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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Montenegro sem plano B e obrigado a ganhar as próximas legislativas

PSD dificilmente perdoaria Luís Montenegro por eventual derrota nas eleições. Governar ficando em segundo lugar não é hipótese para o primeiro-ministro. Passos poderia voltar, mas sempre indo a votos

Uma jogada de altíssimo risco. Cercado por todos os lados, Luís Montenegro apostou tudo aquilo que tanto custou ao PSD conquistar. Se o país for de factos a votos (só resta a decisão formal de Marcelo Rebelo de Sousa), os sociais-democratas enfrentarão essas legislativas sem a garantia de que sairão dela vencedores — as últimas sondagens deixaram muita gente nervosa no partido. Os conselheiros mais próximos do primeiro-ministro ainda acreditam convictamente na vitória e há quem vá falando abertamente numa aparentemente improvável maioria absoluta. Mas, quando confrontados com o cenário da derrota, são mais as dúvidas do que as certezas. A confirmar-se o desaire, o partido entraria numa espécie de quinta dimensão.

O cenário não é assim tão exótico. Aliás, foi colocado à exaustão durante a pré-campanha eleitoral das últimas legislativas. Se ficasse em segundo, e existindo uma maioria de deputados à direita, o que faria exatamente Luís Montenegro? O então candidato a primeiro-ministro resolveu de pronto a questão e impediu que ela contaminasse a campanha da Aliança Democrática. E fê-lo através de duas garantias: nunca governaria se ficasse em segundo lugar e o “não é não” a André Ventura era mesmo para ser levado a sério. Assim foi. Montenegro ganhou e o líder do Chega ficou no banco da oposição.

Agora, perante a iminência de novas eleições, os seus mais próximos garantem taxativamente que Luís Montenegro jamais governará se ficar em segundo lugar. Muito menos se colocará nas mãos de André Ventura — sobretudo depois de um ano de legislatura em que, aos olhos do PSD, naturalmente, se confirmaram as piores expectativas sobre o líder do Chega. Não há margem para qualquer entendimento com André Ventura.

Na segunda-feira, em entrevista à TVI, Luís Montenegro foi, a esse propósito, cristalino. “Há uma coisa que prezo muito no exercício desta função. Disse-o na campanha eleitoral e em todos os dias do meu mandato: só vale a pena estar aqui com legitimidade da vontade popular. Por isso fui o único candidato na última campanha que disse olhos nos olhos aos portugueses que só seria primeiro-ministro se vencesse as eleições. E assim será novamente“, afirmou o líder social-democrata.

Em entrevista ao Observador, tanto Paulo Rangel como Manuel Castro Almeida, ministro dos Negócios Estrangeiros e ministro da Coesão Territorial, respetivamente, garantiram isso mesmo: se Pedro Nuno Santos vencer as próximas eleições legislativas, o PSD deve permitir ao líder socialista governar, tal como o PS permitiu a Montenegro, nomeadamente através da aprovação do Programa de Governo e do primeiro Orçamento do Estado — logo, uma ‘geringonça’ à direita estaria sempre completamente posta de parte.

“As pessoas não podem passar a vida em eleições. E os países têm que se governar e tem de haver esse sentido de responsabilidade. Isso vale para todos, não tenho dúvidas”, defendeu Paulo Rangel, quando confrontado com a hipótese de o PSD perder as próximas eleições legislativas e de ter de viabilizar um Programa de Governo de Pedro Nuno Santos. “Todos os precedentes vão no sentido de que, uma vez consultado o povo português e uma vez que haja uma solução, como aconteceu na última eleição, que haja uma viabilização da solução governativa que for mais clara”, acrescentou aquele que é, formalmente, o número dois do Governo.

“Tenho a tese de que o próximo Programa de Governo deve ser viabilizado pelo partido que não ganhar. Se o resultado for uma uma vitória do PS, acho que o PSD deve viabilizar o Programa de Governo do PS. Da mesma forma que aconteceu quando o PSD ganhou as eleições. Deve haver aqui reciprocidade. É o que faz sentido para o funcionamento das instituições. Caso contrário, estaríamos encostados contra à parede, sem nenhuma solução alternativa”, argumentou Manuel Castro Almeida. Mais claro não poderia ser: enquanto for Montenegro a mandar no PSD, governa quem vence eleições e o Chega está fora do cardápio de alianças.

O Observador sabe que Pedro Passos Coelho jamais deixará o PSD em dificuldades. Enquanto (ou quando) o partido precisar dele, não faltará à chamada. Mas será o antigo primeiro-ministro a determinar os termos em que o faz — se o vier de facto a fazer. E é pouco provável (para não dizer impossível) que Pedro Passos Coelho aceitasse ser primeiro-ministro sem a legitimidade do voto dos eleitores.

Montenegro retirará “ilações” em caso de derrota

A questão que se deve colocar, portanto, é outra: que condições teria Luís Montenegro para se manter à frente do partido caso perdesse as próximas eleições legislativas. Mesmo entre os seus indefetíveis as respostas não são muito animadoras — por esta altura, é difícil imaginar um cenário em que o PSD perdoasse a Montenegro ter desperdiçado o regresso do partido ao poder um ano depois de o ter conseguido. Aqueles que não nutrem grande simpatia pelo atual primeiro-ministro nem sequer hesitam: “É óbvio que, se perder, não tem hipóteses de ficar. Essa questão nem se coloca”, corta um influente senador social-democrata.

Esta terça-feira, em entrevista à CNN Portugal, Hugo Soares sugeriu-o de forma clara: “Luís Montenegro decidirá as condições que tem. Creio que o conheço o suficiente para saber que é um homem de consciência e que será capaz de tirar as ilações de um resultado eleitoral”, afirmou o braço-direito de Montenegro, líder parlamentar e secretário-geral do PSD, numa indicação clara de que o presidente do partido sairá caso perca as eleições. Portanto, para muitos no PSD, só se colocam duas alternativas em caso de derrota nas próximas legislativas: ou Montenegro sai de cena pelo próprio pé ou é empurrado pelas estruturas do partido.

As pressões para que isso aconteçam, de resto, serão muitas. Uma eventual derrota do PSD nas próximas eleições legislativas devolverá o partido a um divã onde esteve deitado durante a longa travessia do partido pelo deserto da oposição: juntar ou não forças ao Chega, aproveitar ou não uma maioria de deputados à direita, pagar ou não com uma ‘geringonça de direita‘ a ‘geringonça de esquerda’ que impediu a Pedro Passos Coelho governar em 2015. É verdade que Montenegro — Hugo Soares, Rangel, Castro Almeida e outros — defendem que esse não deve ser o caminho; mas nem toda a gente pensa o mesmo no partido.

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E esta hipótese pode, de facto, concretizar-se. Olhando para todas as sondagens que se foram realizando ao longo do último ano, apesar da ligeira vantagem de Luís Montenegro sobre Pedro Nuno Santos, foi-se registando quase sempre um empate técnico entre a AD e o PS. A mais recente sondagem da TVI/CNN, a primeira a medir o impacto desta crise, confirmou a grande erosão sofrida por Montenegro e a aproximação entre as duas forças. Mas há algo que não muda: com o Chega, a direita continuaria a ser maioritária no Parlamento.

“Há uma coisa que prezo muito no exercício desta função. Disse-o na campanha eleitoral e em todos os dias do meu mandato: só vale a pena estar com aqui com legitimidade da vontade popular. Por isso fui o único candidato na última campanha que disse olhos nos olhos aos portugueses que só seria primeiro-ministro se vencesse as eleições. E assim será novamente"
Luís Montenegro, em entrevista à TVI

Passos visto como solução — mas com condições

Luís Montenegro, é sabido, está indisponível para capitanear essa aliança. Mas há quem, no partido, nunca tenha enjeitado essa solução, vão lembrando alguns sociais-democratas ouvidos pelo Observador. E é nessa equação que entra o homem de quem se fala sempre quando o PSD espirra: Pedro Passos Coelho. Aliás, assim que o espectro da crise se abateu sobre Montenegro, o nome do antigo primeiro-ministro começou a circular dentro e fora do partido como parte da solução para que se evitasse uma crise eleitoral — admitindo que Montenegro caía, Marcelo poderia sempre ouvir os partidos e perceber se queriam ou não indicar outro primeiro-ministro.

Essa hipótese, no entanto, foi sempre meramente académica — nem Marcelo Rebelo de Sousa pareceu levar a sério essa solução mais criativa (não o fez com António Costa — Mário Centeno), nem os três principais partidos mostraram disponibilidade para o aceitar, nem, e não menos importante, Pedro Passos Coelho estava disponível para tal coisa. Aliás, o  antigo primeiro-ministro fez saber a todos os que conspiravam em nome dele para que não contassem com isso: está “quieto” e assim pretende continuar.

Agora, as circunstâncias podem mudar, claro. Sobretudo se o Montenegro não conseguir revalidar o título de primeiro-ministro em maio, deixando o partido previsivelmente em frangalhos. Os principais quadros do PSD foram integrados no atual Governo e estão todos comprometidos com a estratégia de Montenegro. Carlos Moedas pôs-se ao lado do líder social-democrata e afastou qualquer ambição de o substituir — este não é o seu tempo. Jorge Moreira da Silva, o único a opor-se abertamente a Montenegro, está comprometido com a ONU (ainda que tenha feito prova de vida na semana passada, com críticas duras ao primeiro-ministro). Restaria, pois, Pedro Passos Coelho.

O Observador sabe que Pedro Passos Coelho jamais deixará o PSD em dificuldades. Enquanto (ou quando) o partido precisar dele, não faltará à chamada. Mas será o antigo primeiro-ministro a determinar os termos em que o faz — se o vier de facto a fazer. E é pouco provável (para não dizer impossível) que Pedro Passos Coelho aceitasse ser primeiro-ministro sem a legitimidade do voto dos eleitores. Qualquer regresso ao poder, dependerá sempre de uma corrida às urnas, pelo que Passos só seria solução depois de enfrentar Pedro Nuno Santos em eleições, num outro ciclo político, portanto.

A possibilidade é de tal forma real que vai atormentando Marcelo Rebelo de Sousa. Segundo o Expresso, o Presidente da República já sentiu as movimentações no terreno e sabe que, em caso de derrota de Montenegro, o PSD olhará de novo para Pedro Passo Coelho. Acrescenta o semanário que Marcelo teme que esse regresso seja o fim da política de “não é não” a André Ventura, mas é algo que já não poderá controlar — a partir de setembro e até ao final do seu mandato, março de 2026, não poderá muito mais do que assistir ao desenrolar de acontecimentos; Passos só seria candidato a primeiro-ministro muito depois disso.

Mas Marcelo tem razão num ponto: o antigo primeiro-ministro sempre considerou um erro de palmatória que se traçassem cordões sanitários em torno do Chega por entender que é uma cedência à agenda do PS e dos partidos à esquerda do PS, uma concessão que limita as hipóteses do PSD de se consolidar no poder e que pode acabar por alienar, inevitavelmente, eleitores essenciais. Em grande medida, foi esta diferença de visões estratégicas e uma série de troca de recados mais e menos discretos que motivaram o corte de relações entre ambos.

Até Luís Marques Mendes vai fazendo contas à vida e ao apoio do partido à sua candidatura, como contava aqui o Observador. “Mesmo que Luís Montenegro saísse, que não é provável, qualquer um dos dois possíveis sucessores, Carlos Moedas ou Passos Coelho, não levantariam problemas”, dizia há dias fonte da candidatura do antigo líder social-democrata. Tudo somado, ninguém é indiferente ao impacto tremendo que uma derrota de Luís Montenegro teria nos planos que se foram desenhando ao longo dos últimos meses.

Antes da queda de António Costa, em novembro de 2023, muitos apostavam que uma eventual derrota nas europeias ditaria o fim de Luís Montenegro e o regresso de Pedro Passos Coelho. Acabou por não acontecer porque Costa caiu com estrondo. Passos aceitou aparecer na campanha das legislativas, mas já era evidente a rutura entre os dois. Daí para cá, o antigo primeiro-ministro pôs-se fora de qualquer jogada e só foi notícia verdadeiramente uma vez.

Em dezembro, de 2024, mesmo semanário Expresso revelou parte de uma intervenção de Passos (que se julgava privada) em que o ex-presidente do PSD lamentava a “falta de coragem” dos atuais líderes. A notícia não teve o impacto que teria noutras circunstâncias porque as coisas iam correndo bem a Montenegro. Depois disso, foi envolvido mais uma vez na luta pelas presidenciais e, mais uma vez, disse que não dava para esse peditório — só voltará à política (se voltar) para ser candidato a primeiro-ministro. Montenegro já conseguiu, por uma vez, evitar esse regresso. Está nas mãos dele conseguir fazê-lo pela segunda vez.

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