Na aldeia mais independentista da Catalunha, onde os (poucos) unionistas tiram laços amarelos em segredo /premium

Em L'Esquirol, a unanimidade em torno da independência lembra a Coreia do Norte: 97,4%. "Está no nosso ADN", diz o autarca. Mas também há unionistas — e alguém andou a tirar símbolos independentistas.

Reportagem em L’Esquirol, Catalunha, Espanha

O jogo da petanca está complicado para a equipa de Miguel Banyeza. Os adversários fizeram tudo o que menos convinha a este homem de 81 anos e aos seus companheiros: um a um, os adversários conseguiram mandar bolas em torno do bolig. Em termos futebolísticos, é um 3-0 que está ali a acontecer — e só resta o lançamento de Miguel para poder dar a volta àquele resultado calamitoso que se verifica no campo de petanca em L’Esquirol, uma aldeia catalã com pouco mais de 2 mil habitantes a 90 quilómetros de Barcelona.

Miguel avança para dentro de um círculo desenhado na terra, flete os joelhos, puxa a mão direita para trás e enfim envia a bola metálica em direção ao objetivo. Vai com força e, quando lá chega, o resultado é fenomenal: afasta duas bolas dos adversários, a sua fica mais perto do que qualquer outra e logo a seguir ficam duas que também eram da sua equipa. Mesmo quem não perceba nada de petanca entenderia que estava ali um golpe de belo efeito, tal foi a maneira como foi festejado pelos seus companheiros de equipa e reconhecido com fair-play pelos adversários.

“Molt bé, molt bé!”, gritou um. “Hem guanyat!”, festejou outro. E um adversário, surpreendido, deixou soltar um: “Quins collons, Miguel!”.

(João de Almeida Dias / Observador)

João de Almeida Dias / Observador

A tudo isto, Miguel responde com um sorriso tímido e levanta a mão em agradecimento, fazendo pouco caso do seu feito. Depois, avança para o marcador do resultado, uma tábua de madeira pintada de azul, com 15 furos furos de cada lado e três bandeiras ao meio: a do FC Barcelona, a de L’Esquirol e a estelada, a bandeira que simboliza o independentismo catalão. Quando acaba de marcar o resultado, aponta para a bandeira independentista e diz-nos: “Olhe só, tão bonita que é”.

À volta, ninguém discorda — e isso não é surpresa nenhuma. A independência da Catalunha é praticamente uma causa unânime em L’Esquirol, o município que é conhecido por ser o mais independentista de toda a região. E por isso é o único assunto que consegue, por momentos, interromper este jogo da petanca.

O marcador do jogo da petanca, com a bandeira independentista, o símbolo do FC Barcelona e o escudo de L'Esquirol (João de Almeida Dias / Observador)

“Aqui toda a gente é independentista, já estamos todos fartos de Espanha e queremos sair imediatamente”, resume Miguel. “Não se percebe logo?”, diz, a rir, e apontando em volta para os símbolos independentistas que há à volta daquele recinto de petanca: centenas de laços amarelos (utilizados para homenagear os políticos catalães que estão presos), várias bandeiras independentistas e nenhuma que nos faça lembrar que, afinal, estamos em Espanha.

Tudo isto é corroborado pelos resultados das votações mais recentes em L’Esquirol. No referendo independentista de 1 de outubro de 2017 — que não foi reconhecido pela justiça catalã e espanhola e por isso não contou com as habituais garantias de bom funcionamento — a participação registada em L’Esquirol foi de 93,4% e, entre estes, 97,4% votaram a favor da independência. E nas eleições gerais de Espanha deste ano, a 28 de abril, a participação foi de 84,71% e os votos nos três partidos independentistas foram até aos 85,35%.

Nas eleições deste domingo, as quartas legislativas em Espanha num espaço de apenas quatro anos e as segundas desde abril, o mais certo é que haja um resultado desta ordem. No fundo, devem repetir-se números que pela sua quase unanimidade mais se assemelham a países como a Guiné Equatorial ou a Coreia do Norte — mas com a importante ressalva de que, aqui, os votos são mesmo contados.

"Sempre fomos economicamente independentes. As pessoas não precisavam de sair daqui para sobreviver, aprenderam a viver com o que tinham cá e arranjaram sempre maneira de criar o que não havia. Por isso é que as pessoas aqui estão tão consciencializadas de que não podem de depender de ninguém. Nem de Barcelona e muito menos de Espanha.”
Àlex Montanyà, presidente da Câmara Municipal de L'Esquirol

“Sermos independentistas está no nosso ADN”, explica Àlex Montanyà, presidente da Câmara Municipal de L’Esquirol. Militante da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), foi eleito em 2015 com 61,58% dos votos e maioria absoluta, feito que repetiu este ano, com 74,23%. Tanto numas eleições como noutras, os restantes votos foram para o Juntos Pela Catalunha (JPC), também independentista. Ou seja, nas eleições autárquicas, os partidos unionistas nem tentam. “Se calhar porque sabem que não vale a pena”, diz Àlex Montanyà a rir, sentado na esplanada de um café da aldeia. O frio que desce da montanha leva a que todas as outras cadeiras estejam vazias.

L’Esquirol conta com pouco mais de 2 mil habitantes e é um sítio isolado. Apesar de distar apenas 90 quilómetros de Barcelona, é preciso cerca de 1 hora e meia para fazer aquele caminho montanhoso. Esse isolamento, garante o autarca de L’Esquirol, levou a que esta aldeia tivesse de procurar a sua própria autonomia, fomentando atividades como a agricultura, a criação de gado, o artesanato e também o têxtil.

Àlex Montanyà, 42 anos, é presidente da Câmara Municipal de L'Esquirol desde 2015 (João de Almeida Dias / Observador)

“Sempre fomos economicamente independentes. As pessoas não precisavam de sair daqui para sobreviver, aprenderam a viver com o que tinham cá e arranjaram sempre maneira de criar o que não havia”, diz, orgulhoso, Àlex Montanyà. “Por isso é que as pessoas aqui estão tão consciencializadas de que não podem de depender de ninguém. Nem de Barcelona e muito menos de Espanha.”

Àlex Montanyà tem 42 anos e, apesar de não ter nascido em L’Esquirol, define-se como esquirolenc. Tanto o avô como o pai nasceram nesta pequena aldeia, onde foram ambos médicos. Àlex nasceu em Vic, a cidade que fica mais perto de L’Esquirol, e estudou Administração Pública e Empresarial em Barcelona. Dali, lançou-se para o resto do mundo: viveu no México, no Alasca e também em França. “Fiz de tudo”, diz, enumerando os empregos que foi tendo. “Cozinheiro, credit controller, representante comercial… Sei lá, tantas coisas”, diz. Ao fim de tudo isto, voltou para a Catalunha e fixou-se em L’Esquirol. “Já me estava a fazer falta”, recorda.

A passagem de Àlex Montanyà por L’Esquirol coincide com o momento de maior fervor independentista naquela aldeia, à semelhança do que se passa, noutras proporções, pelo resto da Catalunha. Foi no seu mandato que foi colocada uma placa a dizer “Município pela Independência” à entrada da aldeia (entretanto retirada, depois de a placa ter motivado uma multa), tal como se pintou um enorme mural independentista com a expressão soberanista “Visca la Terra” (“Viva a Terra”, em catalão). Além disso, no edifício da câmara municipal, além de uma enorme tarja a dizer “Liberdade aos Presos Políticos”, há apenas três bandeiras: a que tem o escudo da aldeia, a senyera catalã e a da União Europeia. “A de Espanha pode ser obrigatória, mas não me representa”, diz.

Cartaz da ERC, o partido mais votado em L'Esquirol, com o preso Oriol Junqueras (João de Almeida Dias / Observador)

Àlex Montanyà não sabe responder quando se tornou independentista, porque acredita que já foi algo que nasceu com ele. “Não me conheço antes de isso, porque o tempo em que eu não fui independentista simplesmente não houve”, diz.

Na véspera do dia em que Àlex Montanyà recebeu o Observador em L’Esquirol, os líderes dos cinco principais partidos de Espanha protagonizaram o único debate antes destas eleições. O autarca independentista diz que só viu “cinco minutos, se calhar nem isso”.

Porquê?

“Ninguém ali me representava”, diz. “Hoje em dia o que pedem dos políticos é que sejam inteligentes, bonitos e simpáticos. E o que é que nos mostram a partir do Governo espanhol? Que são política da velha guarda, do pós-franquismo. Agora até andam por aí a aparecer os netos do franquismo”, atira.

“Porra, deixem-nos mas é votar!”

Sobre Espanha, diz que Àlex Montanyà “não é como a França, Bélgica ou Reino Unido”, mas antes “um Estado comum perfil autoritário que é difícil de compreender”. A maior incompreensão de Àlex Montanyà tem a ver com a rejeição por parte dos diferentes governos centrais de Espanha à possibilidade de haver um referendo à independência — postura que partilham todos os principais partidos de âmbito nacional de Espanha, com a exceção do Unidas Podemos, de Pablo Iglesias.

Nós queremos administrar as nossas escolas e a nossa saúde de uma maneira mais consciente, além de que queremos ter controlo do nosso património cultural, das nossas costas, das nossas montanhas. Na Catalunha há muita inteligência, temos das melhores universidades da Europa e grandes empresas, grandes multinacionais”, diz. “E, no meio disto tudo, porque é que não podemos sair? Porque é que não podemos escolher o nosso futuro?”, lança o autarca independentista.

"Que me perdoem os andaluzes que ouvirem isto, mas eles não querem trabalhar e ficam sempre com o nosso dinheiro, sempre, sempre, sempre. Eu até já ouvi dizer que lá na Andaluzia eles chegam a trabalhar só dois meses por ano, na altura da apanha da azeitona, e depois param. Mas recebem todos os meses!”
Francisco Masoliver, habitante de L'Esquirol

É essa pergunta também que faz Miguel no campo da petanca. “Porque é que aqueles espanhóis não nos deixam votar? Eu só vejo uma razão: têm medo de ficarem sem nós”, diz. E continua: “E nós estamos cheios de vontade de sair, porque a nós não nos dão nada. As grandes obras públicas nunca chegam à Catalunha, o dinheiro vai todo para as outras partes”.

Quando fala de outras partes, ao seu lado, outro jogador de petanca, Francisco Masoliver. “Que me perdoem os andaluzes que ouvirem isto, mas eles não querem trabalhar e ficam sempre com o nosso dinheiro, sempre, sempre, sempre”, diz. “Eu até já ouvi dizer que lá na Andaluzia eles chegam a trabalhar só dois meses por ano, na altura da apanha da azeitona e depois param. Mas recebem todos os meses!”

Francisco vai atirando para o ar percentagens que vão variando conforme a situação, mas que reproduzem sempre a mesma ideia: a Catalunha contribui muito mais para o Estado espanhol do que as outras regiões e, em troca, recebe muito menos do que as restantes.

“São todos iguais”, diz dos partidos que foram a debate na segunda-feira. Para Francisco, não há diferença entre o PSOE e o PP. A exumação de Franco, figura que para Francisco é “abominável”, não é atenuante para dar sequer um pouco de crédito aos socialistas. A razão volta ao dinheiro: “A exumação do Franco foi paga com o dinheiro dos catalães. O helicóptero que o tirou do Vale dos Caídos foi pago por nós. Pim, pim, pim, é só dinheiro a sair da Catalunha!”.

Há uns anos, Francisco era federalista. Mas, depois, com o chumbo do Estatuto da Autonomia da Catalunha em 2010 pelo Tribunal Constitucional (após iniciativa do PP, que juntou 4 milhões de assinaturas a favor da sua anulação), que deitou por terra várias medidas federalistas, Francisco tornou-se independentista. “Eu e muitos mais, fui eu e a Catalunha toda!”, diz.

"A exumação do Franco foi paga com o dinheiro dos catalães. O helicóptero que o tirou do Vale dos Caídos foi pago por nós. Pim, pim, pim, é só dinheiro a sair da Catalunha!"
Francisco Masoliver, habitante de L'Esquirol

Toda, toda, nem por isso. De acordo com a última sondagem do Centro de Estudos de Opinião da Generalitat, publicada em julho deste ano, são 44% os catalães que querem independência e 48,3% os que preferem continuar em Espanha. Porém, quando apresentados com mais opções, como o federalismo, apenas 34,5% continuam a querer a independência — a maior fatia, é certo, mas pouco mais de um terço.

“Se não for toda, então é 60%, 70%, eu sei lá”, responde Francisco. “Porra, deixem-nos mas é votar e depois logo fazemos contas!”

O referendo (legal) que devolveu o nome a L’Esquirol

A 1 de outubro de 2017, enquanto o referendo catalão era marcado por cargas policiais em várias partes da Catalunha, com destaque para Barcelona, o ambiente foi bem diferente em L’Esquirol.

Miguel ri-se às gargalhadas quando se lembra aquele dia. “Só cá tínhamos dois Mossos”, diz, referindo-se aos Mossos d’Esquadra, a polícia catalã. “Eles só se riam, não fizeram nada, não impediram que ninguém votasse. O que é que eles haviam de fazer?”

Porém, antes desse referendo, houve outro que marcou a vida de L’Esquirol: o que determinou a mudança do nome da aldeia. Estima-se que L’Esquirol (que significa literalmente “O Esquilo”) tenha sido o nome desta aldeia desde o século XIV ou XV, tudo porque aqui havia uma estalagem gerida por uma família que era Esquirol de apelido.

À entrada de L'Esquirol, já se podem ver os laços amarelos que marcam a paisagem da aldeia (João de Almeida Dias / Observador)

O nome durou até 1734, duas décadas depois de a Catalunha ter saído do reino de Aragão e ter passado a fazer parte do Reino de Espanha, como consequência da Guerra da Sucessão. Nessa altura, numa entre várias iniciativas da coroa espanhola de apagar os nomes catalães às localidades, o nome oficial da aldeia mudou radicalmente. Aí, passou a ser Santa María de Corcó, por força de a paróquia com o mesmo nome se ter mudado então para aquela localidade.

O nome Santa María de Corcó ficou e foi ficando até que, em plena Guerra Civil, e quando ainda governava a Segunda República na Catalunha, o nome L’Esquirol foi oficialmente recuperado em 1937. Mas logo foi apagado novamente da oficialidade quando, em 1939, os nacionalistas ganharam a guerra e Franco passou a governar Espanha.

Em 2014, após um referendo municipal, o nome L'Esquirol foi resposto, depois de ter sido mudado primeiro em 1734 e depois no início do franquismo. 

Em março de 2014, os esquirolencs foram chamados às urnas para um referendo municipal (este, sim, sem oposição dos tribunais) para decidir se o nome oficial da aldeia deveria continuar a ser Santa María de Corcó ou se devia ser reposto o ancestral L’Esquirol. A mudança de nome para L’Esquirol venceu com 82,9% dos votos, ao passo que 15,1% quiseram manter Santa María de Corcó. Mas, por só ter participado 42% do eleitorado (aquém dos 50% fixados como limiar mínimo para o referendo ser vinculativo), o nome não foi imediatamente alterado — mas não tardaria a sê-lo. Três semanas depois do referendo, a Assembleia Municipal decidiu, por maioria absoluta, mudar o nome para L’Esquirol.

“Foi um dia muito feliz”, diz Miguel. “Tínhamos um nome franquista, que ninguém aqui respeitava, e agora já temos um nome catalão, um nome que é nosso.”

Isso mesmo gostariam de fazer Miguel e Francisco com os seus nomes, que foram registados na versão castelhana e não catalã. “No tempo do franquismo era impensável que me chamassem Miquel, isso é que era bom…”, lamenta Miguel. E Francisco, que gostava de ser Francesc, lamenta também o facto de não saber escrever catalão apesar de ser praticamente a única língua que fala. “Na escola nem dizíamos uma palavra em catalão que fosse, portanto nunca aprendemos a escrever na nossa língua principal”, diz. “Só aprendíamos castelhano, mais nada.”

Os unionistas andam aí e levaram laços e retratos dos presos

Quando se pergunta por unionistas na aldeia mais independentista da Catalunha, a resposta mais comum é um encolher de ombros. Por aqueles que caminham estas ruas adornadas a laços amarelos, tarjas soberanistas e senyeras por todos os lados, muitos poucos querem continuar a fazer parte de Espanha.

Nas eleições de 28 de abril, os votos não-independentistas chegaram a um total de 14,43%. Porém, dentro destes, há que ter em conta que os mais votados foram o federalista Partido Socialista da Catalunha (5,26%) e a filial catalã do Unidas Podemos, que é pró-referendo, com 5,13%.

Quanto aos partidos que não querem fazer nenhuma concessão e querem manter o statu quo, o Ciudadanos teve 1,48% e o PP teve 0,74%. E o Vox, que quer anular as autonomias e assim abolir os governos e parlamentos regionais, ficou-se pelos 0,27% — ou seja, quatro votos.

Àlex Montanyà diz que não sabe de “praticamente ninguém” que não queira a independência. “Há aí um rapaz que de vez em quando usa uma camisola da seleção de Espanha”, diz o autarca, como quem não dá importância ao caso.

Mais preocupado está Miguel. “Há aí uns quantos que são unionistas, que eu sei. Houve aí alguém, não sei quem, que andou a tirar os laços amarelos”, diz, apontando para o único sítio em redor do campo de petanca que podia ter laços e não tem. “Certa noite, alguém veio aqui e tirou-os um a um, os safados”, atira. E fizeram ainda outra coisa que o irritou mais: “Nós tínhamos ali fotografias dos presos e dos exilados, como o Puigdemont, e também as tiraram”.

Miguel e Francisco, sentados às pontas, com outras três jogadoras de petanca em L'Esquirol (João de Almeida Dias / Observador)

Miguel chateia-se com o tema. “Nem aqui nos deixam em paz!”, atira para o ar. A sua mulher, que permanece em silêncio à medida que o marido vai falando, procura acalmá-lo. “Deixa estar… Devem ser pessoas de fora, não penses nisso agora, homem”, atira-lhe.

“Ai penso, penso. A mim cheira-me que é gente de cá”, alvitra.

Ao lado, Francisco põe-lhe a mão no ombro e, mais calmo do que o seu colega de petanca, chama-o à razão. “Homem, para que é que te preocupas? Eles aqui são tão poucos… Não há sítio melhor do que este. Estamos em maioria!”

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