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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Nova diretora do MAAT: "Se fui capaz de trabalhar com o Governo chinês, devo ser capaz de trabalhar aqui" /premium

Beatrice Leanza quer o museu da Fundação EDP no século XXI. Sente que o discurso dos museus está ultrapassado. MAAT reabre nesta quarta-feira, depois de sete meses fechado. São muitas as novidades.

Beatrice Leanza recebe o Observador num gabinete espaçoso com paredes de vidro e nem chega a sentar-se. Antes que a entrevista comece, sugere uma visita guiada ao novo MAAT, como quem mostra com orgulho as assoalhadas de uma casa acabada de estrear. Percebe-se porquê. O Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia que a Fundação EDP inaugurou em outubro de 2016 na frente ribeirinha de Belém — até aqui símbolo do turismo lisboeta de massas e talvez mais visto enquanto local de passeio do que como instituição cultural — está a viver uma revolução na linguagem, nos objetivos e na forma de comunicar. É caso para dizer que há um MAAT antes de Beatrice Leanza e outro, bem diferente, depois da entrada da diretora executiva, que tomou posse em setembro do ano passado e só agora consegue mostrar servico.

“Mudámos tudo, mudámos tudo”, dirá várias vezes durante a visita. “Mudámos a identidade visual, o design do site e a sinalética dentro do espaço. A linguagem é mais colorida e ajuda a sublinhar o que planeio para o museu. Vou introduzir mais interação, encontros e diálogos intelectuais, em vez de exposições ou eventos que esporadicamente atraem atenções”, revela a diretora, a expressar-se em inglês e na primeira pessoa, enquanto caminha pelo corredores, energética e com gestos entusiasmados.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

As novidades começam a notar-se a partir desta quarta-feira, Dia de Portugal, com a reabertura do museu ao público após sete longos meses de portas fechadas. Ainda nos lembramos? Em dezembro do ano passado, quando a tempestade Elsa fez abater uma parte do teto junto à entrada, mesmo por baixo da famosa pala de placas brancas de cerâmica, o museu anunciou que estaria fechado para obras até 27 de março. Só que entretanto apareceu a pandemia da covid-19 e 27 de março transformou-se em 10 de junho.

Para além de “regras de distanciamento”, “máscara obrigatória”, “verificação de temperatura nas entradas” e outras normas que por estes dias se tornaram comuns em espaços públicos, o edifício desenhado pelo atelier da arquiteta britânica Amanda Levete perde a divisão clara em quatro salas: Sala Oval, Galeria Principal, Project Room e Video Room. “Quis devolver ao museu o desenho original”, resume a diretora. “Retirei todas as paredes temporárias e a nomenclatura das salas.”

Museu inaugurado em outubro de 2016 em Lisboa foi desenhado por Amanda Levete e faz parte da política de mecenato cultural da Fundação EDP

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Logo à entrada, os visitantes encontram uma intervenção arquitetónica assinada pelo estúdio nova-iorquino SO-IL (do casal de arquitetos Florian Idenburg e Jing Liu). É como se uma teia de aranha revestisse as paredes e estruturas metálicas do museu, através da qual espreitam agora plantas verdes — e assim será até dezembro. “Não é uma instalação, é uma intervenção arquitetónica, com a qual pretendo sinalizar a transformação do museu num espaço de partilha de valores comuns”, diz a diretora, notando porém que a programação até ao fim do ano não é ainda da sua inteira responsabilidade, pois inclui propostas assumidas pelo primeiro diretor, Pedro Gadanho (que saiu do MAAT há um ano, aparentemente dececionado com a administração da Fundação EDP).

Mas há mais. No capítulo das exposições, o museu irá a médio prazo tirar partido das duas coleções de arte pertencentes à Fundação EDP. Só uma delas é reconhecida, a de arte contemporânea portuguesa. E há outra: a Coleção do Património Energético, com acervo que remonta ao século XIX — desde máquinas industriais a eletrodomésticos, material de laboratório e documentos escritos com origem na atividade da casa-mãe no setor energético (a EDP é antiga empresa pública de eletricidade em Portugal, privatizada a partir de 1997 e cujo maior acionista é hoje a grupo estatal chinês China Three Gorges). “Nunca ninguém viu esta coleção, está armazenada, e interessa-me utilizá-la regularmente em atividades muito específicas”, adianta a diretora.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A nível logístico, Beatrice Leanza decidiu que além do acesso da pala, virado para o Tejo, o MAAT terá uma segunda porta de entrada, que dá para a Avenida de Brasília (embora, para já, essa nova entrada vá funcionar apenas como saída, porque as regras para a covid-19 obrigam quem entra a não se cruzar com quem sai). Com o propósito de “tornar o museu mais ecológico”, em breve deixarão de ser emitidos bilhetes em papel e em lugar deles surgirão cartões recarregáveis, como os que se usam nos transportes públicos.

Por outro lado, a responsável vai transferir o gabinete de trabalho para um corredor, ficando ela e a equipa separados dos visitantes apenas por estantes verdes de plástico, e da cobertura interior será aberta, permitindo que entre luz natural. As pessoas serão convidados a usufruir o espaço, apropriando-se dele e criando os próprios percursos.

“É uma utilização orgânica do espaço, para que as exposições, os projetos e eventos que teremos possam funcionar em diálogo com os públicos. Procuro um diálogo permanente entre visitantes, artistas, designers, arquitetos, curadores e intelectuais”, explica. “As exposições propriamente ditas são apenas uma das muitas iniciativas de um museu, estão em pé de igualdade com o programa educativo e o diálogo direto com o público. Os museus ainda são sentidos como tendo uma dimensão temporal separada do resto do mundo, como se existisse aqui uma lógica singular. Quero afastar esta noção e permitir que os públicos percebam que tudo o que fazemos, não apenas as exposições, servem para nos ajudar a navegar no presente. Os museus foram feitos para as pessoas e se viverem virados para dentro não servem ninguém.”

Há um lado de surpresa em tudo isto. Beatrice Leanza pede ao Observador que não fotografe o interior do museu, para não revelar aos visitantes o que vão encontrar a partir desta semana. São de facto muitas as novidades e tornam-se mais claras na entrevista que se segue. Depois da visita guiada de 30 minutos, a diretora regressou ao gabinete e respondeu a mais perguntas durante quase uma hora.

[fotografia da nova entrada/saída do MAAT foi partilhada pela diretora na rede social Instagram]

O seu objetivo no MAAT é o de fazer uma revolução através de uma abordagem mais democrática, no sentido criar um diálogo permanente com os visitantes. É um bom resumo?
Está a utilizar palavras que não são minhas, não falo em “abordagem mais democrática”. Neste contexto, a ideia de democracia não me parece adequada, tem conotações muito fortes. Diria que resumiu o essencial. Quero que o MAAT seja capaz de repensar não só o próprio conteúdo, mas aquilo que faz, o poder que tem e pode instigar, o papel na cidade e a ligação aos cidadãos. A instituição é responsável por aquilo que apresenta e propõe. Penso que estamos num momento histórico muito complexo em que é difícil entender o que se passa à nossa volta, é difícil navegar as águas do presente. Quando milhões de pessoas em todo o mundo publicam quadrados negros no Instagram [em homenagem ao negro americano assassinado pela polícia George Floyd], estão certamente a concretizar um gesto solidário de enorme poder, mas depois há todo um emaranhado de significados que não estão acessíveis. É um exemplo recente. Faz-nos falta, em geral, perceber e olhar as coisas através dos olhos, do trabalho e das práticas de investigadores e criadores, muitos dos quais dedicam a vida a tentar perceber o que se passa no mundo.

Essa visão já existia em si antes de se tornar diretora do MAAT?
Já existia, mas claro que nunca fui diretora de museu. Espero trazer a esta casa experiências e métodos de trabalho que já anteriormente utilizei noutros contextos.

Espera influenciar as instituições culturais portuguesas?
Influenciar diretamente não é uma coisa que me preocupe. O que me preocupa é estabelecer diálogo com os meus colegas, se eles se mostrarem interessados nisso. Não preciso de os influenciar. A diversidade é muito importante. Não acho que todos os museus do mundo tenham de fazer o que faço aqui no MAAT, mas também acho que a proposta que tenho para o MAAT não existe noutros locais, seja em Portugal ou noutros países.

Quem é Beatrice Leanza?

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Curadora e crítica nascida há 41 anos em Milão, a diretora executiva do MAAT está habituada a contextos multiculturais. Cursou estudos asiáticos na Universidade de Veneza, passou temporadas enquanto estudante em Inglaterra e na Alemanha, chegou a Pequim aos 24 anos. Aí viveu por cerca de 17 anos, tendo viajado pelo Japão e muitos outros países vizinhos.

Iniciou-se como curadora na CAAW (China Art Archives and Warehouse), espaço criado por um dos maiores nomes da arte contemporânea, o chinês Ai Weiwei. Fundou o atelier Bao, foi diretora criativa da Beijing Design Week (2013-2016) e esteve na origem da Global School, descrita como a primeira instituição independente na China dedicada à investigação na área do design. Chegou ao museu da Fundação EDP em setembro do ano passado a convite da administração liderada por António Mexia (notícias iniciais aludiam a um processo de escolha por concurso internacional, o que não se verificou, de acordo com Beatrice Leanza).

“Depois de quase duas décadas na China, ou seja, quase metade da minha vida, pareceu-me uma oportunidade decisiva”, comenta. “Já tinha trabalhado em projetos de grande escala e senti que poderia trazer a minha experiência e a minha vivência à Velha Europa. Sinto que um museu é o sítio ideal, mais do que qualquer outro, para pôr a minha experiência em prática.”

Quando descreve o que deve ser o papel de um museu está a fazer uma crítica implícita ao estado das coisas?
Há uma crítica, certamente. Deram-me a oportunidade e depositaram em mim a confiança para tentar esta abordagem. Se as própria instituições culturais não tiverem flexibilidade e adaptação face ao tempo em que vivemos, quem pode ter? As instituições culturais são muitas vezes vistas como lugares seguros (“safe places”). Não digo que não devam sê-lo, mas também devem poder refletir o que está a acontecer no mundo à nossa volta. Especialmente as instituições mais antigas têm sido menos ágeis neste capítulo. Têm hábitos enraizados, têm mais fatores para conjugar.

A sua missão aqui está facilitada por se tratar de um museu com menos de três anos de existência?
Sem dúvida, mas há mais do que isso. Um aspeto interessante deste experimentalismo, digamos assim, é o de saber se a instituição pode permanecer neste registo a longo prazo, se consegue ir além do papel de entidade comercial, que é o papel dos museus, de alguma forma ou de outra. Pode um museu ter uma papel transformador, quase espiritual, ao mesmo tempo que funciona de maneira flexível e quase etérea? Uma empresa não pode. Entendo que uma instituição cultural permanece tanto mais viva quanto incorporar o ar do tempo.

Quer dizer que pretende abrir o MAAT ao século XXI, porque sente que o modelo de funcionamento dos museus é ainda o do século XX ou talvez mesmo o do século XIX. É isso?
Concordo.

"Se as pessoas não estão preparadas, estou aqui para as ajudar a estarem. Se me perguntar demasiadas vezes se as pessoas estão preparadas, privo-me de agir. Tenho de ajudar as pessoas a rasgar novos horizontes."

O público está preparado para estas mudanças profundas? Durante o confinamento, o MAAT apresentou algumas iniciativas online que talvez tenham sido difíceis de entender à primeira. Por exemplo, a programa musical com transmissão no YouTube Nyege Nyege: Uma Nova Esperança.
Se as pessoas não estão preparadas, estou aqui para as ajudar a estarem. Se me perguntar a mim mesma demasiadas vezes se as pessoas estão preparadas, privo-me de agir. Essa é uma questão que talvez os políticos devam fazer a si mesmos. Pela minha parte, tenho de ajudar as pessoas a rasgar novos horizontes. Essa programação que referiu não foi um acaso, foi especialmente comissariada a propósito do Dia Internacional dos Museus [18 de maio], um dia de celebração que infelizmente foi condicionado pelo confinamento. Decidimos fazer uma primeira abordagem ao programa musical que vamos manter no futuro, porque essa é uma área que quero desenvolver. Como estávamos em confinamento, o programa musical de 18 de maio pretendeu celebrar a música como ferramenta de expressão coletiva. Trabalhámos com um coletivo sediado no Uganda porque o trabalho deles representa essa noção de tornar central o que está na periferia, neste caso, na periferia da música urbana.

O facto de o MAAT ter estado fechado durante sete meses prejudicou muito a dinâmica da instituição, até ao nível dos hábitos dos visitantes?
Às tantas parecia uma maldição: primeiro, o desastre natural, a seguir, o desastre biológico. Agora a sério: não sei se perdeu dinâmica, mas eu tenho muito dinamismo. Não há motivo para preocupação.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A Central Tejo (antigo Museu da Eletricidade) faz parte do MAAT, apesar de ser um edifício histórico e autónomo. Talvez a ligação com o edifício da arquiteta Amanda Levete não seja ainda muito clara. Como é que vai lidar com este assunto?
Temos isso planeado, mas não posso ainda revelar. A integração é necessária, claro. Para mim, que cheguei com um olhar de fora, mas mesmo para quem está próximo, há uma certa falta de ligação. Temos este campus da Fundação EDP, que inclui dois edifícios ligados por um jardim. É uma unidade composta de diversas peças. Precisamos de religar os dois edifícios e repensar a programação que acontece em ambos. Esta polifonia de elementos precisa de outra comunicação. Em concreto, podemos fazer um trabalho que no edifício novo passe por projetar, refletir e especular sobre o futuro próximo, ao mesmo tempo que somos capazes de ligar isso a uma leitura do passado. Os museus são normalmente entendidos como locais para preservação e conservação do conhecimento, com atividades educativas. São vistos como reservatórios de um conhecimento objetivo e factual. Ora, essa noção, já muitos o têm dito, é considerada inapta para o século XXI. Será um museu apenas isso? Claro que não é. O MAAT pode ser uma versão atualizada de um museu.

Vai trabalhar para o público português? Para os turistas que visitam Lisboa?
Isso é uma não-pergunta. Estamos em Lisboa, em Portugal, claro que precisamos de falar para o nosso público mais imediato. Mas será isso, no século XXI, tão diferente de falar para um italiano ou um venezuelano? Não importa saber para quem se está a falar, mas aquilo que se está a dizer. É isso que faz a diferença. Os temas e a programação que teremos são relevantes porque falam do nosso tempo e são protagonizados por pessoas de diversas origens.

O seu antecessor saiu no verão do ano passado e disse numa entrevista ao jornal Público que a administração da Fundação EDP entendeu que “o meio artístico não estava a apreciar” o trabalho dele à frente do museu. Quando a convidaram transmitiram-lhe a necessidade de uma reformulação total deste projeto cultural?
É uma pergunta que deve ser feita à administração.

"As mudanças que estou a tentar introduzir não são apenas de conteúdo, dizem também respeito ao funcionamento da instituição, o que não se consegue apenas com decisões sobre exposições. Tem que ver com métodos de trabalho, comunicação e linguagem, em sentido metafórico e literal."

A designação do seu cargo é diretora executiva, e não diretora artística, como no caso de Pedro Gadanho. Qual é a diferença?
Confesso que sei qual era a designação do cargo do Pedro. Foi uma decisão da administração da Fundação EDP. Penso que o importante é isto: as mudanças que estou a tentar introduzir não são apenas de conteúdo, dizem também respeito ao funcionamento da instituição, o que não se consegue apenas com decisões sobre exposições. Tem que ver com métodos de trabalho, comunicação e linguagem, em sentido metafórico e literal. É preciso apresentar uma narrativa nova. Já o fiz antes. Se fui capaz de trabalhar com o Governo chinês, devo ser capaz de trabalhar aqui.

Está a ser assessorada por um novo conselho de curadores da Fundação EDP?
Diria que é um conselho consultivo, no sentido em que não terá intervenção na curadoria artística. São personalidades que me ajudam na visão estratégica.

A China Three Gorges é a principal dona da EDP, com quase 27% das ações. Esta ligação à China foi importante para que a convidassem, uma vez que viveu quase duas décadas em Pequim?
Não, não. Não há qualquer ligação ao contexto acionista. Penso, sim, que quem tem um bom conhecimento de como funciona a Ásia percebe melhor os tempos que vivemos. A resposta está aí. Penso que é positivo ter tido uma experiência profissional que muitos não terão tido, sobretudo na minha área. Já muitas pessoas me perguntaram o mesmo e sinceramente fico confusa.

Talvez essa experiência seja exótica e daí a pergunta.
A sério que utilizou a palavra exótico? Em 2020?

Não concorda?
Exótico? Parece-me uma palavra sensacionalista. Acho que o mundo global de hoje não é o mundo global de há 20 anos, que foi quando cheguei à China. Felizmente, testemunhei uma viragem histórica, que mudou não apenas a China mas o mundo inteiro. Pude testemunhá-lo do ponto de vista chinês. Nesse sentido, penso que tenho mais alguma vantagem interpretativa sobre o mundo em que estamos a viver. Para lá disso, não vejo qual a ligação ao facto de a EDP ter acionistas chineses.

Quer partilhar a sua opinião sobre o papel do Ministério da Cultura durante a crise do coronavírus?
Não tenho informação suficiente para responder.

A Fundação EDP é presidida por António Mexia, que também preside à EDP. Preocupa-a que Mexia esteja em tribunal sob suspeitas de corrupção?
Não faço comentários.

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