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A primeira vez que o Grupo de Operações Especiais foi chamado a intervir foi para pôr fim ao assalto à embaixada da Turquia, em Lisboa
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▲A primeira vez que o Grupo de Operações Especiais foi chamado a intervir foi para pôr fim ao assalto à embaixada da Turquia, em Lisboa

FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

▲A primeira vez que o Grupo de Operações Especiais foi chamado a intervir foi para pôr fim ao assalto à embaixada da Turquia, em Lisboa

FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

Meia hora a lutar sozinhos. A estreia do GOE no ataque à embaixada da Turquia em Lisboa

A 27 de julho de 1983, Mário Soares decidiu acionar o Grupo de Operações Especiais pela primeira vez. A missão: neutralizar o grupo de arménios que tinham invadido a Embaixada da Turquia, no Restelo.

Chamavam-lhes “superpolícias” — e não era por acaso. Quando o primeiro recrutamento foi anunciado, foram inúmeros os candidatos a querer fazer parte do Grupo de Operações Especiais da PSP, criado formalmente pelo governo português no dia 29 de março de 1982, para dar resposta a uma necessidade cada vez mais premente: fazer face às ameaças do terrorismo e da criminalidade particularmente violenta. Mas, de entre esses candidatos, só um em cada quatro foi sequer considerado apto para passar à fase seguinte. Sendo que, depois das exigentes provas físicas no terreno, ficaram ainda menos: o primeiro grupo do GOE, selecionado entre os agentes mais bem preparados da Polícia de Segurança Pública, tinha cerca de quatro dezenas de homens, não mais.

Eram uma força de elite. Quando foram apresentados ao público, em conferência de imprensa, o comandante do Grupo de Operações Especiais resumiu numa só frase o que se esperava destes agentes em situações de alto risco: “Serão os últimos a chegar e os primeiros a sair”.

Terá sido justamente a pensar nessa eficácia cirúrgica que o então primeiro-ministro Mário Soares decidiu, ao fim da manhã de dia 27 de julho de 1983, acionar pela primeira vez a intervenção do grupo. Afinal, era para resolver situações como a que estava nesse momento em curso no Restelo que estes homens estavam a treinar há já oito meses, numa quinta isolada nos arredores de Lisboa.

▲ O Grupo de Operações Especiais só podia ser acionado com a autorização expressa do Governo e do primeiro-ministro. Foi Mário Soares quem deu a ordem para a primeira intervenção

Já passava do meio-dia quando o socialista deu início à reunião do Gabinete de Crise (um novo órgão, que tal como o Grupo de Operações Especiais, também estava em estreia naquele dia). Em São Bento, o primeiro-ministro juntou os ministros da Administração Interna, da Defesa Nacional, da Justiça e dos Negócios Estrangeiros. Na sala estavam também o Procurador-Geral da República e os comandantes-gerais da GNR, PSP e Guarda Fiscal, além dos diretores da Polícia Judiciária e do Serviço de Estrangeiros. Onze homens para resolver o segundo atentado internacional em solo português em pouco mais de três meses — Issam Sartawi, dirigente da Organização para a Libertação da Palestina, tinha sido assassinado a 10 de abril de 1983 no Hotel Montechoro em Albufeira, alegadamente por um militante do grupo radical Abu Nidal.

Do que foi discutido na reunião, só se conhecem as conclusões divulgadas no final, mas certo é que dali resultou a decisão de estrear no terreno o GOE. A informação nunca foi confirmada oficialmente, mas a imprensa da altura garantiu que, de Mário Soares, tinha vindo uma ordem explícita: “É para atirar à vista”. O objetivo era apenas um; acabar de vez com o sequestro em curso no Restelo. E o mais rapidamente possível: eram 13h36 quando os carros descaracterizados carregados com os agentes, altamente armados e de cara coberta, começaram a chegar à Avenida das Descobertas.

Uma força de elite para atuar apenas em situações-limite

Quando o GOE foi chamado para pôr fim ao sequestro na embaixada da Turquia, em Lisboa, um dos atentados terroristas internacionais recuperados em “1983: Portugal à queima-roupa”, já o comando paramilitar do Exército Revolucionário Arménio se encontrava barricado na residência do embaixador há mais de duas horas.

Desde o momento em que os terroristas chegaram à Avenida das Descobertas, praticamente tudo o que podia correr mal, correu mal. Primeiro, um jovem e incauto polícia de giro da PSP foi alvejado; depois, um dos terroristas arménios foi abatido no tiroteio que se seguiu, entre os invasores e os agentes de guarda à embaixada. A confusão obrigou o grupo de radicais arménios a improvisar: em vez de invadirem a chancelaria da embaixada, como tinham planeado, ocuparam a residência vizinha, onde fizeram reféns a mulher e o filho do encarregado de negócios turco. Além disso, um agente da PSP – o experiente Manuel Pacheco – tinha aproveitado a desorganização inicial das autoridades e o conhecimento prévio que tinha da planta da casa para entrar sozinho e tentar resolver o assunto pelas próprias mãos. Estava desaparecido desde então, mas a explosão ouvida entretanto no interior da moradia já fazia adivinhar o pior.

“Eram um grupo de polícias com uma grande formação especial para atacar a força. Terrorismos praticados em autocarros, aviões, veículos, casas, outros locais. Portanto, eram grupos treinados para, depois, quando o terrorismo se estabelecesse, emergisse e aparecesse, na prática, irem controlá-los e combatê-los”
Ângelo Correia, ex-ministro da Administração Interna

Para as autoridades, a intervenção do GOE era mesmo a última saída. Mesmo que o grupo nunca antes tivesse sido chamado a atuar. Em julho de 1983, o Grupo de Operações Especiais contava apenas oito meses de vida. Os cerca de 40 elementos escolhidos para integrar a nova força de elite da PSP estavam em treinos intensivos na Quinta das Águas Livres, em Belas, desde o final de 1982.

O social-democrata Ângelo Correia foi responsável pela pasta da Administração Interna quando o GOE  já estava em processo de formação. Coube-lhe a ele a responsabilidade de arranjar armamento sofisticado adequado para as operações em que teriam de intervir. Com estes materiais, e com a ajuda de instrutores das forças de elite do Exército Britânico, os agentes do GOE estavam há meses a preparar-se precisamente para uma situação extrema como a que se verificava na Embaixada da Turquia.

O nome que a imprensa usava para os descrever, “superpolícia”, prendia-se com a abrangência da capacidade dos seus elementos. Estavam preparados para combater em espaços pequenos, mas também para acertar em alvos a meio quilómetro de distância. E podiam operar em praticamente todo o lado, explica Ângelo Correia: “Eram um grupo de polícias com uma grande formação especial para atacar a força. Terrorismos praticados em autocarros, aviões, veículos, casas, outros locais. Portanto, eram grupos treinados para, depois, quando o terrorismo se estabelecesse, emergisse e aparecesse, na prática, irem controlá-los e combatê-los.”

“O GOE, como qualquer estrutura anti-terrorista, para além de combater alta criminalidade, violenta, grave, etc, é criado exatamente para combater o terrorismo, que era — e pode continuar a ser — equacionada como a situação mais grave à segurança de um país"
Coronel Francisco Rodrigues, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo

Dada a alta qualificação dos seus agentes, ativar o Grupo de Operações Especiais era algo que só deveria acontecer em situações-limite. Momentos em que não houvesse mais nenhuma alternativa, porque se tinha atingido um pico de gravidade. “O GOE, como qualquer estrutura anti-terrorista, para além de combater alta criminalidade, violenta, grave, etc, é criado exatamente para combater o terrorismo, que era — e pode continuar a ser — equacionada como a situação mais grave à segurança de um país”, garante o Coronel Francisco Rodrigues, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT).  “Foi criado e foi treinado, preparado, exatamente para poder resolver este tipo de situações, situações inicialmente de terrorismo e de alta criminalidade, violenta, grave.” Por isso mesmo, e apesar de responder diretamente ao comandante-geral da PSP, o Grupo de Operações Especiais só podia ser acionado com a autorização expressa do Governo e do primeiro-ministro.

“Disparar para matar”: a chegada do GOE ao Restelo

Cerca de três horas depois do início do atentado à Embaixada da Turquia, o GOE chegou finalmente ao terreno. A concentração foi feita à frente do Estádio do Restelo, onde receberam as ordens para o ataque. Foram divididos em dois grupos: um ficava responsável pela entrada na chancelaria (onde estavam vários dos funcionários da embaixada, surpreendidos pelo ataque naquela manhã de verão), o outro iria diretamente para a zona de perigo – a residência onde os terroristas estavam barricados.

Ao todo, seriam 30 agentes. Alguns ficaram de parte, destacados para fazerem de atiradores furtivos nos telhados dos edifícios à volta. Fontes ouvidas pelo Observador, que estiveram presentes na resposta ao Exército Revolucionário Arménio mas preferem permanecer anónimas, garantem que neste tipo de situações – seja a curta ou a longa distância – só há uma opção: disparar para matar. Na luta contra o terrorismo, cada combate direto é de vida ou de morte.

Depois de receberem as últimas indicações, os elementos do GOE partiram para a Avenida das Descobertas, onde encontraram já um forte dispositivo de segurança montado pelas autoridades, composto por centenas de polícias. O primeiro grupo chegou em dois jipes, com 12 homens prontos a saltar a qualquer momento. Vinham vestidos com uniformes camuflados e coletes à prova de bala e traziam as caras cobertas com gorros de lã preta, apenas com os olhos à vista.

Nesse altura, o primeiro andar da residência já estava a arder. Tinha sido ouvida uma forte explosão, por volta do meio-dia, e desde então os terroristas estavam em silêncio. Não havia informação nenhuma. Nem sobre eles, nem sobre Manuel Pacheco, o agente da PSP que tinha entrado sozinho na casa, à revelia das ordens do comando.

Fontes ouvidas pelo Observador, que estiveram presentes na resposta ao Exército Revolucionário Arménio mas preferem permanecer anónimas, garantem que neste tipo de situações – seja a curta ou a longa distância – só há uma opção: disparar para matar

Cinco minutos depois de chegarem ao local, os agente do GOE já estavam dentro da casa. Reviraram o edifício de uma ponta a outra, desde a cave até ao primeiro andar. Tiveram de avançar devagar, porta a porta – uma tarefa especialmente difícil por duas razões. Primeira: a casa era um autêntico labirinto, ao todo tinha mais de trinta divisões. E entre o fumo, pouco ou nada se via. O que leva ao segundo problema: algures escondidos numa das divisões, os terroristas estariam à espreita, prontos a lançar uma contra-ofensiva. Cada passo, cada porta aberta, era um convite ao perigo. Para evitar um ataque “às escuras”, os elementos do GOE iam avançando e lançando granadas flash-bang, explosivos sonoros desenhados para atordoar e desorientar o inimigo.

Tudo indicava para que os atacantes ainda estivessem no primeiro andar, local onde se tinham concentrado durante o atentado. Mas não havia um único sinal dos quatro terroristas arménios que tinham conseguido introduzir-se na residência.

Alguns minutos mais tarde, chegaram novos reforços do GOE, estes equipados com máscaras anti-gás. No exterior, a polícia e a multidão de curiosos que tinha acorrido à embaixada para acompanhar todos os desenvolvimentos conseguiam ouvir os disparos das metralhadoras e as granadas a rebentar.

O relógio marcava 14 horas e 9 minutos, meia hora depois da entrada do Grupo de Operações Especiais, quando o mistério se desvaneceu. Precisamente no primeiro andar, entre as chamas e o fumo que já se começava a dissipar, os agentes encontraram cinco corpos, totalmente carbonizados. Os elementos do GOE treinaram durante oito meses para se estrearem a lutar… sozinhos.

A explosão que se tinha ouvido por volta do meio-dia tinha sido fatal, tanto para o grupo que aterrorizou a embaixada turca durante várias horas, numa ação de luta violenta pelo reconhecimento do chamado Genocídio Arménio pela República da Turquia, como para o agente Manuel Pacheco.

▲ O momento em que a mulher do encarregado de negócios turco foi retirada do interior da residência do embaixador foi fotografado à distância

Ainda hoje, não é certo o que terá despoletado a explosão. O mais provável é que a intervenção do agente solitário tenha apanhado os arménios de surpresa e feito com que acionassem os explosivos de forma acidental.

Menos de 45 minutos depois de chegar ao local, o GOE deu oficialmente como terminado o assalto e abandonou a embaixada – cumprindo assim a promessa do primeiro comandante do grupo: foram, efetivamente, os últimos a chegar e os primeiros a sair.

Depois disso, ainda houve tempo para a brigada de minas e armadilhas inspecionar a casa e os dois carros em que o grupo de terroristas se tinha deslocado. Só nessa altura, e com a segurança do terreno finalmente garantida, é que foi dada autorização aos bombeiros para apagarem o incêndio. Até aí, a polícia explicava que não se responsabilizava por qualquer elemento dos bombeiros que tentasse apagar as chamas ainda com os terroristas por perto.

“Armados com pistolas para combater metralhadoras”. A avaliação à resposta do Governo

Só por volta das quatro da tarde é que o Gabinete de Crise, reunido em São Bento, finalmente desmobilizou. O Ministro da Administração Interna, Eduardo Pereira, foi encarregado de apresentar o relatório final. Ao longo da tarde tinha ficado responsável pela comunicação com os jornalistas, e chegara a fazer um acordo para a não divulgação em tempo real da chegada do Grupo de Operações Especiais ao Restelo, temendo que os terroristas estivessem a acompanhar as notícias através da rádio.

“Um grupo de terroristas arménios tentou assaltar a embaixada da Turquia em Lisboa, não o tendo conseguido, e refugiando-se na residência do Conselheiro da Embaixada, onde se encontravam sua esposa e um filho”, resumiu Eduardo Pereira, revelando que “um elemento da PSP foi ferido e um terrorista foi morto durante o assalto frustrado à embaixada”. Foi também o ministro que anunciou que a mulher do encarregado de negócios não tinha resistido aos ferimentos. Concluiu explicando que “o grupo fez explodir uma bomba na residência, presumindo-se que dessa deflagração tenha resultado a morte dos restantes elementos assaltantes”.

▲ O ataque à embaixada da Turquia em Lisboa foi notícia em todo o mundo

Em frente às câmaras e aos microfones, o MAI aproveitou ainda para elogiar a eficiência da resposta das autoridades portuguesas. Para o Governo não havia dúvidas: a operação tinha sido um sucesso. Mais: no dia anterior ao atentado tinha sido avistado um carro considerado suspeito nas proximidades da embaixada, e as medidas necessárias tinham sido tomadas de imediato, chegou a garantir Eduardo Pereira.

Mas nem todos os que acompanharam o caso fizeram a mesma avaliação da resposta aos terroristas. A imprensa da altura questionou o facto de não terem sido enviados mais reforços para proteger a embaixada, se de facto até tinha sido detetada uma ameaça horas antes do ataque. Já o encarregado de negócios, que perdeu a mulher no atentado, queixou-se de que a polícia tinha chegado demasiado tarde e mal preparada ao local. “Vieram armados com pistolas para combater metralhadoras”, acusou o diplomata turco.

“Notou-se uma coisa óbvia: a impreparação. A virgindade era tão manifesta que levou mais algum tempo a readaptar-se, a regenerar, a requalificar, a reanalisar os métodos e as táticas. No meio disso tudo, portanto, a operação foi o início de um processo longo que capacitou Portugal nessa área”
Ângelo Correia, ex-ministro da Administração Interna

Hoje, mais de 40 anos depois, o antigo Ministro da Administração Interna Ângelo Correia considera que o GOE era ainda demasiado inexperiente para lidar com aquela “situação-limite”. “Notou-se uma coisa óbvia: a impreparação. A virgindade era tão manifesta que levou mais algum tempo a readaptar-se, a regenerar, a requalificar, a reanalisar os métodos e as táticas. No meio disso tudo, portanto, a operação foi o início de um processo longo que capacitou Portugal nessa área.”

Só 25 anos mais tarde é que o Grupo de Operações Especiais viria a ter finalmente uma oportunidade tão mediática como a do ataque à embaixada da Turquia para entrar em ação. No dia 7 de agosto de 2008, o grupo foi chamado a intervir para pôr fim ao assalto em curso na dependência do BES de Campolide, em pleno centro de Lisboa. No interior do banco, estavam dois homens, armados com pistolas, e seis reféns, funcionários e clientes que estavam no local. Durante oito horas, várias equipas de negociação da PSP tentaram mas não conseguiram demover os assaltantes, que permaneceram barricados no local. Até que, finalmente, foi chamado o GOE: uma equipa de atiradores especiais alvejou os sequestradores, um teve morte imediata, o outro ficou ferido, mas sobreviveu. Mais uma vez, os agentes da força de elite foram os últimos a chegar e os primeiros a sair.

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