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A quatro dias do funeral do Papa Francisco, a Basílica de Santa Maria Maior, a poucas dezenas de metros da estação de comboios central de Roma, prepara-se para um momento que não se vive nesta emblemática igreja romana há mais de 350 anos: o enterro de um Papa.
O Papa Francisco, que morreu esta segunda-feira aos 88 anos após mais de uma década de pontificado, será aqui sepultado no próximo sábado. Rompendo com a tradição das últimas décadas, o Papa argentino decidiu não ser sepultado na Basílica de São Pedro, no Vaticano, e preferiu que o seu túmulo fosse colocado na sua igreja favorita de Roma — a igreja onde se deslocava frequentemente para rezar, particularmente antes e depois das suas viagens apostólicas ao estrangeiro.
Francisco já o havia revelado em entrevistas e declarações públicas, mas a informação foi confirmada na segunda-feira pelo Vaticano, através da publicação do testamento do Papa argentino, que se foca exclusivamente na localização da sua sepultura.
▲ Nave central da Basílica.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Sempre confiei a minha vida e o meu ministério sacerdotal e episcopal à Mãe de Nosso Senhor, Maria Santíssima”, escreveu Francisco no seu testamento, datado de junho de 2022, altura em que já sentia que se aproximava o “ocaso” da sua vida terrena. “Por isso, peço que os meus restos mortais descansem esperando o dia da ressurreição na Basílica Papal de Santa Maria Maior.”
Naquele texto, Francisco acrescentou ainda que já tinha dado “instruções oportunas” a Rolandas Makrickas — o clérigo lituano que nessa altura era o responsável pelo capítulo daquela basílica e que é hoje cardeal e arcipreste coadjutor de Santa Maria Maior — sobre os detalhes do enterro.
O cardeal Makrickas cumpriu o prometido e, agora, reconhece que sente a “grande responsabilidade” que pesa sobre ele e sobre todos aqueles que ali trabalham. À porta da basílica romana, o cardeal lituano explica ao Observador que os preparativos estão praticamente terminados. “Precisamos ainda de pequenas intervenções para remover a parede”, diz, referindo-se a uma parede de madeira temporária que cobre atualmente a pequena capela lateral onde ficará o túmulo de Francisco.
▲ Rolandas Makrickas, o cardeal responsável por cumprir as instruções deixadas por Francisco.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Mantivemos a parede, para não promover muita especulação sobre o túmulo, porque esse era também o seu desejo”, acrescenta o cardeal.
A sepultura de Francisco vai ser muito simples, de acordo com o pedido expresso no testamento pelo próprio pontífice. “Ele queria uma coisa: que o túmulo falasse da sua vida”, sublinha Makrickas, um jovem cardeal, de apenas 53 anos, de sorriso aberto enquanto vai falando da responsabilidade de preparar o funeral do Papa que, há menos de cinco meses, lhe atribuiu o barrete vermelho do cardinalato. “A sua vida foi simples, a sua vida foi muito humilde e ele queria apenas as coisas essenciais na sua vida.”
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O túmulo vai respeitar esse mandato. A única inscrição será o nome em latim: Franciscus. Além disso, explica o cardeal, estará presente a sua cruz — a cruz peitoral que usou como bispo, cardeal e Papa —, “para que as pessoas possam reconhecer o seu túmulo”. Por outro lado, “o mármore que vai cobrir o túmulo vem de Ligúria, a terra dos seus avós”.
Ainda assim, a agitação ainda não tomou propriamente conta de Roma. Na Praça de São Pedro, para onde o corpo de Francisco será trasladado na quarta-feira de manhã, há uma forte afluência de peregrinos — mas praticamente todos em grupos organizados que já se encontravam em Roma a pretexto do Jubileu. As autoridades italianas esperam, contudo, que a partir desta quarta-feira comecem a chegar a Roma milhares de católicos, vindos de todo o mundo, para prestar homenagem ao Papa argentino antes do enterro.
Turistas e peregrinos apanhados de surpresa em Roma pela morte do Papa
Na Basílica de Santa Maria Maior, a agitação é ainda menor. É possível perceber que se passa algo, essencialmente, devido à presença de uma grande quantidade de jornalistas e câmaras de televisão na Praça de Santa Maria Maior, em frente à imponente catedral do século V, que se destaca das outras igrejas pelo seu estilo, também ele, diferente: à primeira vista, pode parecer mais um enorme palácio, retangular, rasgado por uma torre quadrada. A fila para passar pelos detetores de metais e entrar na igreja percorre-se em menos de dez minutos.
▲ Fora da Basílica de Santa Maria Maior havia vários jornalistas de diferentes países.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A maioria dos presentes pertence a um de dois grupos: turistas casuais em visita a um dos principais monumentos da cidade e fiéis organizados em peregrinações jubilares. No interior da basílica, logo após a porta, foi colocada uma grande fotografia do Papa Francisco, a propósito da morte do líder da Igreja Católica.
No pequeno átrio onde quem entra se cruza com quem sai, uma família de turistas brasileiros conta ao Observador que decidiu passar por ali precisamente depois das notícias que davam conta da vontade de Francisco ser sepultado naquela igreja. “Viemos de passeio. Já tínhamos marcado a viagem e foi uma surpresa o falecimento dele”, conta Elisa, 53 anos, que está acompanhada dos filhos Miguel e Júlio, de 22 e 24 anos, e da nora Manuela, de 25.
Chegaram a Roma na quarta-feira da semana passada e estavam no hotel a preparar-se para o pequeno-almoço quando, às primeiras horas da manhã de segunda-feira, viram a notícia da morte do Papa Francisco.
“Nós não somos católicos, mas a figura do Papa Francisco é uma figura muito importante”, conta a mãe. “No mundo em que a gente está agora, com guerras e com a extrema-direita crescendo, acho que a figura dele era uma figura importante para tentar trazer um pouco de paz.”
Como latino-americana, Elisa diz-se particularmente identificada com Francisco, o primeiro Papa oriundo da América Latina — uma característica com um forte reflexo na orientação teológica e pastoral do seu pontificado. “Ele sempre foi diferente”, sublinha, apontando não só a origem latino-americana como a escolha do nome Francisco. “Acho que ele escolheu também um lugar diferente, porque a maioria dos papas é sepultado lá em São Pedro.”
Ouça aqui a reportagem do Observador no Vaticano
A brasileira lembra-se bem da primeira viagem apostólica de Francisco para fora de Itália, a ida ao Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude de 2023. “Ele foi muito bem recebido”, lembra. “Foi a pessoa que juntou mais pessoas na praia de Copacabana. Teve show de Madonna, de Lady Gaga, mas ele foi a pessoa que juntou mais pessoas.”
Por terem viagem de regresso ao Rio de Janeiro marcada para quarta-feira, não vão poder estar no funeral. No entanto, diz ainda, “resolvemos vir à basílica para conhecer onde ele vai ser sepultado”. O problema? “Não conseguimos descobrir o lugar.”
Entramos na basílica. Tal como por fora, também por dentro esta igreja surpreende, a começar pelo tecto dourado resplandecente, mas paralelo ao chão, que dá à basílica um formato de grande salão retangular. No interior estão centenas de fiéis a participar numa missa em língua alemã: trata-se de um grupo de cerca de 300 peregrinos oriundos da diocese de Ratisbona, na Baviera, que está em Roma esta semana para a sua peregrinação jubilar.
▲ Antes de se entrar na nave central da basílica há uma homenagem ao Papa Francisco.
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Kerstin, de 31 anos, e Alexander, de 35, dois irmãos que integram o grupo, explicam ao Observador que viajaram para Roma precisamente no dia 21 — o dia em que, inesperadamente, souberam da morte do Papa Francisco. Regressam no próximo sábado e talvez consigam participar nas cerimónias fúnebres.
Durante a missa, o cardeal alemão que acompanha o grupo faz questão de lembrar que estão na igreja onde, dentro de dias, o Papa Francisco será sepultado, explica aos fiéis a grande devoção de Francisco por Maria e pede-lhes que rezem pela alma do Papa. Kerstin lembra Francisco como “um homem feliz, com um grande sorriso”. Perto do lugar da sua sepultura, quiseram “vir homenagear” o Papa argentino.
Relíquias, um ícone histórico, vários papas e o túmulo de Bernini
Dentro da basílica, procuramos o lugar onde Francisco será sepultado. Um segurança diz-nos que não sabe, mas com pouca convicção: é possível que queira apenas evitar um ajuntamento em torno desse sítio. Contudo, é fácil descobri-lo, precisamente no local descrito por Francisco no seu testamento: “No nicho da nave lateral, entre a Capela Paulina (Capela da Salus Populi Romani) e a Capela Sforza.”
É ali que encontramos uma pequena capela lateral, atualmente coberta com taipais de madeira, que escondem os preparativos para o enterro de sábado.
A Basílica de Santa Maria Maior é um dos templos mais antigos da cidade de Roma. Juntamente com a Basílica de São Pedro, no Vaticano, com a Arquibasílica de São João de Latrão e com a Basílica de São Paulo Extramuros, aquela igreja com 1.500 anos de história integra o conjunto das quatro basílicas papais de Roma, as grandes igrejas do mundo católico, que acolhem um trono pontifício e gozam de especiais privilégios.
De todas, Santa Maria Maior é aquela que preserva mais história, explica o cardeal Rolandas Makrickas. “Este é o mais antigo santuário mariano na Europa Ocidental”, enfatiza um dos principais responsáveis por uma basílica que terá sido construída naquele lugar depois de uma aparição da Virgem Maria ao Papa Libério, ainda no século IV. “É do século V, construído pelo Papa Sisto III, em 434, depois do Concílio de Éfeso, quando Maria foi proclamada como Mãe de Deus.”
▲ A Basílica de Santa Maria Maior é um dos templos mais antigos da cidade de Roma.
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“É a única das quatro basílicas que conserva a estrutura paleo-cristã”, destaca, lembrando que as outras basílicas ou são mais recentes (como São Pedro) ou foram alteradas (como São Paulo, devido a um incêndio, ou São João, pelo arquiteto Francesco Borromini). “Esta é a única basílica que tem uma continuidade desde o século V até aos nossos dias.”
No interior da basílica, escondem-se vários tesouros de grande relevo para o Cristianismo. Um dos principais é o Santo Berço, um relicário que guarda cinco tábuas de madeira que se acredita que teriam integrado a manjedoura onde o Menino Jesus dormiu depois do seu nascimento. Os restos mortais de São Matias e de São Jerónimo são outras duas das relíquias mais importantes da basílica, a que se soma o túmulo de Gian Lorenzo Bernini, o mítico artista italiano do século XV que se destacou pela escultura, concretamente por alguns dos mais emblemáticos elementos arquitetónicos da cidade de Roma — incluindo a Praça de São Pedro ou a Piazza Navona.
Em Santa Maria Maior estão também sepultados sete papas — um número muito menor do que o número de pontífices sepultados na cripta da Basílica de São Pedro. O último a ser ali sepultado foi o Papa Clemente IX, que morreu em 1669. Mais de 350 anos depois, a igreja volta a testemunhar um funeral papal, graças a um dos mais importantes tesouros da basílica: o ícone de Maria, a Salus Populi Romani, salvadora do povo romano.
A tradição católica atribui a autoria deste ícone, o mais importante da iconografia mariana, ao evangelista São Lucas, que é também o padroeiro dos pintores. Pintado sobre madeira, este ícone mostra Maria com o Menino Jesus nos braços e está profundamente ligada à espiritualidade e à identidade da cidade de Roma. Ao mesmo tempo, uma réplica do ícone é um dos símbolos itinerantes da Jornada Mundial da Juventude.
O Papa Francisco, que sempre foi devoto da Virgem Maria, desenvolveu um afeto particular por este ícone durante o seu pontificado — ao ponto de a Basílica de Santa Maria Maior se tornar na sua igreja favorita em Roma. Ao Observador, o cardeal Rolandas Makrickas sublinha que o grande amor de Francisco a esta igreja se deve à sua devoção àquele ícone.
▲ o ícone de Maria, a Salus Populi Romani, salvadora do povo romano é um dos símbolos itinerantes da Jornada Mundial da Juventude.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Esta devoção aumentou durante o seu pontificado. Ele queria vir aqui antes e depois de cada visita apostólica, confiar à proteção de Maria a sua missão e os frutos espirituais das visitas apostólicas”, sublinha. A imagem de Francisco a rezar na capela lateral onde se encontra o ícone tornou-se um símbolo do seu pontificado: primeiro, em pé ou de joelhos; no final, já fragilizado, na sua cadeira de rodas. Quando saiu do hospital, em março, pediu para que fosse feita uma paragem no trajeto entre o hospital e o Vaticano para rezar na basílica.
Esta terça-feira, a capela Paulina, onde está o ícone, era o ponto mais concorrido da basílica. Centenas de fiéis procuravam comprimir-se para passar pela porta e visitar o lugar favorito de Francisco, aquele onde o Papa rezou dezenas de vezes ao longo do seu pontificado, durante horas em silêncio.
Um jovem padre italiano explicava a um grupo de crianças e jovens a importância do lugar para o Papa Francisco; religiosos e religiosas ajoelhavam-se diante do ícone de Maria; turistas fotografavam-no o mais que podiam. A poucos metros, na porta ao lado, a pequena capela que vai acolher a sepultura de Francisco continuava coberta por uma parede de madeira. No sábado, os taipais vão dar lugar a um monumento funerário muito simples, mas que deverá atrair milhares de peregrinos à basílica no futuro.
Rolandas Makrickas, o cardeal responsável por cumprir as instruções deixadas por Francisco, está consciente da responsabilidade que pesa sobre ele. “É muito comovente, porque é a primeira vez que, ao fim de tantos anos, as pessoas vão ver aqui um funeral de um Papa. Imagino que, depois da cerimónia na Praça de São Pedro, quando a procissão vier para aqui, muitos romanos e peregrinos virão para ver a sua última viagem. Para nós, é uma grande responsabilidade preparar esta cerimónia e esta última viagem aqui na Basílica, na forma que o Papa Francisco queria: na simplicidade das coisas essenciais.”
▲ O Cardeal Macrickas falou com o Observador no adro da Basílica de Santa Maria Maior.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR