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Valentina tinha nove anos e sempre viveu com a mãe, no Bombarral

Valentina tinha nove anos e sempre viveu com a mãe, no Bombarral

Sandro, Sónia e Valentina. A história da família que nunca existiu /premium

Fruto de uma gravidez não planeada, Valentina sempre viveu com Sónia. Sandro só começou a ficar com a filha há uns anos. Foi assim durante a pandemia para a mãe poder trabalhar. "Malvada a hora."

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O boné cinzento escuro enfiado na cabeça não lhe vale de muito, mesmo que insista em puxá-lo para baixo. A chuva embacia-lhe os óculos. E as lágrimas também. Encostado à porta de casa, no beco onde Valentina Fonseca costumava brincar, João Silvestre chora a morte da sobrinha-neta, um dia depois do funeral. Aos 74 anos, recorda a guerra para a qual foi chamado, em Moçambique, o acidente que o deixou coxo e a irmã que morreu ainda nova, mas nunca a vida lhe fez tão pouco sentido. “Tive a mulher no hospital, com cancro, e não a podia ir ver por causa do coronavírus. Depois acontece-me isto. Poça para a minha vida!  O que é que mais está para a acontecer?“, desabafa.

Apoiado num chapéu de chuva — prefere usá-lo como bengala do que para o proteger do mau-tempo — João Silvestre vai recordando, ao Observador, a última vez que viu Valentina, antes mesmo de a criança ir para a casa do pai. E reproduz a conversa que a menina teve com a mãe, Sónia Fonseca, nesse dia:

— Ó Valentina, amanhã é sexta-feira, o que é que resolves?

— Quero ir para a casa do pai. Tenho lá os meus manos. Telefona à Márcia [a madrasta] para ela me vir buscar.

— Pronto, tu agora já não gostas de mim — terá dito a mãe, em tom de brincadeira.

— Não digas isso. Eu gosto de ti, mas sabes que lá estão os meus manos para brincar e aqui não tenho ninguém. Só o gato.

Era uma rotina recente — esta de ir para casa do pai. Só por volta dos seis ou sete anos é que Valentina, agora com nove, começou a ter contacto frequente com Sandro Bernardo e a sua mulher, Márcia Bernardo. Fruto de uma relação passageira entre os pais, a criança sempre viveu com a mãe, no Bombarral, e só nos últimos anos começou a passar alguns fins-de-semana com o pai. Sandro e Sónia nunca foram uma família, mas de algum tempo para cá tentavam que filha pudesse conviver com os dois progenitores.

Os tios-avós de Valentina contam que a menina costumava dizer que gostava muito do pai e da madrasta

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Com o fecho das escolas devido à pandemia e com Sónia a ter de continuar a trabalhar, no final de março, Valentina foi para casa do pai. “A menina era para ficar na ama. Mas a madrasta é que disse: ‘Não vale a pena. Eu estou desempregada, tomo conta da menina‘”, conta ao Observador Edite Silvestre, de 69 anos, tia-avó da criança, também do lado da família materna, e mulher de João Silvestre. “Malvada a hora. Ficou a menina mais tempo, olha, para ela morrer”, diz o tio-avô.

Contente por ter com quem brincar, Valentina foi para casa do pai e da madrasta, na Atouguia da Baleia. Foi nessa casa que, de acordo com a investigação, acabaria por ser morta por Sandro e Márcia, que “tanto adorava”, conta João Silvestre. O tio-avô só queria descobrir “o que é que deu na cabeça daquele homem para fazer um trabalho destes a uma filha”. Mas sabe que, agora, é a Sónia que tem de dar apoio — “perdeu a única filha”, a sua única família, “a quem dava tudo”, diz.

Suspeitas de abuso sexual, violência, ameaças e contradições. As versões do pai e da madrasta de Valentina

Uma “relação passageira” e uma filha por “acidente”. Família de Sónia diz que pai nunca a procurou, mas família de Sandro diz que “ninguém sabia onde estava a Valentina”

Sandro, o mais velho de três irmãos, e Sónia, a mais nova de dois, conheceram-se em Peniche de onde ele é natural. Foi uma “relação passageira”, como descreve a irmã de Sandro, Beatriz Delgado, mas acabariam por ser pais, sem o terem planeado — um “acidente”. Nunca chegaram sequer a viver juntos. Em conversa com o Observador, a tia paterna da menina garante que o irmão viu a filha “em pequena” e que, depois “nunca mais a viu” porque “deixou de saber onde ela estava” e para onde Sónia tinha ido. “Ninguém sabia onde estava a Valentina. O Sandro sempre teve a iniciativa de procurar a filha e estar presente na vida dela”, garante.

A rua onde Valentina costumava brincar e onde vivem os tios-avós, no Bombarral

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

A versão da história é diferente quando contada pela família materna da criança. Edite Silvestre, a tia-avó, garante que Sandro só conheceu a filha quando ela tinha um ano e que Sónia esteve sempre no mesmo sítio: no Bombarral, onde cresceu e de onde é natural. Por isso, afirma, o pai sabia onde a encontrar. “Mudou de casa algumas vezes, mas sempre viveu aqui no Bombarral com a filha. A menina andava aqui na escola e tudo. Estava no 3.º ano”, diz Edite Silvestre.

Valentina foi vestida depois de morta? Madrasta ajudou o pai a esconder corpo? Os mistérios da morte da criança que a PJ tenta desvendar

Seja porque Sandro não encontrou a filha ou porque nunca chegou sequer a procurá-la, as duas versões da história explicam por que é que não é de estranhar que a família materna de Valentina nunca tivesse conhecido o seu pai. “Só o conheci agora na televisão“, conta uma prima de Sónia, Sandra Costa, ao Observador — num discurso que se repete por outros membros da família, como o irmão de Sónia, Vítor Fonseca, ou a tia-avó. “Eu nunca o conheci. Ela [a madrasta] vinha buscar a menina e eu nunca a vi, diz Edite Silvestre.

A tia-avó vai conversando e interrompendo a conversa para implicar com o gato que se roça aos seus pés — e que lhe traz à memória as tardes que a sobrinha-neta passava na sua casa a brincar com o animal, o Bolinhas.

Ó Valentina, olha que ele arranha — diz Edite Silvestre, apontando com o dedo em direção ao chão, como se a menina estivesse, de facto, ali.

— Não arranha nada — imita a tia-avó, enquanto brinca com o gato.

“Houve uma vez que chegou ao pé de mim, chorosa, a tapar a mão. Eu perguntei o que é que tinha acontecido. E ela disse: ‘Foi o Bolinhas que me arranhou‘”, relata Edite, num tom infantil, numa tentativa de lhe imitar a voz, para depois abanar a cabeça como quem quer afastar aquela memória. “Minha rica menina, tenho muita pena da minha menina”, lamenta.

Pai e madrasta detidos pela morte de Valentina. Ambos estiveram, à vez, na casa onde terá ocorrido o crime com Polícia Judiciária

Valentina “nunca fez uma queixa” relacionada com o pai ou a madrasta, mas em 2018 fugiu da casa com saudades da mãe

Ambos os lados da família estão de acordo num aspeto: Valentina já era mais velha quando começou a frequentar a casa do pai. A tia paterna diz mesmo que teria já cerca de seis ou sete anos. Antes disso, Sandro conheceu Márcia e tiveram dois filhos. Primeiro e durante vários anos, viveram em Peniche. Só há cerca de “três ou quarto meses” é que se mudaram para o primeiro andar de uma vivenda na Atouguia da Baleia, segundo a irmã, Beatriz Delgado.

A casa onde Valentina terá sido assassinada pelo pai e pela madrasta, na Atouguia da Baleia

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Valentina ainda chegou a conhecer a casa de Peniche. Foi, aliás, de lá que fugiu em abril de 2019, sem ninguém dar por isso, num episódio que foi até averiguado pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ). Mas a menina acabaria por ser encontrada por um agente da GNR, que a viu sozinha na rua e a levou de volta à família. Na altura, explicou que fugiu de casa porque tinha saudades da mãe.

À data, a criança foi sinalizada pela CPCJ de Peniche, os pais foram inquiridos e a conclusão a que se chegou — de que fora um episódio isolado e que não havia sinais de maus-tratos — levou a que o processo fosse arquivado um mês depois. A tia-avó, Edite Silvestre, explica que a família não valorizou muito o que se tinha passado. “Pensámos que eram coisas de crianças. Se calhar, já na altura…é melhor nem pensar“, diz, encolhendo os ombros.

O que Edite Silvestre não quer pensar é que a fuga de 2019 podia já ter sido um sinal e que o que agora aconteceu podia ter sido evitado. Até porque, diz, Valentina “nunca fez uma queixa” relacionada com o pai ou com a madrasta. Muito pelo contrário: “A menina adorava-os. Não esperávamos isto”. O mesmo é confirmado do lado da família do pai. “Davam-se todos muitos bem. Eram uma família unida. O Sandro costumava muito vir a minha casa com as meninas, por causa da minha avó que vive connosco, e passava lá muitas vezes.”, diz a tia paterna de Valentina, Beatriz Delgado.

Sónia não tinha onde deixar a filha por causa da pandemia. Madrasta ofereceu-se para ficar com ela

Sandro acabara de regressar da Bélgica. Tinha estado lá a trabalhar, mas voltou por causa da pandemia, explica a irmã ao Observador, adiantando que não estava nos seus planos emigrar novamente pela mesma razão: o surto da Covid-19. Atualmente estava em casa, com a mulher e com os filhos — ao contrário da mãe de Valentina. Com o fecho das escolas e com Sónia a ter de continuar a trabalhar por turnos, numa fruteira em Peniche, a opção era deixar a filha na ama — uma hipótese que foi logo descartada pela madrasta, que se ofereceu para tomar conta da enteada e sugeriu que ficasse na casa do pai.

O pai de Valentina Fonseca é suspeito de a ter assassinado e encontra-se em prisão preventiva

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Assim foi: no final de março, Valentina mudou-se para a Atouguia da Baleia. De acordo com a investigação, a menina de nove anos terá sido agredida pela primeira vez pelo pai no dia 1 de maio, mas a família da mãe nunca desconfiou das agressões e que algo pudesse estar a acontecer. Tudo decorria numa aparente normalidade.

Até ao dia 7 de maio. Nesse dia, Sandro deu à má notícia a toda a família: a filha tinha desaparecido. Na sua versão, tinha ido deitar-se por volta das 23h00 do dia anterior e, à 1h30, tinha passado no quarto da menina para a aconchegar. Às 8h30, quando acordou, Valentina já não estava na cama. “Fomos logo ter com ele”, conta a irmã, Beatriz Delgado, acrescentando que não notou “nada de estranho” no comportamento do irmão. “Nada, nada”, reforça, contrariando as declarações de várias pessoas que contactaram com ele durante as buscas, de civis às autoridades, e que descrevem o seu comportamento naqueles dias como demasiados “sereno”, “tranquilo” e algo “displicente” para quem tinha não sabia da filha.

Da serenidade durante a buscas à postura derrotista na reconstituição do homicídio da filha. O comportamento do pai de Valentina

Também a família de Sónia cedo desconfiou que alto teria de ter acontecido e que Valentina não podia ter saído pelo seu próprio pé. Especialmente porque a menina tinha muito medo do escuro. “Uma vez, ela estava ali dentro da despensa a brincar e o meu marido fechou-lhe a porta na brincadeira. Ui… ela deu em gritar…!”, conta Edite Silvestre. “Agarrei-me logo a ela, coitadinha”, explica o marido, confirmando a história.

A madrasta de Valentina está detida na prisão de Tires

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

As suspeitas viriam a confirmar-se, mas a família não podia imaginar que o pai e a madrasta de Valentina, que a menina “adorava”, estivessem envolvidos na sua morte. A tia-avó leva as mãos à cabeça ao lembrar-se do momento em que Sónia soube que o corpo da filha tinha sido encontrado: “Ela veio cá com o namorado para tratar dos gatos, mas pediu-me para ficar aqui porque não era capaz de entrar na casa dela. Estávamos a ver as notícias. Valentina para a esquerda, Valentina para a direita. De um momento para o outro, apaga-se tudo: corpo da pequena Valentina foi encontrado. Ai jesus! Ela [Sónia] começa aos socos à mesa. Sai para a rua, esparralha-se chão fora. Só gritava: ‘Diz-me que isto é mentira, tia!’. Passados 20 minutos é que recebeu o telefonema da PJ, mas ela já sabia”.

A família de Sandro nunca mais falou com ele. A irmã acredita que o que aconteceu só pode ter sido “um acidente que fez com que ele entrasse em pânico“. Outro tio materno da menina de nove anos, Vítor Fonseca, não encontra “explicações” para o que possa ter acontecido. Certo é que o resultado preliminar da autópsia à criança aponta para uma morte violenta, com lesões em vários locais, incluindo na cabeça, e indícios de asfixia.

Sandro Bernardo e a mulher já foram presentes a tribunal e explicaram ao juiz o que é que aconteceu. O pai assumiu que bateu na filha, dias antes, mas recusou ter qualquer responsabilidade na sua morte. Já a madrasta culpou o marido, dizendo que, mesmo que quisesse, não podia ter feito nada para evitar este desfecho. Ambos ficaram em prisão preventiva: ela indiciada por homicídio qualificado por omissão e ocultação de cadáver; ele por homicídio qualificado, ocultação de cadáver e violência doméstica sobre a filha. Vão aguardar os próximos passos judiciais na prisão: Márcia no Estabelecimento Prisional de Tires e Sandro na cadeia anexa à PJ.

As portadas da casa dos avós maternos da menina estão fechadas. O marido da avó não quer falar mais sobre o que aconteceu

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Sónia saiu do Bombarral para se refugiar na casa do atual namorado, nas Caldas da Rainha. Não consegue entrar no espaço onde viveu com a filha, olhar para as suas roupas e para os seus brinquedos. Algumas ruas mais à frente, as portadas da casa onde a avó materna da criança vive com o marido estão fechadas —  o pai biológico de Sónia “nunca quis saber dela”, nem sequer conhecia Valentina. O marido da avó materna era o verdadeiro avô da menina, contam os tios-avós, e não quer falar mais com jornalistas. Abre a porta e pede desculpa, mas diz que está cansado e “farto de mentiras”.

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