O que é que leva pai e filho a arriscarem sair de casa em Carvide, no meio da tempestade, com rajadas de vento de 176 km/hora medidas ali mesmo ao lado, na base aérea de Monte Real?
O telhado da garagem desabou em cima dos dois homens, ambos pintores da construção civil. Sem rede, com o rosto a sangrar, o pai, Fernando Teodósio, conseguiu sair dali num pranto ouvido pelos vizinhos e deslocou-se uns 3 km até ao quartel dos bombeiros de Vieira de Leiria, para pedir ajuda. O filho, Ricardo, 39 anos, estava debaixo dos destroços.
Quando os bombeiros chegaram à casa de Carvide, encontraram a família a chorar, mas já não encontraram Ricardo Teodósio com vida. O pai, Fernando, ferido com gravidade, foi transportado para o hospital de Leiria.
Foi Fernando que pintou uma parte significativa das casas da aldeia, nos intervalos dos passeios de motas antigas a que gosta de se juntar aos fins-de-semana. Os vizinhos que moram nas casas que ele pintou sentiram o medo e a dor.
Sentiram o medo pelas 4 da manhã, quando o vento começou a fazer-se sentir com maior intensidade: ao longo de uma interminável e tormentosa hora, ouviram os estragos que estavam a ser provocados pela tempestade Kristin — e que só conseguiriam ver umas horas depois: telhas, portões e chaminés decapitadas a voar de edifícios e a embater no chão, nas casas ou nos carros; vidros estilhaçados; caixotes do lixo e do vidrão a serem arrastados pela estrada; placas de sinalização e árvores a tombar; a parede de um pavilhão a ruir; e pedras a cair do topo da igreja.
Sentiram a dor quando ouviram os gritos de desespero da família de Ricardo, a chamar por socorro — sem poderem sair de casa para não correrem o risco de serem arrastados pelo vento. Uma vizinha da frente e a filha ainda tentaram, mas nem conseguiram sair, tal era a força das rajadas a sugar a porta de casa.
Outro vizinho lamenta que pai e filho não tenham resistido à tentação de proteger a casa: “Era um grande portão, vieram para tentar conter e desabou para cima deles. A gente diz que não faz, mas na hora da verdade a gente faz”.
João Lavos, comandante dos bombeiros de Vieira de Leiria, que se deslocaram ao local, já viu muitas tragédias assim: “É o instinto do ser humano. Estamos a ver que no espaço de uma hora ou duas perdemos tudo aquilo que construímos ao longo de uma vida. É normal que as pessoas tentem proteger aquilo que é seu”. Para tentar conservar a casa, Ricardo perdeu a vida e deixou duas crianças sem pai.
Rui Serpa, diretor de produção de uma empresa que também foi arrasada pela tempestade, vizinho e amigo da vítima, ainda encontrou as ambulâncias na casa e tentou abraçar Fernando, o pai de Ricardo — que continuava de cara ensaguentada e se mostrou cheio de dores no corpo. “Não me apertes, não me apertes”, pediu-lhe.
“Os telhados voaram todos. Aquele em vez de voar desabou”, lamenta Rui Serpa, que passou a tempestade a sentir as telhas desaparecerem-lhe do telhado, enquanto tentava confortar a família. “Um estardalhaço do caraças. Ainda abri a porta da rua para espreitar, mas aquilo… esquece. É sentires-te impotente e esperar que passe. É impossível não ter medo. Tenho dois garotos pequenos, que estavam bastante assustados”.
[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Sair a meio da tempestade para ser atingido por uma telha voadora: “Uma inconsciência”
Outro vizinho, Carlos Ferreira, presidente dos bombeiros da Ortigosa, também percebeu pelo ruído que a sua casa estava a ficar afetada. “Olha, as telhas já estão a ir…”, disse à mulher, Olga, professora de português reformada.
Saiu de casa em plena tempestade ainda antes das 5 da manhã para tentar avaliar os estragos de lanterna em punho e reconhece que foi “uma inconsciência”. Uma telha voadora de 4 metros que seguia na sua direção e tentou desviá-la, acabando por a fazer embater de raspão na sua cabeça, provocando ferimentos ligeiros.
Todos os moradores de Carvide falam do ruído da tempestade, mas Carlos Ferreira guardou uma imagem na memória: “Não vi grande coisa, porque era de noite, mas apercebi-me dos vultos das árvores. Parece que alguém agarrava e brincava com as árvores como uma criança brinca com plasticina”.
▲ Muitas estradas continuavam a ser desobstruídas ao início da noite em Leiria
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O vento era tão intenso, que teve de se agarrar à parede de casa. Quando foi atingido pela telha, desistiu: “Vou para dentro de casa, olha, que se lixe. Quando clarear vejo o que aconteceu”.
O ruído do vento manteve-se indomável. Vera, a mulher de Carlos, tenta imitar o som: “Ouvíamos pum, pum, pum. Depois o meu marido disse assim: ‘Olha, caiu-nos a chaminé’. De facto, quando clareou, nós fomos ver e parece que alguém foi com uma serra cortar uma das chaminés da cozinha e ela caiu”.
O dia mais triste da história dos bombeiros de Vieira de Leiria
Os bombeiros de Vieira de Leiria viveram o dia mais frenético, triste e angustiante da sua longa história de 79 anos. Prepararam-se para a tempestade, com 14 operacionais de plantão durante a noite, mais 16 escalados para serem chamados se fosse preciso — com a falta de redes de comunicações, tiveram de ir chamá-los a casa um a um.
As primeiras marcas da tempestade foram sentidas no próprio edifício do quartel. Sete dos oito portões soltaram-se e danificaram cinco viaturas, duas das quais ficaram inutilizáveis. Houve quebra de vidros no edifício, voou parte do telhado e caiu a antena — que seria essencial para manter as comunicações de emergência, mas acabou afinal por agravar as condições de funcionamento da rede Siresp.
Enquanto tentavam lidar com os estragos no próprio quartel, começaram a receber as primeiras chamadas a alertar para queda de árvores nas estradas. Quando a rede telefónica caiu, as pessoas passaram a dirigir-se pessoalmente ao quartel, para pedir ajuda ou sinalizar mais estragos.
Tiveram de atuar em mais de 50 ocorrências, a maioria para desobstruir estradas, mas algumas também de emergência hospitalar: pelo menos quatro pessoas deram quedas e fraturaram membros, quando tentavam arranjar os telhados ou consertar outros estragos em suas casas. (Vários residentes afetados relataram ao Observador a dificuldade em comprar telhas na região, ora porque há filas de mais de 50 pessoas nos poucos estabelecimentos abertos, ora por não encontrarem telhas compatíveis com as suas habitações.)
Além da morte de Ricardo Teodósio, os bombeiros de Vieira de Leiria tiveram de lidar com outra fatalidade. Uma senhora foi ao quartel avisar que teria morrido uma mulher em Moinhos de Carvide. Depois de desobstruírem várias estradas, conseguirem chegar ao local e encontraram um terreno onde funcionava uma espécie de parque de campismo improvisado, com três auto-caravanas e cinco casas móveis, pré-fabricadas. A força do ventou levou a que uma dessas casas se virasse e esmagasse a sua residente, Helda, uma cidadã moçambicana de 28 anos.
De acordo com a descrição do segundo comandante dos Bombeiros, Tiago Constantino, Helda estaria fora da casa no momento: “Ela não estava presa a nenhum escombro. Levantámos a casa e tirámos a senhora. Verificou-se que estava em paragem cardiorrespiratória e iniciaram-se manobras de reanimação”. Mas o óbito acabou por ser declarado no local.
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Uma capital de distrito às escuras e um hospital a gerir uma catástrofe
Um dos postais mais mágicos da cidade de Leiria mostra um largo com uma fonte luminosa e o castelo iluminado no topo de uma encosta. Na noite desta quarta-feira, a vista do mesmo largo era desoladora, escura e sombria. A fonte estava desligada, claro, mal se via o contorno do castelo no céu negro, e apenas as luzes de emergência do edifício da Caixa Geral de Depósitos permitiam ver na penumbra duas carrinhas do Corpo de Intervenção da PSP, com dezenas de agentes preparados para o pior.
Em Leiria, capital de distrito 130 km a norte de Lisboa, não há água, não há rede elétrica, não há telefones, não há internet, não há semáforos, não há televisão, não há redes sociais, não há luz, não há multibancos a funcionar, não há restaurantes, nem lojas, nem cafés abertos. Ao fim da tarde ainda abriram alguns supermercados, com longas filas de moradores a abastecerem-se de água, pilhas e comida para os próximos dias. Mas esta noite o vazio escuro e frio da cidade deserta apenas era entrecortado pelas luzes de pouquíssimos carros a serpentear as ruas da baixa da cidade, a fintar troncos de árvores de grande porte e a contornar caixotes de lixo arrastados e abandonados, por entre lojas de vidros partidos e cruzamentos com placas tombadas.
▲ Os supermercados também sofreram estragos. Mas alguns reabriram portas ao fim da tarde
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
As centenas de edifícios no centro da cidade parecem fantasmas negros. Há duas agências bancárias com luz, o edifício dos CTT, a PSP, um lar da Santa Casa da Misericórdia de Leiria, o quartel dos bombeiros sapadores que tem acolhido as conferências de imprensa com pontos de situação e o hospital de Leiria, que tem recebido todas as urgências da região.
Uma funcionária do hospital tentava serenar os ânimos dos familiares que aguardavam ainda mais tempo do que o habitual: “Tem de compreender, hoje foi dia de uma catástrofe, tem de ter paciência e esperar mais um bocadinho.” A funcionária teve, ela própria, bastante paciência e generosidade: a tempestade atingiu a região de Leiria no dia em que devia festejar os seus 60 anos — já estava muito para lá da sua hora de saída, mas continuava a trabalhar.