Ministro da Tecnologia de Israel: “As próximas guerras do mundo vão ser ciberguerras. Precisamos de nos proteger” /premium

13 Novembro 2018

O ministro da Ciência e Tecnologia de Israel esteve em Portugal para assinar uma cooperação com o Ministério do Mar. "Quero mais investigação conjunta entre Israel e Portugal", disse ao Observador.

Ofir Akunis esteve em Lisboa no final do mês de outubro para se encontrar com o homólogo português, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, e com a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, com quem assinou um Memorando de Entendimento para cooperação nas áreas do mar e da água. Ao Observador, o ministro da ciência e tecnologia israelita explicou que este memorando e a estreia dos voos diretos entre Telavive e Lisboa vão marcar uma nova era na relação entre os dois países: “Vamos ter voos diretos entre Portugal e Israel e isto é um sinal de que no futuro, daqui a um mês ou dois, vai ser possível ver a indústria da alta tecnologia israelita a voar para Portugal e espero que o oposto também aconteça. O objetivo desta visita é este: quero mais investigação conjunta entre Israel e Portugal. Quero projetos conjuntos no espaço”, afirmou.

O memorando de entendimento assinado entre Israel e Portugal vai permitir que sejam eleitos dois projetos nestas áreas, que vão beneficiar de um trabalho de investigação conjunto entre os dois países, ou seja, as duas equipas portuguesas terão de trabalhar o projeto de investigação em conjunto com as equipas israelitas. As candidaturas estão abertas até ao final de dezembro. Ao Observador, Ofir Akunis disse que está certo de que esta visita abre a porta para mais colaborações entre empresas israelitas e portuguesas e que “os israelitas vão fazer muito bem à economia portuguesa“, porque vai permitir que os investidores em alta tecnologia visitem mais o nosso país. Sobre os dilemas tecnológicos que têm marcado o último ano, como a proteção de dados, Akunis diz que, “infelizmente, as próximas guerras do mundo vão ser ciberguerras” e que “precisamos de nos proteger”.

Israel é conhecida por ser a Startup Nation e Telavive é a cidade com mais startups per capita. Em 2016, estavam sediadas na segunda maior cidade de Israel 1450 startups, que tinham um investimento médio por ronda de cerca de 8,5 milhões de dólares.

Antes de ser ministro da Ciência e Tecnologia, Ofir Akunis foi ministro das Comunicações e responsável pela reforma da autoridade de radiofusão israelita. Foto: João Porfírio/OBSERVADOR

“Quero mais investigação conjunta entre Israel e Portugal”

Qual é objetivo desta viagem?
Há três anos assinei alguns acordos com a China, Japão, Vietname, EUA e alguns países da Europa. Portugal é um país muito importante para nós. Vamos ter voos diretos entre Portugal e Israel e isto é um sinal de que no futuro, daqui a um mês ou dois, vai ser possível ver a indústria high tech [alta tecnologia] israelita a voar para Portugal e espero que o oposto também aconteça. Mas o objetivo desta visita é este: quero mais investigação conjunta entre Israel e Portugal. Quero projetos conjuntos no espaço. Estamos no top 10 dos países à volta do mundo que estão a lidar com o espaço. E ouvi do ministro [português] hoje que esta também é uma prioridade muito grande da sua política e que quer que a agência espacial israelita coopere com a vossa agência espacial. Ouvi dizer que vão lançar no próximo mês uma nova uma agência espacial. E nós queremos cooperar, queremos colaborar. Vi hoje projetos muito entusiasmantes na Fundação Champalimaud e encontrei um professor israelita, mas quero mais professores e estudantes israelitas a vir para Lisboa e a cooperarem, porque vi lá projetos muito interessantes.

Podemos esperar mais parcerias entre universidades e empresas portuguesas e israelitas?
A resposta é “sim”. Acho que os institutos em Israel e as universidades, claro, querem colaborar com outras universidades no mundo e assinar novas acordos, incluindo Portugal. Como disse no início da reunião com o ministro do mar, temos à nossa espera um futuro brilhante. Temos uma história muito antiga juntos, mas o futuro é mais importante. O passado é igualmente importante, mas temos um futuro brilhante juntos. Acho que vão ver durante 2019 mais estudantes israelitas em Lisboa, mais investidores em alta tecnologia e espero que aconteça o oposto também. Porquê? Não apenas porque assinámos este novo acordo, mas porque declarámos que vamos começar projetos de investigação conjuntos. É importante para os dois países fazerem isto. E temos o orçamento.

Quanto é que tudo isto custa?
O meu orçamento é de 500 milhões de shekels [cerca de 119,753 milhões de euros] e é o orçamento mais alto de sempre para este ministério. Quero fazer coisas com este dinheiro. Claro que quero fazer com as pessoas de Israel, investir em Israel, mas também quero fazer estas investigações conjuntas com outros países, com Portugal também, com vários institutos e universidades.

Parte deste dinheiro vai ser alocado para fazer parcerias com universidades e institutos portugueses?
Claro. Vi hoje iniciativas muito impressionantes na Fundação Champalimaud. Acho que vai ser muito bom fazermos isto juntos e nós vamos investir dinheiro nisto. Não tenho o orçamento exato para cada projeto, mas são muitos dólares, serão montantes muito impressionantes.

"O governo israelita decidiu construir um novo satélite em Israel, para o qual vamos precisar de tecnologias com origem no mundo todo. Por isso, se houver a possibilidade -- e estou muito contente por o ministro português ir a Israel na Semana do Espaço -- vamos encontrar ideias de trabalho em conjunto"

Estas parcerias vão ser estabelecidas com universidades ou também com empresas?
Regra geral, em Israel — e esta é também a política do meu partido –, não nos envolvemos no mercado privado. Achamos que se nos envolvermos demasiado se torna num problema. Por isso, a minha política incide primeiro em apoiar 11 centros de Investigação & Desenvolvimento (I&D) em Israel, do Norte do país até à fronteira com Gaza. Vou ficar muito contente se um dia tiver investigadores palestinianos [nestes centros de I&D]. Agora, como sabem, a situação não é boa, mas no futuro gostaria que vivessem em paz connosco. Temos 11 centros de I&D apoiados pelo governo, pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Todos juntos queremos a colaboração com outros institutos, para fazermos intercâmbio de alunos, temos muitos planos nesse campo, especialmente na robótica, é muito importante para nós — é na verdade o futuro do mundo. Também temos para a cibersegurança, inteligência artificial e espaço.

Está familiarizado com a tecnologia espacial portuguesa?
Vou conhecer algumas empresas amanhã. Sabes que há menos de dois meses, o governo israelita decidiu construir um novo satélite em Israel, para o qual vamos precisar de tecnologias com origem no mudo todo. Por isso, se houver a possibilidade — e estou muito contente por o ministro português ir a Israel na Semana do Espaço — vamos encontrar ideias de trabalho em conjunto. Vamos precisar de tecnologias para construir este novo satélite e vamos colaborar com outros países e agências espaciais à volta do mundo, incluindo a NASA, a indiana e a vossa, ou seja, com as vossas tecnologias. Estamos ansiosos. Acho que isto é muito bom para toda a gente. Devemos lançar este satélite em 2022, é este o nosso objetivo.

“Já não exportamos laranjas. A alta tecnologia está a substituir as laranjas”

Israel é a Startup Nation, o país com mais startups per capita. Conhece o ecossistema de startups português?
Esse também era um dos objetivos desta visita. A cidade de Lisboa que encontrei hoje é uma Lisboa diferente da que me lembro em 1996, é um mundo diferente. Mas especialmente é uma cidade diferente, com muitas iniciativas tecnológicas. Em Israel e não só em Telavive, pode encontrar startups por todo o lado. Temos uma pequena cidade no sul, Beer-Sheva, e a indústria da cibersegurança está toda lá e esta foi uma decisão governamental. Não queremos estar envolvidos no processo e no marketing, mas demos o primeiro apoio, construímos este ciberparque lá e hoje é um dos sítios com mais sucesso em Israel.

"Acho muito importante darmos o primeiro apoio à indústria da alta tecnologia, mas só no início. Não quero que o Governo continue a apoiar e a assinar acordos com outras empresas, porque não é suposto isto fazer parte do projeto governamental"

Da sua experiência, quais são os três principais conselhos que tem a dar a Portugal?
Primeiro, apoiar a próxima geração com muita, muita educação. Como disse, uma das minhas prioridades foi a colaboração com outros países, mas antes disto, a prioridade número um foi a educação. Vou dar um exemplo: decidi apoiar, cobrindo as despesas de todas as equipas de robótica israelitas, que fazem parte de competições internacionais pelo mundo, como as dos EUA ou do Japão. Decidimos que vamos pagar os voos e as estadias destas equipas por todo o lado, em vez de serem os pais, porque quero que todos eles, não apenas os ricos, quero que esta rapariga de uma cidade árabe [aponta para o livro que ilustra a iniciativa] faça parte deste projeto de nanossatélite e este rapaz, cujos pais emigraram para Israel há 25 anos, também. Já construímos três nanossatélites e lançámos dois. São o futuro de Israel. Por isso, educação, educação, educação. No verão passado, 30 mil crianças das escolas primárias participaram em campos de férias da Ciência e foi tão barato, com um custo equivalente a duas garrafas de Coca-Cola por semana. É muito barato e isto foi assim por todo o país. Por isso, educação, educação, educação.

A segunda coisa é que acho muito importante darmos o primeiro apoio à indústria da alta tecnologia, mas só no início. Não quero que o Governo continue a apoiar e a assinar acordos com outras empresas, porque não é suposto isto fazer parte do projeto governamental. Damos dinheiro para a educação, no início de um projeto, na fase semente, e depois eles continuam e nós não os perturbamos. Acho que estas são as coisas mais importantes. E, claro, o apoio aos centros de I&D, aos institutos e às universidades.

O governo israelita paga as despesas das equipas de estudantes de robótica em competições internacionais. Foto: João Porfírio/OBSERVADOR

Até que ponto o Governo deve estar dentro deste ecossistema?
Só no princípio. Se um pequeno projeto precisa de apoio… Quando a Mobi-Wize foi comprada, liguei ao fundador e perguntei-lhe se podia manter o centro de I&D em Jerusalém no futuro e ele disse: “Prometo-te que o I&D vai ficar em Jerusalém”.

Telavive tem os centros de I&D de empresas como o Facebook, IBM, eBay.
E da Microsoft também. E não é apenas em Telavive, noutras cidades também.

Se um país como Portugal quiser atrair mais destes centros de investigação, o que deve fazer?
Quando, em novembro, visitei os escritórios da Amazon, Facebook, Instagram, em São Francisco, disseram-me que escolheram Israel por causa das mentes brilhantes que encontraram em Israel. E claro que há outra coisa: o governo pode decidir implementar incentivos e baixos impostos para estas empresas. Mas vou dar o exemplo do Facebook: disseram-me, em Palo Alto, que decidiram que os I&D do Facebook estariam em três sítios: EUA (São Francisco), Londres e Telavive, mas acho que se agora quiserem encorajá-los a vir para Lisboa, se encontrarem incentivos para dar a estas grandes empresas, elas também vêm para aqui na próxima década, no início da próxima década. Mas deves decidir que é o próximo objetivo do governo.

Mas tem de ser um objetivo.
Sim, tem de ser um objetivo. Acho que o exemplo daquela cidade a sul de Telavive, Beer-Sheva, é o melhor que posso dar. Em 2012, o Governo decidiu investir lá muito dinheiro em assuntos ambientais, agricultura e abriu o ciberparque ao pé da universidade. Depois abrimos uma linha de comboio direta entre Telavive e a cidade, sendo que a viagem demora menos de uma hora. O que aconteceu foi que muitas pessoas jovens e com empresas no início decidiram que queriam ir para lá. Acho que estas três coisas foram a fórmula para o grande sucesso de Beer-Sheva. mas quero dizer-te uma coisa: não sei a que ministério isto cabe em Portugal, mas é preciso pensar na educação dos adolescentes, que estão agora nos liceus. Em Israel, eles têm a possibilidade de fazer parte da unidade tecnológica dos exércitos também. E isto é muito importante, especialmente no campo da cibersegurança e da robótica. Mas eles exército vindos dos liceus.

"Vou investir para juntar investigações aqui em Portugal. Acho que vão ver mudanças em um ou dois anos: 2019 e 2020 vão ser os anos da grande mudança. Perguntou sobre a economia, acho que vais ver que os israelitas vão fazer muito bem à economia portuguesa"

Qual é o segredo para transformar todas estas inovações tecnológicas em prosperidade económica? Porque tudo isto pode falhar.
Vou dizer-te e não sei se é um segredo, acho que é um facto. O facto é que nós já não exportamos laranjas. A alta tecnologia está a substituir as laranjas e a indústria têxtil. Por isso, em vez de laranjas e da indústria dos têxteis, é a industria de alta tecnologia [que estamos a exportar] e acontece assim há 25 anos, não foi assim só no último ano ou nos últimos cinco anos. Acho que o início do boom, do boost, foi no início dos anos 90 e podemos ver que nos últimos 30 anos nos tornámos numa nação tecnológica. E isto foi uma coisa que aconeteceu no final da década de 70, início de 80 e depois houve o big boom no inicio dos anos 90.

Outra razão pela qual estou otimista com as ligações entre Israel e Portugal na próxima década tem a ver com o facto de haver duas companhias aéreas [TAP e El AL] começarem a ter voos diretos entre Lisboa e Telavive. Com isto, vais ver os números de pessoas a crescer, não só de turistas israelitas, vais ver também muitas pessoas que trabalham em alta tecnologia. É muito mais confortável isto acontecer quando tens voos diretos. Há três anos, a United Airlines abriu uma ligação aérea entre São Francisco e Telavive. Acharam que iam ter dois ou três voos por semana, mas há voos todos os dias, sete dias por semana incluindo ao sábado, o dia em que a El Al não trabalha e que não tem voos diretos. E todos os voos diretos ficam cheios, isto é importante.

“As próximas guerras do mundo vão ser ciberguerras. Precisamos de nos proteger”

Vai ser um revolucionário para Portugal?
Tenho a certeza de que vai ser. Os ministros estão muito otimistas e enquanto ministro da ciência e tecnologia vou investir para juntar investigações aqui em Portugal. Acho que vão ver a mudança em um ou dois anos: 2019 e 2020 vão ser os anos da grande mudança. Perguntou sobre a economia, acho que os israelitas vão fazer muito bem à economia portuguesa, já estão a fazer. No ano passado, Portugal recebeu cerca de 110 mil turistas israelitas, mas acreditamos que tenham sido mais. Vamos encontrar uma forma muito muito positiva de colaborar com Israel. Isto é um novo começo não só nas relações diplomáticas entre os dois países, mas também a nível da ciência, tecnologia, robótica e espaço. Estou muito otimista e na próxima década vamos ver os resultados das sementes desta visita, sobretudo depois deste novo MOU com o ministro do Mar e a cooperação com o ministro da Ciência e Tecnologia. Estou certo de que vamos ver mais colaborações entre empresas israelitas e portuguesas e isto é apenas o inicio.

Tem muita experiência na área da comunicação social. A televisão está a mudar, acha que daqui a 20 anos ainda vamos ver televisão? 
A resposta é não. Não sei como é em Portugal, mas em Israel é possível ver os números das audiências dos programas mais importantes a cair. E não é só por causa da Netflix. Acho que o Facebook, o Twitter, o Instagram e os YouTubers também contribuem. Posso dar-vos o exemplo dos meus filhos de 15 e 13 anos, para eles a televisão é quase uma peça decorativa na sala. Vemos coisas como o noticiário das 20h e de vez em quando alguns filmes, mas acho que por todo o mundo é assim: está a mudar agora e isto faz parte do novo mundo. Ninguém vai poder parar isto. Lembro me que há 10 ou nove anos nem todos os israelitas tinham smartphones, só as pessoas mais ricas. Agora vês smartphones a toda a hora em todo o lado. É natural. É a mudança a acontecer.

"As notícias falsas são um grande desafio, mas não são robótica nem são um assunto digital. Infelizmente são os seres humanos que fazem as noticias falsas, usam tecnologia para fazê-las mas quem está por detrás disto? Os seres humanos, infelizmente, mas isto é filosofia"

E smartphones? Vamos ter daqui a 10 anos ou vamos ter outras coisas?
Ah, isto é uma pergunta mito interessante. Não sei, sei que os carros autonómos vão ser o big heat da próxima década por todo o mundo. Vai acontecer na segunda metade da próxima década. A cada minuto que passa há algo novo a acontecer no mundo.

Temos assistido a muitas polémicas por causa da proteção de dados. O que pode ser feito para proteger os consumidores?
É um trabalho que estamos a fazer a toda a hora com as nossas empresas de cibersegurança. Acho que, infelizmente, as próximas guerras do mundo vão ser ciberguerras. Precisamos de nos proteger e estamos a fazê-lo muito bem. Podemos ver os números de empresas de cibersegurança em Israel, nós queremos estas empresas em todo o lado no mundo, queremos que elas protejam as empresas e esse vai ser uma das principais coisas da próxima década.

Existe ainda outro desafio com as notícias falsas.
As notícias falsas são um grande desafio, mas não são robótica nem são um assunto digital. Infelizmente são os seres humanos que fazem as noticias falsas, usam tecnologia para fazê-las mas quem está por detrás disto? Os seres humanos, infelizmente, mas isto é filosofia.

Texto de Ana Pimentel, fotografia de João Porfírio.
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