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Polícia Judiciária
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▲Arguido encontra-se em prisão preventiva

© Hugo Amaral/Observador

▲Arguido encontra-se em prisão preventiva

© Hugo Amaral/Observador

Nome de código "Volga". Como o falso espião de 23 anos tentou enganar a PJ três vezes e acabou detido graças a uma funcionária de limpeza

Miguel R. aceitou colaborar contra a associação criminosa (falsa) a que dizia pertencer, mas nunca fez o que lhe pediram. Ainda implicou inspetor que só queria ajudar a filha de um amigo.

A funcionária de limpeza do hotel Tryp Lisboa Caparica Mar já tinha ficado desconfiada de Miguel R. por, logo depois de ele a abordar, ter desaparecido do seu carrinho de limpezas o cartão-mestre que abria todas as portas dos quartos do sexto piso. E foi essa desconfiança que permitiu apanhar Miguel R., um jovem de 23 anos que foi acusado pelo Ministério Público de vários crimes, entre eles tentativa de espionagem.

Foi sem surpresa que a 4 de fevereiro de 2025, o dia seguinte ao furto do cartão-mestre, este foi encontrado dentro do quarto 640 onde Miguel se tinha alojado. Sabendo disso, o diretor de segurança do hotel encaminhou-se para a GNR e fez a queixa que levou os militares a cumprir buscas. Afinal, suspeitava que o cartão-mestre tinha sido usado para furtar um computador portátil e um iPad de um militar sueco da NATO, que se encontrava naquele hotel para ir, na Base do Alfeite, a uma conferência com o intuito de planear um exercício militar da Aliança Atlântica.

Dentro do quarto de Miguel R., os militares da GNR não encontraram os bens furtados e, com medo que estes últimos contivessem informações militares classificadas, quando se vivia em plena tensão entre a NATO e a Rússia, chamaram a Unidade Nacional Contra Terrorismo da Polícia Judiciária (UNCT-PJ).

A partir daqui, Miguel R. trabalhou (mal) como “agente encoberto” da PJ e um inspetor, por vingança, viu-se mesmo investigado por associação criminosa, espionagem, violação de segredo de Estado e corrupção. Mas estas últimas suspeitas alicerçavam-se em grandes mentiras e acabaram descartadas.

Quando “Volga” correu para a estação da Alameda

Ao ser questionado pela PJ, Miguel R. relatou pertencer a uma associação criminosa que se dedicava a roubar informação classificada, de espionagem e violação do segredo de Estado.

A prioridade da PJ era recuperar os equipamentos roubados ao militar da NATO — cujo paradeiro era desconhecido — e chegou a um acordo com o jovem: este integraria uma ação encoberta que permitiria desmascarar a suposta pessoa a quem o computador e o iPad deveriam ser entregues. O encontro já estava marcado no dia 7 de fevereiro para o quiosque do Largo do Leão, em Lisboa, a escassos 150 metros da embaixada da Federação Russa em Portugal. O truque passava por entregar aparelhos semelhantes, mas esvaziados; os originais ficariam na posse da PJ.

▲ Miguel R. deixou o computador na estação de metro da Alameda, em Lisboa

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Antes de avançar, Miguel R. recebeu o nome de código “Volga”, o rio que nasce e percorre a Rússia até desaguar no mar Cáspio, e foi avisado de que estaria sempre sob vigilância.

No dia 7 de manhã, Miguel R. deixou o hotel vestido com calças e casaco preto, ténis brancos e um saco preto ao ombro, e entrou num TVDE. Passou pela Ponte 25 de Abril e pelo Túnel do Marquês mas, em vez de ir até ao fim da Avenida Duque de Ávila, saiu mais cedo do carro e correu em direção à estação de metro.

Quando entrou na estação, os inspetores da PJ perderam-lhe o rasto até sair na zona da Alameda, perto da embaixada russa, onde pareceu reticente. Era um dia ameno e andava de um lado para o outro, sentou-se num banco de jardim, e até ajustou o espelho de uma mota alheia para, através do reflexo, perceber se estava a ser seguido. Estava apenas a ser vigiado.

Quando voltou a descer para a estação de metro da Alameda, recolheu o computador furtado, que tinha deixado numa loja para que o conteúdo fosse transferido para uma pen. De seguida, os inspetores não podiam acreditar no que viram: Miguel R. entregou a pen, junto da embaixada da Rússia, a um conselheiro da mesma desrespeitando tudo o que fora combinado com a PJ. Este agente diplomático recebeu-a sem qualquer gesto de hesitação ou surpresa, detalha a acusação a que o Observador teve acesso.

Quando questionado pela PJ, o jovem disse ter entregado a pen por estar nervoso mas sossegou os inspetores: afinal, tinha outro serviço marcado e uma nova oportunidade de se redimir. Quanto ao computador e ao iPad originais, foram entregues aos inspetores.

A segunda oportunidade que acabou com o furto de uma mala

Num interrogatório posterior, Miguel R. decidiu ser “o máximo sincero” com a juíza e considerou que tinha agido de forma razoável. “Eu, cumpri com a minha parte… do acordo, que era devolver os pertences furtados. Só que teria também, pronto, de agir de maneira como fosse mais cómoda. Infelizmente estava, ou felizmente, estava com um pé de cada lado, então, tive também de optar pelas minhas manobras de poder despistar a vigilância, tendo em conta que estavam 100% focados em mim, para tentar captar mais pessoas que integrassem” a rede.

Falhada a primeira tentativa da ação encoberta, Miguel R. assegurou que a sua associação criminosa o tinha incumbido de outra tarefa: roubar o computador e outros aparelhos eletrónicos a outra pessoa, que ficaria hospedada no hotel SANA no Marquês de Pombal, em Lisboa, e dá-los ao mesmo funcionário da embaixada da Rússia.

▲ O falso espião disse à PJ que ia intercetar o seu próximo alvo no aeroporto de Lisboa

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Os inspetores avisaram-no de que desta vez, teria mesmo que cumprir tudo à risca.

A 9 de fevereiro, Miguel R. disse aos inspetores que já sabia o nome do seu alvo, S. P., e que o avião chegaria às 23 horas a Lisboa. Propôs-se ir esperá-lo ao aeroporto, sob o aviso de que não deveria abordar o alvo sem que a PJ soubesse nem retirar-lhe a bagagem de forma violenta. Mas, quando se aproximou a hora, Miguel R. voltou a divergir e anunciou aos inspetores que tencionava fazer o contrário do que lhe tinha sido pedido. Alarmados, os inspetores acorreram ao aeroporto Humberto Delgado mas, quando procuraram o nome do alegado alvo, descobriram que não seguia nenhum S.P. a bordo do voo.

Apesar de várias chamadas da PJ, Miguel R. só voltaria a dar sinal de vida na madrugada do dia 10, quando prometeu um encontro mas também revelou que iria deixar de colaborar e ponderava ir para Abu Dhabi ou para o Dubai. Em sua posse, apesar do Termo de Identidade e Residência que sobre ele recaía desde que fora apanhado no hotel, já tinha um bilhete de avião rumo ao Luxemburgo.

O jovem chegou mesmo a ir para o aeroporto, a despachar uma mala no porão e a apresentar-se na porta de embarque do voo que partia às 7h15 desse dia 10, mas acabou por desistir. Antes de sair do aeroporto, foi recolher uma mala mas levou outra de bónus, que pertencia a um turista que viera de Bombaim, na Índia — e que furtou apenas porque pôde. Às 7h47, estava de volta à Caparica a fazer o check-out do hotel.

E, afinal, quem era o alvo S. P.? Tratava-se apenas de um cidadão luxemburguês que, em novembro de 2024, apresentara queixa de furto cometido quando frequentava uma piscina. Como ao militar da NATO, também lhe fora subtraído o cartão-chave que dava acesso ao cacifo onde tinha guardado a carteira e um certificado de matrícula, ambos encontrados em posse de Miguel R..

▲ Reunião no DCIAP deixou inspetores da PJ intrigados

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O inspetor da PJ que acabou investigado por proteger a filha de um amigo

Goradas as duas tentativas de colaboração com a PJ, os inspetores reuniram na noite de 10 de fevereiro no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) para acabar com a ação encoberta. Às 21h50, dá-se um momento caricato. O telefone toca e, do outro lado e por pouco tempo, esteve Miguel R.: passou logo a chamada a um outro inspetor da PJ, A. M., que nada tinha que ver com a operação. Este último pediu a identificação do colega, que lha negou alegando razões de segurança. Ambos os inspetores perceberam estar a falar com um homónimo.

Em interrogatório, Miguel R. garantiu que A. M. integrava a associação criminosa e que era responsável por passar informações da PJ através de pesquisas em bases de dados. Receberia milhares de euros em troca, alegou o jovem, que também garantiu que as autoridades seriam capazes de o apanhar “com a boca na botija”.

Na sua versão, naquele 10 de fevereiro Miguel R. viu-se obrigado a dizer a A. M. que estava a colaborar com a PJ mas, como este — que tinha aparecido no encontro de gorro passa-montanhas e de luvas de soco inglês, de auricular Bluetooth no ouvido e muito agitado — não acreditou, passou-lhe o telefone enquanto decorria a reunião. Depois de os inspetores da PJ terem falado, A.M. foi-se embora.

Contudo, a verdadeira história era muito diferente. A. M. era inspetor da PJ, mas também vizinho de um pai preocupado com a filha que se andava a encontrar com Miguel R.. Ela vira-o pela primeira vez em 2022, quando o jovem apareceu numa festa ao volante de um Porsche. Contudo, o pai descobriu que Miguel R. tinha antecedentes policiais e pediu a A.M. que confirmasse a informação, o que conseguiu fazer: encontrou dados sobre atos sexuais com adolescente, violação e roubo, entre outros.

Prisão

▲ Miguel R. encontra-se em prisão preventiva desde fevereiro de 2025

Quando a rapariga contou a Miguel R. o que tinha acontecido, este começou a telefonar ao inspetor da PJ e a ameaçá-lo.

Ao longo de mais de seis meses, A. M. foi investigado sem que tenham sido encontrados quaisquer indícios do que Miguel R. sobre ele relatou, pelo que o Ministério Público crê que a versão do jovem surgiu por vingança na sua tentativa de o afastar da namorada.

Quando A. M. e Miguel R. se encontraram a 10 de fevereiro, foi com o intuito de o convencer a terminar a relação; mas acabou a falar ao telefone com um colega da PJ no exato momento em que decorria a reunião no DCIAP. No dia seguinte, Miguel R. já tinha sido detido — encontra-se em prisão preventiva desde então no Estabelecimento Prisional de Monsanto — e ainda tentou, uma última vez, enganar a PJ ao levar os inspetores não à sua casa, mas a um AirBnB no Montijo que alugara em tempos, cujos proprietários tinham feito queixa dele à PSP, e que abandonara sem pagar. Só o advogado e os próprios inspetores o convenceram a acabar com mais uma mentira.

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