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Raquel S., dramaturga e encenadora, era professora de dramaturgia na ACE Porto. “Saí da escola na terça-feira, disse que deixaria de dar aulas”, diz ao Observador. Despediu-se pelo “silêncio” da direção da escola face à avalanche de denúncias de ex-alunos sobre António Capelo, ator e fundador da ACE, que acusam de alegado assédio e abuso sexual ao longo de décadas.
Marcou presença no protesto desta segunda-feira “enquanto pessoa que deu aulas na ACE e que se revoltou desde o início com a falta de posição da ACE e da escola em relação a isto”. “Para mim é muito importante que as pessoas, alunas e ex-alunas da escola, saibam que há muitos professores, muitas pessoas que dão aulas nesta escola, que querem saber e que querem que isto mude, que exigem que isto mude.”
A postura adotada pela direção da ACE Porto, constituída por Pedro Aparício e Glória Cheio, não tem sido pacífica entre a comunidade escolar — docentes e alunos. “A [minha] demissão aconteceu depois de eu ter contactado a direção, de a resposta ter sido insatisfatória e de a escola continuar em silêncio, publicamente”, esclarece ao Observador Raquel S.
Na manhã de segunda-feira, 8 de setembro, dia de regresso às aulas, os alunos foram informados de que a escola estava “a par dos testemunhos”. “Andaram de sala em sala, a todas as turmas, a dizer que vão lidar com a situação da melhor maneira”, diz ao Observador uma aluna da ACE, que prefere não ser identificada. “Disseram que se quisermos falar há uma linha de apoio à ética da escola”, e que “não querem que nós comentemos sobre isto, nem para fora nem na escola, para não implodir mais a situação”. Em algumas salas terá estado a psicóloga da escola, diretora de turma e de curso.
▲ Mais de uma centena de pessoas marcaram presença numa manifestação esta segunda-feira na Rua Formosa, no Porto, em frente às instalações da ACE
IGOR MARTINS / OBSERVADOR
Em momento algum foi mencionado o nome de António Capelo, tal como no dia seguinte, terça-feira, quando a ACE se posicionou, pela primeira vez, sobre o tema. “Temos vindo a assistir à publicação de alegações nas redes sociais que visam um antigo professor e diretor da escola”, começa o texto publicado no Instagram a 9 de setembro.
O comunicado punha o ónus no facto de a “própria credibilidade da ACE” ser “questionada neste âmbito” e sublinhava o facto de as “afirmações atualmente veiculadas” o serem “de modo anónimo, sem que exista qualquer queixa ou denúncia junto da escola ou de qualquer entidade judicialmente competente: o Ministério Público ou a Polícia Judiciária”.
▲ O primeiro comunicado da ACE, a 9 de setembro, dias depois de terem começaram a surgir online testemunhos de vítimas que retratavam alegados casos de abuso e assédio vividos por antigos alunos
O texto, focado no facto de a ACE não ter recebido qualquer queixa nos seus diversos instrumentos para o efeito, não caiu bem na comunidade escolar.
“Há muitas pessoas que não se identificam com o comunicado que foi lançado, em que não se reconhecia o sofrimento das pessoas que fazem estas queixas nem a possibilidade de haver denúncias que não as feitas de forma mais oficial”, corrobora Raquel S. “Além disso, acho que a escola escudar-se com uma ideia que há um canal de denúncias não é suficiente, tendo em conta a gravidade das acusações de que estamos a falar e a possibilidade delas durarem anos.”
Na quinta-feira, a direção da ACE, constituída por Pedro Aparício e Glória Cheio, acabou por se demitir. “A direção da ACE Escola de Artes informa que, na sequência das recentes manifestações públicas e do debate gerado em torno da nossa instituição, decidiu apresentar a sua demissão”, começava o texto. “Consideramos que a escola deve permanecer acima de qualquer controvérsia e que a criação de um ambiente tranquilo é fundamental para garantir o bom funcionamento do ano letivo que acabou de iniciar”. O Observador tentou contactar a ACE Porto no sentido de perceber se a demissão tem efeitos imediatos e quem sucede a Aparício e Cheio, mas não obteve resposta.
▲ O comunicado da direção da ACE Porto, a 11 de setembro, em que anunciam a demissão da direção, constituída por Pedro Aparício e Glória Cheio
Raquel S., mesmo já não estando na escola, sabe que “há um conjunto de professores nesta escola que com certeza quer que isto mude”. “Não tenho dúvida disto”, remata.
Esta segunda-feira à tarde, esse grupo — do qual a ex-docente já não faz parte, pois desvinculou-se da escola antes — emitiu um comunicado. Ao contrário dos elaborados pela direção da escola, o deste grupo de professores não teve direito a figurar nas redes sociais da ACE, nem sequer está na homepage da instituição de ensino. O comunicado foi publicado discretamente na secção de “notícias” do site, com o título “informação”.
“Um grupo de professoras e professores da ACE — Escola de Artes sente necessidade de dar conta de que se reuniu na passada quinta-feira, dia 11 de setembro 2025, no sentido de, face a todos os acontecimentos que têm marcado o início do nosso ano letivo, procurar em conjunto encontrar soluções que tenham em conta o bem-estar de toda a comunidade educativa, do presente, do futuro e do passado, muito especialmente das alunas e dos alunos”, pode ler-se.
▲ O comunicado que dá conta de uma reunião de professores da ACE, publicado no site da instituição esta segunda-feira
A reunião, sabe o Observador, congregou cerca de 20 professores e nenhum elemento da direção entretanto demissionária.
“Há professores que só trabalham aqui. Tomar uma posição não é exatamente fácil para toda a gente”, diz Raquel S. “Esta história é complexa para quem está dentro. Não sabem como se posicionar, o que podem fazer. Os professores têm de estar vigilantes, mas é importante também perceber-se como é que se age em relação a isso”, diz.
Raquel S. admite estar disponível para voltar, “depois da mudança da direção, se houver uma mudança consequente, se houver criação de sistemas em que se fale e que permitam a denúncia de casos com seriedade, seguimento e independente, se houver um manual de práticas, se a escola de facto averiguar o que aconteceu, reconhecendo que estas acusações são muito graves e que estas pessoas precisam de proteção”.
Esta segunda e terça-feira as aulas na ACE foram canceladas, através de um e-mail, mas serão retomadas já esta quarta-feira, 17 de setembro, apurou o Observador.
A ACE é uma escola de artes do espectáculo, tutelada pelo Ministério da Educação, que leciona cursos profissionais artísticos do 10.º ao 12.º ano. No domingo, o Ministério da Educação confirmou que a Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) tinha aberto um processo de averiguações à escola, depois de ter recebido uma denúncia no dia 8 de setembro. Ao Observador, o gabinete do ministério tutelado por Fernando Alexandre garante que “em anos anteriores, não se registaram na IGEC denúncias de assédio a alunos da ACE Porto”.
Nas últimas semanas começaram a surgir testemunhos de vítimas, que retratavam alegados casos de abuso e assédio vividos por antigos alunos da ACE com António Capelo, ator e fundador da escola. Os testemunhos divulgados na imprensa, nomeadamente no Observador, abarcam quase três décadas. António Capelo, ao Observador, nega “peremptoriamente” todas as acusações. Num comunicado enviado a vários órgãos de comunicação social diz-se “alvo de acusações anónimas e difamatórias que põem em causa” a sua “honra, a vida profissional e até a vida privada”. A Inspecção-Geral da Educação e Ciência abriu um processo de averiguações à ACE, no seguimento de uma denúncia que deu entrada no dia 8 de setembro.