.
Mas isso não é transversal a todos os ministros da Saúde? Porque os problemas têm-se acumulado ao longo dos anos e estão quase sempre à defesa.
Eu não me lembro do último período em que estivemos tanto tempo sem que a ministra da Saúde conseguisse afirmar uma solução para o Ministério da Saúde, em nenhuma área. Se fizerem um pouco de esforço de voltar atrás, a ministra da Saúde evita ir ao Parlamento com todos os instrumentos possíveis e imaginários. Nunca falou em nenhum debate no plenário daqueles com o Governo inteiro. Não tem nenhuma capacidade de propor, de responder, nem sequer já de nomear, porque continuam pessoas nomeadas em substituição, não porque a ministra queira, mas porque não está a ser capaz de substituir. E mesmo, pensando eu, que o Governo encontrou uma das responsáveis por muito do que aconteceu neste país no setor da saúde, que foi a secretaria de Estado que entretanto deixou de o ser, vai nomeá-la para Presidente do Metro de Lisboa. E toda esta sensação de que não há consequências é fatal para um ministro. Se isto significa que a ministra se devia demitir, provavelmente significa, mas já não é isso que está em causa. Neste momento, não há política de saúde neste Governo.
[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Educação Sexual? “Governo parecia o Diácono Remédios”
Também foi uma semana marcada pela a questão da educação sexual e a disciplina de cidadania, porque foi conhecida a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania deste Governo com a ausência de matérias em educação sexual. A oposição e o PS falaram em retrocesso, mas o Governo diz que é falso que deixe de fazer parte das aprendizagens essenciais. Fica resolvido o assunto com as novas declarações do ministro da Educação?
Tenho uma mania, que talvez seja muito antiquada, mas é ir ler os documentos quando eles são publicados. E quando um documento não tem qualquer referência a um assunto, e foi praticamente o único assunto que foi totalmente retirado desse documento, tenho que retirar conclusões sobre isso. O ministro vem agora dizer que uma parte daqueles conteúdos pode ser coberta, como aliás já era, em algumas disciplinas. Mas então, e os outros? Vamos alterar o programa de Biologia? Vamos dizer ao professor de Biologia que já tem um programa extenso, com o qual lida com dificuldade, que vai acrescentar? Onde é que isso está escrito? E, portanto, eu acho que o ministro da Educação ontem iniciou um processo de recuo naquela matéria. E se ouvir as minhas declarações, porque falei em nome do PS, foi precisamente isso a que apelei. Mas fazer fez uma folhinha, que circulou pelos jornalistas, a explicar que estava lá, naquele documento, a educação sexual, e depois dizia em que frases, e eram sempre frases sobre bem-estar, comportamentos, evitar comportamentos de risco… parecia quase aquela personagem do Herman José, o Diácono de Remédios… apagou todas as palavras que podiam ser vagamente associadas ou criticadas nem digo pelos sectores mais conservadores, porque os setores mais conservadores estavam pacificados com a educação sexual na escola, são mesmo os setores mais radicais e não os setores mais conservadores a quem o Governo tentou agradar.
“Não tenho feitio para sombra”
Não quis ficar na direção nacional do Partido Socialista, da atual direção, e assumiu uma voz crítica internamente, logo no arranque desta nova era, ao defender que devia ter sido dado mais tempo para resolver a sucessão de Pedro Nuno Santos. Isto é, de alguma maneira, um posicionamento para o futuro, para o seu futuro? Mariana Vieira vai ser a sombra de José Luís Carneiro?
Não tenho feitio para sombra, mas procurei chamar a atenção que me parecia — e parece — que o tipo de reflexão que o PS tem de fazer — e vai ter de fazer — ganhava em ser feita em simultâneo com a escolha da liderança. Porque é natural que, quando nós já escolhemos um líder, a normalidade se imponha com a sua força. E o PS, como muitos casos recentes têm vindo a mostrar, é um grande partido, com muita diversidade de pensamento, e sempre foi, mas a sensação que tenho é que perdeu alguma capacidade de resolver essas diferenças de pensamento internamente. E de forma a criar, não duas posições, mas uma posição onde mais pessoas se revêem. É assim que funciona um grande partido, procurando construir compromisso e consenso em torno de valores. Mas, na minha perspectiva, era melhor o Partido Socialista ter assegurado esta transição com o Presidente Carlos César e poder fazer essa reflexão num Congresso e numa eleição que fosse uma verdadeira disputa eleitoral. Não mudei de ideias quanto a isso, mas não foi esse o caminho que o Partido Socialista escolheu.
Esse debate ainda não existiu. Agora o partido vai para as autárquicas. Se houver um novo desaire eleitoral nas autárquicas, tendo em conta esta decisão de José Luís Carneiro de deixar o debate mais para a frente, essa responsabilidade pode ser-lhe atribuída? Um mau resultado, por não ter havido essa reflexão?
Não, mas a reflexão vai-se impor por si mesma e em muitos temas da atualidade ela tem sido visível e não vale a pena fazermos de conta que ela não existe. Existem visões diferentes sobre temas como a imigração, existem visões diferentes sobre a gestão da pressão habitacional nas áreas metropolitanas e esses debates ou são feitos ou não são feitos e tendem a criar momentos de crise que são, na minha perspectiva, muito mais prejudiciais aos partidos do que o debate em si. E, portanto, José Luís Carneiro diz que fará esse debate, anunciou o seu conselho estratégico. Aquilo que continuo a acreditar é que esse debate é profundo e precisa de ser feito, não vai ser sempre fácil, mas se vivemos num tempo mais longo, de ciclos mais longos, o Partido Socialista tem que o fazer. Fez sempre em momentos de transição e parece-me que as características do momento que vivemos são mesmo de transição do nosso quadro político
Chegou a ser apontada para autarquias em Lisboa e até em Sintra. Foi desafiada para alguma destas candidaturas?
Não, esse assunto está arrumado na minha vida. Quem tinha que escolher, escolheu, era o secretário-geral Pedro Nuno Santos, escolheu Alexandre Letão e eu tenho estado a apoiar.
Só Lisboa é que era verdadeiramente uma hipótese para si?
Faria sentido, tendo em conta o histórico. Faria mais sentido, também, porque é uma cidade que conheço bem, coisa que não acontece propriamente noutras. E pronto, e não, eu sou muito pouco de ficar a pensar nessas coisas do passado.
Quando era ministra da Presidência, tutelou e apresentou medidas de combate à violência doméstica, o Partido Socialista não devia apresentar em Vizela uma lista alternativa à do autarca eleito pelo PS investigado por violência doméstica? Ao não avançar com uma alternativa ao autarca que afastou não está a favorecer essa candidatura?
O Partido Socialista, ainda antes de haver qualquer acusação, reagiu como tinha de reagir, porque o comunicado que o candidato fez não parecia aceitável. Encontrar uma candidatura autárquica em pouco tempo nem sempre é fácil, julgo que o Partido Socialista está a fazer o trabalho que tem que fazer. O que não seria possível para um partido como o PS era fazer de conta que nada se passava e isso o PS não fez.
“País deve afastar-se da ideia de que precisamos de voltar tão atrás no tempo para ter um militar como Presidente”
Vamos avançar para a fase do Carne ou Peixe, em que tem que escolher uma de duas opções. Preferia voltar a ter António Costa a liderar o Governo ou Viktor Gyokeres mais duas épocas no Sporting?
É para mim fonte de felicidade António Costa ser presidente do Conselho Europeu, portanto apostaria em impedir a ida de Gyokeres para o Arsenal garantindo o tri e talvez o tetra.
Qual dos dois benfiquistas preferia ter ao seu lado a presidir a um Conselho de Ministros: Fernando Medina ou Mário Centeno?
São dois benfiquistas bastante diferentes, Fernando Medina é mais moderado. Mas qualquer um tem essa capacidade e eu já tenho muita prática em primeiro-ministros benfiquistas.
Na segunda volta das presidenciais: Gouveia e Melo ou António José Seguro?
O nosso país deve afastar-se da ideia de que precisamos de voltar tão atrás no tempo para ter um militar como Presidente da República.
Quem é que enviava para uma formação em Manchester sobre tática com Ruben Amorim: Pedro Nuno Santos ou José Luís Carneiro?
Agora apostava em enviar José Luís Carneiro porque é quem mais rapidamente precisa de procurar um caminho para que o PS estabilize, se fortaleça e recupere as relações com a sociedade civil que me parece que perdeu. Eu também ia. Aprender com os melhores a definir estratégia é sempre bom, quem está à frente do PS é José Luís Carneiro e julgo que ganharia com isso.