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Nacionalistas escoceses podem infligir derrota pesada aos trabalhistas. E depois aliar-se com eles

Depois da tempestade, a bonança. Os independentistas escoceses perderam o referendo, mas agora podem ser essenciais para ajudar os trabalhistas a formar governo. Irónico? Previsível, dizem alguns.

Mais do que humor britânico, é humor escocês. Sempre que a Escócia vai a votos, há duas piadas que tornam a circular pelo país.

A primeira serve para ilustrar a falta de apoio ali encontrado pelo Partido Conservador, liderado pelo primeiro-ministro britânico cessante, David Cameron: “Temos mais pandas no nosso jardim zoológico do que deputados conservadores”. À data, a proporção é de dois pandas para um conservador.

A outra anedota diz respeito ao Partido Trabalhista, liderado por Ed Miliband, o principal rival dos conservadores a nível nacional e habitual vencedor na Escócia. Se olharmos para as últimas três décadas, o pior resultado que os trabalhistas escoceses conseguiram em eleições legislativas do Reino Unido foi 39%, em 1992. Ficaram 14 pontos acima do segundo classificado, os conservadores. Nestes 30 anos, a média eleitoral dos trabalhistas é de 42%. Por isso, de acordo com um dito popular, uma vez que os votos nos trabalhistas são tantos, em vez de se gastar tempo e engenho a contá-los um a um, mais valia pesá-los para constatar o óbvio.

Desta vez pode ser diferente. Se olharmos para as sondagens na Escócia das eleições legislativas de 7 de maio no Reino Unido, é fácil prever que a primeira piada sairá reforçada depois de contados os votos. Tian Tian e Yang Guang continuarão na sua jaula no zoo de Edimburgo, ao passo que os conservadores escoceses não deverão conseguir enviar um único deputado para a Câmara dos Comuns, em Londres. Já a anedota que diz que mais valia pesar os votos trabalhistas vai passar o seu prazo de validade na quinta-feira. Isto porque, segundo os estudos de opinião, os trabalhistas arriscam-se a também não eleger nenhum deputado na Escócia.

No final de contas, com ou sem piadas, quem poderá rir à vontade são os independentistas do Partido Nacional Escocês (Scottish Nacional Party, SNP), liderados por Nicola Sturgeon. Em 2010 ficaram em terceiro, com 19,9% e seis deputados. Agora, uma sondagem da televisão STV de 29 de abril aponta-lhes 54% dos votos — suficiente para conseguirem conquistar cada um dos 59 assentos parlamentares destinados aos escoceses em Londres. Esta é a previsão de votação no SNP mais elevada, mas desde o início de Abril que as intenções de voto têm oscilado ente os 48% e os 54%, com a mais recente, publicada este domingo pelo Sunday Times, a apontar para 49%.

Nicola Sturgeon a dirigir-se a Ed Miliband no debate de 2 de abril. O site YouGov apurou que, nas redes sociais, Sturgeon foi a candidata cuja prestação teve mais apoio. (Stefan Rousseau - WPA)

Stefan Rousseau - WPA Pool/Getty Images

Destes números, surge algo que tem tanto de óbvio como de inesperado: o Partido Trabalhista, que está longe de ter uma maioria, vai ter muito provavelmente de negociar com o SNP para conseguir formar um executivo. Miliband rejeitou essa hipótese no último debate eleitoral, a 30 de abril. “Se o preço para ter um governo trabalhista é um acordo ou uma coligação com o SNP, então não vai acontecer”, disse. Sturgeon comentou que levar esta decisão avante seria “o último prego no caixão” dos trabalhistas. E houve figuras de topo no seio do partido de Miliband que cedo se apressaram a tentar amenizar as palavras do líder. “Claro” que vai haver “diálogo”, disse uma delas ao “Daily Telegraph”.

A aritmética não engana: para chegar o mais perto possível dos 326 deputados necessários para uma maioria favorável no parlamento, os trabalhistas podem muito bem vir a precisar do independentistas escoceses como de pão para a boca.

Num cenário de negociações, o SNP vai exigir o fim do programa de armas nucleares Trident, cuja base é na Escócia. Calcula-se que o projeto custará 130 milhões de libras (175 milhões de euros) nos próximos 35 anos.

A ajudar estes números está o mesmo sistema eleitoral que até aos dias de hoje tinha prejudicado os nacionalistas escoceses. Nas eleições no Reino Unido, o território é dividido em 650 círculos eleitorais, sendo que apenas o vencedor em cada um destes será escolhido para deputado na Câmara dos Comuns. Nas últimas três décadas, a média eleitoral do SNP na Escócia é 19,3%, mas o número de deputados que tiveram até hoje foi seis. Ou seja, 10% dos deputados eleitos pela Escócia (59) e menos de 1% de todo o parlamento britânico.

Mas a reviravolta política da Escócia tem raízes mais fundas do que um método de contagem de votos.

“Nem o SNP esperava isto”

Nicola McEwen, professora de ciência política na Universidade de Edimburgo e especialista em comportamento eleitoral, admite-o sem pejo: “Não esperava que isto acontecesse, pelo menos tão depressa”. Ao telefone com o Observador, arrisca dizer que não é a única. “Sinceramente, nem o SNP esperava isto.”

Porém, o caminho começou a ser feito desde 2007, explica McEwen. Foi nesse ano que os nacionalistas escoceses venceram pela primeira vez as eleições para o parlamento escocês, com mais 0,7% de votos do que os trabalhistas. Apenas quatro anos depois, nas eleições de 2011, a vantagem aumentou para 13,7%, com os nacionalistas a receberem 45,4% da preferência dos escoceses.

Alex Salmdond foi líder do PNE entre 1990 e 2000 e mais tarde entre 2004 e 2014. Nicola Sturgeon foi a sua sucessora no partido e no governo escocês. (ANDY RAIN/EPA)

ANDY RAIN/EPA

O maior passo desta caminhada foi a promessa de um referendo da independência da Escócia do resto do Reino Unido. Em 2007, o então líder do SNP, Alex Salmond, avançou a ideia. Mas foi em 2011 que ela começou a ganhar forma. Finalmente, no dia 18 de setembro de 2014, a pergunta foi lançada: “A Escócia deve ser um país independente?”. O “sim”, apoiado pelo SNP, teve 44,7% dos votos. O “não”, a opção defendida, entre outros, pelos trabalhistas e pelos conservadores, ganhou o referendo com 55,3%.

O SNP tem sido acusado de querer fazer um novo referendo à independência nos próximos anos, apesar de ter perdido em 2014. Nicola Sturgeon nega, mas já disse que seria “completamente insultuoso” rejeitar essa hipótese para sempre.

Parece, então, um paradoxo que seja o partido que saiu derrotado do referendo aquele que espera melhores resultados. Mas para McEwen, mais do que uma contradição, os números que agora as sondagens apontam são o resultado de um “processo que foi criado a propósito do referendo”. “O SNP gerou um movimento pela independência que não existia antes (…). E acho que eles beneficiaram com esta ideia de não serem só um partido, mas antes parte de um movimento social.” Ainda assim, nesta campanha a hipótese de um novo referendo nos próximos anos tem sido negada por Nicola Sturgeon, que prefere fixar um objetivo mais diplomático e que, por isso, colhe mais junto do seu eleitorado: “Fazer ouvir a voz da Escócia mais alto do que nunca em Westminster”, referindo-se à zona londrina onde se situa o parlamento britânico.

O outro lado do êxito do SNP é, já sabemos, a derrota estrondosa que se adivinha para os trabalhistas escoceses. “Bem mais surpreendente do que o SNP ter beneficiado de um referendo que perdeu, é o facto de os trabalhistas não conseguirem tirar proveito nenhum de um referendo que venceram”, argumenta McEwen. Para a académica da Universidade de Edimburgo, isto acontece porque “o eleitorado escocês já não confia no Partido Trabalhista para defender os interesses escoceses no Parlamento do Reino Unido. E o Partido Trabalhista, a nível nacional, também mudou. Em todas as eleições nos últimos 20 anos, os trabalhistas tinham políticos escoceses de alto prestígio na sua liderança [Gordon Brown, primeiro-ministro do Reino Unido entre 2007 e 2010, é o melhor exemplo].” Hoje, isto não existe. “Ed Miliband e os seus colegas não têm nenhuma relação com a Escócia.”

O homem do carro dos bombeiros

Chris Law, o candidato do SNP em Dundee West, a quem as sondagens dão uma vitória certa, aventa outra explicação. Para o analista financeiro de 45 anos, “os trabalhistas puseram-se ao lado dos partidos que representam os poderes instalados de Londres”. Durante o referendo, “só falaram de cuidado, da importância de ter cautela, tudo era perigoso, e isso não chamou a atenção dos escoceses nem lhes espevitou a imaginação”.

Segundo a sondagem do YouGov, Dundee West vai ser o sítio onde se vai registar a maior reviravolta destas eleições em território escocês. Desde que entrou no mapa dos círculos eleitorais em 1950, Dundee West elegeu sempre um deputado do Partido Trabalhista — a última vez, em 2010, com 48,5% dos votos. Agora, é pouco provável que passem dos 30%. Já o SNP conta chegar perto dos 60%.

O programa eleitoral do SNP é ainda mais esquerdista do que o do Labour, pois prevê um aumento de 0,5% na despesa pública por ano, fala de impostos a 50% para os mais ricos (embora não especifique a partir de que nível de rendimento quer aplicar a taxa) e do “imposto para mansões”, isto é, para os proprietários de casas acima dos 2 milhões de libras, um escalão que, num país onde houve um forte aumento do preço do imobiliário, atingiria muitas famílias da classe média.

Ao telefone com o Observador, Law explica que a maior motivação para concorrer a um lugar em Westminster é a memória da sua mãe, uma enfermeira que trabalhava num hospital público e que morreu com esclerose múltipla. “Depois de ela ficar doente, o casamento dela acabou e a única maneira que ela arranjou para me conseguir criar decentemente foi com a ajuda do Estado.”

O Estado social é uma das suas maiores bandeiras, refere, e volta a recorrer a uma outra história pessoal para se explicar melhor. “Depois de ter estudado sociologia e ciência política na universidade, fui para a Ásia fazer voluntariado. E também passei pela África do Sul. E sempre que voltava ao Reino Unido, só se falava em reduzir o tamanho do Estado social. Privatizar-se o sistema de saúde, se calhar. E eu só pensava que as pessoas que dizem isto nunca foram aos países onde eu fiz voluntariado, em que não há Estado social como nós o concebemos. Se conhecessem esses sítios, não diziam coisas dessas.”

Chris Law, na fotografia, percorreu a Escócia num carro dos bombeiros para fazer campanha pelo "sim" no referendo de 2014. (Fotografia do Facebook da campanha Spirit of Independence")

Facebook da campanha Spirit of Independence

Chris Law ficou conhecido por toda a Escócia quando decidiu percorrer o país de Norte a Sul para fazer campanha pelo “sim” no referendo de 2014. Comprou um “Deusa Verde”, nome dado a um carro dos bombeiros dos anos 50, pintou-o com as cores nacionais e fez-se à estrada. Ao longo de 3700 quilómetros, distribuiu panfletos a favor da independência e fez entrevistas a vários cidadãos, que foi colocando no YouTube. A iniciativa ficou conhecida como “Spirit of Independence” (em português, Espírito de Independência). No final do périplo, o homem de quase dois metros tornou-se uma figura conhecida em toda a Escócia, onde ficou celebrizado tanto pelas suas ideias políticas, como por usar rabo-de-cavalo e camisas de padrões berrantes.

“Eu não me importo nada, antes pelo contrário, que digam que eu sou um excêntrico com rabo-de-cavalo, por mim não faz mal. A política tem de mudar, a sociedade política tem de refletir aqueles que representam. Os cidadãos comuns não são milionários que estudaram em Eton”, diz, referindo-se ao colégio privado onde estudaram 19 primeiros-ministros britânicos, incluindo David Cameron. “Escolas públicas, aí sim, é onde as pessoas normais estudam.”

Chris Law não é o único candidato do SNP com um currículo onde a política parece ter sido um acaso. Entre os aspirantes a um lugar em Westminster também está uma antiga atriz de novelas no Paquistão, uma enfermeira, um antigo dono de um bar de stand-up comedy e uma estudante com apenas 21 anos que, segundo as sondagens, será a mais jovem deputada de sempre na Câmara dos Comuns. “Não somos políticos profissionais”, costumam garantir.

O mesmo já não pode ser dito em relação à líder do SNP, Nicola Sturgeon. “As pessoas normais não se inscrevem em partidos políticos aos 16 anos e a partir daí dedicam inteiramente as suas vidas ao partido”, diz ao Observador David Torrance, biógrafo da líder dos independentistas. “Mas foi exatamente isso que ela fez, sem se desviar um centímetro que fosse desta trajetória.”

Nicola Sturgeon, uma vida dedicada à política

Nicola Sturgeon, 44 anos, tornou-se ministra principal da Escócia em novembro de 2014 após o seu antecessor e mentor, Alex Salmond, ter abandonado o posto de líder do governo depois de ter perdido o referendo. Era a vez de Sturgeon, filha de um eletricista e de uma assistente de medicina dentária de Irvine, uma cidade com 40 mil habitantes no Sudoeste escocês.

O título da biografia assinada por Torrance não é de todo despropositado: “Nicola Sturgeon: A Political Life”. Quer nos tempos de liceu, como na altura em que estudou Direito na Universidade de Glasgow, a política e o SNP foram sempre as suas prioridades. Até a sua vida pessoal é um reflexo disso. Em 2010 casou com Peter Murrel, chefe executivo do partido. Antes desta relação, conhecem-se-lhe outras duas que foram duradouras. Sem surpresa, ambas foram com homens do partido. E também não é surpresa que a sua série de televisão preferida seja o drama político dinamarquês “Borgen”, que em Portugal foi transmitido pela RTP2. Em 2013, assim que se soube que a atriz que interpreta Birgitte Nyborg, a primeira-ministra da Dinamarca na série, ia visitar a Escócia para promover o programa, a equipa de assessores de Sturgeon fez tudo para juntá-las. O resultado foi uma entrevista em que Sturgeon, na altura vice-líder do governo escocês, lança perguntas à atriz Sidse Babett Knudsen com um ar embevecido. Provavelmente por lapso, foram várias as ocasiões em que se lhe dirigiu como se estivesse a falar com a personagem de “Borgen” e não com a sua intérprete.

https://www.youtube.com/watch?v=QhbYaN5p5PI

Para Torrance, Sturgeon tem uma enorme vantagem sobre Salmond, de quem também é biógrafo: as pessoas gostam dela. “Ela passa a ideia de ser uma pessoa normal, mesmo que não o seja. As mulheres querem ser como ela; os homens gostavam de sair com alguém assim; os escoceses mais velhos nutrem um sentimento paternalista em relação a ela; e os mais novos olham para ela como um exemplo.” Nicola McEwen, recorde-se, especialista em comportamento eleitoral da Universidade de Edimburgo, também segue esta linha de pensamento. “Salmond era um político formidável, mas dividia muito as opiniões. E ela não faz isso. Sturgeon tem um toque humano, uma personalidade simpática.”

Isso viu-se no único debate com todos os candidatos destas eleições legislativas, no já distante 2 de abril. Nessa altura, uma sondagem relâmpago do YouGov feita no Twitter colocou-a como vencedora desse confronto televisivo. Embora os seus maiores alvos tenham sido o primeiro-ministro David Cameron e o líder dos eurocéticos do UKIP, Nigel Farage, Sturgeon também fez questão de pôr Ed Miliband, dos trabalhistas, em cheque. Mas não ao ponto de queimar pontes.

Porque será esse mesmo Miliband que Sturgeon terá de convencer para firmar um acordo que, a acontecer, deverá ser de incidência parlamentar e nunca de coligação governamental. Uma coisa é certa, garante McEwen: “As negociações não vão ser fáceis. Não tanto pelas suas diferenças, que não são assim tantas, mas porque eles competem um contra o outro.” Para a académica, o cenário ainda está aberto.

“Vai depender muito da aritmética final, só vamos conseguir falar com mais certezas depois de os votos serem todos contados. ” No caso do SNP, de modo a poupar tempo e engenho, desta vez talvez seja mais fácil pesá-los.

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