Sempre que se aproximam as 20h, os olhos da caravana e dos jornalistas passam a estar colados aos ecrãs dos telemóveis. O suspense aumenta. É esta a hora a que é divulgada a tracking poll diária da Pitagórica, que tem baralhado as contas das campanhas e colocado Marques Mendes num inesperado quinto lugar — atrás dos rivais da direita, incluindo o adversário mais direto nesse espaço, João Cotrim Figueiredo. Com Mendes a colar-se ao Governo, na campanha afina-se o argumentário para convencer o eleitorado da AD a não se deixar seduzir pelo liberal.
A ameaça principal, admite-se na equipa de Mendes, é mesmo o crescimento evidente, a julgar pelas sondagens, do antigo presidente da Iniciativa Liberal. Se antes da partida para a estrada se defendia que Cotrim — pelo tom e estilo de campanha assumidos — concorria mais diretamente com André Ventura, os números parecem agora contar uma história diferente.
“Pode roubar-nos votos, e as sondagens correm o risco de nos desanimar, mas também de nos unir“, já se admite na campanha. Por isso, a estratégia de resposta está a ser calculada com cuidado: a prioridade deve mesmo ser “mobilizar o eleitorado da AD”, uma vez que se acredita que, dada a simpatia de que Cotrim goza entre esses eleitores, “não é com ataques diretos” ou tão duros como os dirigidos ao almirante “que se conseguem esses votos”. A resposta passa então por demonstrar que Mendes “cria estabilidade” e é a resposta mais segura para a direita, especialmente a direita que simpatiza e votou neste Governo.
Não por acaso, na noite de quarta-feira, em Évora, Mendes — que tem sido sobretudo crítico sobretudo do rival Henrique Gouveia e Melo — lançava farpas a Cotrim Figueiredo, apelando à sensibilidade do eleitorado AD. “O candidato da IL, com a divisão que está a criar no espaço da direita e centro-direita, só ajuda a favorecer o populismo”, argumentava o social democrata. A ideia de que Cotrim concorre contra Ventura está aparentemente abandonada; agora, passa a ser prioritário reconhecer a relevância do concorrente direto e dramatizar a situação ao máximo.
Na mesma noite, Hugo Soares, secretário-geral do PSD, líder parlamentar e braço direito de Luís Montenegro, lembrava que Cotrim chegou a dizer, quando Mariana Leitão ainda era a candidata apoiada pela IL (desistiu após assumir a liderança do partido), que o cargo de Presidente não o “fascina” e que é demasiado cerimonial para o seu gosto, pelo que não seria “feliz” em Belém. É, portanto, um candidato “forçado”, apontou o líder parlamentar e homem forte do aparelho do PSD.
Mendes vai deixando alguns recados sobre o liberal e as suas políticas: enquanto defendia, no início da semana, a necessidade de reformar o Estado (com o ministro da reforma do Estado, Gonçalo Matias, ao seu lado) ou flexibilizar a economia, e enquanto elogia as baixas de impostos, vai agitando alguns papões sobre os liberais — já veio dizer, numa semana em que Cotrim insiste em ações de campanha dirigidas aos mais velhos, que “alguns liberais” acreditam que a necessidade de aumentar as pensões “é uma questão relativamente menor, uma questão de Excel ou estatística, mas em favor da dignidade humana tem de estar no centro das atenções do Presidente”.
Mas a resposta mais relevante, e mais dirigida ao eleitorado da AD, viria sobre a garantia que Cotrim tinha deixado na tarde de quarta-feira sobre poder ser ele próprio, e não Mendes, o candidato mais “fiável” até do ponto de vista do Governo. “Se o Governo está verdadeiramente interessado em fazer reformas, tem em mim um aliado muito mais fiável e muito mais persistente do que teria em qualquer outro”, dissera o liberal, lembrando que foi o único candidato que prometeu “sem tibiezas” que promulgaria o pacote laboral. “Esse candidato não foi Marques Mendes”.
Ora, Hugo Soares correu a responder: colando completamente o partido e o Governo à candidatura de Mendes, defendeu um país com menos impostos, mais salários, mais pensões e ambição — aquela de que o primeiro-ministro fala e que “Mendes tantas vezes tem repetido”; defendeu que “quem quer um país que tem neste Governo um Governo ambicioso, só tem um candidato para votar, que é Marques Mendes”; e quem já votou neste espaço político, quer estabilidade, não quer “deitar o esforço dos portugueses borda fora” nem quer que o país “páre” só tem uma escolha “óbvia”.
Já depois de Mendes ter acusado Cotrim de dividir o espaço da direita, o liberal aproveitou os números da tracking poll para lançar uma provocação. “Quem é que está a fazer a divisão do espaço não socialista? As últimas sondagens que eu conheço dão-no atrás de mim. Não sei quem é que está a dividir o quê”, atirou, lembrando que se alguém sobe 1%, alguém tem de descer 1% nas intenções de voto — ou seja, sugerindo que está a haver uma transferência direta de intenções de votos de Mendes para si próprio. Se na pré-campanha a equipa de Mendes se confortava com a ideia de que ambos cresciam simultaneamente nas sondagens, pelo que Cotrim não estaria a roubar-lhe eventuais votos, as circunstâncias parecem ter mudado.
A primeira edição da tracking poll confirmava, de resto, que a dispersão do eleitorado da AD é uma preocupação real, sobretudo graças a Cotrim: é a base eleitoral mais dispersa, sendo que só o equivalente a três em cada dez eleitores de Luís Montenegro responderam que votarão em Marques Mendes; e metade dos que votaram AD dizem que preferem um dos seus principais rivais — o liberal angariava um quarto dessas intenções de voto.
Assim, Cotrim sugeriu que os partidos não devem considerar-se “donos dos eleitorados”, num momento em que o PSD mostra todo o seu empenho na candidatura de Mendes e em chamar a ela todo o eleitorado da AD. E a picardia à direita vai aumentando de tom a cada dia que passa.
▲ Fotografia de arquivo dos bastidores do debate das rádios com os candidatos à presidência no dia 2 de janeiro de 2026
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Mendes quer ser “candidato da estabilidade” e poupa Governo
O ensaio dos argumentos de Mendes contra o liberal arrancou na terça-feira, no debate televisivo que juntou onze candidatos, mas inseriu-se num ataque coletivo: foi o momento em que o ex-líder do PSD avisou que todos os seus adversários, de uma forma ou de outra, querem contribuir para a instabilidade do país e “criar dificuldades” ao Governo, assumindo-se assim como o candidato da estabilidade, mensagem que reforça com cada vez mais frequência.
A colagem ao Governo e ao PSD tem ganhado força — durante esse debate, Mendes divergiu com menos intensidade do Governo sobre a situação na Venezuela e elogiou a distância entre o atual modelo para a regulação da imigração e o que existia no tempo do PS; na quarta-feira, elogiava também as baixas de impostos dos “últimos dois anos” (ou seja, com Montenegro) e dizia querer ser o “Presidente da estabilidade” para “ajudar o Governo a ter condições para governar”.
Assim, argumentava, terá autoridade e firmeza para exigir resultados ao Governo em todas as áreas; e ajudará a reforçar políticas importantes como estão a acontecer na baixa de impostos e a construir consensos: “O Governo é minoritário mas tem de durar quatro anos”.
O risco mais óbvio da estratégia de colagem é o reverso da moeda: desde que a campanha arrancou já são três os casos de mortes de pessoas que esperavam pelo auxílio do INEM, e que obrigam Mendes a responder diariamente a um assunto espinhoso para o Governo.
No dia em que foi conhecido o primeiro caso, nesta terça-feira, Mendes não entrou em pormenores em resposta aos jornalistas, limitando-se a lamentar o sucedido. E foi de imediato alvo de críticas nas campanhas vizinhas. Gouveia e Melo disse ter visto “um dos candidatos a não querer falar porque incomodava o poder político”; André Ventura disparou: “Um candidato presidencial não pode ficar em silêncio (…). Se há uma falha do Estado, um candidato presidencial não tem de estar preocupado em proteger o Governo. Um candidato presidencial tem que estar preocupado em representar o povo português”.
No dia seguinte, quinta-feira, novas notícias: à hora a que Mendes visitava uma unidade de cuidados integrados da Santa Casa da Misericórdia em Ferreira do Alentejo, conhecia-se o caso da morte de mais uma pessoa à espera de socorro, em Sesimbra. Questionado pelos jornalistas, o candidato escolheu não pedir responsabilidades diretas ao Executivo, tentando ao invés disso encostar a direção executiva do SNS à parede e colocar todo o foco no organismo liderado por Álvaro Almeida.
E contra a direção executiva, cuja criação criticou, na época de António Costa, Mendes foi implacável: anda “desaparecida em combate”, tem de dar explicações, não “abre a boca” e não tem “humanidade”. “Qualquer português de bom senso e com sentido de humanidade quer ter algum responsável a falar, e acho que tem de ser a direção executiva. Um PR não existe para avaliar ministros ou pedir demissão pública. Esta atitude, de perante situações trágicas não haver qualquer palavra, é até um sentido de desumanidade”, disparou. Perante a pressão dos jornalistas, assumiu que a ministra poderia ter uma “palavra” nesta matéria, mas insistiu: a responsabilidade é da direção executiva.
À tarde, Luís Montenegro seguraria Ana Paula Martins no Parlamento, garantindo a sua continuidade no Governo, enquanto em várias outras candidaturas se apontava o dedo à ministra e ao Governo. No caso de Mendes, que antes da campanha tentava começar a alargar a base eleitoral tecendo algumas críticas “de bom senso” ao Governo — incluindo na Saúde –, a mira não é apontada ao Executivo.
Mendes continua a escolher a sua “independência” como uma das mais importantes características que levará para Belém se for eleito, e o PSD confirma sempre que pode: “Não fez uma vida a querer agradar a gregos e troianos. Os nossos laranjinhas, e eu próprio, que o digam”, atirava Hugo Soares em Évora. Mas enquanto o objetivo passar por chegar à segunda volta, mobilizar o eleitorado da AD continuará a ser a primeira das prioridades.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR