A irritação era evidente. Não que o ataque fosse inesperado — há semanas que adversários como Cotrim Figueiredo e especialmente Gouveia e Melo vinham lançando para o ar suspeitas sobre a sua vida profissional, classificando-o como “lobista” ou duvidando dos “interesses” que defendia na televisão. Mas na terça-feira, sentado nos estúdios da RTP enquanto ouvia o almirante descrevê-lo como um “facilitador de negócios”, Luís Marques Mendes enervou-se e não resistiu: “O senhor especializou-se na ordinarice“, disparou. A reação foi mais quente do que é costume — sobretudo para alguém com a experiência política de Mendes. “Quem não se sente não é filho de boa gente”, justificou-se o próprio.
Ora Mendes “sente” cada vez mais esses ataques na pele, mas a estratégia que tem seguido até agora é para manter, mesmo num momento em que as tracking polls da TVI/CNN colocam o social democrata em queda. Isto é: Mendes tem tentado arrumar as questões dos alegados casos, normalmente pouco especificados pelos adversários (Gouveia e Melo enumerou uma série de empresas com que trabalhou como advogado/consultor, perguntando depois pelos “painéis da Madeira”), explicando que nunca foi alvo de nenhuma investigação sobre nenhum desses assuntos e lamentando que a campanha se faça de insinuações.
▲ Fotografia de arquivo do debate das rádios que se realizou no dia 2 de janeiro de 2026
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
A estratégia tem riscos. Se é verdade que desta forma as suspeições lançadas pelo almirante ficam no ar, sem respostas específicas, na campanha de Mendes acredita-se que esta é a atitude correta. “Mas responder a quê? Como pode responder a coisas que não existem?”, atira um destacado dirigente social democrata e apoiante do antigo presidente do partido, questionando se a solução seria acabar com o sigilo profissional (no caso dos trabalhos de consultoria que Mendes fez na Abreu Advogados, uma vez que revelou os clientes da sua empresa familiar) ou “passar horas a dar explicações“.
Na campanha do social-democrata também se sublinham os perigos de entrar no jogo do almirante, um dos principais adversários de Mendes. Seria, assume-se, um erro desdobrar-se em justificações, sob pena de tornar esse o foco da sua própria campanha. “Se andar sempre a responder ao mesmo assunto não fala do resto. E depois os jornalistas dizem que só fala de casos”, aponta uma fonte ao Observador.
Pelo caminho, Mendes, mesmo que por interposta pessoa, tenta introduzir alguma vitimização. Esta quarta-feira, num discurso em Évora, Hugo Soares confessava a sua “desilusão total” com Gouveia e Melo — e arrancava com estas palavras um dos maiores aplausos da noite: “É degradante ver a forma como alguns têm feito a campanha, não afirmando uma ideia mas lançando lama para toda a gente”.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Aliás, na campanha vão-se acumulando queixas sobre uma suposta duplicidade de critérios editoriais. Mendes teve uma notícia concreta sobre uma queixa anónima que a Procuradoria-Geral da República decidiu rapidamente não justificar a abertura de um inquérito; o almirante viu 57 ajustes diretos que aprovou na Marinha investigados pelo Ministério Público, que comunicou rapidamente que o militar também não era arguido no caso. Resultado prático: Mendes é vergastado com perguntas diárias; Gouveia e Melo não.
“Ninguém anda a questionar o almirante [sobre o caso] todos os dias”, aponta-se entre apoiantes de Marques Mendes. Isso acontece, em boa parte, porque Gouveia e Melo insiste em mencionar as suspeitas que diz ter sobre o adversário. “E Marques Mendes podia fazer isso, mas não faz.” Ganhando mais ou menos com a estratégia, ela está escolhida e, até ver, é para continuar: Mendes continua a tentar arrumar o assunto, enquanto vê Gouveia e Melo insistir no desgaste.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Mendes procura guarda-chuva do Governo
Lançados os mais recentes ataques no debate a onze vozes — Gouveia e Melo rematou o despique defendendo que “ordinário é favorecer negócios no Estado” — o almirante veio na manhã desta quarta-feira anunciar que encerraria o assunto, mas deixando uma provocação: o assunto passa agora a ser “um problema entre os portugueses e o candidato”.
Ainda assim, não largou o osso: “Quem faz insinuações é quem continua a não querer dar declarações sobre a transparência que é necessária”, atirou almirante, um minuto antes de defender que um chefe de Estado não deve estar a “soldo de interesses que não sejam os interesses dos portugueses ou de lógicas de partidos”.
Desta vez, Mendes tentou, ainda assim, assumidamente não ficar pela defensiva, ter uma “abordagem diferente” e dar uma resposta nova, introduzindo mais uma camada à sua campanha. “Existem dez candidatos que têm todos, por razões diferentes, uma preocupação: criar dificuldades ao Governo e criar dificuldades à estabilidade política em Portugal. Dez candidatos por razões diferentes, uns porque são candidatos partidários, outros porque têm aquela teoria de que os ovos não devem estar no mesmo cesto, e outro porque já prometeu que fará dissoluções e mais dissoluções.”
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
De um só tiro, Mendes tentava sacudir a pressão sobre si próprio e distribuir ataques contra todos os adversários, evitando voltar ao tema dos supostos casos na sua vida profissional. No entanto, e após alguma insistência dos jornalistas, acabou por frisar que “a única coisa verdadeira” é que tem sido “um facilitador, ao longo da vida, de consensos, convergências e entendimento”, garantindo que sobre o seu passado “está tudo explicado” e que o caso dos painéis solares atribuídos à sua empresa na Madeira — um processo sobre o qual o PS quis abrir um inquérito na Assembleia Legislativa da Madeira na altura, sem sucesso — só existem “insinuações“. “Para mim está encerrado.”
A outra fórmula que repetiu, e que tem usado sempre que é interpelado sobre o assunto, está afinada e não muda: Mendes frisa que nunca teve nenhum problema com a Ordem dos Advogados, com a Autoridade Tributária, o Ministério Público, o Tribunal Constitucional, ou a Entidade da Transparência. Ou seja, as insinuações não passam disso mesmo, inseridas numa campanha que visa arrastar o seu nome (e o seu currículo profissional) pela lama; se houvesse alguma coisa concreta a investigar, estas entidades já o teriam feito.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
A terceira fórmula que usa para evidenciar que não há nada de concreto nas insinuações que o almirante vai lançando é perguntar — como fez no debate a dois e depois neste debate a onze — se é possível apontar um exemplo específico de más práticas. Além de umas referências vagas a casos antigos — este, da Madeira, remonta a 2014 —, nem Gouveia e Melo, nem os demais adversários, nem a comunicação social tem conseguido construir um dossiê concreto contra Mendes.
Apesar de tudo, a pergunta persiste: o facto de Mendes se recusar a entrar em detalhes sobre as acusações de que é alvo pode estar a reforçar o clima de suspeição sobre o social-democrata. Para já, a máquina de campanha e os apoiantes não mudam de ideias: a campanha correria pior a Mendes se se embrulhasse em explicações que nunca iriam satisfazer os adversários que o colocam como alvo a abater — o mesmo guião que Luís Montenegro decidiu seguir quando as histórias sobre a Spinumviva não paravam de surgir. O passar dos dias ditará se Mendes tem razão.