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Luís Montenegro e Luís Marques Mendes na apresentação do livro do segundo
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▲Luís Montenegro e Luís Marques Mendes na apresentação do livro do segundo

LUSA

▲Luís Montenegro e Luís Marques Mendes na apresentação do livro do segundo

LUSA

Mendes e Montenegro: a próxima batalha de uma dupla com quase 30 anos

Conheceram-se no final dos anos 90. Travaram uma amizade pessoal e forjaram uma aliança política, que seria brevemente interrompida por uma traição. Agora, um e outro lutam pelo sonho de Sá Carneiro.

Marcelo Rebelo de Sousa acaba de tomar posse como novo Presidente da República. 9 de março de 2016. Para trás tinha ficado uma campanha em que nunca chegou a ter verdadeiramente um adversário à altura. A divisão do PS entre António Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém tornou tudo ainda mais fácil, um passeio na parque. Marcelo saboreia a vitória e não esquece aqueles que o apoiaram desde o primeiro minuto. No meio das comemorações, faz questão de tirar uma fotografia com Luís Marques Mendes, Luís Montenegro e Luís Campos Ferreira, com direito a dedicatória aos “Três Luíses“. Nos meses que se seguem, o grupo vai juntar-se várias vezes para jantar no Palácio de Belém, continuando uma tradição antiga nascida nos verões algarvios e nas conversas pela noite dentro.

Dez anos depois, os quatro estão em posições muito diferentes. Marcelo Rebelo de Sousa está a poucas semanas de se despedir do Palácio de Belém. Luís Álvaro Campos Ferreira, mais distante da política partidária, ligado ao universo do futebol e da cultura, mas sempre membro integrante do núcleo mais duro do PSD. Luís Montenegro no cargo de primeiro-ministro, depois de um percurso feito de erros, persistência, talento e uma dose generosa de sorte. E Luís Marques Mendes agora na iminência de disputar uma eleição presidencial com hipóteses reais de passar à segunda volta, contando com Luís Montenegro como o seu grande aliado nessa corrida.

Aliás, e quebrando uma tradição com mais de 20 anos, Luís Marques Mendes vai mesmo contar com um primeiro-ministro em funções na sua campanha presidencial, assumindo e promovendo as figuras dos partidos que o apoiam, com notáveis da AD e independentes a juntarem-se à caravana. É Mendes, com a devida bênção de Luís Montenegro, a assumir a simbologia oficial de um movimento que deu ao líder social-democrata três vitórias nacionais em quatro eleições possíveis.

Se dúvidas restassem sobre o empenho pessoal de Luís Montenegro nesta corrida presidencial, foi ver e ouvir o primeiro-ministro no primeiro dia oficial de campanha de Marques Mendes. “Antes da minha qualidade de presidente do PSD e da minha qualidade hoje de primeiro-ministro, eu sou, efetivamente, amigo de Luís Marques Mendes, um amigo que o conhece há muitos anos, a ele e à sua família”, assumiu, sem rodeios, o líder social-democrata.

Na Batalha, no primeiro de muitos comícios do candidato da AD, Luís Montenegro desdobrou-se em elogios a Mendes, “uma personalidade forte, que conjuga várias qualidades que são as mais importantes para poder representar o povo português na sua mais alta magistratura”, tentou provar que o antigo comentador foi sempre independente na sua relação com o Governo e fez um importante apelo ao voto útil de socialistas e liberais, como forma de garantir que Marques Mendes passa mesmo à segunda volta e a vence. “Não podemos facilitar de tal maneira que no dia 19, quando acordarmos, os que passaram são populistas, sejam os vindos do espaço civil e mesmo juvenil ou de um espaço mais disfarçado ou militarizado“.

Percebem-se as motivações de Luís Montenegro. Qualquer outro resultado que não seja a vitória de Luís Marques Mendes nas próximas eleições presidenciais representará um desafio para o primeiro-ministro. A vitória de André Ventura, por maioria de razões, seria um problema muito grave para o Governo. Só é possível respirar de alívio porque nenhuma sondagem aponta esse cenário como provável — apesar do favoritismo numa primeira votação, o líder do Chega perderia sempre na segunda volta. Mas existem outros cenários menos felizes para Montenegro.

Ora, olhando para a tendência consolidada em todas as sondagens, Henrique Gouveia e Melo e António José Seguro, aparentemente mais do que João Cotrim Figueiredo, têm de facto hipóteses de ficar em segundo lugar e disputar a Presidência da República numa segunda volta contra André Ventura, cenário-base em que todas as candidaturas estão a trabalhar. Luís Montenegro sabe que essa hipótese é real, sabe que Cotrim atinge particularmente o eleitorado potencial de Mendes, e sabe o que significaria ter Gouveia e Melo ou Seguro em Belém: um Presidente da República mais antagonista do que coadjuvante, uma estrada sinuosa e não uma via rápida. Tudo o que este Governo não quer, nem deseja.

E estas eleições presidenciais também são sobre isso. Apesar de pertencer à mesma família política do primeiro-ministro, e ao contrário do que aquela fotografia tirada há 10 dez anos poderia fazer antecipar, Marcelo Rebelo de Sousa despede-se de Belém assumidamente desiludido com Luís Montenegro e forçando um Conselho de Estado com o único propósito de ser ouvido e de se fazer ouvir a propósito da guerra na Ucrânia. De resto, a relação entre os dois foi tudo menos feliz: Marcelo apoucou Montenegro como líder da oposição, Montenegro ignorou sempre que pôde Marcelo como Presidente da República. Os últimos anos foram um penoso processo para ambos.

A partir de março de 2026, quando um novo Presidente tomar posse, abre-se um novo capítulo na relação entre Belém e São Bento. Mesmo descontando o clima de campanha presidencial e o facto de os dois estarem a disputar o eleitorado do PS, o que amplifica as críticas que podem fazer, mas ninguém na AD acredita que serão muito diferentes se vencerem as presidenciais, basta ver o que já disseram António José Seguro e Henrique Gouveia e Melo sobre algumas das decisões do Governo (veja-se as críticas à reforma laboral ou sobre o estado do Serviço Nacional de Saúde) para antecipar as dificuldades que Luís Montenegro terá se um deles vier a vencer,

Fundamentalmente, há um dado que podem introduzir no sistema e que Luís Montenegro dispensaria perfeitamente: imprevisibilidade. Henrique Gouveia e Melo é para todos, até para o primeiro-ministro em funções, um enigma difícil de resolver. Ainda para mais, surge nesta campanha rodeado de alguns dos principais adversários de Montenegro, como Rui Rio, por exemplo. Se eventualmente chegar à Presidência da República, ninguém no Governo sabe como seria a relação entre os dois. No papel, António José Seguro é mais previsível, mas não deixar de ter um entendimento diferente sobre o país, de ser e de pertencer a um partido — o PS — que procura recuperar o poder.

Luís Marques Mendes é o oposto disto tudo. Ninguém espera que o antigo líder social-democrata seja um mero notário no Palácio de Belém. Quererá, obviamente, deixar a sua impressão digital e influenciar a governação de Luís Montenegro — o que pode motivar algumas resistência junto de um primeiro-ministro que gosta pouco de partilhar o momento de decisão. Mas, apesar de tudo, a relação pessoal e política entre Luís Marques Mendes e Luís Montenegro tem quase 30 anos e muita história em comum. A cumplicidade não poderia ser maior.

Nesta campanha presidencial, ninguém do PSD pretende jogar com falsas aparências: os recursos, as estruturas e as principais figuras do partido vão ser colocadas ao serviço do candidato. Para já, se Marques Mendes vencer, é o mais perto que o social-democrata ficará do sonho de Francisco Sá Carneiro: um Presidente, um Governo e uma "maioria maior"

Uma amizade de duas décadas e uma traição que os separou

Os dois travaram conhecimento no final da década de 90. Aos 26 anos, Luís Montenegro, um relativamente desconhecido líder do PSD/Espinho, estrutura praticamente irrelavante para as contas nacionais do partido, andou de braço dado com Luís Marques Mendes durante grande parte da campanha para as legislativas de 1999. Como cabeça de lista, Mendes era um paraquedista no distrito de Aveiro e foi Montenegro quem o ajudou a fazer campanha.

Formou-se aí um laço entre protegido e mentor, que se estenderia para lá da política. Ao ponto de, acabado de se licenciar, Montenegro ter procurado Marques Mendes para lhe pedir duas ou três sugestões de escritórios de advocacia no Norte do país. Na ressaca dessas legislativas de 1999, o antigo ministro foi um dos poucos políticos — seguramente o mais graduado — a ser convidado para o casamento de Montenegro.

Em 2000, Montenegro não deixou cair Mendes, mesmo quando este não era mais do que uma terceira via na disputa entre José Manuel Durão Barroso e Pedro Santana Lopes, no célebre congresso do “misto entre Zandinga e Gabriel Alves“, no Inatel de Viseu. Montenegro fê-lo mesmo sabendo que Mendes não tinha hipóteses reais de vencer aquela disputa interna e mesmo sabendo que grande parte do aparelho social‐democrata de Aveiro estava do lado de Durão Barroso.

A ligação entre os dois deu frutos. Em 2002, Luís Montenegro entrou pela primeira vez no Parlamento pela mão de Luís Marques Mendes, novamente cabeça de lista escolhido por Durão Barroso para o distrito de Aveiro, tendo sido o oitavo e último da lista. Padrinho e afilhado políticos consolidaram aí a relação de grande proximidade que os une até hoje — mas não sem uma traição pelo caminho muito difícil de digerir.

O êxodo de José Manuel Durão Barroso, o período negro de Pedro Santana Lopes à frente do país e do PSD, a primeira vitória de José Sócrates e o regresso do partido à travessia da oposição, abriu a porta a Luís Marques Mendes, que tomou sem grandes dificuldades as chaves da São Caetano. Mas o agora candidato presidencial teve sempre dificuldades de afirmação e foi acumulando a sua boa dose de polémicas, como a recusa em apoiar as candidaturas autárquicas de Isaltino Morais (Oeiras), Valentim Loureiro (Gondomar) ou de Carmona Rodrigues, o que o deixou, do ponto de vista do aparelho social‐democrata, fragilizado.

É nesse contexto que surge o desafio de Luís Filipe Menezes. O atual presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia pressentiu que o adversário era batível, mas sabia que precisava do apoio do aparelho do partido em vários pontos do país, em particular nas estruturas de Aveiro, essenciais para a vitória em qualquer eleição interna no PSD. E é aí que aparece Luís Montenegro: apesar de dever a Marques Mendes grande parte do seu percurso ao mais alto nível e da relação de amizade pessoal que mantinham, o agora primeiro-ministro não hesitou em colocar-se ao lado de Menezes numa das eleições internas mais duras e fratricidas da história do PSD.

Não o faria, ainda assim, sem um último gesto. A conversa não foi nada fácil. Na sala do líder do PSD, na sede do partido, estavam apenas três pessoas: Luís Campos Ferreira, sentado no sofá, Luís Marques Mendes, sentado atrás da secretária, e Luís Montenegro, à sua frente, de pé. O homem de Espinho começou a falar e comunicou que, daquela vez, não o ia apoiar e que iria estar ao lado de Luís Filipe Menezes, a quem tinha sido apresentado, precisamente, por Luís Marques Mendes.

O presidente do partido ficou pior do que estragado. Mas Marques Mendes, que, por essa altura, já tinha percebido que ia perder aquelas eleições, teve perfeita consciência de que iria ser traído por muitos outros além daquele que se encontrava ali à sua frente. Aos seus olhos, o homem que em tempos tinha sido seu afilhado político tivera, pelo menos, a hombridade de ser frontal. Menezes ganharia essas eleições, Marques Mendes deixaria a liderança do partido com a mágoa de nunca ter tido a oportunidade de disputar eleições legislativas.

Fundamentalmente, há um dado que podem introduzir no sistema e que Luís Montenegro dispensaria alegremente: imprevisibilidade. Gouveia e Melo é para todos, até para o primeiro-ministro em funções, um enigma difícil de resolver. Ainda para mais, surge nesta campanha rodeado de alguns dos principais adversários de Montenegro, como Rui Rio, por exemplo. No papel, Seguro é mais previsível, mas não deixar de ter um entendimento diferente sobre o país, de ser e de pertencer a um partido — o PS — que procura recuperar o poder

Um primeiro-ministro em campanha presidencial

De todo em todo, o tempo haveria de curar o resto. Marques Mendes e Montenegro fariam com alguma naturalidade o caminho de reaproximação. Quando o agora primeiro-ministro hesitou em avançar para a sucessão de Pedro Passos Coelho, Mendes esteve lá. Quando Montenegro lançou as bases para desafiar a liderança de Rui Rio, Mendes foi um dos seus conselheiros. E depois, quando Mendes começou a dar sinais de que a sua candidatura presidencial ia mesmo acontecer, Montenegro nunca o deixou cair — nem mesmo quando se acumulavam sinais de que o PSD não estava exatamente mobilizado em torno da candidatura do antigo comentador.

Mas os meses foram passando e as sondagens ajudaram dissipar os piores receios em relação a Luís Marques Mendes. A verdade é que parece ser hoje a figura mais bem posicionada para garantir a segunda vaga para a próxima volta presidencial. E isso também ajudou a desbloquear as reservas que poderiam existir em Luís Montenegro: quando tudo era mais imprevisível, quando Henrique Gouveia e Melo parecia imparável, a ordem era para ter alguma prudência nas manifestações públicas de apoio a Mendes. Afinal, o primeiro-ministro tinha de jogar com a hipótese de ter de lidar em Belém com um Presidente diferente, pelo que não fazia sentido atacar abertamente a sua candidatura.

As coisas mudaram muito daí para cá, até a própria força política de Luís Montenegro — foi reeleito pelos portugueses e viu desaparecer o grande fantasma que recaía sobre si. Neste intervalo de tempo, Gouveia e Melo afundou nas sondagens e Mendes insuflou. O caminho está menos espinhoso e isso também mudou a atitude do atual primeiro-ministro. Além de já ter manifestado abertura para ser um dos protagonistas da campanha presidencial de Luís Marques Mendes, Luís Montenegro não tem poupado elogios ao seu padrinho político. Foi o que fez, por exemplo, no dia em que foi apresentado o livro Luís Marques Mendes — Uma Vida Política.

“Há um candidato que é diferente dos outros: Mendes apresenta-se muito mais preparado, mais sereno, mais conhecedor do país e das funções presidenciais. É exigente e conciliador. Tem mostrado o valor da experiência e o que ela pode dar a Portugal a partir da Presidência da República para podermos puxar pelas capacidades nacionais. E não vale a pena criar uma nuvem de fumo ou temor. O sistema está formatado para o equilíbrio de poderes e não há qualquer favoritismo do Presidente sobre nenhuma força política”, defendeu Luís Montenegro.

A ideia de que é preciso contrariar a narrativa, alimentada pelos adversários, de que é pouco prudente pôr os ‘ovos todos no mesmo cesto‘, será uma das forças motrizes da campanha de Luís Marques Mendes, que se rodeou de algumas figuras independentes e ligadas ao universo do PS e tem feito, em momentos cirúrgicos, algumas críticas ao atual Governo, distanciando-se quanto baste de Luís Montenegro.

Aliás, no primeiro dia oficial de campanha, perante o primeiro-ministro, Mendes fez juras dessa mesma independência: “Vou ser um apoiante do Governo? Não, não é essa ambição de um Presidente. Mas vou ser apoiante das boas decisões e resultados, e ajudar a que surjam é minha obrigação. Vou ser adversário deste ou de outro Governo? Não, mas adversário das falhas que tenham”

Ainda assim, nesta campanha presidencial, ninguém do PSD pretende jogar com falsas aparências: os recursos, as estruturas e as principais figuras do partido vão ser colocadas ao serviço do candidato. Para já, se Marques Mendes vencer, é o mais perto que o social-democrata ficará do sonho de Francisco Sá Carneiro: um Presidente, um Governo e uma “maioria maior”.

Montenegro pede voto de socialistas e liberais para evitar “segunda volta entre populistas”

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