É de crer que as pilhas de livros por ler de 2024 continuem com altitudes consideráveis, mas podem sempre crescer um pouco mais. É que chegou um novo ano e, com ele, uma catadupa de lançamentos a ter em conta, da ficção à poesia, do ensaio à banda-desenhada. Estabelecendo o critério de apenas um título por chancela editorial, mergulhámos nos catálogos do que ainda está por ler e mapeámos um guia por ordem de publicação e pautado pela diversidade, do mais comercial ao mais independente, do romance ligeiro à biografia dilacerante.

As Prescrições do Dr. Marigold — Ficção Curta Completa 1857-1868
Charles Dickens
(E-Primatur, 20 de janeiro)

Sendo um dos grandes vultos da história do romance, Charles Dickens era igualmente versado na arte da ficção curta. O facto desta segunda faceta não ser normalmente reconhecida — exceção feita à lendária novela Um Conto de Natal — deve-se à produção anárquica com que foi espalhando contos e outras pequenas narrativas em diversos periódicos e almanaques ao longo da vida. Como tal, não é comum encontrar coleções destas suas histórias em Portugal. A E-Primatur entra em 2025 com uma resolução de ano novo particularmente desafiante, ao tentar sistematizar toda esta produção em diversas antologias, separadas por períodos históricos como tem vindo a fazer com Camilo Castelo Branco ou Machado de Assis — e tal como nesses casos, começou pelo fim.

Desordem
Helen Thompson
(Clube do Autor, 22 de janeiro)


Que o mundo segue a sua rota em espasmos de instabilidade parece uma conclusão óbvia: basta ligar a televisão. Mas perceber o porquê de termos chegado a este patamar, não. Helen Thompson, professora de Economia Política na Universidade de Cambridge, tenta neste livro compreender as causas da disrupção nestes tempos em que vivemos. Para tal, analisa os últimos anos sob os prismas da geopolítica, da economia mundial e das democracias ocidentais, tomando em especial consideração os choques energéticos e a difícil transição das combustíveis fósseis para as fontes renováveis.

Prosas I (Coimbra, 1857-1866)
Antero de Quental (ed. Ana Maria Almeida Martins)
(Tinta da China, 23 de janeiro)


No mesmo mês em que Eça de Queiroz foi eternizado com honras de Panteão, a Tinta da China inicia esforços para manter viva a memória de um dos seus mais polémicos e revolucionários contemporâneos: o seu amigo Antero de Quental. Grande promotor da Geração de 70 e das Conferências do Casino, anarquista profundamente embrenhado nas questões políticas e intelectuais do seu tempo, poeta de primeira linha, há muito por onde explorar na vida e obra do ponta-delgadense. Neste primeiro volume da sua prosa reunida por uma das maiores “anterianas” do país, porém, começa-se pelo Antero jovem estudante de Coimbra, o que desafiou as gerações anteriores de escritores como António Feliciano de Castilho, antes de partir para Lisboa. Seguir-se-ão outros dois livros, com alguns textos inéditos e outros não incluídos em antologias anteriores.

A Uma Hora Incerta
Primo Levi
(Edições do Saguão, janeiro)


Quem já leu Se Isto é um Homem de Primo Levi, saberá que o título do famoso recontar da sobrevivência aos horrores de Auschwitz partiu de um poema escrito pelo próprio. Não seria pela poesia que Levi ficaria conhecido, mas esta era-lhe vital para transmitir e interiorizar o que passou. “Sou um homem que acredita pouco na poesia e que, no entanto, a pratica. Qualquer razão para isso há”, admitiria, como recorda Rui Miguel Ribeiro no posfácio que assina nesta antologia bilingue que organizou e traduziu. Estes poemas surgem de um período logo após o seu resgate do campo de concentração, mas também dos anos 80, quando Levi encarou, enquanto judeu, com desgosto a invasão do Líbano por parte de Israel. Para dizer o indizível, sobraram os versos.

Código-Fonte
Bill Gates
(Ideias de Ler, 4 de fevereiro)


Sendo um dos homens mais ricos e influentes do mundo, há pouco da vida de Bill Gates que não tenha sido escrutinado — até ao cúmulo do conspiratório. No entanto, é o próprio que reconhece que mal se sabe do seu percurso pré-Microsoft, algo que o bilionário pretende colmatar com a primeira de três autobiografias que planeia publicar. Tratando-se de um lançamento mundial em simultâneo, Gates dedica-se aqui ao período desde a sua infância em Seattle até ao momento que desistiu dos estudos em Harvard para formar a gigante tecnológica com Paul Allen. Pelo meio ficam os relatos de uma juventude rebelde mas também marcada por grandes perdas, como a do seu melhor amigo.

Aquilo que o Sono Esconde
Mafalda Santos
(Suma de Letras, 5 de fevereiro)


Não há muita escrita de terror em Portugal e ainda menos praticada por mulheres. Mafalda Santos é uma exceção, iniciando o seu percurso com Conta-me escuridão. Neste novo romance, a escritora, guionista e atriz explora o mundo dos sonhos e dos pesadelos, a partir da premissa: “como é que aguentamos o sofrimento dos nossos pesadelos?”. Para tal existe uma personagem miserável, Jaime, um homem que nem sequer é um homem; antes um Incubus, um ser destinado a viver e experienciar os nossos piores terrores noturnos para que não tenhamos de ser nós a fazê-lo. É acompanhando-o que a história vai deambular por paisagens oníricas, onde é difícil deslindar o que é real e o que é efabulação.

Como Deuses Entre os Homens
Guido Alfani
(Edições 70, 6 de fevereiro)


O título desta obra de Guido Alfani deve-se à crença que os pensadores medievais tinham quanto à forma que os cidadãos mais abastados eram vistos entre a população. Volvidos vários séculos, essa aura divina pode ter-se dissipado, mas a excecionalidade não. Debruçando-se sobre a forma como a riqueza e aqueles que a detém foram sendo encarados ao longo dos tempos, o professor de História Económica na Universidade Bocconi tenta traçar paralelos quanto à forma como os ricos foram justificando o seu estatuto e como o seu papel comunitário intervinha em momentos de convulsão social. A questão, aponta, é que hoje isso já não é assim, e que importa saber o que isso significa num tempo onde a desigualdade económica é cada vez maior.

E Deixei de te Chamar Papá
Caroline Darian
(Guerra e Paz, 11 de fevereiro)


Um dos mais grotescos casos de violência sexual de que há memória ganhou contornos ainda piores quando no acervo de Dominique Pelicot, o homem condenado por drogar e recrutar inúmeros desconhecidos para violar em massa a esposa Gisèle, foram encontradas fotografias da filha do casal, semi-nua e inconsciente. Apesar de não conseguir prová-lo, Caroline Darian acredita ter sofrido o mesmo destino que a mãe e neste livro assina tanto uma invectiva contra o pai como uma tentativa de superar o trauma familiar. Mais do que explorar o caso, a autora quer fazer da palavra consciência para os perigos da submissão química e de quão fácil é recorrer a medicação disponível em qualquer casa para tal.

Tudo Isto é Sarah
Pauline Delabroy-Allard
(Alfaguara, 17 de fevereiro)


Se Pauline Delabroy-Allard se tornou um fenómeno em França que rapidamente chegaria às bocas do mundo literário, foi graças a este seu romance de estreia, merecedor de vários prémios e até de uma posição de finalista do Goncourt. A sua história centra-se à volta de duas mulheres, a protagonista — uma jovem professora divorciada — e Sarah, uma violinista. Aquilo que poderia vir a ser um amor longevo é interrompido pelo diagnóstico de um cancro da mama à personagem que dá o nome a este livro, exercendo esta o seu direito de morrer. Resta à sobrevivente viver na perda e até aperceber-se que não se pode deixar arrastar por um luto interminável.

Trilogia da Paixão
Ariana Harwicz
(Elsinore, 17 de fevereiro)


Se a tese de que as escritoras latinoamericanas são as que hoje mais têm vindo a desafiar convenções — literárias e de género — tem qualquer espécie de credibilidade, é graças a autoras como Ariana Harwicz, que chegou a ser cogitada para o Booker Internacional de 2018. A estreia da argentina em Portugal faz-se logo num triunvirato de curtos romances — Mata-te, amor; A atrasada mental; Precoce — reunidos num volume onde se desafiam tabus como o desejo feminino ou a maternidade. A violência — imaginada, desejada, infligida — não é um domínio exclusivo dos homens. Harwicz quer que tenhamos isso bem ciente.

Jogos da Prisão: Chain-Gang All-Stars
Nana Kwame Adjei-Brenyah
(Topseller, 17 de fevereiro)


Este romance de estreia de Nana Kwame Adjei-Brenyah tem como premissa um sistema penal onde os prisioneiros podem optar por jogos de gladiadores até à morte para tentar ganhar a liberdade. Assente nesta prática sanguinária está uma indústria milionária que o vende como desporto e um estado policial que o alimenta com novos concorrentes. O resultado é uma distopia não assim tão estranha ou improvável, dada a indústria prisional privada dos EUA e a propensão para hoje consumirmos violência como entretenimento, e que lhe valeu a nomeação ao National Book Award.

“Cada Um Por Si e Deus Contra Todos”
Werner Herzog
(Zigurate, 20 de fevereiro)


Werner Herzog nunca viu regras que não quisesse ou pudesse quebrar em nome da arte. Falamos de um realizador capaz de mandar uma equipa carregar um barco verdadeiro de 300 toneladas encosta acima para criar Fitzcarraldo, mas também de um homem sem peneiras que participou como ator numa série Star Wars. Um dos mais singulares e talentosos cineastas da história, capaz de filmes e documentários tão existencialmente brutais como hilariantes, não seria de esperar que a sua autobiografia não refletisse essa postura iconoclasta — aliás, a fotografia que serve de capa a este livro não é montagem, foi tirada durante as gravações de Grizzly Man, após o urso retratado comer o sujeito do documentário. Tanto um recontar da sua vida e dos seus feitos mirabolantes como uma tela para digressões filosóficas, este livro foi amplamente celebrado quando saiu — como praticamente tudo aquilo em que toca.

As Quatro Mortes e a Ressurreição de Fiódor Mikhailovich
Zoran Zivkovic
(Narrativa, fevereiro)


Descrito por diversas vezes como um fabulista de mérito na esteira de Borges, Zoran Zivkovic é um nome que se foi esquecendo à medida que os seus trabalhos deixaram de chegar a Portugal. A Narrativa tem procurado colmatar essa falha e, após O Espaço Branco de 2023, edita o mais recente romance do escritor sérvio, que tem como protagonista uma das maiores referências do autor (e da literatura em geral): Dostoiévski. São várias as personagens do russo aqui presentes, transfiguradas em cenários estapafúrdios ou irreais, num jogo literário como é seu hábito.

O Tempo dos Pais
Sarah Blaffer Hrdy
(Temas e Debates, fevereiro)


Uma das ideias mais comuns no que toca à parentalidade é que as mulheres cuidam dos filhos e os homens das famílias, que a pulsão de criar os bebés é um traço maioritariamente feminino. Uma das maiores antropólogas evolucionistas da atualidade diz-nos que não é bem assim. Neste trabalho, Sarah Blaffer Hrdy demonstra que, com as rápidas mudanças causadas pela emancipação das mulheres e a subsequente partilha dos deveres domésticos com os homens, estes têm vindo a demonstrar-se muito mais aptos a cuidar de crianças do que se imaginava. Como tal, ideias fixas sobre os papéis de género podem ser mais construções sociais do que outra coisa qualquer, com todas as implicações que isso traz e que devem ser analisadas.

Vestuário Contra as Mulheres
Anne Boyer
(Cutelo, fevereiro)

Penguin Random House

Seja pelo relato dilacerante do cancro que sofreu em As que não Morrem, seja pela forma como se demitiu da The New York Times Magazine, Anne Boyer é uma das escritoras mais corajosas da atualidade. Este livro já o prenunciava. Nele, a poesia e ensaísta descreve uma relação de proximidade e repulsa pela escrita — como ato de criação fundador mas também como atividade meramente transacional quando o que interessa é pôr comida na mesa para a filha, ter a roupa em condições, comprar medicamentos. Abordando as condições materiais do que é ser um escritor sem dinheiro, encara também como a literatura salva e falha, propõe soluções mas também dá respostas erradas (imagem: capa da edição britânica).

Sociopata — As minhas memórias, a minha história
Patric Gagne
(Presença, fevereiro)


Quando era nova, Patric Gagne habituou-se a ver pessoas como ela representadas — na ficção e não só — como monstros desprovidos de consciência, capazes das maiores atrocidades. Sendo uma sociopata, ela própria não esconde que também teria facilidade para tal, já que culpa ou empatia são conceitos que lhe são difíceis de interiorizar. No entanto, hoje é uma mãe integrada em sociedade e autora deste bestseller, onde descreve como fez o seu caminho para evitar os seus piores impulsos e abraçar o outro. Ao mesmo tempo, adverte que a sua condição é subalternizada na comunidade médica e que um outro olhar requer-se para a sociopatia.

Em Nome Do Bárbaro
Louisa Yousfi
(Orfeu Negro, 5 de março)

La Fabrique

Numa época onde cada vez mais se discute a imigração e a integração de estrangeiros, eis uma obra que problematiza tudo e oferece uma solução em tudo contrária aquela que tem sido a tendência de pensamento. Filha de argelinos, Louisa Yousfi opta pela defesa de “uma certa barbaridade” por oposição à assimilação e perda de identidade resultante de querer fazer parte de uma sociedade a colher as consequências do seu passado colonial. Onde fica o equilíbrio? Essa é a questão, sendo que a escritora faz deste um manifesto estético e político, servindo-se de exemplos como o hip-hop ou personagens de escritores como Chester Himes e Toni Morrison. Esta edição conta com um posfácio António Brito Guterres, conhecido investigador e ativista ligado às comunidades periféricas e ao combate antirracista (na imagem: capa da edição original).

Estive Aqui e Lembrei-me de Nós — Uma História Sobre Turismo, Trabalho e Classe
Anna Pacheco
Objectiva, 17 de março


Com as sociedades ocidentais cada vez mais dependentes do turismo na mesma proporção em que estão esgotadas pelas suas consequências, urge repensar nossa relação com esta prática económica. Este ensaio misto de investigação jornalística, cunhado pela jornalista espanhola Anna Pacheco, propõe um ponto de partida a partir das suas experiências infiltrada num hotel de cinco estrelas, expondo uma indústria que serve os mais abastados enquanto depende dos mais precários para sobreviver. Esta é uma de quatro obras que inaugura uma nova coleção da Objectiva, intitulada Objectivamente.

A Neve Estava Suja
Georges Simenon
(Cavalo de Ferro, de 31 de março)

Penguin Random House

Figura de vulto na literatura europeia, Georges Simenon é principalmente conhecido por cá pelos policiais do comissário Jules Maigret. Não obstante a sua afamada qualidade, o belga escreveu muito mais coisas — a lista é impressionante —, a começar pelos seus romances literários, que batizou como “romances duros”, sendo que poucos foram traduzidos para português. Esse é um dos grandes projetos deste ano, iniciado pela Cavalo de Ferro, trazendo para já As Janelas Defronte e este, descrito como o seu “romance existencialista”. O seu protagonista é um jovem adulto criado num ambiente dissoluto durante a ocupação nazi, filho de uma madame de bordel, e que decide matar um homem porque sim. Segue-se então uma espiral rumo ao abismo (imagem: capa da edição britânica).

Inventário de Sonhos
Chimamanda Ngozi Adichie
(Dom Quixote, 4 de março)

Num dos grandes regressos da temporada literária, Portugal será contemplado entre os países que terão o lançamento em simultâneo do novo romance de Chimamanda Ngozi Adichie, 12 anos após Americanah. No cerne da narrativa está Chiamaka, uma escritora de viagens nigeriana a viver na América, confrontada durante a pandemia quanto às escolhas que fez ao longo da vida. Ela e três outras mulheres com os seus dilemas e conquistas são os veículos para a multi premiada escritora refletir sobre o amor e como nos relacionamos num mundo interconectado.

Uzumaki
Junji Ito
(Editora Devir, março)


Um dos mais icónicos desenhadores japoneses têm finalmente traduzida aquela que é possivelmente a mais impactante das suas obras. Matriz para pesadelos sem fim, esta banda desenhada mangá ultrapassa barreiras culturais para apresentar uma história horrorosa a partir do aparecimento de espirais numa aldeia ficcional, algo que não parece assim tão pavoroso até começar a surgir em humanos, distorcendo-lhes as formas. O pior, é que este não é sequer um mecanismo gratuito, antes inexplicável, fruto de uma maldição sobrenatural que ninguém consegue explicar e que leva os seus habitantes ao limiar da loucura.

James
Percival Everett
(Livros do Brasil, março)

Adobe InDesign 20.0 (Macintosh)

Um dos grandes romancistas americanos vivos, Percival Everett estabelece neste livro nomeado ao Booker de 2024 uma ponte com um dos seus antecessores, Mark Twain, ao reimaginar As Aventuras de Huckleberry Finn sob outra perspetiva. Mudando o ângulo, esta obra foca-se em Jim, o amigo ex-escravo de Huck que foge quando descobre que vai ser vendido a um homem de Nova Orleães, ficando para sempre separado da mulher e da filha. Jim livra-se de uma vida de servidão, mas não de um percurso onde terá de lidar com o racismo, a injustiça e a violência dos EUA à medida que tenta trilhar o seu próprio caminho.

Histórias Que Nos Matam
Maria Isaac
(Porto Editora, março)

(livro sem capa ainda disponível)

Reinterpretando o mito de Orfeu, Maria Isaac assina a sua estreia na Porto Editora com um romance baseado nas tragédias gregas de antanho. A jovem escritora — finalista do Prémio Literário Eça de Queiroz e membro de uma geração que tem vindo a dar cartas — tem em Miguel Godói o arquétipo sofredor, o homem que era suposto ter um final feliz após todos os desafios que ultrapassou, mas as coisas nem sempre acabam bem. A história leva o seu protagonista a entrar nos terrenos da fábula ao encontrar um livro misterioso numa casa na Madragoa que pode desbloquear novos caminhos para si, a começar pelo amor.

O Tempo do Cão
Ondjaki
(Caminho, março)


“Num país do centro de África dá-se o inesperado encontro de um conhecido guerrilheiro e um cão. E o amor e a amizade nascem entre eles”. É com apenas estas duas frases que o prémio Saramago angolano anuncia o seu regresso aos livros desde a coleção de contos Vou Mudar a Cozinha de 2022 — e aos romances depois de O Livro do Deslembramento, em 2020. Tal como o contexto de conflito surge adocicado com uma história de ternura, Ondjaki vê esta obra adornada pelos préstimos do ilustrador António Jorge Gonçalves, regressando os dois às colaborações após Uma Escuridão Bonita, de 2014.

Tese Sobre uma Domesticação
Camila Sosa Villada
(Quetzal, março)

Editorial La Página

Atriz, cantora e escritora, Camila Sosa Villada foi beber à sua experiência de vida enquanto estudante universitária transgénero forçada a prostituir-se para sobreviver em Córdoba, na Argentina, para escrever As Malditas, uma autêntica pedrada no charco cujas ondas de impacto chegaram a Portugal. Com este romance, faz-nos acompanhar uma aparente família feliz, composta por uma atriz transgénero, um advogado homossexual e uma criança adotada seropositiva, continuando a explorar os temas da moralidade burguesa assente na ofuscação e nos segredos e da hipocrisia a que são sujeitas as pessoas “fora” desse padrão (imagem: capa original).

O Problema Final
Arturo Pérez-Reverte
(Edições ASA, março)


Um dos derradeiros cultores do romance “clássico”, Arturo Pérez-Reverte assina aqui uma carta de amor às aventuras de Sherlock Holmes, com um policial à antiga que foi buscar o nome a uma das histórias de Arthur Conan Doyle. A premissa é esta: nove pessoas hospedadas num pequeno hotel numa ilha grega nos anos 60 são todos suspeitos de um homicídio de uma turista britânica. Noutra piscadela de olho, o escritor espanhol coloca como protagonista “Hopalong Basil”, ator que vê-se aqui forçado a recorrer à sua experiência de intérprete para fingir que sabe solucionar casos, numa óbvia referência a Basil Rathbone, o ator que interpretou o detetive em inúmeros filmes.

Uma História dos Bombardeamentos
Sven Lindqvist
(Antígona, 7 de abril)

Em Exterminem Todas as Bestas, Sven Lindqvist defendeu que os horrores perpetrados pelos nazis foram a consequência lógica de um imperativo iniciado durante o colonialismo de terminar ou limitar aquilo que eram entendidas como raças inferiores. Com este livro, o que lhe sucedeu, o autor sueco debruçou-se sobre um dos principais instrumentos de matança engendrados para essa causa, os bombardeamentos estratégicos. Com uma estrutura fragmentada em diversos parágrafos numerados, cabe ao leitor escolher o seu percurso, tratando-se de “um labirinto com vinte e duas entradas e nenhuma saída” que pretendia refletir o caos que esta prática provoca sob as suas vítimas. Como a atualidade bem nos demonstra, essa continua a ser a realidade em diversas geografias.

Lamento por uma Pedra
W.S. Merwin
(Assírio & Alvim, abril)


Por duas vezes vencedor do Pulitzer, ganhando o National Book Award por uma ocasião também e tornando-se Poeta Laureado dos Estados Unidos em 2010, pode parecer surpreendente que a poesia de W.S. Merwin nunca tenha sido editada em Portugal. Essa lacuna vai ser colmatada pela Assírio & Alvim, que empenhou Jorge Sousa Braga na tradução e seleção de poemas para esta antologia, onde saltam à vista a profunda consciência ecológica do autor assim como um estilo altamente influenciado pela cultura oriental e o budismo.

A Cidade e as Muralhas Incertas
Haruki Murakami
(Casa das Letras, abril)

Random House

Este livro de Murakami é novo e não é. Trata-se da exploração do mesmo universo narrativo de um conto de 1980 e do romance O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo, mas em maior detalhe. Alimentado pelo trauma pandémico que ainda paira no nosso subconsciente, o japonês regressa à cidade onírica e muralhada de outrora, com um protagonista que um dia é confrontado com o desaparecimento da sua namorada e tem de saltar do real para o imaginário à sua procura. Lá, tem de decidir se regressa à realidade, se deixa-se enredar pela fantasia (imagem: capa da edição britânica).

Liberalismo como Modo de Vida
Alexandre Lefebvre
(Gradiva, abril)

Princeton University Press

Até mesmo as pessoas posicionadas nos extremos políticos vivem e praticam o liberalismo diariamente sem que se apercebam disso. É o que defende Alexandre Lefebvre neste ensaio, comparando-o à água que nos rodeia quando entramos numa piscina: é inevitável. Mais do que uma ideologia política, o professor de política e filosofia na Universidade de Sydney considera o liberalismo a forma de estar por definição das democracias ocidentais — e que abraçá-lo leva a uma vida mais feliz e gratificante, praticando o humor, a tolerância e a liberdade (imagem: capa original).

A Chefe dos Maus
Ricardo Adolfo
(Companhia das Letras, 12 de maio)

Ricardo Adolfo não tem estado parado; afinal de contas, mudou-se para Tóquio para trabalhar no setor publicitário e por aí se mantém. Mas há muito que não publicava um romance, sendo por isso de sinalizar o fim do hiato com esta história, a sua primeira a ser ambientada em territórios nipónicos. Fazendo uso do seu reconhecido sentido de humor mordaz, o autor engendra uma narrativa onde, perante o ar dos tempos, uma sucursal da Yakuza — a máfia japonesa — vê-se forçada a aumentar diversidade nos quadros de chefia. Como tal, promove uma mulher, que tem de se adaptar a um meio tradicionalmente masculino e altamente violento contra todas as expectativas — incluindo as da própria.

Para Lá do Muro
Katja Hoyer
(Vogais, 26 de maio)

Allen Lane

Quando a Cortina de Ferro caiu, a Alemanha de Leste desapareceu, mas o seu impacto histórico não. Neste livro nomeado ao Prémio Baillie Gifford — que premeia não-ficção em inglês — a reconhecida historiadora Katja Hoyer tenta escapar a leituras simplistas, retratando tanto a máquina de opressão estatal com que operava o regime comunista como os relativos sucessos de uma experiência que chegou a produzir prosperidade e a ser bem mais interessante do que as caricaturas do tempo da Guerra Fria produziram (capa da edição britânica)

O Meu Amigo Kim Jong-Un
Keum Suk Gendry-Kim
(Iguana, 26 de maio)

Futuropolis

O pronome possessivo não é para levar à letra, Keum Suk Gendry-Kim não conhece nem é amiga do ditador da Coreia do Norte. Aliás, vivendo numa ilha ao largo do estado pária, a artista sul-coreana na verdade tem vista privilegiada para o tipo de demonstrações militares que mostram que a guerra entre as Coreias nunca acabou. No entanto, para este álbum, Gendry-Kim entrevistou pessoas que de facto conheceram Kim Jong-un, como o seu antigo cozinheiro ou o amigo ocidental com quem Kim Jong-un jogou basquetebol enquanto estudava na Suíça. O resultado, e o que justifica o título, é um retrato mais humanizado da figura, prova de que os déspotas não nascem assim, formam-se.

A Espada Brilhante
Lev Grossman
(Relógio d’Água, maio)

Del Rey

O Rei Artur morreu e a ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda já só existe de nome, mantida viva por alguns dos seus membros menos reconhecidos. É com este cenário que somos presenteados neste romance de fantasia de Lev Grossman, um dos mais afamados autores do género na atualidade. Perante uma Camelot em decadência, sem Merlin para guiá-lo, o protagonista Collum tem de navegar entre a intriga política e a guerra civil para liderar um grupo de desgraçados, reclamar Excalibur e perceber como é que Artur caiu (imagem: capa da edição original).

Don Quixote
Paul e Gaëtan Brizzi
(A Seita, maio)

Editions Daniel Maghen

Com trabalho como desenhadores em filmes da Disney como O Corcunda de Notre Dame, Tarzan ou Fantasia 2000, os irmãos Paul e Gaëtan Brizzi já podiam reformar-se como lendas da sua área, mas não. Ao invés de embarcar numa reforma dourada, o duo francês optou por virar-se para a banda-desenhada e a novela gráfica como meios de explorar a sua criatividade. Depois de adaptar obras de Boris Vian, Edgar Allen Poe, Honoré de Balzac e, mais recentemente, a Divina Comédia de Dante, optaram por outra obra fundadora ao reimaginar as aventuras de Dom Quixote e Sancho Pança. Esta edição portuguesa será lançada no festival Maia BD, com direito a uma capa exclusiva (imagem: capa da edição original).