Sandro Bernardo começou com uma pergunta para os juízes: “O que é que os senhores querem saber?”. A companheira, Márcia Monteiro, com uma afirmação: “Eu quero dizer a verdade”. Entre a aparente indiferença de um e a determinação de outro, descobrir a verdade pode ter passado a ser uma tarefa ainda mais difícil. É que nenhum deles admite que matou Valentina, em maio do ano passado, na sua casa na Atouguia da Baleia. O pai diz que foi a madrasta a agredir a criança de nove anos até à morte, mas madrasta diz o inverso. Versões contraditórias que a distância a que estavam sentados no banco dos arguidos — bem maior do que aquela que a pandemia de Covid-19 exige — parecia antever.

Mas num aspeto houve concordância. Embora não se tenham assumido como autores das agressões que levaram à morte de Valentina, ambos admitiram que pouco ou nada fizeram para as evitar. Num discurso pouco coerente e que se resumiu a respostas de “sim” e “não”, Sandro disse-se “arrependido” e garantiu ao tribunal que tentou afastar a madrasta da sua filha, quando esta a estava supostamente a agredir, mas acrescentou também que “tinha muito respeito pela Márcia”. A justificação levou uma das duas juízas do tribunal a fazer uma pergunta que ficou sem resposta: “Fez tudo por respeito à sua senhora e por desrespeito à sua filha? Tem de admitir que é estranho. Mas é a sua versão”.

Sandro Bernardo na reconstituição que fez com a PJ, em maio

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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