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Francisco Álvares/CIBIO

Francisco Álvares/CIBIO

Nos montes, há lobos e homens a lutar pela sobrevivência

Há 15 anos que o jornalista Ricardo Rodrigues se apaixonou pelos lobos. Nas páginas do livro "Malditos" conta como as histórias dos lobos se entrelaçam com as dos homens, numa relação de amor-ódio.

“Adoro lobos e adoro as pessoas que odeiam os lobos”, diz Ricardo Rodrigues. A paixão iniciou-se há 15 anos e há cerca de dez que o jornalista se deixa enfeitiçar completamente por ela. “Já fui umas 30 vezes a Montalegre.” Vai a esta “segunda casa” porque lá fez grandes amigos. Vai porque tem histórias de lobos para ouvir e para contar, vai porque as pessoas destas terras têm muitas outras histórias para contar. Desta vez, está mais nervoso. Foi a Montalegre apresentar o livro Malditos que conta “a guerra ancestral entre dois exércitos decadentes”, como diz o autor. Dois grupos – pessoas e animais – que lutam diariamente pela sobrevivência. “Isto é um desafio sem vitórias, é a derrota de toda a gente.”

Há cerca de 15 anos, Ricardo Rodrigues ainda dava os primeiros passos no jornalismo quando foi a Montalegre, em Trás-os-Montes, para a inauguração do Ecomuseu do Barroso. Por lá conheceu Francisco Álvares, biólogo e especialista em lobo-ibérico (Canis lupus signatus) que estava a ajudar a montar o espaço que pretende preservar e promover a memória coletiva da região barrosã, o património cultural e natural, incluindo a relação ancestral da população com o lobo. Foi com Francisco Álvares que Ricardo Rodrigues ouviu uivar um lobo pela primeira vez. Quando deu por si, noite escura, estavam rodeados por uma dúzia de lobos. O misto de fascínio e medo marcou-o para sempre.

“Estar numa serra à noite, ver um cientista juntar as mãos em concha junto à boca e ouvir-lhe o uivo é um sensação forte. Quando os lobos respondem e uma pessoa percebe que está rodeada de predadores que não vê, então a sensação é avassaladora, um misto de fascínio e medo”, escreve Ricardo Rodrigues no livro "Malditos - histórias de homens e de lobos".

A Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou o desafio ao autor para escrever este livro integrado na coleção “Retratos da Fundação” e agora desafiou-se a si própria com o primeiro lançamento de um livro fora de Lisboa. Mesmo fora. São mais de 450 quilómetros para chegar a uma das regiões onde as histórias das pessoas se confundem com as histórias dos lobos. Há mais de dois mil anos que existem povoações e pastores na Península Ibérica. Há mais de dois mil anos que pastores e lobos lutam pelo mesmo: o território, as ovelhas e a sobrevivência. E no meio de tantas histórias de ódio e perseguição, esta região conta também uma história de amor, com direito a novela radiofónica, como o autor relata no último capítulo.

A convite da fundação, o Observador foi conhecer a vila de Montalegre encaixada em pleno território de lobos. No carvalhal do Avelar, um dos carvalhais mais bem conservados de Portugal, segundo Francisco Álvares, vive a alcateia do Larouco, uma das seis que escolheram o concelho de Montalegre. Nestes montes e vales onde os lobos escolheram viver, comer e procriar, também existem pastores, ovelhas, cabras, vacas e burros. E armadilhas gigantes que serviram em tempos para dar caça implacável ao lobo. O mesmo lobo que alimentou crenças, mitos e folclore local, como aquela que diz que o sétimo filho tinha ser batizado pelo primeiro para não correr o risco de se transformar em lobisomem.

“Para as gentes desta região, o lobo não é só o ladrão do gado: ainda é o demónio”, escreve Ricardo Rodrigues. O lobo escolheu locais ermos, mas muitos homens também. O pastoreio de gado nas áreas de maior atividade dos lobos pode acabar com a morte de ovelhas ou vacas e a revolta das populações. Mas só porque faltam aos lobos as presas selvagens. “Os corços, as lebres e os javalis escondiam-se nas matas, não faltava caça ao lobo”, escreve o autor. “Há 50 anos havia muito mais homens e muito mais gado. Os lobos iam atacando a rés, mas, como os rebanhos eram muitos, os estragos não se notavam tanto.” Mas quando as perdas de cabeças de gado se tornavam preocupantes as pessoas voltavam a perseguir os lobos. Apanhavam as ninhadas, matavam os adultos a tiro ou com veneno ou faziam batidas para apanhar os lobos nos fojos.

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Nada faz prever o que espera no fim do trilho do carvalhal de Avelar, onde os raios de Sol passam entre os ramos despidos do carvalho-negral (Quercus pyrenaica). Carvalhos despidos de folhas, mas carregados de líquenes, indicadores da qualidade do ar que se respira na serra. No fim do trilho, o fojo do lobo, mas até lá os carvalhos dos montes são acompanhados pelo azevinho com as folhas verde lustrosas e as bagas vermelhas. No cimo do monte, dois muros de pedra, um de cada lado, que afunilam e terminam num fosso – chegámos ao fojo.

No inventário que fez dos fojos de lobo existentes no concelho de Montalegre, Francisco Álvares encontrou 40. “Estes são os monumentos mais significativos para o contexto rural”, diz o biólogo. Nenhum outro lugar no mundo tem este tipo de armadilhas para lobos como o noroeste da Península Ibérica, nenhum tem tantos e tão diversos como o concelho de Montalegre. Uns são fojos de cabrita, estruturas circulares abaixo do nível do solo onde se colocava uma cabra a servir de isco – quando o lobo caía no recinto já não conseguia sair. Outros, como o que encontramos às portas de Montalegre, são muros convergentes que terminam num buraco. Originalmente os muros tinham dois metros de altura e um metro de largura e podiam estender-se por um quilómetro. Para fazer as batidas pelo carvalhal e espantar os lobos em direção ao fojo podiam juntar-se centenas de pessoas oriundas de várias aldeias próximas.

Amor e ódio na relação com o lobo

Quando se matava um lobo todas as partes eram aproveitadas incluindo a traqueia. Diz a cultura popular que “o mau ar do lobo” ou o “mau olhado do lobo” fazia adoecer os animais, uma doença a que os populares chamavam lobagueira. Para curar os porcos ou as cabras, os proprietários faziam passar água pela traqueia, também chamada de “gola do lobo”, e davam-na a beber aos animais doentes. A traqueia passava de mães para filhas e ainda hoje existem uma meia dúzia de golas nas famílias da região, segundo conta Luísa Queirós, que pertence ao Ecomuseu do Barroso.

“Os ódios profundos só podem derivar de amores profundos, ou de um respeito muito antigo”, escreve Ricardo Rodrigues. E no meio desta “raiva secular entre os últimos resistentes da paisagem brava – os lobos e os pastores”, o autor também encontrou o amor e a transformação. Conta Luísa Queirós que certa manhã no Ecomuseu fez uma visita guiada a duas senhoras e lhes falou do lobo-ibérico. Nessa mesma tarde, uma das senhoras correu ao Ecomuseu para avisar que tinham encontrado um lobo ferido junto à vila. Luísa Queirós não chegou a ver o lobo, mas chamou a GNR ao local. O resto da história conta-a Ricardo Rodrigues no livro. No meio de uma população cheia de ódio, que queria matar o lobo ali mesmo, destacam-se três crianças que preferiram fazer frente ao povo para salvar a vida ao lobo. Agora, quatro anos depois, as crianças mostram-se envergonhadas com as perguntas insistentes dos jornalistas durante o lançamento do livro. Foi um ato tão natural que não o imaginam de outra forma e muito menos se assumem heróis apesar de terem mudado para sempre a história dos lobos naquela terra.

“E aí uma pessoa percebe que um animal selvagem deve viver ao ar livre, faz parte das leis da natureza. Se houvesse mais lobos se calhar não tínhamos tantos javalis a darem-nos cabo do centeio. Não, o lugar daquele lobo era na serra.”, disse a Ricardo Rodrigues o irmão mais velho, Lucas Gonçalves, lembrando-se de uma visita que tinha feito ao Jardim Zoológico de Lisboa.

O lobo tinha sido ferido por uma armadilha ilegal e precisava de cuidados médicos. O veterinário de Montalegre, Domingos Moura, tomou conta dele durante a noite, mas só no Hospital Veterinário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Doutro (UTAD) poderiam salvá-lo. E assim foi feito. Mesmo com uma pata traseira amputada devido aos ferimentos graves, Trevo foi devolvido à natureza, mas nunca mais conseguiu voltar à alcateia de origem. A organização social nas alcateias está muito bem definida e os indivíduos dispersantes (que saem do grupo) dificilmente são aceites de novo.

A história de Trevo ia sendo relatada pelo veterinário numa novela radiofónica e a população ligou-se a este animal como nunca se esperou que se ligassem a um lobo. “Diziam-me para fazer o que puder por ele sem olhar a meios, se fosse preciso dinheiro o povo haveria de juntar-se para dar de comer ao lobo”, conta o veterinário, citado no livro. Mas o lobo de três patas vingou, caçou e viajou, até o encontrarem morto, provavelmente atropelado.

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Era a segunda vez que o Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio), em colaboração com o Hospital Veterinário da UTAD, recuperava um lobo ferido e o devolvia à natureza. Era a segunda vez que o lobo aparecia morto devido à intervenção humana. Trevo fora provavelmente atropelado, Urzeira tinha levado um tiro na cabeça. Dois atos sem punição, embora matar lobos seja crime desde que foi implementada a Lei de Proteção ao Lobo-ibérico em 1988 (Lei nº 90/88).

As recentes declarações do secretário de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza, Miguel de Castro Neto, admitindo perante uma plateia de proprietários rurais que o abate poderia ser uma forma de controlar as populações de lobos deixou as associações ambientalistas, como a Quercus, muito preocupadas. “Foi com estranheza e preocupação que a Quercus tomou conhecimento das recentes declarações do secretário de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza”, refere a associação em comunicado de imprensa. “As declarações do secretário de Estado são infelizes e despropositadas e não resultam de qualquer estudo ou estratégia definida a longo prazo para a conservação do lobo-ibérico.” Só se pode saber se “há lobos a mais” quando se souberem quantos são e o último censo do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) tem mais de uma dúzia de anos. “Devia ter sido feito outro censo entretanto, mas ao Estado não deve interessar mostrar que falhou”, diz ao Observador João Branco, vice-presidente da Quercus.

"Devia ter sido feito outro censo entretanto, mas ao Estado não deve interessar mostrar que falhou", diz ao Observador João Branco, vice-presidente da Quercus.

Francisco Álvares acredita que o plano de ação para o lobo-ibérico, que se vai agora começar a desenhar, seja a solução. Vai juntar todas as partes interessadas: ICNF, criadores de gado, caçadores, juristas, comunicação social e muitos outros intervenientes. Pelo contrário, João Branco tem pouca esperança neste plano de ação. “Não tem força de lei, não resolve o assunto.” Apesar dos esclarecimentos do secretário de Estado e da posição do ministro do Ambiente ser de proteção e conservação do lobo-ibérico, João Branco considera que o “governo quer arranjar desculpas para abater o lobo” e que, se o secretário de Estado desclassificar o lobo-ibérico como espécie protegida, mostra que “tem pouca sensibilidade para a área que tutela”. O vice-presidente acusa o governo de considerar o lobo como um problema. Por um lado, porque é obrigado a indemnizar os criadores que tenham animais mortos pelo lobo – ainda que os indemnizados se queixem que o dinheiro é insuficiente. Por outro, porque “a presença do lobo condiciona as obras e empreendimentos”.

As obras do homem roubam a casa ao lobo

A construção de parques eólicos, barragens ou estradas destrói ou isola núcleos florestais, perturba os lobos durante a época da reprodução ou condena-os ao isolamento. Incomodados pelo som, luzes e constante presença humana, os lobos afastam-se das infraestruturas, perdendo os locais de reprodução que ocupam às vezes por mais de 50 anos, explica Francisco Álvares. Mas o biólogo considera que os “promotores eólicos têm bastante sensibilidade” quando lhes é pedido que evitem trabalhar durante a época reprodutora ou nos períodos de maior atividade do lobo (crepúsculo). Para João Branco estas medidas de mitigação não resolvem o problema. Para o ambientalista, um determinado território não pode ser parque natural e parque eólico ao mesmo tempo.

Mas mesmo que os lobos tentem fugir destas zonas muitas vezes não conseguem. As estradas são intransponíveis, algumas passagens construídas são tão artificiais que dificilmente podem ser consideradas corredores ecológicos e os animais pouco as usam, explica Francisco Álvares. “Os lobos usam mais os caminhos agrícolas [para passarem de um lado para o outro nas autoestradas]”, refere o biólogo. “É importante que se conservem estes caminhos como estão, sem asfalto.” É o isolamento que mata os lobos. E mata os homens e as aldeias também.

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“Os lobos ficaram cercados pelas estradas. Sem presas nem diversidade genética, acabaram também eles por morrer. Ao mesmo tempo, os campos foram abandonados, os homens partiram para longe, as crianças desapareceram”, escreve o autor sobre Corno do Bico, no Minho. Mas no distrito de Viseu também não é diferente. “Os lobos de São Macário estão tão isolados que a sua diversidade genética é praticamente nula. Todos os animais nascem, vivem e morrem no vale. Estão cercados pelo Douro, pela A25 e pela A24. Não têm para onde fugir.”

Em nenhum outro local, como na Serra de São Macário, “o conflito entre pastores e lobos é tão extremo”, não porque o ICNF ande a largar lobos como acusam os populares, mas porque escasseiam as presas selvagens e os lobos descem até aos povoados. Pior, “o local de pasto deste rebanho fica mesmo no centro de atividade da alcateia”, refere Francisco Álvares, citado no livro. “As cabras andam muitas vezes desprotegidas, com poucos pastores e poucos cães de gado.”

Quando o lodo se extingue não deixa de haver ataques. Passam a ser os cães assilvestrados", diz Francisco Álvares. "Onde existem populações estáveis de lobos, não existem cães abandonados", continua. "Aqui [em Montalegre], 10% da dieta do lobo são cães."

A receita para evitar os ataques de lobo é conhecida: os pastores devem ter cercas para o gado e cães pastores. Estas medidas de prevenção também são obrigatórias caso queiram requerer indemnização depois de um ataque. E as presas naturais do lobo têm de aumentar – a Associação de Conservação do Habitat do Lobo-ibérico (ACHLI) tem feito esforços para a reintrodução do corço, uma espécie da família dos veados. Francisco Álvares relembra ainda que a presença do lobo controla outros predadores e nos locais onde o lobo não existe são os cães assilvestrados (cães abandonados que se tornaram selvagens) que atacam o gado.

No concelho de Montalegre, onde as crianças salvaram o lobo e onde a população quis saber do fado de Trevo, onde ainda esta semana mais um burro foi morto pelos lobos e onde a população continua a odiar este predador, acolheu-se o lançamento do livro que conta a história de dois exércitos que precisam que alguém os salve – os homens e os lobos. É preciso acabar com esta guerra que travam populações e animais, porque “a verdadeira guerra aqui é contra o despovoamento”, lembra, durante o evento, Orlando Alves, presidente da Câmara Municipal de Montalegre.”É de todo insustentável considerar o lobo como um bicho mau.”

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Mas também não se pode considerar um “bicho bom”, porque o lobo não deixa de ser um predador astuto. “Este livro é um bom exemplo de jornalismo e obra de educação para a conservação do lobo”, refere o biólogo Francisco Álvares. “Não vende o lobo como um animal bom, porque este não o é.” Helena Rio Maior, que estuda lobos no CIBIO, concorda que este livro é a melhor forma de chegar ao público em geral, onde o trabalho científico normalmente não chega.

“Malditos – histórias de homens e de lobos”, um livro com um “título ousado e inquietante”, como o classificou Cândida Pinto. A jornalista, amiga do autor, foi convidada para apresentar a obra em Montalegre. A próxima sessão de autógrafos será na Casa Independente, do Largo do Intendente, em Lisboa, dia 18 de março, às 19 horas.

O Observador esteve em Montalegre a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Texto: Vera Novais
Imagem: Lara Soares Silva

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