A disponibilidade sinalizada por Rui Moreira para entrar na corrida presidencial está a mexer pouco com as contas que se vão fazendo à direita. Por um único motivo: ninguém acredita verdadeiramente que o ainda presidente da Câmara Municipal do Porto vá de facto avançar com uma candidatura. Poucos arriscam uma justificação concreta para o porquê de Moreira ter ameaçado agora ir a jogo, mas existe a convicção generalizada de que se trata de um tabu de curta duração (o próprio prometeu dizer ‘sim ou sopas’ logo em setembro). E isso liberta os potenciais rivais de grandes cálculos ou temores.
Foi isso que foram dizendo ao Observador, de uma forma ou de outra, figuras próximas de Luís Marques Mendes, João Cotrim Figueiredo ou de André Ventura, que, não devendo ser candidato a Belém, terá seguramente uma palavra a dizer nas próximas eleições presidenciais. Também Henrique Gouveia e Melo, tido como o grande favorito a vencer as próximas eleições presidenciais, acabou por desvalorizar a entrada em cena de Rui Moreira (e de Cotrim Figueiredo), dizendo apenas que todos os candidatos são bem-vindos.
Em suma: Rui Moreira está a fazer bluff, lá se vai dizendo nas várias candidaturas que disputam espaço da direita. Aliás, há mesmo quem recorde o que o próprio Moreira disse ainda em abril, numa entrevista à Antena 1, onde confessava não se ver “talhado” para o cargo e não ter qualquer intenção de se envolver. “Não é alguma coisa para a qual eu sequer esteja talhado. Acho que o cargo de Presidente da República já tem bastantes candidatos, incluindo pessoas com grande dimensão”, dizia então Moreira.
Ora, há três meses, Marques Mendes e Gouveia e Melo já tinham dado todos os sinais de que iriam ser candidatos. Também ninguém acreditava que André Ventura (por ele ou por interposta pessoa) ficasse de fora da discussão presidencial. Portanto, o espaço político onde Moreira se move já estava ocupado no momento em que o autarca disse ‘nem que Crista desça à Terra’.
Apesar de tudo, daí para cá, houve dois grandes factos novos na política nacional: a declaração de João Cotrim Figueiredo sobre estar disponível para ser candidato a Belém; e alguma indefinição nas sondagens, com a descida evidente de Gouveia e Melo nas intenções de voto. A teórica fragmentação de votos à direita pode deixar tudo ainda mais em aberto e torna qualquer candidatura — sobretudo de alguém com a notoriedade de Moreira — mais apetecível. Sobretudo porque as próximas presidenciais serão, ao que tudo indica, decididas à segunda volta.
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Mas nem estes argumentos convencem os potenciais rivais do presidente da Câmara do Porto e nem isso justifica uma mudança de opinião tão profunda de abril até aqui. Aposta: tudo não deverá passar de um último ato de um autarca em fim de ciclo a querer manter-se na crista da onda. No limite, e mesmo que Rui Moreira quisesse de facto avançar, contrapõem as mesmas fontes, seria sempre uma candidatura a aparecer relativamente tarde, com poucas hipóteses de organizar uma estrutura e de reunir os apoios necessários — no espaço do centro e centro-direita, o habitat natural de Moreira, as personalidades mais destacadas já se foram distribuindo pelas candidaturas de Henrique Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes e até de António José Seguro.
No mesmo sentido, e admitindo que Moreira até avança, isso não altera as contas de Mendes, Ventura e Cotrim. Entre os homens do antigo líder social-democrata existe a convicção de que Moreira beliscaria a candidatura de Gouveia e Melo — e não a de Mendes. Os mais próximos de Ventura descartam por completo a hipótese de apoiar Moreira — mesmo depois de Moreira ter tido o cuidado de dizer que os eleitores do Chega “não têm lepra” — porque olham para esta protocandidatura como um não-assunto. E Cotrim Figueiredo, figura próxima do autarca, não se vai deixar condicionar em função desse tabu: Moreira é uma variável irrelevante para a equação do eurodeputado liberal.
Excluída a candidatura de Moreira, o espaço da direita deverá ser disputado entre Gouveia e Melo, Mendes, Cotrim e o candidato apoiado pelo Chega — que pode ou não ser André Ventura, sendo que ainda não descartou a hipótese, mas tem jurado a pés juntos que está empenhadíssimo em ser líder da oposição com a ambição de se sentar na cadeira de primeiro-ministro. Mesmo a hipótese de Paulo Portas entrar na corrida — o antigo vice-primeiro-ministro nunca desfez o tabu — é vista neste momento como meramente académica.
A declaração de António Lobo Xavier a favor de Mendes (ele que é próximo de Portas) está a ser interpretado com um sinal evidente de que o CDS já não tem margem para apoiar outra candidatura que não a de Marques Mendes. A ele se juntaram esta quinta-feira Diogo Feio e Teresa Caeiro. Resta saber o que faria Melo se Moreira de facto avançasse: o CDS esteve sempre ao lado do ainda presidente da Câmara do Porto.