A startup fundada por Nuno Sebastião, o CEO da Feedzai, quer ter uma palavra a dizer na gestão do tráfego de satélites em órbita. Tudo recorrendo a tecnologias como a inteligência artificial e aprendizagem automática para garantir uma monitorização mais permanente. E se o unicórnio Feedzai colocou a inteligência artificial (IA) ao serviço da deteção de fraude financeira, esta espécie de “filha” mais nova de Nuno Sebastião está a usar a tecnologia para vigiar objetos em órbita e a deixar avisos sobre a probabilidade de colisões.
“Faço sempre a comparação com os carros na Terra”, exemplifica Chiara Manfletti, a diretora de operações da Neuraspace, que também passou pela Agência Espacial Portuguesa. “Quando os carros começaram [a circular] não havia regras nas estradas e tudo era muito caótico. Por isso precisamos de uma forma de garantir que as operações espaciais são muito simples”, conta em conversa com o Observador, referindo que “há muitos fatores económicos” associados às colisões entre satélites.
A plataforma desenvolvida pela companhia, que funciona numa lógica de software como serviço (software-as-a-service), não vai ajudar a monitorizar automóveis, mas sim satélites e resíduos espaciais. “O tema do lixo espacial não é novo, mas não há muitas empresas ou instituições que tenham enfrentado este tema até agora – por várias razões. Agora temos não só um problema de lixo espacial, mas também temos um desafio, já que muito mais empresas estão a pôr satélites ativos no Espaço.”
Chiara Manfletti refere que o facto de o número de satélites em órbita estar a aumentar fez com que “de repente existisse o reconhecimento de que há que resolver a questão” do lixo espacial, garantindo, “acima de tudo que os satélites ativos que estão em órbita não colidem uns com os outros”.
A diretora de operações volta ao exemplo dos carros para descrever o problema que esta plataforma quer ajudar a resolver. “Imaginemos um mundo em que havia colisões entre os carros e que, em vez de retirá-los da estrada, os deixávamos no meio da estrada. Ou o carro avariava e não o tirávamos de lá, só o tirávamos para o outro lado da estrada. A mesma coisa aplica-se à órbita. Se há uma colisão, o que aconteceria era que os pedaços de lixo ficavam só em órbita.”
O problema é que estes resíduos e lixo espacial comportam-se de uma forma bastante diferente do que aconteceria nesta analogia dos automóveis. “A diferença é que estão a mover-se a uma velocidade muito elevada e funcionam como balas. Se vão contra outro satélite ativo podem fazer com que o satélite que está a funcionar se estrague. É um efeito chamado Kessler Effect, em que o número de resíduos em órbita vai aumentar exponencialmente”, diz Chiara Manfletti. “Por isso, se não fizermos nada o número de resíduos vai continuar a aumentar e, em algum ponto, não conseguiremos usar o Espaço.”
As consequências destas colisões podem, claro, afetar o consumidor final. Em casos mais extremos, “todos os serviços que usamos desapareceriam – não haveria posicionamento global através de Google Maps, Waze ou de todos os outros. Não haveria também telecomunicações, nada.”
Carlos Cerqueira, responsável de desenvolvimento de negócio da empresa, complementa que não é frequente ouvir-se falar de colisões entre satélites, mas refere que isso acontece “porque os operadores de satélites fazem um grande esforço, em termos de recursos humanos e de operações, para evitar estas colisões”.
A plataforma da Neuraspace pretende justamente tornar “as operações de satélites ativos no Espaço muito mais fáceis e simples para os operadores” – os principais clientes desta solução. Carlos Cerqueira nota ainda que, com alguns serviços a depender de forma crescente da infraestrutura de satélites, como a condução autónoma, qualquer reajuste que as empresas de satélites precisem de fazer para evitar colisões com resíduos espaciais pode implicar interrupções de serviço.
Chiara Manfletti, CEO da Neuraspace.
“É um problema económico para os operadores de satélites mas também para os clientes — e aí o problema é mais do que económico, é uma questão de serviços”, concretiza este responsável. “Este tipo de situações está a aumentar e os operadores de satélites estão não só a gastar muito dinheiro a tentar evitar colisões, o que tem impacto no seu negócio mas também no serviço que disponibilizam a todos nós.” “A infraestrutura de satélite é um pouco como a canalização, o público não se preocupa muito, depende inteiramente dela, mas quando falha, nota-se.”
A assistente virtual que vai trabalhar 24/7
A 20 de julho – aniversário do dia em que o Homem foi à Lua – a empresa disponibilizou no mercado a solução que criou. Além dos operadores de satélite, também as seguradoras estão lista de potenciais clientes. “Os operadores de satélite são um dos clientes que temos, mas também estamos a apontar para as empresas de seguros, que são também uma forte coluna vertebral da economia do Espaço”, contextualiza Chiara Manfletti.
A diretora de operações da Neuraspace explica que o trabalho desta plataforma está assente em três grandes pilares – a fusão de dados; a IA, aprendizagem automática e ainda a explainability, a capacidade de a tecnologia conseguir explicar porque toma determinadas decisões. Através de uma assistente virtual que está sempre disponível, espera-se que os operadores de satélites consigam autonomizar muitas das atividades para evitar colisões, que hoje em dia estão bem mais centradas nos humanos.
“O que o nosso produto faz é ter uma solução ‘end-to-end’ que é automatizada. Temos IA que em muito menos tempo consegue lidar com um maior número de encontros, em comparação com os humanos”, diz Chiara Manfletti. “Injetamos dados de várias fontes, dos satélites, do catálogo de resíduos espaciais, da meteorologia espacial [o ambiente dinâmico do Espaço em redor da terra e no sistema solar causado pela atividade do Sol e de fontes não solares.” Além disso, são ainda feitas algumas análises de física, para conseguir determinar onde está hoje o satélite e onde poderá estar no futuro.
Conceitos como probabilidade e exposição ao risco também entram nas capacidades da análise que é apresentada ao cliente. Na exposição ao risco, por exemplo, é possível “perceber qual é o impacto se acontecer mesmo uma colisão – se representa dano total, é apenas um pequeno impacto ou é algo catastrófico”, exemplificam estes responsáveis da Neuraspace. No caso de ser necessário fazer alguma manobra ao satélite, também existe capacidade para transmitir essas indicações.
Um dos exemplo dados sobre a plataforma mostra que esta assistente virtual apresenta um número de objetos analisados e consegue organizar por grau de risco qual o potencial de colisões. As mensagens são transmitidas de forma clara, organizando os possíveis encontros por cores — verde para situações de baixo risco, amarelo para encontros a manter debaixo de olho e vermelho para situações que possam obrigar a mais atenção e até manobras para evitar colisões.
A solução é “escalável”, refere Carlos Cerqueira – neste momento, a plataforma disponível funciona como uma espécie de primeira versão de funcionalidades. Já há três operadores de satélites a utilizar o software-as-a-service da Neuraspace.
Empresa não quer estar dependente de financiamento institucional
A empresa criada por Nuno Sebastião está sediada em Coimbra – quase como uma “espécie de regresso às origens” para o fundador da Feedzai, também ela nascida em Coimbra. No entanto, a equipa da Neuraspace está distribuída por vários pontos do país, de Lisboa a Braga, e tem a diretora de operações em Munique, na Alemanha.
Neste momento, a Neuraspace já angariou três milhões de euros em financiamento e tem ainda um projeto no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que será destinado à compra de infraestruturas de radares e a contratações. Até 2025, a empresa pretende ter 300 pessoas.
“A Neuraspace é uma empresa jovem, hoje somos financiados em 87% pelo setor privado. Levantámos três milhões de euros e é um início importante”, contextualiza Chiara Manfletti. “Conseguir vender produtos a clientes comerciais é uma parte muito importante da nossa identidade. Não queremos ser uma empresa que vai sobreviver de financiamento institucional”, garante a diretora de operações. “Claro que as agências e entidades institucionais podem ser clientes, queremos ter uma relação forte, têm um papel importante para ajudar as empresas espaciais a crescer, mas preferimos ser uma empresa bem-sucedida a nível comercial. Tornar-nos um unicórnio, até.”
Já sobre a possibilidade de o acesso a capital poder vir a tornar-se mais difícil para as startups, dado o contexto de inflação e de guerra na Europa, Manfletti refere que já “ouviu coisas opostas” sobre o tema. “Vamos ver o que acontece e acho que haverá sempre necessidade para boas empresas fazerem trabalhos excelentes com excelentes equipas. Estou otimista.”
“Acho que estamos preparados para os próximos anos. Vamos ter de certeza de ir ao mercado para mais rondas de financiamento”, diz Carlos Cerqueira. “Ninguém sabe o que aí vem, se vamos ter uma recessão ou não, mas, no fim, quando se tem um bom produto e se está a disponibilizar algo de que os clientes absolutamente precisam encontramos o nosso caminho.”
“Claro que se surgirem tempos maus poderá levar mais tempo e ser mais difícil – mas será sempre difícil estar num mercado global.”