A decisão do Livre sobre eleições presidenciais não está tomada, o partido ainda vai ouvir os militantes com um referendo interno, mas a esperança de uma candidatura que una a esquerda continua viva. Até para evitar, como diria Rui Tavares durante a tarde em entrevista ao Observador, que a esquerda continue “a ser uma máquina de perder presidenciais”. Durante o XVI Congresso do Livre, dedicado quase exclusivamente a autárquicas, houve quem arriscasse três nomes capazes de preencher esse espaço político: Alexandra Lucas Coelho, Rui Vieira Nery e Maria José Morgado.
As sugestões foram feitas por Fernando Lino, candidato à Câmara Municipal de Peniche e o único que subiu ao palco para falar sobre a corrida a Belém. Mais do que nomes, fez um aviso ao partido: “São os tipos de candidato que devemos ir lá bater à porta, não podemos estar à espera do D. Sebastião.” Aos olhos deste candidato a autarca, é preciso ter em conta que “todos os partidos convidam pessoas” e, por isso, também o Livre deve fazê-lo, recusando-se a que o partido esteja “quatro meses a ver o que se vai passar sem ter uma palavra a dizer”.
As opiniões sobre os candidatos já conhecidos vão no mesmo sentido. Fernando Lino descreveu as três candidaturas do espaço político do centro-esquerda à esquerda — António José Seguro, António Filipe e Catarina Martins — como “carreiristas, exclusivamente partidárias e um bocadinho como prova de vida”. Em declarações ao Observador, também o deputado Paulo Muacho considerou que todas as candidaturas são “de um campo partidário” ou “não representam aquilo que é o projeto político do Livre para a Presidência da República”. Já Rui Tavares, em entrevista ao Observador, resumiu o cenário da seguinte forma: “Tanto candidato e tão pouca escolha!”
Considerando que “a democracia está em risco no mundo”, o porta-voz do Livre entende que seria necessário um candidato à Presidência da República capaz de fazer um “discurso pedagógico da defesa da democracia” e que, “se houver dois ou três quartos do país que não quer um governo de extrema-direita”, não se ofereça o mesmo “de bandeja”.
A dispersão não assusta o Livre, com Rui Tavares a reconhecer que há tempo para trabalhar numa solução conjunta após as eleições presidenciais. Na visão do porta-voz, não é tempo de “falar no passar”, crente de que “essa coordenação pode perfeitamente existir“. “Não acho que tenhamos que nos conformar com a ideia de que cada partido vai apresentar um candidato partidário, porque se as eleições presidenciais forem uma espécie de remistura de eleições legislativas, não têm nem piada, nem interesse, nem dão a resposta que o país precisa”, argumenta.
O intuito é, sublinha Rui Tavares, encontrar “um candidato que passe à segunda volta com toda a certeza e [a] dispute com a direita” e que, acrescenta Paulo Muacho, mobilize a sociedade para que a esquerda possa “ganhar esse lugar que a esquerda não tem há 20 anos”. Nem que para isso seja necessário que candidatos que já avançaram tenham de recuar. “Na política portuguesa estamos sempre a fazer política como os comentadores a discutem. Toda a gente dá de barato que cada partido vai ter o seu candidato e que a esquerda vai ter uma dispersão. Não excluo que possa surgir uma candidatura que tenha a força necessária para que as pessoas percebam que precisamos de apostar nela e já no passado houve desistências, manifestações de apoio para que na segunda volta pudéssemos ganhar eleições presidenciais e acho que ainda há gente que deu muito ao país, que tem muita capacidade de dizer as palavras certas”, explica Rui Tavares.
No fundo, resume: “Não quero ver a esquerda, mais uma vez, a ser uma máquina de perder Presidenciais.”
MARIA JOÃO GALA/OBSERVADOR
Se não houver solução, Livre vai a jogo em nome próprio
Caso a esperança do Livre não surta efeito, um candidato em nome próprio não está completamente excluído da equação. Rui Tavares não quer estar presente no boletim de voto em janeiro de 2026, mas perante uma “enorme crise” diz que “ninguém com o mínimo de responsabilidade política no nosso país pode dizer que exclui completamente uma coisa”. Ainda assim, sublinha que “há gente de muita qualidade” e enumera os deputados do Livre como pessoas que podem “protagonizar aquilo que é necessário protagonizar”, com a promessa de que “se for preciso [o partido fará] a luta necessária”.
Também Paulo Muacho reiterou, em declarações ao Observador, que a solução está por encontrar, explicando que “se aparecer da sociedade civil, melhor”, caso não aconteça “poderá haver uma candidatura de alguém do Livre”. Ou seja, prossegue o deputado, “se se dividem as candidaturas por candidaturas meramente partidárias, apoiadas por qualquer um dos partidos, então os eleitores do Livre também não poderão ficar sem essa representatividade”.
Depois das eleições autárquicas, o Livre vai colocar em andamento um referendo interno para decidir quem é o candidato presidencial do partido — tal como fez há cinco anos, quando escolheu Ana Gomes. Neste momento os nomes dos três candidatos de esquerda que se chegaram à frente estão incluídos, mas o partido aguarda ansiosamente a presença de outras opções — de preferência, vindas da sociedade civil.
Entre os três, Paulo Muacho considera que António José Seguro é o que está “mais distante do projeto do Livre“, recordando o “percurso que teve enquanto secretário-geral do Partido Socialista, o apoio a muitas das políticas de Passos Coelho e uma altura bastante difícil à esquerda nos tempos da troika“.
O Livre foca-se agora nas eleições autárquicas, às quais dedicou o XVI Congresso, mas prepara-se para uma nova batalha eleitoral, em que não quer ficar de fora. Ainda acredita numa solução de união à esquerda, mas caso não seja possível, o partido prefere ter mais um momento de defesa das suas bandeiras do que ficar de fora a ver.