O apelo ao voto útil em Luís Marques Mendes chegou em força e veio da boca do próprio primeiro-ministro. Foi logo no arranque da campanha oficial, no primeiro almoço com apoiantes, que Luís Montenegro fez questão de se juntar a Mendes e dramatizar ao máximo a importância de “não brincar” nem dispersar votos na primeira volta. Alvos definidos: eleitores do PSD e CDS, mas também socialistas e liberais que estejam a pensar votar António José Seguro e João Cotrim Figueiredo.

Se Montenegro foi claro nos alvos a que queria chegar com esta mensagem, também o foi sobre os adversários que importa atingir. Por isso, dirigindo-se aos “socialistas mais moderados, aos liberais e a todos os social democratas e democratas cristãos”, deixou um alerta claro: “Nestas eleições com tantos candidatos e dispersão de opção, não podemos correr o risco de não ter esse espaço representado na segunda volta”. Sob pena, clarificou, de que passem a essa segunda volta André Ventura e Henrique Gouveia e Melo.

“Não podemos facilitar, distribuir os votos de tal maneira que no dia 19 quando acordarmos este espaço esteja distribuído por tantos que os que passaram são outros — populistas, sejam os vindos do espaço civil e mesmo juvenil ou de um espaço mais disfarçado ou militarizado”, atacou, pedindo que ninguém facilite a passagem desses candidatos à segunda volta e que confiem no “porto seguro” que Mendes representa.

Puxando tanto pelas qualidades de Mendes como pelo pragmatismo que as sondagens pedem, prosseguiu defendendo que Mendes será “o candidato em melhores condições para enfrentar o candidato populista que temos pela frente”. “Não podemos cair na armadilha de dividirmos e dispersarmos o voto” ficando sem “escolhas boas” na segunda volta, argumentou. “Temos de concentrar desde já os votos”, sem pensar em “simpatias de momento” ou “impulsos” — até porque Mendes é um moderado e alguém que “une mais do que divide”.

O outro grande argumento que Montenegro trouxe a favor de Mendes foi a independência, de que os adversários vão duvidando enquanto pedem aos eleitores que não coloquem os ovos todos no mesmo cesto (ou seja, não concentrem todo o poder, em Belém e São Bento, no PSD). Se durante a pré-campanha já tinha ido defendendo a isenção dos Presidentes que quase sempre foram líderes partidários, como Mendes, desta vez quis lembrar que hoje em dia a situação já é precisamente essa — Marcelo Rebelo de Sousa também liderou o PSD — e que Cavaco Silva também o era, mas ambos “chegaram ao fim do mandato e ninguém se lembrou disso”.

Apontando para a sua independência, e numa altura em que o voto de socialistas e liberais já é pedido de forma completamente assumida, Montenegro quis lembrar as ocasiões em que Mendes “não se inibiu” de mostrar divergências e discordâncias com o PSD. “É o exemplo mais acabado de que a independência da ação e da decisão não se mede pela filiação partidária”.

Além disso, reforçou, Mendes já é bem conhecido dos portugueses, é “o mesmo hoje que há anos” e não precisou de ajustar nada desde que é candidato, pelo que nem por ser seu amigo próximo, há 26 anos, antecipa “muita facilidade” no relacionamento entre os dois palácios: “Não é esse o critério” que Mendes vai ter. “O seu critério único é o do interesse de Portugal”.

Mendes promete “muita independência” e não será “apoiante do Governo”

Depois de Montenegro, também Mendes quis desde logo voltar a sublinhar as garantias de “muita independência” e definir a forma como se relacionará com este e outros governos: “Vou ser um apoiante do Governo? Não, não é essa ambição de um Presidente. Mas vou ser apoiante das boas decisões e resultados, e ajudar a que surjam é minha obrigação. Vou ser adversário deste ou de outro Governo? Não, mas adversário das falhas que tenham”, estabeleceu.

Para isso será importante aquilo que transformou no seu slogan de campanha, defendeu: o “valor da experiência“, em vários níveis de governação e trabalho partidário. Ainda assim, e sabendo que é identificado como o candidato “do sistema” e que pode ser castigado pelos problemas que o país atravessa, frisou: experiência não vai equivaler a imobilismo ou paralisia.

“Quero ajudar a mudar, reformar, transformar”, para haver menos filas de espera nos hospitais e problemas nas urgências, ou menos “pesadelo com as casas que não existem”. Quero ser um “Presidente da mudança”, prometeu, falando dos seus desejos de ajudar a pôr o país a crescer e de colocar os jovens do centro da agenda.

Quanto à difícil situação internacional, a experiência também ajudará a trazer mais “segurança”, frisou, pronunciando-se de novo sobre a situação na Venezuela. “Independentemente de se gostar ou não da intervenção americana ou de não respeitar o direito internacional”, é preciso defender a comunidade portuguesa na Venezuela, defendeu; depois, é preciso garantir que o futuro dos cidadãos venezuelanos cabe a eles e não a “qualquer outro país do exterior”; e com a queda de “um dos piores ditadores do mundo” é preciso pressionar a favor da liberdade e direitos humanos, aproveitando esta oportunidade de mudança.

Assim, Mendes quis frisar que a sua Presidência, se for eleito, será “uma Presidência em que o Presidente não estará numa torre de marfim nem será uma rainha de Inglaterra”. Agora falta chegar lá, e por isso foi pedindo a quem o ouvia que ajude a “passar a mensagem”. As sondagens são renhidas e o momento de pedir o voto útil chega cedo e com força.