Rui Moreira continua a ser pressionado a entrar de facto na corrida presidencial. Desde que anunciou a disponibilidade para refletir sobre uma possível candidatura, a 23 de julho, o ainda presidente da Câmara do Porto tem recebido muitos incentivos para entrar na luta pela sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa, em particular daqueles que sempre o apoiaram financeiramente nas três candidaturas independentes à segunda autarquia mais importante do país. Esse conforto — ninguém quer ficar com dívidas milionárias para pagar — pode ser determinante na ponderação que Moreira vai fazendo.
Para já, no entanto, o presidente da Câmara do Porto continua em processo de reflexão e não é certo o que fará em setembro, quando for altura de desfazer o tabu. Antes de tomar qualquer decisão, apurou o Observador, Rui Moreira quererá ter na mão sondagens que lhe permitam ter um retrato aproximado da luta presidencial — estudos de opinião que deverão chegar em breve a quem está a ajudar o autarca nesta protocandidatura. Naturalmente, não será indiferente para Moreira abraçar este desafio com sondagens minimais ou com perspetivas mais animadoras.
Porque a questão para Moreira — e para todos os outros candidatos — é passar ou não à segunda volta. Admitindo que Henrique Gouveia e Melo se mantém como favorito e vence de facto a primeira volta, fica por saber quem estará em condições de o enfrentar no segundo turno. Nesse cenário, a multiplicação de candidaturas torna tudo mais imprevisível. Sendo que Rui Moreira tem um teórico trunfo: é uma figura particularmente apreciada e agregadora na região Norte do país, o que lhe pode dar uma vantagem sobre os demais candidatos na primeira volta.
Depois, e segundo as contas que se vão fazendo no núcleo de conselheiros de Rui Moreira, existe a convicção de que o autarca goza de uma transversalidade eleitoral interessante: embora se enquadre politicamente no espaço do centro-direita, colhe também a simpatia dos eleitores mais liberais (economia), mais conservadores (agenda para a segurança) e de uma parte da esquerda (pelo papel que teve na dinamização cultural da cidade do Porto). Ora, tudo somado, mesmo um resultado modesto na primeira volta (na casa dos dois dígitos, por exemplo) pode ser o suficiente para passar a um segundo turno — e aí tudo pode mudar de figura.
Tal como explicava o Observador, os potenciais adversários de Moreira não acreditam que o autarca entre de facto na corrida e vão desvalorizando aquilo que dizem ser um bluff inconsequente. Mas até haver dados aproximados sobre as suas reais hipóteses, Rui Moreira não se retira do jogo. E neste momento não é possível medir de forma aproximada o grau de aceitação desta eventual candidatura porque o nome do autarca deixou de ser testado nas habituais sondagens para as presidenciais há muito tempo.
De todo em todo, é para todos evidente que a entrada em jogo de João Cotrim Figueiredo prejudica as aspirações de Moreira e que a indisponibilidade de André Ventura para apoiar o autarca — algo que o Observador noticiou na última semana — tornam ainda mais exíguo o espaço político do presidente da Câmara do Porto. Mas tudo isto é no papel, claro. Em primeiro lugar, ninguém é dono dos votos e Rui Moreira acredita que pode, se avançar, e roubar alguns pózinhos a Gouveia e Melo, captar aqueles que, no PSD e no CDS, não gostam Marques Mendes, segurar alguns eleitores do Chega e roubar outros tantos a Cotrim.
Em segundo lugar, nem mesmo os apoiantes de Luís Marques Mendes e de Henrique Gouveia e Melo se entendem em relação ao impacto desta possível candidatura: os primeiros acreditam que Moreira atinge o almirante; os segundos entendem que o maior prejudicado pode vir a ser o antigo comentador. Ou seja: existem objetivas dificuldades por parte das demais candidaturas para perceber o potencial eleitoral do ainda presidente da Câmara do Porto.
De resto, esta disponibilidade manifestada por Moreira acabou por apanhar em contrapé também alguns dos apoiantes do autarca. Ainda em abril, numa entrevista à Antena 1, o próprio tinha confessado não se ver “talhado” para o cargo de Presidente da República e garantiu não ter qualquer intenção de se envolver. “Não é alguma coisa para a qual eu sequer esteja talhado. Acho que o cargo de Presidente da República já tem bastantes candidatos, incluindo pessoas com grande dimensão”, dizia então Moreira.
O facto de existir alguma indefinição nas sondagens, com uma descida evidente de Gouveia e Melo nas intenções de voto, contribuiu para que Moreira mudasse de ideias — ou, pelo menos, o fizesse repensar a sua assumida indisponibilidade. A teórica fragmentação de votos à direita pode deixar tudo ainda mais em aberto e torna qualquer candidatura mais apetecível.
Ao mesmo tempo, o envolvimento de Rui Rio na campanha do almirante é visto como um ativo tóxico que pode prejudicar aquela candidatura — apesar de considerar Gouveia e Melo, é conhecida a inimizade entre Moreira e Rio. Onde um estiver envolvido, o outro será oposição. Tudo somado, ainda assim, ninguém arrisca jurar a pés juntos que o autarca vai mesmo avançar. Até ver, os sinais são positivos. Mas ainda falta o primeiro teste de algodão: as sondagens.
Presidenciais. Adversários desvalorizam bluff de Rui Moreira
[Um homem desobedece às ordens dos terroristas e da polícia e entra sozinho na embaixada. Momentos depois, ouve-se uma enorme explosão. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto a embaixada turca em Lisboa e uma execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o quarto episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui]