Miguel Chen: “Alguns diretores de circo chamavam-me estrangeiro e eu dizia-lhes: ‘Eu sou um Sousa Tavares'”

24 Dezembro 2017208

Aos 7 já fazia números de circo. Aos 30 deu nas vistas e andou pelo mundo. Voltou a Portugal em 1981 e nasceu o Circo Chen. Mas, para conseguir montar a tenda, ainda teve que dar um tiro a alguém.

Nasceu em Campo de Ourique em 1939, mas não se lembra de nada do bairro lisboeta. São 78 anos de uma vida itinerante e todas as memórias que guarda são do circo. Filho de artistas, Miguel Chen fez o primeiro número aos sete anos e nunca mais parou — são já 71 anos de trabalho. “Parar é morrer”, diz, com um discreto sorriso no rosto e um olhar rasgado que lhe denuncia os genes.

Do pai chinês, Chen Tu Ching, herdou a “sabedoria” e diz ter aprendido tudo de bom que sabe. Perder, ainda cedo, o “homem perfeito” foi o pior momento da sua vida. Da mãe, destaca o rigor que chegou a ser em “demasia” e que criou distanciamento. Mas foi graças a ela — filha de um Sousa Tavares — que Miguel Chen completou a escolaridade obrigatória (4.ª classe), numa altura em que o normal era não ir à escola.

Correu 45 países de todos os continentes, fala seis línguas e foi em Itália que encontrou a sua rampa de lançamento, com um número de equilibrismo inédito. Já casado e com dois filhos separou-se dos irmãos e da mãe e foi para a Austrália. Decorria o final da década de 1970 e Miguel Chen chegou a ganhar 2.500 dólares por semana. Fez dinheiro suficiente para ter uma vida “confortável” e regressar a Portugal com os irmãos para lançar o próprio circo. Em 1981, nasceu o Circo Chen. Mas, para conseguir que o deixassem montar a tenda, até teve de usar uma pistola.

Admite a dureza da vida circense. Ainda assim, nunca pensou em alternativas à “corda bamba”, até porque “não é fácil encontrar trabalho melhor e vida melhor do que no circo”.

Miguel Chen gosta pouco de falar, como o pai, mas recebeu o Observador na Bela Vista e aceitou conversar sobre a sua vida numa segunda-feira chuvosa, depois de uma noite e madrugada de vento que fez desandar os camiões e o obrigou a estar acordado até às 4h00 para garantir que a tenda se aguentava.

Tentei encontrar algo sobre a sua vida e das poucas referências que encontrei foi que em 1981 se fixou em Portugal com os seus irmãos. Mas tudo começou bem atrás. Onde e quando nasceu?
Nasci em Lisboa, em 1939. Na Rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique.

Era lá que viviam os seus pais?
Sim, momentaneamente.

Mas o seu pai era chinês. Como é que chega a Portugal?
Ele veio em 1935/36, um bocadinho antes da II Guerra Mundial. Tinha passado pela Alemanha, França e Espanha, já como artista de circo, fazia daqueles números chineses com as facas, os pratinhos, aquelas coisas típicas daqueles tempos. Veio com os três irmãos atuar em Portugal, em digressão, mas depois os irmãos foram todos para Espanha. Ele casou-se com a minha mãe e ficou cá.

Como é que os dois se conheceram?
Ela era a trapezista.

Qual é a sua primeira memória?
Nasci no circo. Desde que tenho sentido de conhecimento, lembro-me só de circo. Sei que nasci em Campo de Ourique, mas não me lembro nada de Campo de Ourique. Lembro-me do circo. Estreei-me com sete anos. Lembro-me que tinha de trabalhar.

"Desde que tenho sentido de conhecimento, lembro-me só de circo. Sei que nasci em Campo de Ourique, mas não me lembro nada de Campo de Ourique."

Era duro.
Era duro, mas a gente quando é pequeno nem é capaz de medir a dificuldade das coisas. Éramos pequenos, tínhamos de trabalhar, estávamos mentalizados. Hoje, lembrando, não era fácil, mas a dureza não lhe sei dizer quanta era. Não sabíamos pesar a dificuldade. Eu não tinha capacidade de perceber se era feliz. Penso que sim, não sei. Era necessário trabalhar, trabalhar, trabalhar. Podia ser um pequeno esforço, mas não um sacrifício. Passei uma infância difícil, mas bem, nunca passámos fome, nem fomos sem-abrigo. O meu pai sabia conduzir-nos bem.

E em que modalidades se estreou?
Era contorcionista, acrobata, equilibrista, fazia pratinhos. Fazia um bocadinho de tudo, como hoje, mas antes trabalhava-se mais cedo. Hoje, às vezes as crianças trabalham mas é por graça, por simpatia. Naquele tempo era por necessidade. Tínhamos de trabalhar para comer.

"Éramos pequenos, tínhamos de trabalhar, estávamos mentalizados. Hoje, lembrando, não era fácil, mas a dureza não lhe sei dizer quanta era. Eu não tinha capacidade de perceber se era feliz."

Modalidades muito diferentes umas das outras.
A gente quando nasce não sabe qual é a nossa propensão. Mas depois, com o tempo, se os pais têm paciência e se são perspicazes, vão buscar o melhor dos filhos.

Quem vos dava formação?
O meu pai e a minha mãe. Antigamente, os artistas tinham mais especialidades. Hoje, dedicam-se a uma coisa. Antes eram mais versáteis. No circo vamos sempre tentando melhorar. Porque quanto melhor és, mais ganhas. Por isso é que fomos para o estrangeiro.

E em que é que foi melhor?
Era muito bom equilibrista. E tudo isto que está aqui ganhei a fazer equilíbrio.

Como era fazer circo em Portugal nos anos 40 e 50?
No tempo do Salazar era péssimo. Em 1954 emigrámos para Espanha e andámos 28 anos por aí para melhorar a vida. Mas em termos de burocracia era melhor. Agora para aprovar qualquer coisa faz falta 18 pessoas, para dizer que não basta uma. Naquele tempo não, um dizia que sim, outro dizia que não. Hoje nunca sabemos como vai acabar.

Ia muita gente ao circo?
Bastante. Não havia circos como hoje, mas já havia bons circos. Claro que hoje a qualidade é muito melhor. Ainda me lembro quando se trabalhava com holofote a petróleo.

"No tempo do Salazar aqui era péssimo. Em 1954 emigrámos para Espanha e andámos 28 anos por aí para melhorar a vida."

Começando a trabalhar aos sete, como foi com os estudos?
Por acaso tive a escolaridade obrigatória, a quarta classe. Na minha idade escolar ficámos parados em Lisboa, no Rego. Estivemos ali durante cinco anos e fiz a minha escolaridade obrigatória. O meu pai ia trabalhar connosco ao fim de semana e durante a semana estudávamos.

Naquela altura era normal não ir à escola.
Sim, 90% dos artistas do meu tempo são analfabetos. Mas a minha mãe é uma Sousa Tavares e na ideia deles a gente tinha de estudar.

A sua mãe é uma Sousa Tavares?
É filha do António Sousa Tavares, que é um tio-avô do Miguel Sousa Tavares. É uma daquelas aventuras do antigamente. O António Sousa Tavares fez uma filha a uma servente de casa e mais tarde perfilhou-a. Naqueles tempos era assim, se bem que o meu avô era uma pessoa muito séria, muito educada. Eu conheci-o.

"90% dos artistas do meu tempo são analfabetos. Mas a minha mãe é uma Sousa Tavares e na ideia deles a gente tinha de estudar."

E como é que a sua mãe, sendo da família Sousa Tavares, chega ao circo?
A minha avó conheceu um homem de circo e foi para o circo. E a minha mãe fez de trapezista, não sendo ela de origem do circo. A minha mãe é a primeira pessoa do circo do meu lado materno. Morreu há uns 12 anos, com 102.

E o seu pai?
O meu pai morreu novo. Teve um ataque cardíaco, em Itália. Nunca chegou a voltar a Portugal.

Disse-me que em 1954 emigraram para Espanha. Para que região?
Fomos para Salamanca, mas o circo era itinerante. O circo é uma semana aqui, uma semana ali, exceto Lisboa, em que ficamos mais tempo. Lembro-me perfeitamente de que fomos de comboio para Salamanca. Depois Madrid — e em Madrid iniciámos a história da nossa vida.

Miguel Chen, à direita, com o irmão Jorge Chen, à esquerda, e o pai ao centro. Os três, em Espanha, em 1955

O que aconteceu em Madrid de tão especial?
Fomos para grandes circos, que em Portugal nem se sonhava haver. Ficámos em Espanha até 1960 e em 1961 fomos para Itália. A partir daí, corremos a Europa toda. O meu pai morreu em 1965, em Itália, e nós continuámos a trabalhar.

E quando é que você dá o salto? Quando é que a sua carreira começa a crescer?
A reviravolta da minha vida foi quando fiz um número de equilíbrio em Itália, que penso que as pessoas nunca tinham visto, e aí girei os cinco continentes. Conheci 46 países. Foi uma aposta bem feita. Era um pedestal de seis metros de alto com dois globos no topo e eu punha uma bicicleta lá em cima e fazia um exercício em cima da bicicleta.

"A reviravolta da minha vida foi quando fiz um número de equilíbrio em Itália, que penso que as pessoas nunca tinham visto e aí girei os cinco continentes. Conheci 46 países."

Como é que se chega aí?
Começa-se com meio metro e depois dá-se logo um salto. E tens de estar muito concentrada e pensar bem no que estás a fazer para não cair. Por acaso tive sorte na minha vida, nunca tive nenhum acidente, nem quando trabalhei com animais. Mas os acidentes acontecem. Quem trabalha sobretudo com feras está sempre no fio da navalha.

Fotografia tirada em 1978, na Alemanha, para onde foi depois de exibir este número de equilibrismo em Itália

Já lá vamos às feras. Em Itália fez este número. O que aconteceu depois disso?
Fui para a Alemanha, em 1973, que era onde pagavam mais. Estive lá cinco anos.

Sozinho?
Não. Só me separei um bocadinho da minha família em 1977 porque tive um contrato para a Austrália, onde fiquei até 79. Fui com os meus dois filhos e a minha mulher, que era italiana, para a Austrália e corri o Japão, Nova Zelândia, Filipinas, Hong Kong.

Como foi essa separação do resto da família?
Quando uma oportunidade destas acontece — e acontece pouco –, não podemos perdê-la. Primeiro, porque pagavam muito bem; e, depois, porque ia trabalhar com os melhores artistas do mundo. Fiz lá dois anos. O meu pai já tinha morrido.

Pagavam bem?
Naqueles tempos, ganhar 2.500 dólares por semana era muito dinheiro.

Dinheiro à parte, como foram esses anos?
Muito bons. Custou separar-me da família porque o circo junta-nos muito. Vemo-nos todos os dias. Mas, para mim não, era uma separação definitiva.

"Só me separei um bocadinho da minha família em 1977 porque tive um contrato para a Austrália, onde fiquei até 79. Primeiro, porque pagavam muito bem e depois porque ia trabalhar com os melhores artistas do mundo."

Os seus filhos também começaram a trabalhar no circo logo quando eram pequenos?
Não, não.

E a sua mulher?
Ela não era do circo mas acabou por ser artista e deu-se muito bem. A minha irmã casou-se e seguiu o marido — as mulheres seguem os maridos —, e ela foi para o posto da minha irmã, que era um número de equilíbrios a três.

Em 1962, em Itália, a família Chen Tu Ching, com Miguel Chen à esquerda

Como a conheceu? Tinha ideia que acabam sempre por se casar com pessoas do meio.
Calhou. Numa cidade de Itália, ela foi a um espetáculo. E já havia mais meios de comunicação. Foi a aventura do cinema.

Que sucedeu depois da tal digressão em que se separou da sua família?
Voltámos a juntar-nos novamente todos durante um ano em Espanha e planeámos fazer o circo em Portugal. Viemos todos em 1981. Já com a estrutura comprada em Itália. Era o sonho do meu irmão, mais do que ninguém. Tinha aquele sonho de ser diretor de circo. Eu nem tanto porque se calhar tinha uma vida mais cómoda, ganhava bem. Mas depois a família puxa o sangue, o sangue puxa a família e lá viemos todos. E bem.

E quando volta em 1981, que país é que encontra?
Nós é que trouxemos todas as novidades. O circo cá era ainda muito primitivo e vínhamos da melhor nação do mundo para fazer circo, que era Itália.

"Viemos todos em 1981. Já com a estrutura comprada em Itália. Era o sonho do meu irmão, mais do que ninguém. Nós é que trouxemos todas as novidades. O circo cá era ainda muito primitivo."

Em que é que se distinguiam?
Era tudo muito mais moderno. Para ter noção, os primeiros cartazes que se colam na parede fluorescentes foram nossos.

E onde assentaram arraial a primeira vez?
Elvas. Era uma boa cidade. O meu irmão tinha dois filhos, o meu cunhado tinha três e eu dois. E viemos todos juntos. E tínhamos pessoas contratadas estrangeiras.

Quando vêm para Portugal que idade tinham os seus filhos ?
A minha filha tinha 10 anos, o meu filho devia ter 15 ou 16.

E, no caso deles, como foi com os estudos? Foi uma questão que vos preocupou, a si e à sua mulher?
Todos eles têm a escolaridade obrigatória. O meu filho terminou a escolaridade obrigatória ainda em Itália. A família da minha mulher estava bem na vida, então os netos ficavam com eles enquanto nós íamos trabalhar. A nossa base era Itália, tinha lá comprado um apartamento e voltávamos sempre a Itália no fim das digressões, ao fim de sete, oito meses. Nas férias deles vinham connosco, mas não trabalhavam. Não havia necessidade.

Muito diferente do que aconteceu consigo.
A diferença é que se eu não trabalhasse não comia. Ali comiam sempre.

É possível a quem nasce no circo ter outras ambições? Alguma vez pensou noutra profissão?
Vivi numa época em que nem se podia pensar nisso. Hoje pode. As pessoas agora não podem perceber o que estou a dizer. Nós fazíamos aquilo que tínhamos de fazer. Nunca pensei em fazer outra coisa, estava bem no circo. E o circo é muito bom. A única coisa que posso não gostar muito de ter vindo parar a Portugal é porque a burocracia é tremenda. Corri 45 nações, conheço a Europa toda e garanto-lhe: Portugal é muito complicado. Só queria que não nos chateassem. Somos o único espetáculo que não tem subsídio nenhum. Zero. Não temos direito a nada.

Da esquerda para a direita: Miguel Chen com a irmã Celeste, o pai, a mulher Linda Enrichetti e o irmão Jorge, no Líbano, em 1965

E qual é a recetividade que sentem do resto da comunidade?
Antigamente, quando um artista chegava a uma terra trazia as novidades. Nem havia televisão. Hoje não, o artista passou a terceira categoria. Naquela altura toda a gente nos queria conhecer e falar connosco. Convidavam-nos a comer em casa delas. Era outro mundo. Aqui em Portugal agora é assim: gostam muito de circo sempre que não seja à porta deles. Hoje, os do circo são ciganos. Se bem que quase todos têm uma boa vida. Antigamente é que andávamos com a casa às costas.

Nunca sentiu que faz parte de uma sociedade paralela? Por causa do vosso estilo de vida.
Depende do sítio onde trabalhas. Tens nações, como a Alemanha, em que te aplaudem e gostam e em que os pais vêm com as crianças com escovas para pentear cavalinhos. E depois voltas para Portugal e podes até pensar em não fazer mais circo.

"Antigamente quando um artista chegava a uma terra trazia as novidades. Nem havia televisão. Hoje não, o artista passou a terceira categoria."

Mas perceberam isso rapidamente quando vieram ou não?
Não. No princípio era bom. Tinha sido a revolução, podíamos montar em qualquer lado. Bastava dizeres que eras de um sindicato e tinham todos medo. Além disso, o artista não deixa de ser um emigrante e pensa: vais para a tua terra fazer um grande circo. E fizemos. Mas hoje é terrível trabalhar em Portugal. Se estivesse a começar outra vez, o meu circo nunca viria para Portugal.

Como é que vocês programam o vosso ano?
Daqui vou para Vendas Novas, depois Montemor, Évora, Estremoz. Cada fim de semana estou numa terra. Antigamente acabávamos em Lisboa — de 30 novembro até final de janeiro — e íamos para casa dois ou três meses. Hoje é ao contrário. Os piores meses são julho e agosto. Janeiro, fevereiro, março e abril é a melhor época.

"Se estivesse a começar outra vez o meu circo nunca viria para Portugal."

Que influência teve na sua formação ter tido um pai chinês e uma mãe portuguesa? O que herdou de um e do outro?
Da minha mãe, a parte latina e o rigor, porque a minha mãe descendia de famílias muito rigorosas. Éramos bastante disciplinados Do meu pai tirei a sabedoria. O meu pai era uma pessoa sábia, era uma pessoa extraordinária.

O que aprendeu com ele?
Era um homem do Oriente, falava pausadamente, era muito sério. Nunca vi o meu pai discutir. Tinha princípios que aqui não conhecíamos. Era aquela pessoa que antes de responder pensava, algo que os latinos não sabem fazer. O meu pai era a pessoa perfeita. A única pessoa que conheci na minha vida que é perfeita.

Miguel Chen em 1973, em Itália

E era carinhoso?
Não era de beijinhos. Era compreensivo, não era muito falador mas era um bom executante. Viveu uma vida como tem de se viver. Os orientais não são muito faladores. O que eles têm de bom é que pensam sempre antes de responder. E têm bons princípios. Acho que nos criou muito bem. Tudo o que aprendemos de bom aprendemos com ele. De mau, aprendemos em Portugal.

"O meu pai era a pessoa perfeita. A única pessoa que conheci na minha vida que é perfeita. Era excelente."

Mas a sua mãe era portuguesa.
Sim. Mas uma andorinha não faz a Primavera. Era uma pessoa muito séria. Lembro-me que chegávamos a um sítio, sentávamo-nos uma, duas, três horas. Até ela dizer, não nos podíamos mexer. Era até um bocadinho, ligeiramente, acima da média, não fazia falta ser tanto, mas era o caráter dela.

Não era tão próximo da sua mãe.
Não, porque a minha mãe tinha aquela pontinha de salazarismo. Era demasiado rigorosa e o rigor não aproxima as pessoas.

Fora o circo, como era a vossa relação? A ideia que dá é que no vosso caso não é fácil separar o trabalho da folga.
Antigamente não havia tempo. As dificuldades eram tantas, para todos. Portugal era um país miserável. Não tinhas tempo de separar. Havia o poderio dos empresários que num dia te davam 10, noutro já diziam cinco. Estavas sempre debaixo dos poderosos. Não te podias queixar. Se te queixasses eras comunista. Tinhas de comer e calar.

"A minha mãe tinha aquele pontinho de salazarismo. Era demasiado rigorosa e o rigor não aproxima as pessoas."

Então não havia grandes folgas. Tinha momentos de lazer?
Ia jogar à bola para a rua de pé descalço. Mas sempre perto do circo. Não havia muito tempo para brincar.

E férias?
Não existiam férias. Antigamente não havia nem dinheiro para fazer férias em Cascais. Nem pensava que podia ter férias.

Quando teve as primeiras férias?
Bom, pode sempre partir da ideia de que os artistas de circo estão sempre de férias porque conhecer o mundo já é muito bom. Estive na Austrália a ganhar uma fortuna, trabalhava 10 minutos e depois tinha todo o dia livre para ir onde queria. Mais férias do que isso o que é que quer? Tinha hotel de cinco estrelas, viagens pagas, um bom ordenado.

E como ocupava o dia?
Olhe, jogava ténis, golfe, futebol. Era muito desportista. Até porque nas Filipinas era baratíssimo jogar golfe.

À direita, na Austrália, num momento de lazer, em 1977

Com o circo consegue-se ganhar dinheiro para ter uma vida confortável?
Sim.

Ao ponto de não trabalhar se não quiser?
Isso não. O circo é sempre um investimento contínuo. Dizer: “Bom, este ano não trabalho”. Isso não podemos dizer. Podemos ter boa vida, ter boas coisas, mas temos de trabalhar sempre.

O que tem de melhor trabalhar com a família?
É muito bom e é muito mais difícil quando nos separamos ou morre alguém porque é uma vida demasiado fechada. De mal? Às vezes há famílias que se desentendem. E aí é pior porque os que não são familiares, discutimos e nunca mais nos vemos. Com a família é mais difícil, mas não é só no circo.

"O circo é sempre um investimento contínuo. Dizer: 'Bom, este ano não trabalho'. Isso não podemos dizer. Podemos ter boa vida, ter boas coisas, mas temos de trabalhar sempre."

O mundo do circo é difícil? Alguma vez teve um problema sério?
Sim, muito sério. Em 1982, alguns diretores de circo chamavam-me estrangeiro e eu dizia-lhes: “Eu sou um Sousa Tavares”. E há muitos do circo que não sabem nem quem são os pais. E houve um grave problema. Depois passou.

Quer contar?
Éramos demasiado fortes, demasiado grandes. E os pequenos querem que os grandes sejam pequenos.

Mas o que aconteceu?
Tinha de montar na Praça de Espanha e não me deixaram. Depois tentei onde agora é o El Corte Inglés e não me deixaram. E depois fui montar no campo, onde agora é a estação de metro de Alvalade. Naquele tempo aquilo era fora de Lisboa. E fizemos um negócio tremendo.

Mas quem é que não o deixava montar a tenda?
Colegas de profissão. Ocupavam os terrenos, faziam fogueiras e não saíam de lá noite e dia. Entre eles o Vítor Hugo Cardinali.

E como superou isso?
Naquela altura ainda tinha porte de arma e tive de dar um tiro a alguém. Tivemos sorte os dois. Apontei para o ar. Foi um problema verdadeiramente grande.

Podia ter sido muito grave.
Podia. Mas quando estamos muito apertados vamos por todas. Eu não estou a trabalhar uma vida inteira para me dizerem: “Vai para a tua terra”. Não gosto de falar de ninguém, mas dou um exemplo: a mãe de Vítor Hugo é espanhola, a avó é espanhola, e o avô é italiano e chama-me a mim estrangeiro? É um bocado estranho não é?

"Tentámos montar na Praça de Espanha e onde agora é o El Corte Inglés. Colegas de profissão ocupavam os terrenos, faziam fogueiras e não saíam de lá noite e dia. Entre eles o Vítor Hugo Cardinali. Ainda tinha porte de arma e tive de dar um tiro a alguém. Tivemos sorte os dois."

O que se aprende nesta vida?
Muita coisa. Mas também faz falta querer aprender porque há muita gente que passa por esta vida e não aprende nada. Os meus filhos todos e eu falamos seis idiomas. Entendo e falo tudo. Mas os meus filhos, então, falam perfeitamente o italiano, o português também e bastante bem o espanhol. Falam bem alemão, falam inglês e francês.

Em 1977, Miguel Chen com os filhos, na Noruega

Chegou a aprender a falar chinês?
Nada. Falava com o meu pai num mau português. É pena. É um idioma difícil.

Qual o momento mais feliz da sua vida?
Tive muitos, felizmente. Em termos profissionais foi quando, no meio de uma companhia, que era considerada uma das melhores do mundo, o público se levantou apenas para me aplaudir. Aconteceu no Japão. Foi um diretor que montou o maior espetáculo do mundo. Em termos pessoais é quando se conhecem pessoas boas. Um ponto alto é quando nascem os filhos.

E qual foi o pior?
Quando morreu o meu pai. Não era só um pilar, era uma boa pessoa. Senti muito. O meu pai era aquela pessoa que faz falta ter numa casa.

"Quando morreu o meu pai senti muito. O meu pai era aquela pessoa que faz falta ter numa casa."

E em termos de trabalho, qual foi a pior fase? O episódio que relatou há pouco?
Sim. Em todos os trabalhos há sempre um bocado de rivalidade e na arte mais ainda. Temos de saber conviver com elas. Tive a sorte de ter um número [de circo] muito bom e estava numa posição em que não tinha que invejar ninguém.

Em 2009 houve um acidente numa bancada do seu circo. Chegou a ser acusado do crime de ofensa à integridade.
Isso não foi nada e não deu em nada. Fui ilibado em tribunal. Não havia motivo, foi um acidente de trabalho. De todas, há só uma pessoa que quer ser ressarcida ainda. Desistiram todas. Houve só uma pessoa que ficou um dia internada. Aquilo não foi nada e a prova está no facto de que no dia seguinte já trabalhei. A bancada escorregou para a frente e as tábuas caíram, mas não ficou ninguém de baixo. E nem estavam 200 pessoas no circo, isto leva 3.000. Foi alguém que, com maldade, destravou aquilo. Mas não acuso ninguém.

Nesse mesmo ano surge uma nova lei que acaba por ditar o fim dos animais no circo.
Não é dos animais, é dos animais do Grupo A, como os tigres, os leões, as panteras, chimpanzés, elefantes, girafas. Cavalos e camelos podemos continuar a ter. Além disso, a lei não proíbe, diz que não se podem reproduzir mais, nem podemos comprar novos. Mas o mal não é essa lei. O mal são as autarquias. Há certas autarquias que não deixam. Em Sintra, em Lisboa — nos terrenos camarários — não podemos trabalhar com animais.

Miguel Chen, em 1992, em Lisboa, com os tigres

E agora parece que essa proibição vai mesmo avançar com as propostas de vários partidos a apontarem nesse sentido.
É ridículo que sejam apenas visados os animais dos circos e não os existentes em outras instituições, como o jardim zoológico, zoomarines e outros. Será que os outros animas são menos animais que os do circo?

A acontecer, o que fará aos tigres que ainda tem?
A acontecer entregarei os sete tigres a um santuário que o Estado venha a proporcionar para esse efeito.

Mas não entende as motivações de quem quer proteger os animais?
Se eles quisessem proteger os animais entendia, mas se eles entendem que um touro não é um animal. Porque é que não proíbem as touradas? O dinheiro é que mexe aqui. Os circos não têm poder. As touradas até têm subsídios para matar touros. Queres ver que o touro não sofre…

Como é que são tratados os animais no Circo Chen?
Muito bem. Não temos queixas nenhumas. Vai ver os nossos tigres, são lindos e gostam de nós. Pomos-lhes a mão e eles até nos lambem a mão.

"Vai ver os nossos tigres, são lindos e gostam de nós. Pomos-lhe a mão e eles até nos lambem a mão. Nunca batemos em animais."

Não lhes batem?
Nunca batemos em animais. Às vezes uma chibatadazinha para indicar caminho, mas bater não. Antigamente, há uns 30 anos, é que, por exemplo em Itália, se educava os animais a bater. Mas já nessa altura fomos comprar os nossos a Inglaterra, onde não batiam. E penso que os ingleses ensinaram isso a muita gente e está comprovado que o risco é muito menor.

Já não lida com os tigres. Ou ainda lida?
Se fizer falta lido.

Como é que conseguem controlar estes animais? Há um risco enorme.
Há, com todos os animais, por muito bons que sejam. Mas eles estão muito bem controlados. A minha filha dá-lhes carne à boca.

Mas porque e que há essa necessidade de ter animais no circo? Sem animais faz-se na mesma.
É uma mania, sabe? O Cirque du Soleil, que é considerado um dos melhores do mundo, não tem animais. São mentalidades. O que é estrangeiro é bom. Se dizem que é bom, todos lá vão, pagam cifras grandes e não dizem nada. Se vêm ao meu circo: “Ah, não tem animais”. Os animais são um chamariz e trazem muito mais público. É um chamariz para as crianças. Com animais eu vendo melhor o meu espetáculo. Para a qualidade do espetáculo não fazem falta absolutamente nenhuma. Eles fazem quase sempre a mesma coisa. Se queres ver muitos animais vais ao jardim zoológico e vês lá todos e é muito mais barato.

"Com animais eu vendo melhor o meu espetáculo. Para a qualidade do espetáculo não fazem falta absolutamente nenhuma."

Viver no circo é viver na corda bamba?
É viver na corda bamba com certeza.

E gosta?
Não sei fazer outra coisa nem tenho idade para mudar. Antigamente os artistas de circo podiam fazer uma data de coisas. Hoje não. Não têm habilitações.

Isso significa que quem nasce num circo está predestinado?
Sobretudo com o mundo que corre hoje, sim, porque um bom artista ganha muito bem num circo. O meu filho chegou a ganhar 100 contos por dia, durante quatro anos. Escolher para pior ninguém quer e para melhor também não é fácil. Não é fácil encontrar trabalho melhor e vida melhor do que no circo. O que é que vão fazer?

Mas nem tudo é bom.
Não. Mas isso não é em nenhum sítio. Nem os da Volkswagen de Palmela estão contentes.

"Escolher para pior ninguém quer e para melhor também não é fácil. Não é fácil encontrar trabalho melhor e vida melhor do que no circo. O que é que vão fazer?"

Muitos com a sua idade já estão reformados.
Trabalho há 71 anos. Ainda apresento espetáculos, quando faz falta tento ajudar a minha filha com os tigres, trabalho no escritório, levo camiões, ajudo a montar o circo. Porque é que não paro? Primeiro, porque parar é morrer; e depois porque necessito de trabalhar para orientar isto. Enquanto sentir que sou necessário, aqui estou eu. E mesmo que quisesse, neste momento não tinha outra possibilidade. Às vezes penso: circo nunca mais em Portugal porque paga mal.

Não começa a sentir necessidade de passar a pasta?
Não tenho nenhum desejo de mandar. Faço aquilo que penso que os meus filhos necessitam que eu faça. E dou-lhes muita autonomia.

Gostava que os seus filhos tivessem tido outra vida?
Os meus filhos tiveram uma vida muito boa. A minha filha com 18 anos já viajava em Porsches.

Mas viajar num Porsche não é sinónimo de felicidade. Eles foram e são felizes nesta vida circense?
Ah sim, isso não tem nada a ver. A Princesa Diana não era feliz. Mas o que acho é que eles têm de fazer o que gostam. E eles gostam. Não são obrigados.

Costuma passear? Deixar o circo?
Não. Mas quando estou em minha casa estou muito bem. Estou no meu santuário.

É aqui em Lisboa?
Não. É a minha caravana.

Mas vive numa caravana? Não preferia ter uma casa?
Sempre vivi aqui. Tive casa e nunca vivi na minha casa. Só em Itália, no mês em que lá ia. Com uma casa não conseguia fazer este trabalho. Tenho de estar aqui.

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